Restos Humanos

Elizabeth Haynes · Capítulo 6 de 52

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Restos Humanos

Colin

 

HOJE, NO TRABALHO, EU VI MARTHA conversando com Katrine, a nova interina. Mal registrei sua presença nas primeiras semanas, mas então ela sorriu para mim dentro do elevador e, desde esse momento, percebo sua presença sempre que ela está no mesmo cômodo que eu.

Aparentemente, ela é dinamarquesa, embora não tenha sotaque. Todo mundo fala dela, quando não está por perto, da mesma forma que, sem dúvida, falam de mim assim que eu saio. Eu odeio essa mesquinharia, essa safadeza, o modo como fingem ser amigos o tempo todo e então estraçalham sua presa verbalmente na sua ausência.

Eles tentaram me aliciar, perguntaram o que eu achava, mas então se deram conta de que eu não estava a fim de participar daquelas brincadeiras juvenis. Estou ali para trabalhar, não para socializar.

Na verdade, estou ali por que é conveniente para mim. Ganho a mesma quantia de dinheiro todo mês e posso fazer meu trabalho sem qualquer esforço intelectual. O fato é que, na maior parte dos dias, consigo terminar minhas tarefas antes das dez e meia da manhã, e depois disso, uso meu computador para fazer meus projetos ou minhas pesquisas de estudo. No fim das contas, não faz sentido procurar mais trabalho para fazer, pois isso só serviria para elevar o nível dos meus desafios no futuro. Não, faço o que tenho que fazer, faço-o bem, ligeiramente melhor do que qualquer um, e eles me deixam em paz.

Por ora, parei de me masturbar. Estava ficando com nojo de mim mesmo. Agora guardo para o fim de semana, quando posso gastar todo o meu tempo com isso, se tiver vontade. Como sempre, estou sob controle.

Vaughn Bradstock me perguntou se eu gostaria de ir jantar com ele e a encantadora Audrey no sábado.

A primeira coisa que pensei foi que isso atrapalharia minha noitada de punheta e pornografia; mas depois reconsiderei. Seria intrigante conhecer Audrey, após ter escutado quase todos os detalhes íntimos da sua vida, sua aparência e sua personalidade, nos últimos meses. Aliás, ele desistiu de ir para Weston-super-Mare. Eu lhe disse que era uma sábia decisão. Se você estivesse indo a algum lugar com a mulher dos seus sonhos, então certamente acharia um local mais exótico do que Weston-super-Mare, não?

— Pode ser lá pelas seis e meia? — perguntou ele.

Bem típico, pensei.

— Pode ser um pouco mais tarde? Terei que dar um telefonema a essa hora.

Houve uma breve pausa.

— Ah, sim, acho que sim. Você não pode ligar para quem quer que seja mais cedo? É que Audrey não gosta de jantar tarde. Tem alguma coisa a ver com a dieta que está fazendo.

— Eu posso chegar às sete — falei, com firmeza. — Se não for possível, lamento, não poderei ir.

No final, ele concordou em marcar às sete e então me perguntou se eu tinha alguma restrição alimentar, o que me fez rir.

— É uma pergunta séria — insistiu ele. — Seria horrível se eu o matasse acidentalmente com alguma coisa porque você é alérgico.

— Não sou muito fã de berinjela — falei, por fim.

— Não vou esquecer. E lembre-se de que é Audrey quem vai cozinhar.

— E ela é boa nisso? — perguntei, pensando que ele certamente já devia ter comentado sobre o talento culinário de Audrey alguma vez; afinal de contas, ele me contara praticamente tudo sobre ela.

— Ah, é sim — respondeu ele com entusiasmo.

Mas, considerando o gosto de Vaughn no que diz respeito às mulheres, cerveja e música, aquilo não esclarecia nada. O jeito era esperar até sábado para tirar minha própria conclusão.

