Restos Humanos
Colin
SEMPRE ME ORGULHEI DE FAZER O melhor possível a partir de qualquer situação. Mesmo que fique lamuriando e reclamando de vez em quando, considero isso uma expressão saudável de indignação concernente à violação de meus direitos fundamentais.
Neste caso, o meu direito à liberdade.
O advogado (invariavelmente, eles parecem mandar os novatos para mim, como este rapaz vestindo um terno que lhe cai mal, com erupções pustulentas na testa — mas que parece bastante eficiente) não foi capaz de me dizer por quanto tempo exatamente posso ficar preso. Estou em detenção preventiva, acusado de sequestro e agressão, o que é terrível, mas dentro dos meus limites de resistência. Já alcancei certa notoriedade e, quanto aos companheiros de cela que não me levam a sério, basta eu olhar para eles de certa maneira e murmurar algumas palavras mágicas que eles recuam na mesma hora. Na verdade, chega a ser cômico e ajuda a passar o tempo.
O lado negativo desta notoriedade é que este é o terceiro local de detenção preventiva para onde me mandaram, desde a segunda vez que me prenderam. Sempre que há um caso de suicídio em qualquer instituição onde eu esteja, eles presumem que devo ter sido o responsável e me transferem mais uma vez.
É muito ridículo, claro, já disse inúmeras vezes — a morte em si não me interessa. Por que ligaria para isso? Ser deslocado de um lado para outro desse modo é de uma inconveniência enorme. Não sei por que eles não me põem em algum tipo de confinamento solitário; isso seria infinitamente mais agradável para mim. Talvez eu sugira isso para eles se me transferirem de novo.
Também tenho recebido cartas de pessoas nas mais assustadoras circunstâncias — gente que ficou paralisada após um acidente, sofrendo de doenças terminais, daqueles que querem “morrer com dignidade”, mas não dispõem de meios para ir até a Suíça e não querem que seus entes queridos sejam acusados de qualquer coisa.
Não posso ajudá-los, é óbvio. Se bem que, talvez pudesse — e em resposta a uma carta particularmente comovente, escrevi sugerindo que fizesse uma busca com as palavras “recusa voluntária de nutrição” na internet — mas por que diabos faria isso? Afinal de contas, não ganho nada acompanhando as mortes dessas pessoas. Não poderei observar o processo.
Desisti de ler os jornais. Eu me sentia sendo constantemente ultrajado. O debate sobre eutanásia que esquentou com as minhas atividades era bastante intrigante, mas assim que as “famílias em luto” formaram um grupo de apoio mútuo, fui obrigado a parar de ler. Famílias em luto, fala sério. Onde elas estavam enquanto os tais “entes queridos” sofriam? Que suporte davam para os solitários, deprimidos e possíveis suicidas? Nenhum. E agora querem algum tipo de justiça. Este país e as profundezas em que está afundando me deixam desesperado.
Como parte dos preparativos para o julgamento no tribunal, eles conseguiram que realizassem uma avaliação psicológica em mim, o que foi divertidíssimo. Na verdade, continua sendo porque o processo parece não ter fim — quando um deles termina, logo aparece outro, portanto sou sem dúvida um caso intrigante para eles. Será que estão tentando decidir se sou insano?
Depois de uma conversa particularmente interessante com um dos psicólogos, falando sobre culpa e responsabilidade, escrevi para Audrey pedindo desculpas formais. O que aconteceu com ela foi um terrível equívoco, é claro, e eu de fato lamento profundamente por isso. Agora, se lhe entregaram a carta ou não, isso é problema deles.
Vaughn, por outro lado, no que me diz respeito, pode ir para o inferno. Não tenho mais vontade de falar com ele.
Às vezes, fico pensando nos outros — e ainda há mais — que continuam em paz nas suas casas. Penso no que deve ter restado. Tenho pensado em Leah também — onde pode estar agora e se seguiu em frente sem meu encorajamento. Acho que ela ainda se sente insegura, mas quem sabe o que pode ter acontecido com ela e seu infeliz amante casado desde então. Se ela virou as costas para aquele inferno particular, seguiu os passos de seu apático Orfeu de volta à vida, pode ser que tenha lembranças de nosso encontro e talvez compareça ao tribunal. Será que falaria em minha defesa ou em minha acusação? Tudo depende de seu estado de espírito. Todos sabem que não fiz mal para eles. Sabem que eu estava do lado deles.
