Restos Humanos
Annabel
EU ESTAVA NA CAMA, MAS NÃO conseguia dormir, quando o telefone começou a tocar.
Ouvi-o tocando em meio ao sossego da casa, me perguntando quem poderia estar me ligando àquela hora da noite e se valia a pena tentar descobrir. Eu só tinha um aparelho, no andar de baixo, pois o telefone não tocava com tanta frequência a ponto de justificar a instalação de uma extensão no quarto.
Após o sexto toque, saí da cama, enfiei os pés nos chinelos, vesti meu roupão e desci a escada. Pensei que provavelmente ia parar de tocar no momento em que encostasse nele.
— Alô?
— É Annabel? Annabel Hayer? — Era uma voz masculina, alguém idoso. Um tanto hesitante.
— Sou eu mesma.
— Aqui é o Len, que mora ao lado. É sobre sua mãe.
Por um instante não o reconheci. Que mora ao lado? Ao meu lado não morava ninguém chamado Len. Então me dei conta de quem exatamente ele era — o coroa que morava ao lado da casa da minha mãe, o cara que a acolhera no dia em que a encanação estourou. Ele morava com a esposa — qual era mesmo o nome dela? Carol?
— Minha mãe? Qual é o problema? Estava com ela até há pouco…
— Ela sofreu uma pequena queda. A ambulância está aqui, estão levando-a para o hospital St. Mary. Demorei um pouco para conseguir encontrar o número do seu telefone. Ela devia tê-lo anotado em algum lugar sempre à vista, sinceramente.
— Ela está bem?
— Acho que sim, querida. É melhor você ir até o hospital.
— Ok, muito obrigada.
— Vou trancar a porta. Ela me deu a chave. Não precisa se preocupar com nada.
Quando desliguei, um pouco depois, fiquei sentada, num silêncio atordoante e, em seguida, lágrimas quentes escorreram pelo meu rosto. Não sabia ao certo por que estava chorando.
— Pare! — falei bem alto. — Pare agora mesmo.
Esfreguei as mangas do roupão nas bochechas e voltei para o andar de cima para me vestir.
* * *
No lado de fora da entrada principal do hospital, várias pessoas em cadeiras de rodas e de roupão desafiavam abertamente a proibição de fumar, com seus companheiros menos deficientes. Lá dentro, todas as lojas estavam fechadas e a recepção, vazia.
Fiquei em pé ali por alguns instantes, confusa. Aonde ir para procurar alguém, quando a recepção principal está fechada? Então reparei que a maior parte da circulação de pedestres se dava no corredor à minha esquerda. Um aviso na parede listava as várias unidades que podiam ser encontradas naquela direção, inclusive a de emergência. É claro que era para ali que a ambulância a levara.
Apesar da adrenalina, meu cérebro não parecia estar funcionando direito. Não estava acostumada a ficar acordada àquela hora da madrugada e, depois de várias noites maldormidas, estava começando a sentir minha cabeça girar estranhamente.
Havia um bocado de gente ao redor do balcão da Unidade de Emergência. Eu me posicionei onde pensei ser o fim da fila. A mulher sendo atendida naquele momento discutia com a recepcionista, e cada vez mais ruidosamente, algo desagradável de ouvir. O motivo da altercação em si não fazia o menor sentido, apenas girava em círculos e então notei que ela estava embriagada, segurando-se no balcão com uma das mãos, enquanto seus pés tentavam manter o equilíbrio. Finalmente, dois seguranças apareceram e levaram a mulher para um canto a fim de falar com ela, e a próxima pessoa na fila avançou.
Olhei desesperada ao meu redor, esperando ingenuamente ver minha mãe sentada em uma das cadeiras da sala de espera. Nenhum sinal dela. O lugar estava abarrotado também, uma porção de gente esperando. Eu me perguntei como devia ser aquele local nas noites de sexta e sábado. Devia ser infernal.
— Posso ajudar? — Uma segunda recepcionista chegara e fizera sinal para que eu me aproximasse.
— Minha mãe foi trazida para cá. Iris Hayer, ela sofreu uma queda.
A moça digitou algo no teclado.
— Hayer? Pode soletrar?
Soletrei meu sobrenome para ela. Dava para ver o reflexo da tela em seus óculos enquanto ela movia o mouse e clicava com o dedo.
— E você, como se chama? — perguntou ela.
— Annabel Hayer.
— E é filha dela?
Já havia dito isso antes, pensei, irritada.
— Isso.
— Ok, vamos ver. Se quiser se sentar, logo alguém virá falar com você, está bem?
Quando achei um lugar para me sentar, pensei em todas as perguntas que eu deveria ter feito. Como ela está? Posso vê-la? Quanto tempo terei que esperar? Mas eu tinha sido dispensada e, olhando novamente para o balcão, percebi que a fila agora estava duas vezes maior do que antes.
Eu me sentei ao lado de uma máquina que vendia barras de chocolate. Meu estômago roncou ao vê-la, muito embora aquela hora eu devesse estar dormindo profundamente. Pensei em pegar um café e alguma coisa para comer, mas, com certeza, assim que fizesse isso, alguém apareceria no corredor, chamando meu nome.
Verifiquei meu celular, como se mais alguém pudesse me ligar no meio da noite. Olhei para a moça sentada à minha frente, numa cadeira de rodas do hospital, um dos pés descalço, inchado e pálido, a pele tão esticada que chegava a brilhar. Mais adiante, na fila de cadeiras, havia dois rapazes, as camisas cobertas de sangue. Um deles encostava uma toalhinha na testa, que nem aquelas usadas nos pubs para enxugar a cerveja do balcão. Eles conversavam e riam animadamente, falavam sobre futebol, algo que eu não estava nem um pouco a fim de escutar, mas não tinha como evitar.
Tentei imaginar como a moça tinha machucado o pé, e estava prestes a lhe perguntar, quando um funcionário apareceu e a levou dali. Então, me levantei e fui até uma mesa próxima que sucumbia sob revistas com as pontas das páginas dobradas. Escolhi três das que tinham mais matérias de fofoca e fui me sentar outra vez, lamentando não ter trazido um livro, para poder me desligar de tudo. Na entrada, um grupo de rapazes fazia uma algazarra cada vez maior. Tendo resolvido o caso da paciente desagradável, os seguranças chegaram como abutres vestindo jaquetas fluorescentes.
Acima do barulho dos jovens berrando na entrada, uma criança que antes estava apenas choramingando passou a expandir seus decibéis berrando ensurdecedoramente. Era um garotinho com o rosto vermelho, esperneando e se contorcendo no colo da mãe. O cabelo louro e liso estava colado na sua testa suada, os olhos, esbugalhados. Sua mãe tentava acalmá-lo e o ninava sem obter resultados, tentou lhe dar a chupeta, mas ela foi rejeitada. Houve uma pausa misericordiosa e pensei que tinha ficado surda, mas ele apenas recuperava o fôlego para começar a gritar outra vez.
Olhei para a primeira revista, tentando me concentrar nos rostos das celebridades. Só reconheci uma delas. Folheei as páginas até chegar a que trazia oito fotos do que parecia ser Elton John levando o lixo para fora. Desisti e deixei a revista de lado. Quanto mais tempo eu esperava, pensei, menos provável seria que a situação da minha mãe fosse grave. Se ela estivesse bem mal, acho que teriam vindo me ver logo, não?
E, é claro, naquele instante, uma enfermeira surgiu de trás de uma cortina.
— Annabel Hayer?
Eu me levantei imediatamente, ficando tonta, mas tentando parecer o mais normal possível.
— Sou eu — respondi.
— Oi — disse ela, já voltando para o lugar de onde saíra, esperando que eu a seguisse. — Está esperando há muito tempo?
— Não. Acho que não. Como está minha mãe? Ela está bem?
Ela abriu uma porta e se afastou para que eu entrasse. Pensei que fosse uma salinha, mas estávamos na entrada da área de atendimento da Unidade de Emergência.
— Sente-se, por favor — disse ela. — O doutor já está chegando.
E antes que eu pudesse perguntar mais alguma coisa, ela se foi, fechando a porta que dava para a sala de espera.