No caminho de volta para casa, parei para visitar minha amiga Maggie. A coitada não parecia muito animada. Ainda assim, sentei ao seu lado e conversamos um pouco. A casa dela me intriga: é linda, assim como tudo que tem dentro — no andar de cima deve haver uns seis quartos; não sei por que ela precisa de tantos, pois mora ali sozinha já faz alguns anos. Acho que não a incomodei demais, embora ela parecesse estar bem cansada. Eu lhe disse que voltaria no fim de semana para ver como ela estaria e depois fui embora.

Cheguei em casa, limpei a cozinha e o banheiro, coloquei roupas na máquina de lavar e passei minhas camisas do trabalho enquanto assistia ao noticiário.

Com tantas coisas para fazer, teria que planejar cuidadosamente meu fim de semana. O jantar na casa de Vaughn, por mais divertido que pareça, é a menor das minhas prioridades no momento.

Briarstone Chronicle Setembro

 

Homem é achado morto no apartamento em Briarstone

O corpo em avançado estado de decomposição de um homem em torno de cinquenta anos foi encontrado pelos funcionários do conselho municipal ontem, num conjunto habitacional de Briarstone.

As autoridades do departamento habitacional foram até o apartamento após não receberem respostas das várias ligações e cartas oficiais enviadas. “O corpo foi encontrado sentado na sala de estar com a televisão ainda ligada”, disse um funcionário da prefeitura.

Acredita-se que o homem seja Robin Downley, um desempregado. Os vizinhos já não viam o Sr. Downley havia algum tempo. Uma senhora que não quis ser identificada nos relatou: “Não parei de ligar para a prefeitura por causa do fedor. Devo ter telefonado umas trinta vezes e eles nunca apareceram.”

 

Robin

Minha esposa me deixou, e este foi o início do fim da minha vida.

Eu me lembro de estar em casa com as crianças numa tarde de domingo, lavando a louça, quando tocaram a campainha. Era Elaine, a melhor amiga da minha esposa. Seus olhos estavam cheios d’água. Convidei-a a entrar e comecei a preparar um chá enquanto ela foi se sentar na sala e começou soluçar inconscientemente, fazendo uma barulheira danada. Felizmente, as crianças estavam lá em cima, fazendo também uma grande algazarra e não ouviram nada.

— Onde está Beverley? — perguntou Elaine, quando enfim conseguiu falar.

Pensei que ela estava procurando o ombro da melhor amiga para chorar, e não o meu.

— Não sei muito bem — respondi. — Ela saiu.

Nós não éramos o tipo de casal que passava cada minuto junto. Tínhamos nossas próprias vidas, nossos próprios hobbies, nossos próprios amigos. Isso tornava o tempo que passávamos juntos mais excitante, mais precioso. Ou pelo menos, era o que eu achava.

Naquele mesmo instante, a campainha soou outra vez e me lembro de ter me sentido muito mal, como se de repente o mundo tivesse saído do eixo e eu não percebera, como se algo estivesse errado da maneira mais básica possível e eu tivesse sido o último a saber. Na porta, estavam Beverley e Mike, o marido de Elaine.

De mãos dadas.

Dei um passo para o lado, deixando-os entrar e eles logo seguiram para a sala de estar, onde Elaine estava sentada, presumivelmente já ciente da bomba devastadora que estavam prestes a lançar sobre nossas vidas. Eles estavam surpreendentemente calmos, racionais e impassíveis ao anunciarem a notícia. Eles tinham um caso havia cinco meses, e não estavam mais dispostos a continuar mentindo para todo mundo. Beverley me disse que não me amava mais, que amava Mike e queria que nós nos divorciássemos para que eles pudessem se casar.

No momento, aceitei as coisas muito bem. Acho que, se estivéssemos só Bev e eu conversando, eu teria me aborrecido, quebrado alguma coisa, certamente teria levantado um pouco a voz. Mas ali estávamos nós, os quatro, tendo aquela discussão civilizada lá embaixo, enquanto no andar de cima nossos filhos brincavam com algum jogo que envolvia um bocado de bagunça, barulho e batida de pés no corredor entre os quartos.

