Restos Humanos

Elizabeth Haynes · Capítulo 4 de 52

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Restos Humanos

Colin

 

MAIS UM DIA SORUMBÁTICO NO TRABALHO, mas por outro lado já é terça-feira novamente, o que significa que vou para a academia de ginástica à noite, o que significa que talvez consiga dormir. Meu desempenho da semana passada está devidamente registrado na minha ficha de acompanhamento, esperando para ser superado.

Estou começando a me preocupar com a frequência com que me masturbo. Até agora, nessa semana, dediquei várias horas todas as noites a isso. Acho que essa obsessão deve ser fruto da combinação de tédio e excesso de pornografia.

Dessa forma, encontro um pouco de reconforto — ou algo assim — nas minhas rotinas. Segunda-feira à noite, eu estudo. Terça, vou para a academia. Quarta, lavo roupa e faço faxina em casa. Quinta, tenho aula. Sexta, como comida pronta e vejo um filme. Sábado e domingo… bem. Gosto de ter flexibilidade nos fins de semana, podemos dizer assim. E, é claro, visito meus amigos. Gosto de manter contato com eles.

No entanto, meu foco principal está sempre nos estudos. Embora o último curso que fiz tenha sido bem interessante, não foi algo desafiador. Cumpri o prazo de todas as resenhas que tive de fazer, terminei algumas até antes, e tirei uma nota alta sem me esforçar para isso.

Quando esse curso chegou ao fim, no ano passado, olhei as opções de aulas em período parcial e restavam poucas que me interessavam. Até pensei em estudar biologia outra vez, pois havia sido o mais divertido. Mas então vi um curso de “PNL e técnicas de análise comportamental para negócios e interação social”. A parte relacionada aos negócios não tem importância, não tenho interesse algum em progredir profissionalmente dentro do conselho municipal — mas fiquei intrigado com a ideia de que um curso pudesse me fornecer algumas percepções sobre o raciocínio e as intenções dos outros. E tem sido fascinante, ainda que pouco exigente. Pouquíssimas aulas que tive na faculdade eram rigorosas, e essa não era uma exceção. Não, o que me intriga são as possibilidades adicionais que tenho conseguido explorar como consequência: transmissão de pensamento, hipnotismo (bem distinto de hipnoterapia, algo totalmente diferente), programação neurolinguística — um termo errôneo, se é que já houve um que não o fosse — e lavagem cerebral. Raramente faço um curso sem empreender algum estudo adicional, sobretudo quando o tema me agrada, e este em particular tem aberto um mundo inteiramente novo de possibilidades. Embora eu não costume dar continuidade a um tema além do ano previsto de estudo, a menos que seja de graduação, estou achando este particularmente cativante e então decidi passar para o curso de nível avançado. Foi uma grande surpresa que outros alunos tivessem feito o mesmo; eles nunca me chamaram a atenção por serem especialmente inteligentes.

E por que essas análises comportamentais resultam numa masturbação noturna regular, eu não tenho a menor ideia.

Logo que esse curso começou, eu me lembro de ter ficado detido no escuro, ponderando, como tenho certeza de que incontáveis homens solteiros já fizeram antes de mim, se poderia haver um jeito, no meio de toda essa droga de relacionamento humano, de encontrar uma mulher para dormir comigo.

Não é que eu seja horroroso, afinal de contas, ou sou? Tenho mais de um metro e oitenta, sou bem forte sem estar acima do peso, me visto bem e estou sempre impecavelmente limpo — o que mais poderia querer uma mulher que se dê o respeito? A única coisa que parece me faltar é a habilidade de compreender o que algumas delas querem que eu diga. Então, o que as mulheres realmente desejam? Não precisa responder. Acho que nem sou capaz de imaginar — e aposto que essa resposta varia de uma pessoa para outra.