Observei a área de atendimento, tentando não chorar. Eu queria telefonar para alguém, mas por nada neste mundo conseguia pensar em quem. Com quem eu poderia falar? Minha única prima, na Escócia? O que ela poderia fazer, do outro extremo do país? Talvez pudesse telefonar para Kate. Mas eu realmente não a conhecia assim tão bem para chamá-la numa situação crítica como aquela. Ela acabaria me odiando ainda mais do que já odiava. Não tinha ninguém. Eu estava sozinha.
A criança chorona (ou talvez agora fosse outra; todas soavam iguais para mim) estava sendo atendida atrás de uma cortina. Acima dos gritos, pude ouvir vozes tranquilizadoras, com inflexões altas e baixas: Pronto! Bom garoto, como você é corajoso. Vai acabar logo. Está quase acabando. Mamãe, você pode segurar a mão dele? Isso mesmo. Segure firme… Isso… Agora, pronto! Viu, acabou mesmo.
Ouvi passos rápidos sobre o soalho de linóleo e um homem vindo do outro canto, vestindo uma camisa azul com as mangas dobradas acima dos cotovelos, um estetoscópio em volta do pescoço e um crachá de identificação no peito. Ele parecia bem jovem e cansado, mas conseguiu esboçar um sorriso. Eu me levantei desajeitadamente, minha bolsa ia cair do meu colo se não a tivesse segurado.
— Srta. Hayer? Obrigado por aguardar. Meu é nome Jonathan Lamb, sou um dos médicos que está atendendo a sua mãe. Poderia vir comigo, por favor?
— Como ela está? — perguntei, tentando acompanhar seus passos apressados. Ele me conduziu pelo corredor, passando por várias baias fechadas por cortinas, todas ocupadas. Na mais distante, ele parou e esperou. Eu estava vários passos atrás dele, sem fôlego por causa do esforço, muito embora não tivéssemos caminhado mais de cem metros.
— Pelo que entendi, ela levou um tombo em casa, foi isso?
— O vizinho dela me telefonou. Não sei o que aconteceu — expliquei.
— Aqui está ela.
Ele puxou a cortina e deu um passo para o lado me deixando passar. Mamãe estava deitada com tubos e equipamentos por todos os lados.
— Ah, mãe! — exclamei, sem conseguir me conter.
Atrás de mim, o pager do Dr. Jonathan Lamb começou a apitar.
— Eu… Eu volto num instante para conversarmos. Pode se sentar.
Ergui a mão da mamãe, que estava pesada, quente e em cima do lençol que a cobria. Ela usava uma roupa hospitalar. Eu deveria ter trazido uma camisola para ela, pensei; ela detestaria aquilo. O traje era pequeno demais para ela.
— Mãe?
Ela não reagiu quando apertei seus dedos. Nada.
Fiquei ali em pé, segurando sua mão por um tempo que pareceu imenso. Minhas costas doíam naquela posição, inclinada. Mas foi só quando a dor se tornou insuportável que larguei sua mão e me sentei na cadeira ao lado da cama. Tentei puxá-la para perto, mas era pesada demais. Achei um lenço na minha bolsa, enxuguei meus olhos e, depois, assoei o nariz. Não conseguia acreditar que aquilo estivesse acontecendo. Parecia tão irreal.
Havia um relógio na parede, acima da minha cabeça, e eu me contorci para olhar na sua direção, observar os minutos avançando. Era quase uma hora. Decidi esperar até uma e meia, antes de ir procurar alguém.
Vinte minutos depois, eu me levantei e me espreguicei. Então a cortina foi aberta e Jonathan Lamb entrou, desta vez acompanhado por uma enfermeira, que me lançou um sorriso caloroso e solidário.
— Oi — cumprimentou ela.
— Sinto muito pelo atraso — disse o médico. — Sente-se, por favor.
Fiz o que me pediu e ele desapareceu novamente, voltando em seguida com duas cadeiras de plástico encaixadas. Ele as separou, arrastando-as ruidosamente no assoalho. O médico se sentou, e a enfermeira o fez em seguida. De forma bizarra, aquilo mais parecia uma entrevista.
Ele olhou para a prancheta com suas anotações e começou a falar. Ouvi as primeiras palavras que pronunciou:
— Lamento, mas tenho notícias bem ruins…
E não escutei quase nada do que veio depois. Um derrame, embora ele desse um nome diferente a isso: AVC? Acidente cardiovascular, era isso. Aquilo soava como um acidente, como se pudéssemos ter feito algo para evitar. O motivo de terem me deixado esperando era porque tinham que aguardar os resultados dos exames ficarem prontos.
— Ela teve uma infecção pulmonar recentemente?
— O quê? Ah, é… já faz algum tempo. Estava tomando antibióticos.
— Infelizmente, é bastante comum que isso aconteça. Sinto muito.
Pensei ter perdido a parte em que ele dizia o que aconteceria com ela.
— Ela vai melhorar? É isso que está dizendo?
— Não, sinto muito, mas não vai haver melhoras. Tudo o que podemos fazer agora é deixá-la o mais confortável possível.
Eu o encarei. Depois, olhei para a enfermeira.
— Annabel, você quer que eu telefone para alguém? Alguém que possa vir e ficar com você?
— Não — respondi.
O médico parecia desconfortável. Por um breve instante, me perguntei quantas vezes ele já dera más notícias aos parentes.
— Mas… Mas ela está respirando, não é? Não estou entendendo.
Olhei para a cama, para a minha mãe, que não se movia, porém, com a máscara de oxigênio no rosto, certamente, ainda respirava. Com toda certeza, ainda estava viva.
— Ela está respirando, mas a tomografia mostrou que, definitivamente, não há chances de recuperação. É só uma questão de tempo. Sinto muito mesmo.
Foi a enfermeira que falou em seguida, com a voz serena:
— Estamos nos preparando para transferir sua mãe para a UTI, lá em cima; espero que não tenhamos que esperar muito. Lá é bem mais confortável.
O médico se foi. Não sabia o que dizer à enfermeira, então fiquei apenas olhando para ela, desamparada. Eu me perguntei se ela estava acostumada a ver as pessoas chegando desorientadas, após serem acordadas por um choque no meio da noite.
— Provavelmente, ela pode ouvir, se você quiser falar com ela — disse a enfermeira com gentileza.
Eu me levantei outra vez e empurrei a cadeira de plástico que o médico colocara ao lado da cama. Peguei a mão da minha mãe. Estava tão quente, as articulações inchadas por causa da artrite que a atormentava.
— Mãe — falei. — Sinto muito. Sinto muito por não ter estado lá.
Eu soava estúpida, conversando com alguém que provavelmente estava mergulhada em profunda inconsciência. E ainda que pudesse me ouvir, o que dizer? O que eu poderia lhe dizer? A enfermeira me deu um lenço de papel e assoei o nariz.
Fechei os olhos, ouvindo o bipe rítmico dos equipamentos, tentando me desligar daquele lugar. Precisaria ligar para o trabalho, pensei.
Ouvi um ruído e abri os olhos, pensando que mamãe havia acordado e dito alguma coisa, mas ela permanecia imóvel. A enfermeira se fora. Quando ouvi o mesmo som outra vez, percebi que vinha da cama ao lado, separada de nós apenas por uma cortina.
* * *
Nas primeiras horas da manhã, transferiram mamãe para a UTI, um procedimento complicado, envolvendo um maqueiro, a enfermeira, um outro médico que ia e vinha e, finalmente, carregaram o leito com todos os equipamentos por vários corredores até um elevador. Eu estava sempre ao lado, tentando acompanhar o maqueiro, que parecia decidido a passar por cada porta à velocidade da luz.
Houve uma troca de turno na recepção, e uma enfermeira diferente me levou até uma sala sossegada “só por um instante, enquanto instalamos melhor sua mãe”. Ela perguntou se eu tinha comido ou bebido alguma coisa e se aceitaria uma xícara de chá. Primeiro, recusei, mas depois, mudei de ideia. Estava quente lá embaixo na Unidade de Emergência, mas agora sentia um frio inexplicável. Ela me deixou sozinha. Fechei os olhos outra vez, me encostei na cadeira, que era a mais acolchoada que experimentara naquela noite. Poderia dormir aqui, pensei.
Abriram a porta de novo. Era a enfermeira, com uma caneca na mão.
— Pode vir comigo? Ela já foi instalada.