Eles conseguiram o que queriam, é evidente. Não havia nada que eu pudesse fazer para impedir aquilo e, além do mais, após a histeria inicial, Elaine pareceu se acostumar à ideia e logo deu a impressão de aceitá-la. Como eu poderia fazer um estardalhaço, quando ela estava sendo tão sensata?

Contudo, nos dias e semanas que se seguiram, eu me senti no início de uma espiral decrescente. Mudei-me para um apartamento alugado, deixando Bev e as crianças na casa, enquanto ela era posta à venda. Mas não era um bom momento para tentar vender uma casa com quatro quartos, e ela ficou disponível no mercado por vários meses, enquanto eu pagava a hipoteca e o aluguel do apartamento, além de dar dinheiro a Bev para cuidar das crianças.

Sozinho no meu quarto e sala miserável, tentando entender o que eu fizera de errado, por que era eu que estava sendo castigado, se não havia sido eu que tivera um caso, que pedira o divórcio, comecei a beber toda noite e depois, por fim, de manhã também, ao acordar.

Em novembro seguinte, perdi o emprego no dia em que cheguei ao trabalho ainda parcialmente bêbado da véspera, e ainda mais bêbado pois tive que entornar uma garrafa de cidra forte, antes de encarar o dia.

Bev me ajudou um pouco. Ela era mesmo uma boa moça, gentil, uma das razões pelas quais me casei com ela, em primeiro lugar. Acho que se sentia culpada pelo modo como tudo acabou. Ela me disse que eu não precisava dar dinheiro para as crianças, por enquanto, até que eu resolvesse as coisas, e acabou que eu também não precisava mais pagar a hipoteca, pois Mike e Elaine tinham vendido sua casa e ele se mudara para morar com Bev e as crianças.

Consegui algum dinheiro com o seguro-desemprego e isso serviu para pagar o aluguel. O pouquinho que sobrava eu tentei gastar só com comida, contas e presentes de Natal e de aniversário para as crianças. Mas quase sempre eu ia até a loja da esquina e comprava algumas garrafas, só para me manter aquecido.

Foi assim que acabei, dois anos depois que tudo começou, naquele instante que na minha alegre ignorância eu lavava a louça numa tarde de domingo, enquanto meus filhos brincavam no andar de cima e minha esposa estava sabe-se lá onde fazendo sabe-se lá o quê.

Você nunca se dá conta do que é a solidão até que ela começa a rastejar dentro de você, como uma doença; é algo que vai acontecendo progressivamente com você. E é claro que o álcool não ajuda: você bebe para esquecer como é uma merda viver assim e então, quando para de beber, tudo fica infernalmente pior. Então você continua bebendo para tentar apagar tudo.

Sempre pensei que, se houvesse alguém com quem eu pudesse conversar, alguém que realmente me escutasse… Não o médico, que estava sempre apressado para que eu saísse do seu consultório, porque eu fedia à bebida e coisas piores; não as pessoas dos grupos de apoio, que ouviam histórias como essa o tempo todo; além do mais, existem histórias bem piores do que a minha.

Não havia ninguém assim, é claro. E se tivesse havido, se por acaso alguém aparecesse no meio da rua e me perguntasse “Como vai você?” com toda a sinceridade, o que eu teria respondido a ela? Por onde teria começado?

Às vezes, eu fazia certas brincadeiras quando estava lá fora, só para ver se conseguia atrair a atenção de alguém, se conseguia fazer com que olhassem para mim, ainda que só por um minuto. E quer saber de uma coisa? Ninguém olha nos seus olhos. E eu percebi que fazia anos e anos que ninguém havia mantido contato visual comigo, e a última a fazer isso provavelmente foi Bev. Então, o que significava isso? O que podia significar? Se as pessoas pararem de olhar para você, você para de existir? Isso quer dizer que você não é mais uma pessoa? Isso quer dizer que você já está morto?