Restos Humanos
Annabel
O ESTACIONAMENTO ESTAVA CALMO NA HORA do almoço daquela terça-feira. Eu só o vira assim antes às sete da manhã, os ônibus cheios circulando, mas o estacionamento ainda vazio. Foi preciso então ir até o ponto mais longínquo para encontrar uma vaga. É irritante ter que andar até o ponto de ônibus e depois andar tudo de volta até o carro, antes de poder seguir para casa. E depois, sem dúvida, ainda ter que ser obrigada a estacionar a três ou quatro ruas de casa.
Por ter o horário flexível, tinha ficado em casa de manhã porque acordara com uma forte dor de cabeça, a ponto de sentir náusea. Quase torci para que durasse o dia todo, mas lá pelas onze horas a dor diminuiu, restando apenas uma leve pressão nas têmporas e, de qualquer maneira, eu estava entediada em casa.
No ônibus, meu celular tocou. Isso era tão raro, que tive um sobressalto. Procurei o telefone, que vibrava e tocava uma breve versão de Mozart no fundo da minha bolsa, em meio às besteiras que carregava para todo canto e de que nunca precisava. Alguém sentado atrás de mim começou a bufar, irritado com o ruído, que foi ficando cada vez mais alto, enquanto eu remexia a minha bolsa aberta.
Finalmente, quando me convenci de que a pessoa que estava ligando iria desistir e deixaria uma mensagem na caixa postal, senti o aparelho vibrando e o agarrei.
— Alô?
Houve um silêncio e de novo pensei que tivessem desligado.
— Alô, é Annabel que está falando?
— Sou eu — respondi, me perguntando se era alguém de telemarketing e como poderia dispensá-lo. — Estou dentro do ônibus, não estou ouvindo direito.
— Aqui é Sam Everett — disse a voz. — Sou jornalista do Briarstone Chronicle.
— Hum, sei. Recebi seu e-mail. Como você conseguiu o número do meu celular?
— Ah, foi uma moça do seu trabalho que me deu; desculpe se estou atrapalhando, mas ela disse que achava que você não se incomodaria.
É evidente que Kate acharia isso; nada me incomodava, não é? Fiquei irritada, mas isso não faria a menor diferença agora.
— Não, não está atrapalhando.
Por algum motivo, eu tinha pensado que Sam Everett era uma mulher. Não sabia por quê; simplesmente pensei que um jornalista interessado numa história humana como aquela só poderia ser uma mulher; questão de empatia, compreensão. Talvez para o homem Sam Everett o interesse nisso fosse de ordem bem distinta, talvez estivesse interessado nos corpos, na decomposição, em seu potencial de violência.
— Você está podendo falar?
— Na verdade, não. Estou no ônibus, a caminho do trabalho.
— Sei. Talvez possamos nos encontrar mais tarde. A que horas você sai?
— Bem, já estou atrasada.
— Não vou tomar muito do seu tempo. Olhe, estou no centro da cidade. Posso encontrar você no ponto de ônibus e nós tomamos um café bem rápido. O que acha?
— Hum…
No trabalho, eles sequer sabiam se eu iria ou não, para ser sincera. Eu não telefonara para avisar, pois considerara que Kate e Bill não atenderiam os telefones e, se o fizessem, provavelmente não dariam a menor importância.
— Seria bom se você pudesse — disse Sam. — Realmente acho que podemos nos ajudar, sabe? Ninguém está levando isso muito a sério, e há pessoas demais morrendo.
— É verdade — concordei. Para onde aquela conversa estava indo? Estava começando a me sentir desconfortável.
— Então, pode me encontrar? Em que ônibus você está?
Respondi, o que o fez compreender que eu aceitava.
— Salte no ponto antes do centro comercial que eu estarei esperando por você lá, ok? Até já, então.
Ele desligou. Coloquei de volta meu celular dentro da bolsa e olhei pela janela as casas enfileiradas na rua. Casas grandes, com amplos jardins à frente. Por causa do trânsito, o ônibus parou em frente a uma que obviamente estava vazia: janelas sem cortinas, a grama alta, capim brotando das fendas entre as pedras. Será que haveria alguém lá dentro? Alguém esperando para ser encontrado?