Mamãe estava num quarto lateral, vestida com uma nova roupa hospitalar mais larga nos ombros e no peito. Continuava deitada, quieta e, muito embora estivesse exatamente na mesma posição em que estivera na Unidade de Emergência, ela não parecia mais confortável. Havia uma agulha perfurando o braço, mas a máscara de oxigênio sumira. Parecia em paz, embora a respiração fosse ruidosa, como se estivesse roncando.
— Pronto — disse a enfermeira. — Você deve estar arrasada. Posso conseguir uma cama extra para você, se quiser tentar dormir um pouco.
— Não, obrigada — respondi, pois não queria incomodá-la. Havia uma cadeira igual a da sala de espera. Poderia dormir ali.
— Estou esperando alguém do acompanhamento psicológico — disse ela. — Eles virão para explicar o que vai acontecer em seguida.
— Muito obrigada.
— Se tiver alguma pergunta… Qualquer coisa, fale comigo.
Eu devia ter uma centena de perguntas a fazer, mas naquele momento não conseguia me lembrar de nenhuma. Ela colocou o chá numa mesinha entre a cadeira e o leito da minha mãe.
— Você está bem? — perguntou ela. — Sei que é uma pergunta tola, desculpe.
— Hum… — grunhi, olhando para ela.
— Não foi culpa sua — disse ela. Sua mão pousou em meu braço. — Essas coisas acontecem, sabe, são coisas horríveis. Às vezes é muito difícil lidar com elas.
— Acho que sim.
Ela era tão amável; senti as lágrimas brotarem. Passei a mão no meu cabelo. O couro cabeludo parecia irritado, os fios fracos.
— Obrigada — falei novamente.
Depois que ela se foi, só restamos minha mãe e eu.
Dormi intermitentemente, sentada na cadeira. Em algum momento, devo ter caído no sono profundo, pois quando acordei havia um cobertor em cima de mim. Voltei a fechar os olhos e quando os reabri, já era quase dia lá fora. As cortinas estavam fechadas, mas a luz conseguia atravessá-las.
Mamãe não tinha se mexido. Eu me espreguicei e joguei o cobertor de lado, em seguida me levantei da cadeira. Eu me senti tonta por um instante, depois, quando passou, fui claudicante até a janela e puxei as persianas para olhar lá fora, o estacionamento dos fundos. Sobravam vagas. Era um dia cinzento, com nuvens pesadas no céu. As árvores, depois do estacionamento, balançavam, portanto devia estar ventando.
Voltei para a cadeira.
Às sete horas, desci e fui até a recepção tomar um pouco de ar fresco. Ainda havia um bocado de gente na área reservada para fumantes. Eu me perguntei se seriam as mesmas pessoas. Meu telefone tinha bateria suficiente só para que eu enviasse uma mensagem para Bill e outra para Kate. Em seguida, subi de volta para o quarto da mamãe. Nada havia mudado.
Por volta das nove horas, saí para dar uma volta no hospital. Estava bem mais movimentado, as pessoas passando de um lado para outro nos corredores. Leitos com rodinhas, parentes empurrando seus familiares em cadeiras de roda, carrinhos de bebê. Fui até a cafeteria perto da entrada principal, mas o cheiro de comida me deixou enjoada, então segui para a loja ao lado e comprei uma garrafa de água e um saquinho de balas. Aquilo serviria.
Continuei até o fim de um dos corredores, passando por enfermarias, salas de radiografia, oncologia, até chegar à porta dupla no final. Depois, dei meia-volta e refiz o mesmo caminho. Mas então desisti de andar e retornei para a UTI.
Às dez e meia, uma senhora do acompanhamento psicológico veio me ver. Era uma enfermeira, mas estava vestindo uma calça elegante, um suéter verde e um colar grosso. Àquela altura, acho que a informação de que minha mãe iria morrer já tinha sido absorvida. O som da sua respiração também mudara. Os roncos ficaram mais fortes e depois, gradualmente, pareceram se abrandar por algum tempo, antes de ela recomeçar a arfar com certa regularidade.
— A morfina vai deixá-la mais confortável — disse a enfermeira. — Agora, ela está num sono bem profundo.
— Por quanto tempo vai ficar assim?
— Difícil dizer. Poder ser um ou dois dias, talvez menos. Mas não por muito tempo. Você precisa telefonar para alguém?
Eu me esquecera da minha prima, mas que sentido teria lhe contar agora? Fazia dez anos que não nos víamos.
— Não — respondi.
Por fim, ela foi embora. Mais uma hora e meia se passou. Já estava praticamente na hora do almoço, então abri o saco de balas e peguei uma. Enquanto contemplava uma quarta bala, houve uma breve e ríspida batida na porta e duas enfermeiras entraram, usando aventais e luvas.
— Viemos trocar a roupa da sua mãe — avisou uma delas. — Para deixá-la mais à vontade.
— Quer que eu saia?
— Talvez seja melhor. Não vamos demorar.
Fui para a sala de espera, onde estivera no meio da noite. Havia uma televisão no canto, ligada em um programa de entrevistas que nunca vira antes. Eu me sentei para assistir, sem prestar atenção alguma. Estava pensando no trabalho e na gata.
Meia hora mais tarde, voltei para junto da mamãe e as enfermeiras não estavam mais lá. Depois fui até a enfermaria. Havia três delas sentadas, tomando chá.
— Desculpe incomodar — falei.
— Tudo bem, não se preocupe — respondeu a que estava mais perto. Era a mesma que antes fora ver minha mãe.
— Queria saber se tem algum problema eu dar um pulo na minha casa. Preciso dar comida para a gata…
— Claro, pode ir! — disse a enfermeira. — Aproveite para tomar uma ducha, comer alguma coisa, ok? Posso ligar para você se alguma coisa acontecer.
Quando estava saindo, passei pelos fumantes, de cabeça baixa, na esperança de ninguém notar meu desespero. Não tinha com o que me preocupar, pois muito embora alguns daquele grupo estivessem seriamente doentes, o ambiente, em geral, parecia ser hilário.
Estava caminhando tão concentrada na calçada que não notei o homem à minha frente, até esbarrar nas suas costas. Ele se virou e me segurou pelos cotovelos, no momento em que torci o tornozelo e quase caí no estacionamento de ambulâncias, na entrada principal.
— Sinto muito — exclamei. — Eu estava…
— Annabel?
Olhei para o alto, surpresa. Por um instante, me senti perdida ao encará-lo.
— Sam — disse ele. — Nós nos encontramos ontem.
Ontem? Parecia ter sido anos atrás.
— Ah, sei — reagi. — Claro. Desculpe. Estou tendo um dia… longo.
— Está tudo bem? — perguntou ele, apontando para a entrada principal do hospital.
— Minha mãe… ela sofreu uma queda.
— Lamento muito. Ela está bem?
Ela está morrendo, pensei. Senti o gosto de bílis naquelas palavras, e não fui capaz de pronunciá-las.
— Ela está inconsciente — respondi. — Eu estava indo para casa.
Comecei a seguir na direção do estacionamento, ignorando a forte dor no tornozelo.
Tudo bem, disse a mim mesma; não foi uma torção séria, só preciso andar um pouco que vai passar. E então me lembrei de ser educada.
— E você? — perguntei. — O que está fazendo aqui?
— Esses últimos dias têm sido muito, muito loucos. Estou só esperando um táxi, mas acho que seria mais fácil ir andando.
— Posso dar uma carona para você. — As palavras escaparam da minha boca. — Para onde está indo?
— Voltando para a cidade. Keats Road.
— Não sei onde fica. Você vai precisar me indicar o caminho — falei, seguindo para o estacionamento.
— Obrigado. Que bom encontrar você assim, de repente.
Eu tentava andar sem mancar.
— Você está bem? Está mancando.
— Não é nada — respondi, cerrando os dentes. — Juro. Só torci um pouco o tornozelo.
— Aqui — disse ele, me oferecendo o braço.
— Pode deixar, estou bem.
Ele encolheu os ombros, como se dissesse: “você que sabe” e enfiou as mãos nos bolsos do casaco. Eu podia ver o estacionamento à frente, cheio de carros circulando devagar, aguardando alguém sair para pegar a vaga.
Achei a chave, abri a porta do carro e me sentei atrás do volante. Estava frio lá dentro. Estendi o braço e destranquei a porta ao lado. Além da minha mãe, ninguém até aquele dia havia se sentado naquele lugar.