Já pensei que poderia procurar uma prostituta, mas, para ser sincero, me recuso a pagar por algo que incontáveis idiotas insípidos e imundos por este país afora conseguem de graça. Sem mencionar a possibilidade de contrair alguma doença terrível. Mas, apesar da minha relutância, procurar uma prostituta continua sendo minha fantasia preferida. Eu me imagino seguindo pela London Road, dirigindo bem devagar em meio à escuridão, entre focos alaranjados de luz, vendo os vultos se movendo, mulheres distantes, uma delas apoiada na parede, talvez, ou caminhando pela calçada, os saltos absurdamente altos fazendo seus quadris balançarem. Eu estaciono atrás da figura — não posso vê-la com clareza. Na verdade, não vejo nada, mas por alguma razão a escolhi. Ela se aproxima sob o foco de luz e inclina-se na janela aberta do carro.

Em algumas noites, ela é velha, tem cinquenta anos no mínimo, com cabelo cacheado que certamente deve ser uma peruca. Ela sorri para mim e entra no carro, depois seguimos para um apartamento sórdido que ela considera bem decorado com náilon rosa e poliéster, um tapete com a mesma estampa psicodélica da sala de estar da casa dos meus pais nos anos setenta; eu me deito na cama, que exala um cheiro de umidade e sexo, e a observo se despir, jogar toda aquela fibra sintética, rendas de náilon esgarçadas sobre um sofá estampado e puído. Seu corpo é velho e gasto, sua pele flácida sobre os ossos, o cabelo sob a peruca, grisalho e áspero. Tento trepar com ela, mas não sinto sequer as laterais de seu sexo imenso, então, ela acaba tirando seus dentes e me chupando vigorosamente com as gengivas até eu, enfim, chegar ao orgasmo. É claro que a fantasia só acaba depois que eu lhe dou uma soma em dinheiro repugnantemente superinflacionada e sou despejado na rua, cheio de calor e com o cheiro dela, imundo, e com seus vários fluidos corporais sobre o rosto, as mãos, o corpo e a roupa.

Algumas vezes, consigo realmente mudar tudo de modo que, quando a figura inclina-se sobre a janela do meu carro, ela tem uma beleza de tirar o fôlego, um anjo, cabelo louro e suave caindo como ondas sobre seus seios fartos; ela entra no carro e me leva para um hotel, direto para a suíte na cobertura, onde me despe apoiada na vidraça que descortina a linha do horizonte urbano. Seu corpo é voluptuoso e macio, sua pele cintila quando ela se deita de costas, sobre os lençóis de um branco ofuscante. E, mesmo assim, quando tento trepar com ela, não consigo. Não consigo fazer isso. Não consigo me forçar a olhar para ela, não consigo nem manter minha ereção patética.

O que há comigo que nem ao menos sou capaz de imaginar a felicidade?

Então, eu recomeço e vou comer a velha profissional em seu apartamento encardido subsidiado pela assistência social, que a esta altura está morta ou talvez apenas dormindo, e enquanto ela fica ali deitada, imóvel sob mim, com seus ossos pontudos e sua pele flácida, eu me permito uma triste ejaculação, depois vou tomar um longo banho, me perguntando que tipo de homem eu sou.

Na noite passada, depois de voltar para a cama, já seco e cheirando a sabonete líquido, pensei em Janice. Tenho pensado um bocado nela ultimamente, revivendo o dia em que nos contaram no trabalho que haviam encontrado seu corpo.

Eu me pergunto se ela teria me deixado trepar com ela.

* * *

Ainda estou pensando em Janice quando chego à academia de ginástica, às sete horas. Trinta minutos de bicicleta, trinta de remo, trinta na esteira. Parece mais exaustivo essa noite, mas mantenho a cabeça ocupada pensando nela a maior parte dos noventa minutos.

Lembro-me da primeira vez em que Janice falou comigo. Ela já devia estar trabalhando no conselho municipal havia décadas, uma pessoa que fazia parte do cenário, como a xerox ou a pilha de listas telefônicas de dez anos, e eu nunca a ouvira dizer nada.

Naquele dia, ela trouxe a correspondência e, em vez de simplesmente deixá-la na bandeja ao lado da porta, levou um envelope até minha mesa, limpou a garganta e disse: “Isso é para você.”