Alguns minutos depois, o ônibus fez a curva e entrou na High Street. Quase quatrocentos metros à frente, o centro comercial era o primeiro dos dois pontos possíveis, ali ou no memorial de guerra; do centro comercial, eu caminharia sob a arcada, geralmente fria e deserta nas primeiras horas da manhã, mas àquela hora do dia estaria fervilhando de gente. E o ônibus também estava lotado, as pessoas se preparando para saltar. Foi por isso que ele me pediu para encontrá-lo no primeiro ponto — não haveria ninguém lá além de mim. Não precisaria tentar adivinhar quem eu era e não correria o risco de que eu fosse embora sem falar com ele.
Eu me levantei e segui até a parte da frente do ônibus, me segurando e balançando à medida que ele avançava pelo asfalto irregular. Podia ver pelo para-brisa um sujeito em pé, esperando no ponto e, ao chegar mais perto, me dei conta de que devia ser Sam Everett.
Ele era mais jovem do que eu tinha imaginado, certamente mais jovem do que eu, talvez não tivesse mais que vinte e cinco anos. Seu cabelo preto era bem comprido, com os cachos à altura do pescoço. Ele usava uns óculos bacanas, calça jeans preta e um casaco da mesma cor que batia na altura das coxas por cima do que parecia ser uma dessas camisetas de bandas de rock. Achei que já o tinha visto em algum lugar, mas não lembrava onde. Quando desci do ônibus, vi que usava uma camiseta da banda Pulp e relaxei um pouco porque, quando estava na faculdade, eu adorava Pulp, era minha banda favorita de todos os tempos. Sorri para ele.
— Annabel? — indagou ele, estendendo a mão para mim. — Sou o Sam.
— Muito prazer — falei.
— Vamos ali?
Entramos numa cafeteria chamada Lunch Box. Antes era uma espelunca que atendia motoristas de táxi e de ônibus em seus intervalos, mas havia sido redecorada e reequipada, e agora servia paninis, saladas, além do café da manhã inglês tradicional e sanduíches de batata frita.
Encontrei uma mesa nos fundos e, enquanto Sam fazia nosso pedido no balcão, observei-o ali em pé e por um instante achei que ele parecia um pouco perdido. Não sei bem o que eu esperava da aparência de um jornalista, mas provavelmente não era aquela. Fiquei me perguntando por que ele me parecia familiar, e então me dei conta de que fora ele o jornalista que batera à minha porta no dia em que achei Shelley Burton. O que aparecera com um fotógrafo.
— Obrigada — falei. — Quanto foi?
Minha bolsa já estava aberta, mas com um gesto ele recusou.
— Não se preocupe com isso.
Certamente, essas despesas eram reembolsadas pelo jornal, então guardei minha carteira na bolsa sem insistir. Estava agradável ali dentro, depois de sair do frio lá de fora, e senti minhas bochechas ficarem incandescentes. Aquela não havia sido uma boa ideia, pensei. Não deveria estar ali com aquele homem.
— Então — disse ele, depois que o atendente nos trouxe dois cafés e os deixou na mesa, à nossa frente — você está trabalhando com os corpos decompostos, não é?
— Não diria que estou trabalhando com eles, exatamente. Tenho tentado descobrir quantos deles existem e procurado estabelecer algum padrão comparativo. Olhe, realmente acho que você deveria conversar com a Assessoria de Imprensa e não comigo, não acha?
— Tentei entrar em contato com eles; sei que é assim que deve ser feito. Mas não tinham conhecimento algum sobre o assunto. Ou então, não queriam conversar sobre isso.
— É mesmo?
— Talvez você não tenha percebido, mas a política de relações-públicas da polícia é bastante restritiva. Eles só dizem o que querem que você fique sabendo. O que não é muita coisa.
— É?
— Estudei com Ryan Frost. O filho de Andrew Frost. Vejo Ryan o tempo todo, às vezes saímos juntos nos fins de semana. Sábado passado, fui até a casa de Ryan e o pai dele, desculpe, realmente tenho dificuldade em chamá-lo de Andrew, estava lá, então lhe perguntei sobre os corpos. Na verdade, venho examinando o caso há algum tempo. Fiz uma solicitação com base na Liberdade de Informação para conseguir números e também falei com o Instituto Médico Legal.
Olhei para ele. Estava corado, inclinando-se na mesa em minha direção. Parecia empolgado com tudo aquilo.
— Quantos você contou? — perguntei. — Ainda não vi o jornal de hoje.
— Dezenove — respondeu ele.