Dei partida no motor e liguei o aquecedor no máximo, tentando desembaçar o vidro para enxergar alguma coisa.
— Então — disse ele —, Andrew Frost contou para você o que aconteceu comigo, ontem?
— Não. O que foi?
— Recebi um telefonema na redação do jornal, quando estava prestes a ir para casa. Era uma voz de mulher, mas ela soava estranha, distante, sei lá. Enfim, ela me disse que havia outro corpo e me deu até o endereço.
— E o que você fez?
— Fui verificar.
— E?
— Então liguei para a polícia.
— Você achou alguém?
— Achei. Bem, fui até o endereço e olhei pela janela, depois liguei para a polícia. Passei as últimas três horas no hospital tentando conseguir alguma informação com o pessoal do necrotério, mas a pessoa com quem costumo falar está de férias. Além disso, estão com poucos funcionários e nenhum deles está a fim de conversar com um repórter, é claro… Ou seja, não descobri nada.
— O que você viu, quando olhou pela janela?
— Não muita coisa. Deu para ver o que parecia ser uma perna esticada em uma cadeira. Na verdade, só reconheci que era uma perna porque estava calçando um chinelo. Tinha uma cor estranha. A perna, quero dizer. O chinelo era… vermelho-escuro… com uma estampa de bolinhas brancas…
— Pelo menos, você seria uma boa testemunha — falei. — Tenho certeza de que vão lhe perguntar como era o chinelo dela.
Sam deu uma breve risada.
— Eu estava tentando não olhar para a perna.
Imaginar a cena deve ter feito as extremidades da minha boca se erguerem, bem de leve, porque em seguida ele disse:
— Você deveria sorrir com mais frequência.
Então, fechei a cara. Eu não devia estar sorrindo de jeito nenhum. Onde estava com a cabeça? E o que ele queria dizer com aquilo, exatamente? A impressão era de que ele estava dando em cima de mim e não ter certeza disso — nunca fui boa para perceber essas coisas — me deixava sem graça.
Ele deve ter observado minha reação e se calou. O vidro do carro estava um pouco menos desembaçado, por isso acendi os faróis e saí de ré do estacionamento.
— Obrigado pela carona — disse ele, finalmente. — Meu carro está na revisão. Pensei que fosse conseguir um de cortesia por um tempo, mas isso não aconteceu. Mas como eu deveria ficar no jornal o dia todo, achei que não faria diferença. Acabei pegando um táxi.
Eu não estava realmente escutando o que ele dizia. Estávamos parados no sinal, aguardando para entrar na rua principal, indo em direção ao centro.
— O que está havendo?
— Como assim? Nada.
— Você parece distraída.
— Só estou cansada. Passei a noite toda no hospital.
— Parece que é algo grave, então.
— É, sim, acho que é. Vou em casa só para alimentar minha gata e mudar de roupa, depois volto.
— Lamento ter que ouvir isso, Annabel. Sabe, acho que não precisa se incomodar em me dar uma carona, posso pegar um táxi…
— Não, tudo bem. Não se preocupe. É bom ter alguém com quem conversar.
— Ter contatos faz toda a diferença — disse ele. — Tenho alguns bons amigos no meu trabalho, sabe. Não só para conseguir uma matéria, trata-se de construir relacionamentos com as pessoas, de modo que elas confiem em você. Elas ficam desconfiadas quando descobrem que você é jornalista; e se for gentil, acham que só está agindo assim porque quer publicar detalhes íntimos da vida delas. Não sei que tipo de jornal elas pensam que o Chronicle é, pelo amor de Deus…
O tráfego estava intenso no centro da cidade, era hora do almoço. Um dia cinzento de outono. Os sinais pareciam levar séculos para ficarem verdes.
— …mas não é assim que eu trabalho, quero dizer, é legal quando as pessoas me contam as coisas, mas elas não entendem que a informação de que preciso é algo bem específico. Mesmo que citem alguma coisa, é provável que eu use apenas algumas palavras do que disseram. É só um trabalho, afinal de contas, como qualquer outro…
O trânsito avançou novamente e eu cheguei ao centro da cidade, saindo do outro lado, num bairro em que todas as ruas levavam nomes de poetas, com meus pensamentos dispersos.
— Mas tudo fica mais fácil quando você tem os contatos certos, pessoas que nos conhecem e confiam em nós, sabendo que não vamos deixar que pareçam idiotas com o que publicamos. Simplesmente adoro conversar com as pessoas, fazer novos amigos… você deve ter percebido…
Seguimos pela rua principal, todas as perpendiculares tinham nomes que eu aprendera na escola uns cem anos atrás. Longfellow Drive. Wordsworth Avenue. Keats Road…
— É a próxima — disse ele.
Entrei à esquerda e o carro avançou por uma rua larga: casas geminadas, com janelas enormes e jardins asseados atrás de muros de tijolos baixos. Estava começando a chover.
— Depois daquele carro azul. Esse aqui.
Estacionei. Era uma casa normal, maior do que a minha, com uma varanda. Por um instante, achei que ela era bem grande e que os jornalistas deviam ganhar mais do que eu imaginara, mas depois me dei conta de que provavelmente ele ainda morava com os pais, como vários outros jovens adultos atualmente, sem condições de subir na escala habitacional.
— Olhe — disse ele —, quer entrar para tomar um café? Você parece estar precisando de um. Posso preparar um almoço também.
— Obrigada, mas eu realmente preciso ir para casa.
Ele não deu sinais de que estava prestes a soltar o cinto de segurança e sair do meu carro. Por um momento, senti uma breve fagulha de medo e me perguntei se ele havia me convidado para algo mais do que só um café. Eu era muito ruim em interpretar situações assim. Sempre achei que ninguém me considerava sexualmente atraente e, por conseguinte, quem demonstrasse algum interesse em mim devia ser alguém perigoso.
Ele se virou parcialmente na minha direção. Eu me encolhi encostada na porta.
— Então — disse ele —, posso telefonar para você mais tarde, só para saber se está bem?
— Não sei — respondi. — Minha bateria está quase acabando.
— Ah, sei — replicou ele, olhando para mim como se quisesse me perguntar se eu já ouvira falar daquela coisa mágica chamada carregador de bateria. Por fim, ele soltou o cinto e abriu a porta. — Até mais, então. E obrigado pela carona.
— Tchau.
E assim que ele bateu a porta eu arranquei com o carro.
* * *
Não havia onde estacionar, é claro, pelo menos não perto da minha casa. Voltei andando da Howard Street, cabisbaixa, pensando na minha mãe. Era tudo em que eu conseguia pensar no momento. O que quer que ele, Sam, tivesse dito, nada ficou registrado.
Podia ver a gata na esquina, seu rabo se agitando de um lado para o outro, em saudação ou insolência, difícil saber. Quando cheguei mais perto, ela continuou parada esperando por mim, como se tivesse alcançado a fronteira de seu universo familiar e atravessar a rua fosse algo além de sua capacidade, por isso estava roçando seu corpo no poste de luz, afetuosamente, um território demarcado por centenas de cães antes dela.
— Oi, gatinha — falei baixinho e ela respondeu com um miado, se esfregando em meu tornozelo assim que pôde e, depois, correu à minha frente, rolou no chão e saiu correndo outra vez, me mostrando o caminho de casa. Assim que entramos, ela galopou alegremente até a cozinha.
Mas logo percebi que ela trouxera comida de fora. Um camundongo morto, cuidadosamente dissecado, com suas suculentas entranhas expostas. O rabo e as patinhas ela deixara para mim.
* * *
Acordei totalmente desorientada. Estava na minha cama, toda vestida, e a gata dormia na curva de meus joelhos. Eram três e dez e a luz do dia já esmaecia. Eu me sentei rapidamente e verifiquei meu celular, que deixara carregando ao lado da cama. Não havia nenhuma chamada perdida.
Liguei para o hospital e quando enfim atenderam na UTI, não souberam me informar muita coisa, além de que ela estava “confortavelmente” instalada; não houvera “mudança”. Avisei que iria para lá o mais rápido possível e a enfermeira — ou quem quer que fosse — falou que eu não precisava ter pressa.
Perguntei outra vez se me ligariam, caso algo acontecesse. Apesar de ela afirmar que tinha o número do meu celular anotado na ficha, eu lhe disse novamente e ela repetiu bem devagar, demonstrando que o estava escrevendo.