Olhei-a com perplexidade.

Ela devia estar com uns trinta e tantos anos na época, a mesma idade que tenho agora, mas parecia mais perto dos cinquenta, seu cabelo castanho-claro preso num ralo rabo de cavalo, já ficando grisalho nas têmporas, olhos pálidos dissimulados num rosto cheio de rugas. Tinha um tipo de rosto que ficaria melhor com maquiagem, e não costumo dizer isso com frequência. Na verdade, podia imaginá-la num daqueles programas macabros de transformação, começando como uma solteirona desmazelada e terminando como uma mulher madura, bela e equilibrada.

Como se pudesse ler a minha mente, ela sorriu, e seu rosto mudou totalmente. Ficou quase linda — a velha bruxa se transformou em um anjo.

Depois disso, falei com ela mais algumas vezes. Nós parecíamos estar sempre ao mesmo tempo na cozinha, preparando chá. Ela nunca me pareceu ser loquaz, apenas educada, formal, e — não acredito que eu esteja dizendo isso — eu gostava da sua companhia. Quando ela ficou uns dias sem aparecer por estar doente, quase senti sua falta. Mas depois ela ficou tanto tempo ausente que esquecemos que ela existia, até o dia em que aquele palerma incompetente do departamento pessoal nos chamou à sala de reunião e nos contou que o corpo de Janice havia sido encontrado em casa. Eu imaginei que ela tivesse sofrido um ataque cardíaco e estava esperando que nos dissessem quando poderíamos contratar outra pessoa, mas aí ele prosseguiu contando que ela ficara em sua casa apodrecendo durante quatro meses.

E isso foi logo antes do almoço.

O triste falecimento de Janice foi o assunto principal nos dias que se seguiram, a tal ponto que fiquei enjoado de ouvir falar sobre isso e estava prestes a me levantar e berrar algumas obscenidades se voltasse a escutar seu nome. No entanto, o mais alarmante foi que, naquele momento, meu nome surgiu na conversa.

— O que vocês estão dizendo?

Era Martha, evidentemente.

— Se estivesse prestando atenção teria escutado que eu só disse, Colin, que você era amigo dela, não era?

— De quem? Janice? Não era, não.

— Você falava com ela mais do que qualquer um de nós.

— Eu falava com ela. Isso não quer dizer que éramos amigos.

— De qualquer maneira, você não acha horrível que ela já estivesse morta por todo esse tempo e nenhum de nós tenha procurado saber como ela estava?

— Acho. É horrível — falei, entre os dentes.

Continuei trabalhando, na esperança de que todos entendessem a indireta e, felizmente, eles começaram a conversar sobre outra coisa.

Mas depois, me peguei pensando nela. Por que teria vindo falar comigo naquele dia, depois de tanto tempo sem me dirigir a palavra? Poderia ter sido por ela me achar atraente? Pensei mais sobre aquilo: o jeito como ela sorrira, o jeito como sua expressão mudara. Tentei imaginá-la na minha cama, em casa, tentei imaginá-la tirar seu cardigã e aquela blusa medonha e sem caimento que ela parecia usar sempre, revelando um sutiã que poderia ser generosamente descrito como robusto. Mas sob suas roupas, quando tudo o que eu precisava era de algo real, algo concreto, com pelos, rugas, pintas, curvas e o odor do suor, tudo o que descobri foi o corpo do meu anjo, firme, flexível, dourado e cintilante, sem falhas, sereno e intocável, e então meu ardor desfaleceu, como sempre acontece quando se está diante da perfeição.

* * *

A academia está esvaziando, e sigo para o vestiário, tomo uma ducha rápida para me livrar do suor e depois dou trinta voltas na piscina, num ritmo leve e agradável, capaz de me acalmar. Mesmo assim, fico de olho no relógio. Na semana passada, fiz isso em dezenove minutos. É possível que eu consiga reduzir para quinze, o que parece bem mais apropriado, mas vou precisar me esforçar. Pressionar a mim mesmo.