— Eu descobri vinte e quatro, incluindo o da semana passada.
— Isso é ruim — disse ele. — Você não acha que isso é terrível? Todas essas pessoas. Deve haver alguma ligação entre elas.
— É isso que não paro de procurar, mas ainda não achei nada.
— Quero dizer, são pessoas tão diferentes. Idades diferentes, classes sociais distintas, umas com família, outras sem. Não consigo encontrar nenhuma semelhança entre elas.
— Pensei que poderia haver algum aspecto clínico. E cheguei a questionar se todos não teriam sido operados pelo mesmo médico, ou frequentaram o mesmo hospital, ou, sei lá, praticavam serviços sociais, ou coisa parecida.
— Já ouviu falar em hikikomori?
— Não. O que é isso?
— É um fenômeno no Japão. Todo um segmento da sociedade, em geral adolescentes, especialmente rapazes, se isolam. Eles se trancam em seus quartos e ficam sem sair de lá por anos.
— Por quê?
— Há um bocado de teorias, mas ninguém sabe a verdade. Acreditam que possa ser uma reação negativa ao sistema educacional de alta pressão no Japão. Esses garotos, em geral, têm um desempenho excelente, vêm de famílias ricas, estáveis… Não há motivo aparente para que tenham desejado se revoltar. É como se simplesmente tivessem desistido da vida. Mas há tantos deles agora que acabaram dando um nome para isso. As estimativas variam em relação a quantos são, mas é provável que esse número esteja em torno de três milhões, numa população de cento e vinte e sete milhões.
— Mas eles ficam dentro dos quartos até morrer?
— Em geral, as famílias deles continuam alimentando-os, ou no meio da noite eles vão até um konbini, uma espécie de loja de conveniência. Mas é a escolha que fazem que me intriga.
Ele deu um gole no café, que estava esfriando na mesa à sua frente. Eu já terminara o meu, em dois goles.
— A escolha de se isolar?
— Exatamente. A escolha de se isolar, seja qual for o motivo. Talvez apatia, ou um ato de rebelião. Talvez os casos daqui sejam semelhantes a esses.
— Mas se rebelam com o quê?
— Não sei, pode ser um efeito colateral da recessão: crise econômica, depressão, desespero. Ou então, talvez haja algo na sociedade com o qual não querem se comprometer. E é por isso que acho que você pode estar certa, ao procurar nos serviços públicos, sistema médico, Serviço Social, esse tipo de coisa.
— Não consigo ter acesso a tudo isso — falei. — Já tentei.
— Há alguma coisa nos arquivos desses casos?
— Não há arquivos desses casos, esse é o problema. Não se trata de homicídios. Nem sequer são, na maioria dos casos, mortes suspeitas. São simplesmente pessoas que morreram. Uma vez levadas pelo serviço funerário, deixam de ser problema da polícia. As famílias, quando conseguimos encontrá-las, são avisadas e acaba aí nosso envolvimento no caso. Nada é registrado, não faz sentido. Das pessoas que tinham de fato uma família, praticamente não disponho de informação alguma. Somente as mortes não reivindicadas ainda continuam sendo de algum interesse.
Ele estava inclinado para a frente, franzindo as sobrancelhas, escutando.
— Sabia que fui eu que encontrei Shelley Burton?
— Jura? Não sabia disso.
— Sou vizinha dela. Pude sentir o cheiro. Pensei que a casa estivesse vazia, mas ela estava lá o tempo todo.
— Deve ter sido uma descoberta muito traumática — disse ele.
— Foi horrível. Ela estava…
Eu havia falado demais e, naquele instante me dei conta de que a emoção de encontrar alguém que demonstrasse algum interesse me fizera tagarelar. E não era qualquer pessoa, tampouco; aquele homem era um jornalista. Poderia até estar gravando nossa conversa! Não tinha pensado nisso… que idiota! Aquilo ia acabar custando meu emprego. Não conseguia acreditar que tinha sido tão burra.
— O quê? — perguntou ele. — O que houve?
— O que você quer dizer?
— Você parece… sei lá. Preocupada.
Sem dúvida ele era observador. Provavelmente fazia parte do seu trabalho: a capacidade de identificar desconforto no seu interlocutor; a capacidade de fazer perguntas pertinentes e impertinentes; de memorizar longos trechos de conversa e então, sutilmente, adaptá-los de modo a fazer parecer que, na verdade, a pessoa dissera o que você queria que ela dissesse, sem que ela jamais tenha dito aquilo realmente.