Depois disso, fiquei calmamente sentada por um momento, me perguntando o que aconteceria em seguida. O aquecedor central desligara e o ar parecia frio, um pouco úmido. Era como se a casa não quisesse que eu ficasse lá e me empurrasse para a porta, uma mão fantasma nas minhas costas tentava restaurar a ordem num ambiente onde não havia nenhuma.
Lá embaixo, no corredor, a gata miava para a porta da cozinha e arranhava o tapete com suas garras. Desci estalando os degraus, bocejando e, quando abri a porta, a gata se precipitou à minha frente, olhando para mim e choramingando, como se fizesse semanas que não comia. Para agradá-la, esvaziei um saco individual de ração cremosa e cara para felinos dentro da sua tigela limpinha, muito embora ainda faltasse muito para a sua hora de comer. Liguei a chaleira enquanto ela se deleitava delicadamente, lambendo o molho e depois escolhendo os pedaços, um de cada vez.
Enquanto eu esperava a água ferver, liguei para o trabalho, direto para o número de Kate para evitar ter que falar com a telefonista.
— Serviço de Inteligência. Kate falando.
Havia um modo oficial para atender as chamadas, sancionado pelo setor de comunicação, mas nenhum de nós jamais conseguia se lembrar, quando sob a pressão de um telefone tocando. Na maioria das vezes, eu estava tão distraída quando o atendia, que dizia apenas “Alô”, torcendo para não ser um superior no outro lado da linha.
— Sou eu. Annabel. — falei, no caso de ela ter se esquecido de mim.
— Você está bem? Como vai sua mãe?
— Ainda está inconsciente.
— Quer que eu fale com Bill?
— Não, tenho algumas coisas para resolver. Eles disseram que me ligariam se… Você sabe, se houver alguma mudança.
— Frost andou procurando por você, mais cedo.
— É?
— Não quis me dizer qual era o assunto. Falou apenas que você deveria ir vê-lo assim que chegasse. Quer que eu lhe diga que você vai ficar ausente por mais algum tempo?
— Não. Devo voltar… hum… em breve. Eu aviso.
Não queria que ela pensasse que eu estava sendo negligente. Não queria lhe dar razão alguma para se queixar da minha ética profissional, e aliás, tampouco queria que ela assumisse minhas responsabilidades.
— Há certamente alguma coisa acontecendo com seus corpos em putrefação, sabia? Veio gente aqui o dia todo, procurando por você.
— É mesmo?
— Mas não me disseram nada.
De súbito, me lembrei do repórter, Sam, me contando que tinha recebido um telefonema, e quase deixei escapar para Kate, mas me dei conta de que eu não devia andar conversando com um repórter, muito menos lhe dar carona até em casa. O que ele dissera mesmo? Uma mulher ligara para ele…
— Já acharam outro corpo?
— Acharam. Há um constando no resumo das ocorrências desta manhã. Quer que eu peça a Frost para ligar para você?
Acabei cedendo.
— Com certeza, meu telefone está carregado.
— Vou avisá-lo.
— Obrigada, Kate. Até mais.
Depois de desligar, continuei sentada, observando a fria sala de estar por alguns momentos, meus olhos incapazes de se fixar em algum ponto. Minha mãe vai morrer, pensei. Não lhe resta muito tempo. Certamente, havia coisas que eu deveria lhe dizer, coisas que eu deveria estar fazendo.
* * *
Frost não ligou e, depois de me impacientar por meia hora, eu não aguentava mais esperar. Peguei o carro e fui para o trabalho. Como já era final de tarde, me arrisquei indo até o estacionamento. Felizmente, havia várias vagas. Deixei minha autorização em cima do painel junto com um cartão plastificado que eu tinha feito com meu número do trabalho e do celular, no caso de alguém precisar que eu retirasse o veículo dali.
Quando cheguei ao escritório, Kate ainda trabalhava arduamente, martelando o teclado.
— Frost conseguiu falar com você? — perguntou ela sem erguer o olhar.
— Não. Por que você ainda está aqui?
— O que acha? — respondeu ela com a voz aguda. — O relatório tático não vai se fazer sozinho, sabe?
— Sinto muito — falei. Minha mãe está morrendo. A única razão pela qual não mencionei isso foi por não saber como lidar com seu constrangimento, e porque sabia que Kate não diria aquilo que eu precisava escutar.
— Perdi muita coisa?
— Perdeu Trigger fazendo chá — respondeu ela. Essa era a piada habitual. Trigger só fazia chá quando uma de nós não estava no escritório. Em outras palavras, jamais.
— Como está sua mãe? — perguntou Trigger, ignorando as farpas no comentário de Kate.
— Continua na mesma. Obrigada por perguntar. Depois daqui, vou direto para o hospital; só quis passar para falar com Frost.
Kate não falou nada. Pensei em ligar o computador, mas não tinha energia para isso. Fui até o escritório do inspetor, mas a porta estava aberta e ele, ausente.
Segui para a porta seguinte, o escritório principal do Serviço de Inteligência. Ellen Traynor estava ali sozinha.
— Você sabe onde está o inspetor? — perguntei.
— Deve estar na Sala de Operações Especiais — respondeu ela. — Ele passou o dia todo entrando e saindo de lá.
Sala de Operações Especiais? O que estava acontecendo? Fui de elevador para o andar de cima, ainda que fosse só um lance de escada. Ainda me sentia cansada, apesar de ter dormido em casa, meus membros estavam doloridos. Eu ia bater à porta da Sala de Operações Especiais, mas a tinham deixado aberta, um homem de terno a retinha com o pé enquanto gritava com alguém do outro lado de uma das mesas e falava no celular.
Eu me esgueirei para entrar, depois de ter visto Frost numa cadeira, inclinado em uma mesa bem à esquerda da porta. Ele pareceu ridiculamente aliviado ao me ver.
— Senhor, o que está acontecendo?
Ele sequer percebeu o “senhor” desta vez, apenas acenou com a cabeça.
— Que bom ver você, Annabel. Venha dar uma olhada nisso.
Eu fui para trás dele e espiei a tela do computador acima de seu ombro.
— O que é isso?
— É um depoimento de nosso amigo em comum, o repórter.
— Um depoimento? Um depoimento sobre o quê?
Ele me olhou, surpreso, e em seguida se deu conta de que, obviamente, precisaria voltar algumas páginas metafóricas atrás para que eu entendesse.
— Ontem, no início da noite, Sam Everett recebeu um telefonema de uma mulher afirmando que havia outro corpo que ainda não tínhamos encontrado e deu o endereço. Ele o anotou e foi averiguar, como os jornalistas fazem, é claro, embora tivesse sido muito melhor se pensasse em entrar em contato conosco primeiro. E nesse endereço, notou que havia um corpo, pois conseguiu ver parte dele pela janela do térreo. Só nessa hora ele ligou para nós.
— Então deve ter sido algum vizinho que ligou para ele, não é?
— Não, e esta é a parte mais interessante. Rastreamos a chamada e descobrimos um endereço em Briarstone, bem do outro lado de Carnhurst, onde estava o corpo. Ninguém respondeu. Telefone fora de área. Uma mulher chamada Eileen Forbes mora lá.
— E?
— Morta. A menos de vinte e quatro horas.
— Assassinada?
Ele deu de ombros.
— Precisamos aguardar o laudo do legista, mas, pelo visto, o caso se assemelha estranhamente aos outros. Não havia comida em casa, nenhum sinal de atividade, apenas a mulher, sozinha. As cartas cuidadosamente empilhadas em cima da mesa, fechadas. Já conseguimos alguns dados telefônicos. Ela só fez essa ligação para o jornal. A única chamada feita em semanas. As ligações recebidas não foram atendidas. Como se estivesse deliberadamente evitando contato com todo mundo. E, por ora, não conseguimos estabelecer conexão alguma entre ela e o corpo encontrado em Carnhurst.
— Então, a mulher que telefonou, ela morreu de fome?
— É o que parece.
— E o corpo, o de Carnhurst?
— A mesma coisa.
— Mas como essa tal de Eileen sabia que o corpo estava lá?
Seu rosto se iluminou.
— Exatamente! — exclamou ele.