Quando comecei a frequentar essa academia, depois de sair da outra, no centro da cidade, adquiri consciência em relação aos exercícios que fazia. Na academia antiga, havia um grupo de meninas que parecia estar sempre lá quando eu chegava, rindo e sussurrando por trás das mãos. E o lugar estava sempre lotado — outra razão para sair de lá. Não há nada pior do que ficar observando a bunda suada de alguém remexendo no selim de uma bicicleta enquanto você espera ele acabar.

A academia atual é mais cara, mas acho que vale a diferença. É bem maior, o que significa mais aparelhos e seu preço garante que se pode esperar certo nível de clientela. As mulheres que não têm com o que ocupar seu tempo vêm durante o dia; as mães vêm com os filhos, depois da escola. Mas, tarde da noite, a academia é frequentada por outros profissionais solteiros que estão aqui para malhar e depois ir embora para casa, ou para um pub, ou para onde quer que pessoas como eu e, ao mesmo tempo, extremamente diferentes de mim vão.

Faz um ano esta semana desde que nos contaram sobre a morte de Janice. Talvez seja por isso que ela tenha estado na minha cabeça recentemente. Tem algo a ver com o tempo, as folhas mudando de cor, que me fazem pensar em deterioração, em cadáveres apodrecendo, dissolvendo, sem ninguém lá para ver. Eu devia ter lhe dado mais atenção. Havia tanta beleza nela que eu poderia ter observado, e me passou despercebida.

Mas depois tudo seria de novo apenas ainda mais incômodo, mais um transtorno, como aquela mulher demoníaca do asilo de idosos. Ela voltou a telefonar esta noite, antes de eu sair para a academia e, pensando que devia ser Vaughn, atendi sem olhar o número.

— Sr. Friedland?

Eu sabia que era ela. Seu jeito de pronunciar meu sobrenome com ênfase na segunda sílaba, bem diferente da maneira como todo mundo o diz. Freed Land. A única razão pela qual eu não a corrijo é porque ela provavelmente pronuncia do mesmo jeito quando fala com a minha mãe. Quando penso nisso e, é claro, na incapacidade da minha mãe para exprimir sua indignação, acho bem divertido.

— Sim, sou eu — falei, fingindo ignorância.

— Sr. Freed Land, aqui é a enfermeira-chefe. De Larches.

— Sim — repeti.

— Sua mãe está muito bem, não há com o que se preocupar.

— Ah, que bom.

— Porém, ela sente muito sua falta.

Duvido, pensei.

— É mesmo? A senhora tem certeza de que ela pelo menos tem noção de onde está?

— Em algumas ocasiões tem, sim. Ela tem momentos de lucidez. E nesses momentos, ela parece sentir mais intensamente sua falta. Já faz muito tempo que o senhor não aparece para vê-la.

— Tenho andado ocupado — respondi. — Trabalhando demais.

— E nos fins de semana?

— Olhe, vou tentar passar aí no domingo, está bem? Agora, se me der licença, tenho coisas para fazer.

— Claro, claro. Nós nos vemos em breve, então.

Maldita mulher, arruinando uma noite perfeitamente interessante com sua conversa fiada. Que sentido teria ir visitar minha mãe, afinal? As chances de ela estar em um momento de “lucidez” na meia hora em que eu estiver por lá são tão remotas quanto desprezíveis. E se ela estivesse lúcida, só a ideia disso já é horrível demais para ser contemplada; depois de todo esse tempo, o que diríamos um ao outro? Mesmo assim, vou pensar sobre ir lá no domingo, nem que seja apenas para fazer aquela mulher horrível parar de me telefonar por algum tempo.