— Preciso ir — falei, me levantando da cadeira.
— Annabel, espere um minuto.
— Não, sério, obrigada pelo café, mas preciso ir embora…
— Posso vê-la outra vez?
Parei de ajeitar o casaco sobre os ombros e o encarei. Aquela frase soou tão esquisita.
— Para quê?
Ele se levantou, obstruindo meu caminho até a porta da cafeteria.
— Sei que isso é importante para você — disse ele. — Não quero comprometer seu emprego de maneira alguma, e não quero que você fique constrangida. O que quer que esteja acontecendo, não vai simplesmente parar. Precisamos tentar fazer com que tomem alguma providência, e o único jeito de conseguirmos isso é descobrindo o que está acontecendo. Você me ajuda?
Mordi o lábio. Ele estava bem perto de mim e não gostei disso. Minhas costas encostavam na parede, em vários sentidos.
— Não sei o que mais posso fazer — respondi. — Já tentei de tudo.
— Deixe o mais difícil comigo. Só preciso dos seus dados. Os mesmos dados com os quais tem lidado e examinado diariamente. Posso pressionar as autoridades importantes publicando mais informações sobre as pessoas envolvidas e posso conseguir essas informações em outros lugares. Preciso apenas ter uma ideia mais clara sobre quem eram essas pessoas.
— Tudo isso é mantido como confidencial pelo Artigo de Proteção de Dados — falei sem muita convicção.
— Não se as pessoas estiverem mortas. Esse artigo não pode ser aplicado em caso de morte.
— Sei disso. No entanto, ainda pode ser solicitado se houver uma investigação em andamento. E, de qualquer modo, também se aplica às famílias delas — falei, tentando me recuperar. Ele conhecia a legislação melhor do que eu. Não me levaria a nada tentar bancar a esperta diante dele.
— Não pensei que houvesse uma investigação em andamento.
Então ele deve ter notado meu embaraço, porque se afastou e me deixou passar.
— Vou acompanhá-la até o final da rua, pode ser?
Murmurei alguma coisa e ele me seguiu até a rua principal, que estava iluminada e fria. Havia uma multidão na calçada e, embora caminhássemos juntos, acabamos mantendo certa distância um do outro.
— Olhe — disse ele por fim, quando viramos na esquina e saímos em uma grande calçada que descia até o rio. — Gostaria muito de manter contato. Você é a única pessoa com quem falei que está levando essa história a sério. Estou tentando fazer com que minha editora se envolva também. Ela concordou em começar essa campanha para fazer todo mundo conferir se seus vizinhos estavam bem, mas continuo achando que é algo um pouco mais sinistro do que uma simples falta de espírito comunitário.
— Sinistro?
— É. Talvez tenham sido assassinadas.
Parei na hora e me virei para ele.
— Não acho que tenham sido assassinadas — falei.
— Não mesmo? Tem certeza?
— Não há nenhum indício disso. Não houve arrombamentos — exceto a casa ao lado da minha, pensei, lembrando do vidro da porta quebrado no chão da cozinha —, não houve ferimentos, nenhuma agressão. Elas apenas morreram.
— Talvez tenham usado um veneno de ação lenta — disse ele. — Ou foram intoxicadas pelo aquecedor, algo assim.
— Você está indo um pouco longe demais. Não há provas. O que o fez pensar que elas foram assassinadas?
Suas bochechas coraram e ele baixou a voz de tal modo que tive que me aproximar dele para ouvir.
— Tudo bem, então, talvez não assassinadas. Porém, tem mais alguém envolvido nisso. Todas não podem ter, espontaneamente, resolvido morrer, não é?
— Por que não? Isso é quase a mesma coisa que os adolescentes japoneses fizeram.
Continuamos andando. No fim da ladeira, eu atravessaria a rua indo para a outra calçada e enfim chegaria no distrito policial. Não queria nem um pouco que me vissem conversando com um jornalista e estava pensando em um jeito de me separar dele antes de chegar ao cruzamento.
Ele mantinha as mãos nos bolsos, os ombros curvados. Parecia pensativo, como se estivesse tentando bolar um argumento conclusivo, que acabaria com a divergência de opiniões.
Parei na esquina.