Olhei ao meu redor e para as pessoas arrastando cadeiras de rodinha, falando ao telefone. Já havia seis mesas apinhando a sala, um escritório pequeno no canto, cercado por uma divisória com um painel de vidro no alto.
— Então — comecei, me perguntando se estava somente cansada ou sendo terrivelmente estúpida — tudo isso…?
— Foi montada uma célula de crise. Vão considerar isso, por ora pelo menos, como uma investigação de homicídio real.
— Jura? — perguntei, estupefata. — Vão mesmo?
— E querem você como analista.
— Eu?
— Quem mais, Annabel? Você está mais por dentro disso do que qualquer um.
— Nunca trabalhei numa Sala de Operações Especiais antes.
— Pois então, esta é sua oportunidade.
Eu me sentei e me encolhi numa cadeira, o pensamento de que toda aquela agitação era minha responsabilidade, de repente, me deixou desnorteada.
— Ei, está tudo certo — disse Frost. — Você vai se sair bem.
— Não é isso. Estou cheia de problemas. — Minha voz saiu inesperadamente trêmula. — Minha mãe… minha mãe foi levada para o hospital.
— Kate me contou. Sinto muito, de verdade. Será que você devia estar aqui mesmo?
— Na verdade, não há muito o que eu possa fazer. Ela está inconsciente. Disseram que me ligariam se alguma coisa acontecesse.
— Andy!
Um homem entrou na sala, alguém que reconheci vagamente, mas era incapaz de identificá-lo. Vestia-se com elegância, tinha o cabelo preto.
— Ah, você deve ser Annabel. Prazer em conhecê-la.
— Annabel, este é o inspetor chefe Paul Moscrop, Operações Especiais.
Ele estendeu a mão e apertou a minha com firmeza.
— Oi — cumprimentei-o.
— Pelo que me contaram é você que tem monitorado todos esses incidentes, não é?
— Exatamente. — E você é aquele que apagou meu e-mail, pensei.
— Gostaria de ver tudo o que você conseguiu reunir até agora. Seria realmente útil para acelerar nossa investigação. Posso sentar para conversar com você daqui a uns vinte minutos mais ou menos?
— Pode. Acho que sim.
— Isso é ótimo, obrigado. Excelente trabalho. Andy, posso falar com você um segundo?
O inspetor chefe conduziu Frost até a salinha do canto e fechou a porta. Desci a escada. Trigger saíra para uma reunião e levara Kate com ele. O escritório estava silencioso, exceto pelo zumbido dos computadores. Fechei a porta ao entrar.
Depois de entrar no sistema, acessei meus documentos e arquivos até encontrar um assinalado prosaicamente: “Operação Solidão”. Tudo em que a polícia trabalhava recebia um nome de operação e era provável que este também teria um; mas enquanto isso eu escolhera um nome por conta própria.
Dentro da pasta estava o documento que eu preparara para a reunião: os diapositivos, as planilhas de dados que eu mantinha com as informações de todos os corpos encontrados até então, como nomes, endereços e outras coisas, que poderiam conter algo que os ligasse, os parentes mais próximos, datas aproximadas da morte, data da descoberta do corpo, possíveis causas do óbito. E agora, ao que parecia, eu tinha mais dois a acrescentar à lista.
Imprimi todos os documentos e uma versão básica da planilha, juntei tudo e estava pronta para sair pela porta, quando o telefone tocou.
Olhei para o aparelho, como se tentasse definir pelo olhar se era ou não algo importante.
Depois, quase me arrependi de ter atendido, pois era ele, o jornalista.
— É você, Annabel? Aqui é Sam Everett.
— Oi.
— Como vai sua mãe?
— Bem, obrigada — respondi. — Na mesma.
— Para falar a verdade, achei que você não estaria no trabalho.
— Pois é, só dei uma passada. Vou voltar para o hospital daqui a pouco.
Ele hesitou um instante, como se esperasse que eu dissesse mais alguma coisa. Mas o que mais tinha a dizer? Não iria entrar em detalhes sobre o estado clínico da minha mãe com uma pessoa relativamente estranha.
— Eu estava pensando se você teria outras novidades… sobre a investigação?
— Que investigação?
Ele suspirou e acabou recorrendo ao sarcasmo.
— Você sabe, aquela sobre os cadáveres? Sobre o telefonema estranho que recebi de uma mulher que sabia onde o próximo corpo estava esperando por vocês.
— Não precisa falar assim. — falei, estremecendo.
— Desculpe. Olhe, fiz minha parte ontem à noite: liguei para a polícia assim que vi que não ia fazer ninguém perder tempo. Será que tem alguma chance de você me dar algumas notícias?
— Que tipo de notícia? Não sei o que você está querendo — respondi.
— Que tal alguma coisa sobre a mulher que telefonou para mim. Vocês conseguiram rastreá-la?
— Conseguimos.
— E?
— E o quê? Ela está morta.
— Morta?
— Aparentemente, tinha morrido havia menos de vinte e quatro horas, quando encontraram o corpo hoje. Igual às outras, só que ainda não estava em decomposição.
Houve um silêncio no outro lado da linha. Não deveria ter dito aquilo, pensei; agora eu ia me meter em mais confusão. E a investigação começara há apenas poucas horas.
— Você pode me dizer quem é ela?
— Isso eu ainda não sei. Não sei nada, na verdade. Faz apenas meia hora que cheguei aqui. E eu não deveria falar com você sobre isso de jeito nenhum. Conheço pessoas que foram demitidas por divulgarem detalhes de uma investigação.
— Annabel, não estou tentando colocar você numa situação difícil. Tenho certeza de que posso descobrir o nome com um de meus outros contatos. É só que você é a única pessoa que de fato entende o que pretendo com esta matéria. Não quero que você revele nada, pensei apenas que poderíamos nos ajudar mutuamente. Não há mais ninguém com quem eu possa conversar sobre isso que se importe de verdade. Será que posso encontrá-la mais tarde?
— Preciso voltar para o hospital — falei.
— É claro. Sinto muito.
Eu me dei conta de que estava sendo indesculpavelmente má com ele, sem outro motivo senão o de ele estar fazendo uma pressão indevida para eu lhe passar informações.
— Tudo bem. Vamos fazer assim: se eu souber de alguma coisa que possa ser útil para você, telefono, ok?
— Ótimo! — Seu entusiasmo voltara. — Seria muito bom. Obrigado, Annabel. Agradeço de verdade.
Quando desliguei o telefone, juntei toda a papelada novamente e fui para a Sala de Operações Especiais.
* * *
O hospital ligou para o meu celular às quinze para as sete. Eu estava tão ocupada, a cabeça confusa com pensamentos, propostas, considerações e recomendações, ideias para tentar desembaraçar o emaranhado das pessoas e suas vidas que, quando o telefone tocou e a mulher me disse a palavra “hospital”, percebi que não havia mais pensado nisso desde o telefonema de Sam Everett, mais cedo.
— Alô — atendi, esperando que me dessem uma lista das coisas de que a mamãe precisava. Camisolas? Calças? Meias?
— Estou falando com Annabel Hayer?
— Sim, sou eu.
— Srta. Hayer, lamento, mas estou ligando para dar más notícias. Sua mãe faleceu há cerca de dez minutos. Sinto muitíssimo.
— Meu Deus. — Fiquei sentada na cadeira, boquiaberta, pasma com o choque. Eu não estava ao seu lado. Eu devia ter estado lá. — Obrigada — falei finalmente, como se ela tivesse me ligado para oferecer um vale para colocar vidraça dupla nas minhas janelas. — Preciso fazer alguma coisa?
— Você deveria vir até aqui, assim que possível — respondeu a mulher. Será que ela era uma enfermeira? Ela tinha dito quem era? Não conseguia me lembrar do início daquela conversa. Ela me ligara, ou tinha sido eu? — Seria bom que viesse acompanhada, para que não ficasse sozinha numa hora como essa.
Aquilo quase me fez rir. Quem eu poderia levar? Simplesmente, não havia ninguém.
— Já estou indo, então. Mais uma vez, obrigada.
— Tudo bem — disse ela. — Nós nos vemos mais tarde, então. Passar bem.
