Restos Humanos
Annabel
O CARRO DE SAM CHEGOU PELA entrada lateral do estacionamento do distrito policial e deu meia-volta, para se posicionar de frente para a saída, na rua principal. Abri a porta do passageiro e entrei.
— Está tudo bem? — perguntou ele.
Ele não esperava que eu fosse terminar tão cedo, a julgar pelo tom de surpresa em sua voz quando liguei para o seu celular. Eu tinha considerado pegar um ônibus ou um táxi de volta e mandar uma mensagem para ele em seguida, dizendo que estava indo para casa, mas ele acabaria aparecendo para me buscar, de qualquer maneira. Bater a porta e deixar o mundo para trás não era mais uma opção.
— Sim e não. Estou fora do caso. Pelo que parece, eu não deveria ter tido permissão de voltar à Sala de Operações, depois que virei mais uma vítima.
— Essa é a boa ou a má notícia?
— A boa notícia é que o prenderam e ele será interrogado, provavelmente no fim da tarde.
— É mesmo? E quem é ele?
— Sam, não posso falar sobre isso.
— O que você acha que vou fazer? Não posso citar o nome dele sem que haja uma acusação formal, você sabe disso. A próxima edição já está sendo impressa. Com certeza haverá um comunicado oficial sobre a prisão no noticiário local, amanhã. Até terça-feira de manhã, todo mundo ficará sabendo.
— Ok, então. Eu não quero falar sobre isso. Melhor assim?
Ele ficou calado e eu me senti mal. Não era culpa dele. Nada daquilo era culpa dele. A chuva respingava no vidro do carro e, ao acionar os para-brisas, eles varriam o vidro fazendo um chiado. Tentei encontrar um jeito de mudar de assunto e levantar um pouco o astral.
— Você conseguiu fazer alguma coisa legal na cidade?
— Não, nada — respondeu ele.
— Não está zangado, está?
— Claro que não.
— Está sim.
Ele não respondeu, o que significava que eu estava certa. Eu não suportava gente mal-humorada.
— Olhe — comecei —, que tal comprarmos uma refeição para viagem para hoje à noite? Eu queria agradecer a você e a seus pais por estarem me acolhendo por tanto tempo.
— É melhor você ver isso com Irene — respondeu ele. — Você não pode interromper assim a programação culinária dela. Ela planeja tudo como se fosse uma operação militar.
— Mesmo assim, eu queria agradecer a vocês. Vou arrumar minhas coisas esta noite. Talvez eu possa ficar até amanhã então. O que você acha?
— O que quer dizer com isso? Você vai embora?
Ele parou no sinal e se virou na minha direção. Olhei para ele. Se eu tivesse sugerido que iria cortar minha própria perna, ele não poderia ter ficado mais horrorizado.
— Você não precisa mais cuidar de mim, Sam. Ele está preso. Ficarei segura em casa.
— Não tem a ver só com ele — disse Sam. — Não gosto de pensar que está sozinha em casa. Você está passando por um momento bem difícil, precisa de amigos por perto.
— Você tem sido muito gentil comigo. Mas, na verdade, cedo ou tarde vou ter que voltar para casa. Acho que é melhor fazer isso logo.
Ele ficou me encarando por tanto tempo, que o carro atrás começou a buzinar. O sinal estava aberto. Ele balançou a cabeça e arrancou.
— E a sua gata? Ela acabou de se acomodar.
— O quê? Você quer a custódia da minha gata agora?
— Não fale assim.
— Estava brincando.
— É, mas não estou achando graça. Não quero que você fique em casa sozinha. Não é uma boa ideia, pois faz menos de duas semanas que saiu do hospital. E se alguma coisa acontecer?
E isso prosseguiu durante todo o trajeto até a Keats Road. No final, ele ficou quase apaziguado pela minha promessa de manter contato por telefone com ele sempre que possível, trancar a porta e não abrir para ninguém que eu não conhecesse. Se eu precisasse ir até o centro da cidade, ele se oferecera para me levar, presumivelmente pelo resto da minha vida. Era ridículo. Quanto mais ele falava sobre isso, mas eu sentia vontade de fugir daquela insistência irritante.
Precisava voltar para casa.