— Vou por este lado — falei, num tom que sugeria uma despedida definitiva. — Foi bom conversar com você.
— Foi mesmo.
Só isso? Depois de toda aquela pressão, ele ia desistir assim tão facilmente?
— Até mais, Annabel.
Apertei sua mão, cálida e firme.
— Tchau. Boa sorte.
— Para você também.
Observei Sam se afastar, depois me virei e apertei o botão do sinal para atravessar, esperando os carros para poder seguir meu caminho e ir trabalhar.
* * *
A única pessoa no escritório era Kate.
— Pensei que estivesse doente e fosse ficar em casa — disse ela. — Por que veio trabalhar?
— Estava com dor de cabeça — respondi, tirando meu casaco e pendurando-o atrás da porta —, mas já passou.
Eu me sentei, liguei o computador, inseri o login e a senha, depois aguardei a verificação, antes de poder começar a trabalhar. Como sempre, levou séculos.
— Vou falar com uma pessoa rapidinho — avisei a Kate, que estava olhando pensativa pela janela.
— Ok — disse ela.
Frost estava em seu escritório, a porta semiaberta. Bati e a empurrei de leve.
— Você está terrivelmente ocupado? — perguntei.
Ele ergueu o olhar da tela.
— Nunca estou ocupado demais para você. Pode entrar e se sentar.
Deslizei para a cadeira diante da sua mesa.
— Acabei de conhecer um amigo seu — falei.
— Ah, é mesmo?
— Sam Everett.
Frost começou a rir.
— Conheço Sam Everett desde que ele era pequenininho.
— Você sabe que ele está interessado nos corpos. Está tentando convencer sua editora no jornal a fazer uma grande matéria sobre isso.
— E o que você contou para ele?
— Nada — respondi prontamente. — Não há nada que possa lhe contar, não é? Ele não deveria entrar em contato com a Assessoria de Imprensa em vez de me procurar?
— É o velho problema de sempre. A Assessoria de Imprensa tem sua própria agenda, e lamento dizer que nossos corpos não fazem parte dela.
Nossos corpos. Será que ele estava começando a se interessar agora? De verdade?
— Você sabia que eu descobri o último deles?
Ele se inclinou para a frente.
— Não, eu não sabia.
— Foi na casa ao lado da minha. Isso acabou despertando meu interesse nos casos.
— Ah, Annabel. Isso deve ter sido difícil. Você está bem?
Ele parecia estar sendo sincero.
— Estou — respondi. — Acho que sim. Mas o cheiro… fica entranhado na gente, não é?
— Fica, sim. Meu primeiro cadáver, eu tinha dezoito anos e havia começado a apenas duas semanas o meu período de treinamento. Eu havia tentado me preparar para aquilo, mas a verdade é que é impossível. Entrei numa casa e os vizinhos disseram que fazia três semanas que não viam a senhora que morava lá. Pude sentir o cheiro antes de chegar à porta dos fundos. Quando entrei… bem, foi horrível. Ela estava deitada na cama e, quando enfim moveram o corpo, seu escalpo ficara preso na cabeceira e se soltou do crânio. Vomitei no quintal.
— Eu não vomitei. Talvez tivesse sido melhor se vomitasse. Só tomei várias duchas. E ainda tive que dar banho na gata, pois ela ficou rolando no sangue.
— Argh.
— Olhe — falei —, você acha que eles vão começar a levar isso a sério? Já é o vigésimo quarto. O próximo vai ser logo. Existem muitas pessoas lá fora, esperando que nós as encontremos, você sabe disso, não é?
— Não — respondeu ele. — Nada indica que acharemos outras.
Mordi o lábio. Aquilo era tão frustrante. Um minuto atrás, eu pensara que ele estivesse do meu lado, mais do que qualquer um dos outros. Ninguém mais entendera, mas pensei que ele tivesse sido capaz. Ele sabia que aquele era um problema que não iria desaparecer.
— Você sabe que isso não é certo, não é mesmo?
Ele olhou bem nos olhos.
— Se tiver tempo mais tarde, vou tentar falar novamente com alguém lá em cima, ok?
“Alguém lá em cima” significava alguém do corredor da diretoria — o comandante de área ou um dos inspetores chefes. Mas todos eles tinham visto minha apresentação, na última reunião. Todos tinham as informações. Se não foram suficientes para convencê-los, nada mais seria.