Coloquei o telefone de volta no gancho e olhei ao redor do escritório. Eu estava sentada na Sala de Operações Especiais, numa das mesas sobressalentes, e à minha volta todos conversavam, alguns falavam ao telefone. Um homem em pé ao lado da porta estava rindo de algo com outra pessoa do lado de fora, além do meu campo de visão. Nenhum deles tinha a menor ideia do que havia acontecido. Nenhum deles sabia.
Eu me levantei e me sentei novamente, pois senti que minhas pernas não me sustentariam.
— Você está bem? — perguntou o policial sentado à mesa ao lado da minha. O nome dele era Gary, ou eu acabara de inventar isso?
— Minha mãe morreu — respondi.
Acho que pensou que eu estava brincando, no início, ou talvez tenha pensado que não entendera direito, porque ele sorriu para mim. Em seguida, deve ter percebido pela minha expressão que eu não estava brincando mesmo, e disse, com delicadeza:
— Ah, meu Deus, sinto muito. Foi seu pai que telefonou para você?
— Não, foi o hospital.
Tentei me erguer e, dessa vez, minhas pernas pareceram mais seguras, então murmurei algo sobre ir pegar meu casaco, disse um breve “com licença” aos dois homens que contavam piadas ao lado da porta. Aquilo simplesmente não era adequado durante uma investigação de assassinato, e qualquer um teria ficado irritado, mesmo sem acrescentar a aflição de ter acabado de ouvir que sua mãe morreu — o fim da sua família.
* * *
O hospital preparara uma bolsa com todos os pertences da minha mãe, o que não era muito, pois eu não tivera a oportunidade de levar nada para ela.
Uma das mulheres uniformizadas da ala — possivelmente uma enfermeira, talvez uma atendente hospitalar ou seja lá como for que a chamem — me conduziu até a capela funerária. Todas as pessoas que vi falaram comigo sussurrando, num tom gentil. Acho que era a instrução que recebiam, uma maneira de evitar que eu ficasse histérica. Mas, apesar da tumultuada sequência de eventos que culminara naquele ponto, não me sentia histérica. Estava calma, quase distante de tudo aquilo. Eu tinha coisas para fazer, uma lista de providências a serem tomadas para poder continuar tocando minha vida.
A primeira delas era ver minha mãe.
Depois, pegar um formulário com alguém. Já tinham me avisado.
Em seguida, levá-lo até o cartório e obter um certificado de óbito.
Ir ver o advogado da minha mãe e conseguir uma procuração temporária para responder pelos seus bens.
Conferir se a casa dela está ok.
Entrar em contato com a funerária.
Organizar o enterro.
Embalar as coisas da minha mãe.
Colocar a casa à venda.
Havia centenas de outros passos que se inseriam entre esses, mas me concentrar nessas referências iniciais, enquanto ficava ali sentada ao lado do corpo da minha mãe na capela, era realmente o único jeito de conseguir enfrentar tudo.
Eu me perguntei se deveria falar com ela. Mas o que poderia dizer?
Meu cansaço era tanto que mal conseguia pensar direito. Minha cabeça girava em torno dela, tentando apreendê-la, como eu fazia com os anjos quando precisava deles. Eu podia perguntar e conseguir uma resposta, sentir uma mão reconfortante no ombro, sentir um suspiro ou ouvir uma voz sussurrante e afetuosa. Fechei os olhos e tentei sentir sua presença, muito embora ela estivesse bem ao meu lado.
Mãe, pensei, me ajude. Não sei o que fazer. Não sei o que devo fazer.
Não consegui sentir coisa alguma. Nada. A impressão que tinha era de que ela já havia ido embora.
Voltei a abrir os olhos. Uma música tocava ao fundo, era clássica, sem ser religiosa. Provavelmente devia ser uma das vinte mais tocadas na Capela Funerária FM, e esse pensamento desaguou num sorriso que ameaçou se transformar numa risada inapropriada. E então outra coisa me surpreendeu. Eu já estava com quase quarenta anos e nunca vira um cadáver. E agora, no espaço de poucos dias, já vira dois.
Eu me levantei. Olhei para ela mais uma vez, pensando que deveria tocá-la, dar-lhe um beijo de despedida, deveria fazer alguma coisa… mas me sentia incapaz. Em vez disso, deixei-a ali deitada, o lençol branco até o queixo, virei as costas e saí, batendo com força a porta atrás de mim.
Peguei o formulário, que precisava ser levado ao cartório assim que possível.
— Posso ir agora? — indaguei à moça que me deu o formulário.
— A esta hora deve estar fechado — respondeu gentilmente a enfermeira. — Acho que vai ter que deixar para amanhã.
A primeira coisa que me veio à cabeça foi que eu devia trabalhar amanhã, mas eles provavelmente esperavam que eu tirasse o dia de licença. Iria ligar para Bill e descobrir o que queriam que eu fizesse. Afinal de contas, não faltava o que fazer no trabalho. Eles estavam enfim iniciando a investigação que eu vinha incentivando. Quanto tempo poderia ficar ausente?
Poucos minutos depois, segui pelo corredor, voltando para a entrada principal, pensando na minha lista de coisas para fazer e, mentalmente, ia rabiscando umas tarefas, reorganizando outras e acrescentando novas.
— Annabel!
Olhei na direção da recepção lotada e para minha surpresa lá estava ele outra vez. Sam Everett. Continuei caminhando para a porta, torcendo para que ele estivesse ali por alguma outra razão, e não porque estava me perseguindo.
— Ei, Annabel!
Ele puxou a manga da minha blusa, e então acho que não tinha mais como ignorá-lo.
— Sam. Oi de novo.
Ele me olhou bem de perto.
— Está tudo bem?
Percebi que devia estar me comportando de modo esquisito.
— Minha mãe morreu. Só vim buscar algumas coisas dela.
— Sinto muito — disse ele. Sua expressão parecia sincera e, ao mesmo tempo, era como se já esperasse por algo assim. — Venha, vamos beber alguma coisa.
— Não, obrigada. Tenho muitas coisas para fazer.
— Só um café, bem rápido. Ali — disse ele, apontando para uma cafeteria lotada. — Vamos.
Era mais fácil ceder. Segui-o, ainda agarrada à bolsa que tinham me dado com os pertences da minha mãe. Fiquei parada como uma idiota atrás dele enquanto avançávamos com uma bandeja de modo dolorosamente lento, até alcançar a máquina de bebidas e, depois, o caixa.
— Café? — perguntou ele, quando enfim chegamos ao caixa. — Um capuccino, então?
Todos os demais botões da máquina estavam cobertos com uma fita onde se lia EM MANUTENÇÃO com uma caligrafia hesitante.
— Ótimo.
Enquanto ele pagava, fui me sentar e, poucos instantes depois, uma mulher surgiu e removeu as duas bandejas sobrecarregadas com pratos sujos e sobras de comida rejeitadas, que estavam ocupando a maior parte da mesa.
— As pessoas deviam retirar as bandejas sozinhas — disse ela, apontando para um aviso. — E a gente pensava que todo mundo sabia ler hoje me dia, não é mesmo?
Olhei na sua direção e ela não voltou a falar comigo. Eu me perguntei se haveria alguma etiqueta colada na minha testa. Algum aviso dizendo: “Luto Recente, Manuseie com cuidado.” Cheguei a sorrir para ela, mas a mulher deixou por isso mesmo, levando embora as bandejas sujas.
Sam sentou-se à minha frente e empurrou uma caneca com espuma bege na minha direção, seguida por alguns saquinhos de açúcar e um chocolate Kit Kat.
— Não tomo com açúcar — avisei.
— Você já comeu alguma coisa? Quando foi a última vez que bebeu algo? Acho que um pouco de açúcar faria bem para você.
— Você agora é meu nutricionista pessoal, ou coisa assim?
— Sou, sim — respondeu ele. — Ponha açúcar aí dentro e talvez eu deixe você em paz por algum tempo.
Ele me fez sorrir e acabei fazendo o que me pediu. Quando comecei a comer o chocolate, me dei conta de que estava faminta. Meu estômago roncava e se contorcia com a perspectiva de ser alimentado. Dei um gole na bebida, pensando que estaria fervendo, mas estava apenas morna.
— Acho que a máquina deles está pifada — falei. O café tinha um gosto de leite UHT.
— É.
— Você não vai me perguntar nada sobre o caso?
— Por mais interessante que essa conversa possa ser, não é por esta razão que estou aqui.