Até o momento, não houve nenhuma menção às imagens e às minhas anotações, e assim sendo, presumo que elas continuem escondidas em segurança. Não tenho dúvida de que, se fossem reveladas, prejudicariam meu julgamento, se este um dia acontecer, muito embora elas não mostrem nada além da matéria em decomposição. Não há crimes dos quais possa ser acusado por causa disso, mas, se a promotoria mostrar essas fotos no tribunal, imagino que os jurados possam interpretá-las da maneira errada. Sem elas, é possível que toda essa farsa lastimável resulte numa brevíssima sentença de encarceramento, podendo até ser suspensa, considerando o tempo passado em prisão preventiva.
Na verdade, poderei estar livre muito em breve.
Solicitei que me trouxessem livros que tenho em casa, mas, em vez disso, restringiram-me à biblioteca daqui, que é insuficiente para suprir minhas necessidades, porém, como eles dizem, é melhor do que nada. Mesmo assim, vários pedidos que fiz foram recusados sem motivo algum. Isso basta para que eu queira cada vez mais que andem logo e me condenem pelo que quer que seja que acham que eu fiz, para que eu possa recomeçar a estudar alguma coisa mais interessante do que o estado das unhas dos assistentes do refeitório e as pilhas sem fim de cartas que tenho recebido, incluindo algumas de mulheres que, súbita e ironicamente, me acham irresistível. Essas eu releio para me distrair, considerando que há pouca coisa para se fazer aqui. Às vezes, corrijo a ortografia e a gramática — “você não precisava fazer as coisa que fez com eles, podia fazer com mim” — meu Deus do Céu, francamente — e às vezes, fico imaginando as mulheres que arranjam tempo para me escrever. É evidente que é mais fácil quando me mandam fotos. Semana passada, uma delas me enviou uma foto de biquíni, mas era algo desastroso e mesmo com a maior boa vontade sua aparência não foi capaz de provocar em mim um pingo de excitação sequer.
Ainda assim, há outra que…
Seu nome é Nancy Heppelthwaite e ela tem vinte e nove anos. Estudou em Oxford e aprecia arte, música e literatura. Ela pinta. Dança, às vezes, mas nunca encontrou ninguém com quem gostasse de dançar. Ela ainda não me mandou uma foto, embora eu tenha solicitado uma quando lhe respondi — mas, por outro lado, fico contente que ela continue sem rosto, pois assim posso impor uma infinidade de pensamentos maravilhosos sobre ela nas horas de desassossego, depois de apagarem as luzes e tudo o que se pode ouvir são os berros e os gemidos dos loucos que não deviam estar em detenção preventiva de maneira alguma, os soluços dos solitários, dos que sentem saudade de casa, e os grunhidos de todos os outros como eu, que preenchem as horas no escuro com atos inofensivos de autoabuso. Eles usam fotos arrancadas de revistas masculinas, ou retratos perturbadores de suas esposas em roupas íntimas. Eu uso a carta de Nancy.
À minha frente, há vários caminhos e, embora limitado pelas restrições do Sistema Judiciário Criminal Britânico (que ele descanse em paz), ainda posso escolher meu próprio destino. Eu quero — ah, quero tanto — fazer uma experiência com as cartas de Nancy, para ver o que pode gerar esta atração florescente entre nós dois. E, é claro, talvez ainda seja possível estender minha influência sobre ela através das visitas ao presídio (um privilégio a que tenho direito, mas do qual ainda não desfrutei) ou, simplesmente, através da escrita.
Deixando Nancy de lado, mesmo relutante, resta-me a maior de todas as aventuras. Tenho o poder de mudar. Eles não permitiriam que eu me transformasse naturalmente, é óbvio, mas posso deixar um testamento exprimindo o desejo de ser enterrado e não cremado — o que significaria que o processo ocorreria de modo muito semelhante ao de meu pai. Não seria uma transformação delicada na privacidade do meu lar, o que seria a melhor coisa, mas é algo aceitável, acho.
Por ora, contudo, não estou preparado. Estou no princípio da revelação, da própria fonte de conhecimento. Ainda há tanto a fazer.
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Elizabeth Haynes
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