— Deixe comigo — disse ele, num tom que sugeria que eu fosse embora.
— Tudo bem. Obrigada.
Eu me levantei para ir embora. Ele já voltara sua atenção para o computador e eu me perguntei se, em cinco minutos, ainda se recordaria da minha visita.
* * *
Dentro do ônibus, voltando para casa, fechei os olhos e encostei a cabeça no vidro gelado. Tinha ficado no trabalho mais tempo do que o normal, tentando compensar as horas perdidas de manhã.
A avaliação tática estava atrasada, mas a culpa não era toda minha; uma falha no sistema do quartel-general deixara o software das principais bases de dados temporariamente inacessível.
O dia havia sido longo e arrasador, e minha dor de cabeça estava voltando. Para piorar tudo, na hora em que estava entrando no ônibus, vasculhando minha bolsa atrás da passagem, que pelo visto eu perdera de forma inexplicável, o meu celular começou a tocar. Por um instante, achei que podia ser Sam Everett outra vez e comecei a escolher palavras que deixassem bem claro meu desinteresse — mas era minha mãe, é claro, ditando a lista das compras de que precisava. Anotei na minha mão com uma caneta preta, esperando que não ficasse marcada para sempre. Açúcar, leite, ervilhas congeladas, batatas, creme de leite, saquinhos de chá.
— Você está me parecendo tão fraquinha. Por que está parecendo tão fraquinha?
— Estou no ônibus, mãe. Acabei de sair do trabalho.
— Por que trabalhou até tão tarde?
— Tive dor de cabeça de manhã. Não estava me sentindo bem. Fui trabalhar mais tarde.
— Foi trabalhar mais tarde? O que você precisa é de uns analgésicos e ser um pouco mais durona. Você não consegue se controlar. E tampouco se alimenta corretamente. Açúcar demais, gordura demais, é esse seu problema.
— Eu sei, mãe — respondi. Era mais fácil concordar com ela. — Posso levar essas coisas para você amanhã? Não precisa de nada disso com urgência, não é?
— Ah, também gostaria de uma boa garrafa de vinho branco. A que você trouxe para mim na semana passada estava deliciosa.
— Vou comprar amanhã, quando sair do trabalho, ok? Vou pegar uma na geladeira do Co-op.
— Você precisa assumir um pouco de responsabilidade pessoal. Como é que você vai ficar, daqui a algumas semanas, quando os relógios forem atrasados, hein? Ninguém vai aguentar você.
Eu poderia ter lhe contado que eu andava acordando antes de amanhecer desde setembro, mas não teria adiantado nada. De qualquer modo, ela não estava me escutando.
— Mas você não precisa dessas compras para hoje à noite, não é?
— Sim, preciso. E eu não consigo andar até a cozinha, meus joelhos estão me matando hoje. Nem almocei. Não comi nem bebi nada desde ontem à noite. Você sabe que preciso me alimentar, tomando esses comprimidos, caso contrário começo a me sentir toda estranha.
Ela tampouco devia consumir álcool junto com os comprimidos, mas esse detalhe parecia ter lhe escapado. Eu lhe disse que chegaria dentro de uma hora, mais ou menos, e por fim, ela acabou desligando.
Senti a dor de cabeça começando a pulsar, o cansaço piorando tudo. Apalpei o anjo que carregava dentro do bolso do casaco, sentindo os contornos de suas belas asas. Certamente, deveria haver uma razão para que tudo isso estivesse acontecendo. Certamente, alguém, em algum lugar, tinha um plano e, uma hora ou outra, isso tudo iria fazer algum sentido.
O ônibus parou no estacionamento e eu me ergui pesadamente. Minhas costas estavam me matando. Eu tomaria um belo banho quando enfim voltasse para casa, com uma gota de óleo de eucalipto na água, bom para aliviar as dores.
Olhei para o carro, uma solitária forma cinzenta apenas visível na escuridão. As luzes alaranjadas dos postes de rua cintilavam em meio ao nevoeiro. Pensei que outras pessoas sentiriam medo ao andar até seus carros no escuro. Outras mulheres se sentiriam vulneráveis. Mas eu não sentia medo. Apenas cansaço.
O carro estava frio e úmido e o motor não queria pegar. Após girar a chave duas, três vezes, ele estremeceu e ressuscitou. Segui para o supermercado a fim de fazer as compras para minha mãe.