— Ah, é? E por que está aqui?
Ele se inclinou ligeiramente para a frente.
— Liguei de novo para o seu escritório. Depois telefonei para o inspetor Frost. Ele me falou que você sofreu uma perda recente e que ficaria ausente por algum tempo.
— Então você veio aqui…
— Para encontrar você.
— Por quê?
— Para ver se estava bem. Você tem mais alguém? Irmãos, irmãs? Outros parentes?
— Não que seja da sua conta, mas não. De qualquer maneira, como já disse antes, estou bem. Não precisa se preocupar comigo. Posso cuidar de tudo, como sempre fiz. Só preciso seguir as tarefas da lista…
Bebi um gole de café, pensando que quanto antes eu o terminasse, mais rápido poderia sair dali e voltar para casa. Alguma coisa parecia crescer dentro de mim, uma sensação de desconforto, como se fosse ficar enjoada ou tivesse sido infectada por alguma coisa. Não queria mais ficar ali. Queria sair ao ar livre e, depois, gostaria de voltar para casa, trancar a porta e não abri-la mais.
— Olhe — disse ele —, perdi minha mãe no ano passado. Tenho uma ideia de como é. Só achei que eu poderia ajudar com um pouco de apoio.
— Por quê?
— O quê?
— Por que ela morreu? Estava doente?
— Estava com câncer.
Assenti com a cabeça, embora não tivesse nenhuma referência. Minha mãe sofrera um derrame. Pois é, ela não podia mais sair de casa. Sim, estava velha e frágil. Mas, fora isso, e a infecção no peito, não estivera seriamente doente. Ainda ontem, ela resmungava alguma coisa sobre o Primeiro-Ministro enquanto eu preparava seu jantar e guardava as compras.
Tentei me lembrar da última coisa que me dissera. Será que teria sequer se despedido de mim? Quando foi a última vez que lhe dissera algo afetuoso? Que lhe perguntara como se sentia, se estava feliz? Quando foi a última vez que lhe dissera que a amava?
— Acho que eu devia estar chorando, mas não me sinto capaz.
— Você não devia nada — disse ele. — E, além disso, vai levar muito tempo para você processar isso tudo.
— Como assim? — exclamei. — Não sou uma fábrica, sou um ser humano. Não vou “processar” coisa alguma. Não vou aceitar essa ideia, superá-la ou lidar com ela. Vou simplesmente seguir com a minha vida porque é só isso que posso fazer, como sempre fiz.
Ele fez um ruído, como um suspiro e estava prestes a falar alguma coisa, mas desistiu e, em vez disso, bebeu o resto do seu café.
— Desculpe — falei, minutos depois.
Ele deu de ombros.
— Sem problemas. Só estava tentando ajudar.
— E então, imagino que o jornal deve ter ficado um pouco agitado depois do telefonema de ontem, não?
— Pode-se dizer que sim.
— Esse é o fim da campanha “Ame seu vizinho”?
Ele riu.
— Não acho que isso vai levar a algum lugar. De qualquer jeito, estava se tornando mais uma campanha “Espione seu vizinho” ou “Reclame do seu vizinho”.
— Bem, acho que pelo menos isso é mais o jeito britânico de fazer as coisas.
Houve um curto silêncio.
— A polícia vai verificar os computadores dessas pessoas?
Eu o encarei. Estava passando dos limites.
— Ora, vamos — disse ele. — É uma pergunta bem genérica. Pensei que fossem averiguar alguma relação com sites de suicídio ou coisa semelhante. Pode haver uma ligação.
— Eu ficaria surpresa se todas as vítimas tivessem computadores. Algumas eram bem idosas, não se esqueça disso.
— Você está incluindo as idosas?
— Bem, eu estou. Agora depende da equipe de investigadores, vamos ver se prestam atenção ao que tenho a dizer.
Ele olhou para sua caneca vazia. A minha ainda estava pela metade, mas não queria mais beber. Era como tomar água suja.
— Não acho que elas tenham se matado — falei. — Pelo menos, não do jeito que costumamos ver os casos de suicídios em geral. Não foram atos deliberados. Foi mais como… se tivessem simplesmente desistido.
— E isso é possível?
— Deve ser.
— Mas certamente o corpo anularia esta decisão, não é? Com certeza, afinal a fome e a sede são forças primárias. Seria preciso ter uma determinação férrea para apenas continuar sentado e aos poucos ir morrendo de fome.
— Não sei. Por causa do telefonema, agora podemos ter razoavelmente certeza de que alguém ou algo está por trás de tudo isso. Estou achando que todas essas pessoas sofreram alguma pressão para agir assim, algo capaz de superar seus instintos humanos de alguma forma.
Ele se sentou mais à frente na cadeira.
— Agora, isso é muito interessante.
— É?
— O que seria capaz disso? O que poderia sobrepujar o instinto básico humano?
— Não faço ideia.
— Mas é aterrorizante, não é mesmo?
Concordei, sem ter certeza absoluta do que ele queria dizer.
— Aterrorizante que alguém solto por aí seja capaz de fazer isso — prosseguiu ele. — Quero dizer, qualquer um de nós poderia ser uma vítima, não?
Balancei a cabeça.
— Acho que não.
— Por que não?
— Bem, embora não haja nada de óbvio ligando os casos, isso não significa que não tenham algo em comum. Para começar, todas as pessoas moravam sozinhas. Nenhuma delas tinha um emprego, por um motivo ou outro.
— Você ainda está falando de uma parcela bem considerável da população — disse Sam.
— Você quer sair e prevenir todas as pessoas que moram sozinhas e não têm emprego?
— Por que não?
— Porque você deixaria todas elas em pânico.
Nós dois imaginamos uma massa histérica de pessoas solitárias e isso nos fez sorrir.
— Os dados demográficos são interessantes — disse ele, mudando de tópico, voltando a falar dos corpos.
— Por quê? Por serem tão variados?
— Exatamente. Quero dizer, e se alguém estiver se divertindo com a situação? Não sei, é tudo tão bizarro. O que pode estar ganhando com isso? Será que as vítimas deixaram testamentos, ou coisa parecida?
— Não tenho acesso a esse tipo de dado — respondi. — Talvez a investigação chegue a isso bem rapidamente.
— Não consigo imaginar que seja algo assim tão simples.
— Não. Eu acho… — Parei de falar.
— O quê?
Desviei o olhar por um instante, depois o fixei no tampo da mesa.
— Acho que devo ir embora. Tenho muita coisa para fazer.
— Não era isso que você ia dizer.
Minhas bochechas ficaram coradas e, para disfarçar meu desconforto, me levantei.
— Obrigada pelo café.
— Estava horrível, não? Da próxima vez beberemos um café decente.
Eu não iria concordar com outro encontro, não importava o pretexto que ele inventasse.
— Vou acompanhar você até o estacionamento — disse ele, sem me dar a menor chance de recusar.
Andei o mais rápido que pude, na esperança de deixá-lo para trás. Mas a rapidez dos meus passos era semelhante ao caminhar de uma pessoa normal e ele conseguiu me acompanhar com facilidade.
— Meu carro está ali — falei enfim, arfando. — A gente se vê.
— Annabel — disse ele —, você sabe que eu gostaria de ajudar, se puder. Eu me lembro de como foi quando perdi minha mãe. Há tanto a fazer, a gente acaba se esquecendo das coisas. Se eu puder ser útil, me avise, ok?
— Você é muito gentil.
— Você ainda tem meu telefone?
— Tenho — respondi, mas, como demorei uma fração de segundo para responder, ele sacou um cartão de visita do bolso e me entregou.
— A gente se vê em breve, então — disse ele. — Ligue para mim, ok?
Ele saiu andando de costas para o estacionamento, o que era uma ideia estúpida. Logo um carro buzinou e ele deu um pulo, saindo da frente de um 4x4 que procurava desesperado uma vaga.
Apesar da tristeza das últimas horas, vê-lo novamente havia feito o impensável — me alegrara. Mas, nos momentos após sua partida, eu me senti mais sozinha do que jamais me sentira antes. Havia gente ao meu redor, carros passando, mas eu estava completa e extremamente só. Senti medo e, depois, uma grande onda de infelicidade. Não tenho ninguém, pensei. Nenhum objetivo, ninguém de quem cuidar ou lutar para proteger. Não me restou nada.