Atualmente, ela liga com menos frequência do que antes. No ano passado, quando minha mãe sofreu o derrame que lhe tirou a habilidade funcional enquanto ser humano adulto, o asilo ficou felicíssimo em acolhê-la. Não precisei de muito tempo para descobrir uma brecha no programa de saúde governamental para tratamento de enfermidades críticas, o que tornou possível que suas despesas fossem subvencionadas integralmente. Então eles não ficaram mais tão felizes, embora eu ignore o motivo — afinal de contas, eles são pagos do mesmo jeito, e de modo mais confiável também, penso, considerando que esse fluxo de pagamento em particular nunca seca. Tenho a impressão de que eles querem que eu mantenha contato de modo a arrancar mais dinheiro de mim, dinheiro para coisas que o governo não financia. Mas que bem isso faria se ela tivesse uma televisão de tela plana no quarto, quando havia um bom aparelho na sala de estar do asilo à sua disposição, se estiver a fim de assistir? Para que precisaria de sapatos, se nunca iria pôr os pés para fora da porta?

Certa vez, tentei explicar tudo isso, mas o tom da enfermeira-chefe se tornou resolutamente ríspido. Depois daquela conversa em particular — que terminou com ela dizendo, num tom sarcástico desnecessário, que eu devia visitar minha mãe de vez em quando — eu me acostumei a deixar o telefone tocando quando via o número do telefone do asilo no identificador de chamadas. Não levou muito tempo para que ela nem se desse o trabalho de deixar um recado.

Estou realmente a fim de visitar minha mãe. Na verdade, é algo que espero fazer em um momento ou outro — uma viagem agradável num fim de semana ensolarado, comprar uns chocolates no caminho e, depois, comê-los no seu quarto, porque, afinal, ela não poderia comer, não é mesmo? —, mas com toda certeza me recuso a receber ordens de uma enfermeira-chefe velha e enrugada.

Da mesma maneira que me recuso a seguir o que qualquer pessoa me diz que devo fazer.

De qualquer forma, tenho planos para este fim de semana e espero ficar particularmente ocupado. Vários dos meus projetos de pesquisa estão quase se realizando — transformações fabulosas que devem ser observadas.

Briarstone Chronicle Agosto

 

Morte do pianista, uma “perda trágica”

O corpo do antigo pianista e concertista Noel Gardiner foi descoberto na casa que ele dividia com seu companheiro, o vocalista Larry Scott, em Catswood, no último domingo. Segundo informações da polícia, o corpo do Sr. Gardiner só foi achado “algum tempo” após a sua morte.

O falecimento do Sr. Scott, com 59 anos, de um ataque cardíaco, foi noticiado pelo Chronicle em maio. Amigos do pianista disseram ontem que o Sr. Gardiner se tornou uma pessoa isolada após a perda do parceiro.

“Nós tentamos fazer com que reagisse”, disse um amigo que não quis ser identificado. “Mas ele sentia demais a falta de Larry. Estavam sempre juntos.”

Noel Gardiner era um músico talentoso e se apresentou com sua orquestra em todo o mundo. As homenagens foram abundantes após o anúncio de sua morte e vários buquês foram deixados à porta de sua casa em Lenton Lane.

Obituário: página 46.

 

Noel

A primeira vez que o vi, eu soube que era ele. Soube da forma como eles sempre disseram que eu saberia, muito embora nunca tivesse acreditado em amor verdadeiro. Eu ria das pessoas que acreditavam.

Ele era tenor no coro e eu, o substituto que eles arranjaram de última hora, quando um pianista pulou fora. Eu toquei com o coração naquela noite, pode acreditar. Ousando olhar para ele algumas vezes, mas não com frequência, sorvendo-o como se fosse um vinho, deixando ele correr minhas veias como o primeiro gole do álcool. Não tive coragem suficiente para ir falar com ele depois do concerto, mas, felizmente para mim, ele notou que eu o olhara e se aproximou, perguntando se eu poderia lhe mostrar o melhor lugar para um último drinque antes de dormir.

Levei-o ao Black Bull porque sabia que nenhum dos outros músicos estaria por lá — não queria dividi-lo com ninguém. Eu o queria só para mim. Se ficou surpreso com o pub — um tanto sombrio, para ser franco —, não deixou transparecer. Ele nos comprou uma garrafa de vinho barato e, quando terminamos com ela, permitiram-nos que tomássemos outra, embora quase não estivessem mais anotando pedidos. Mantivemos nossas cabeças próximas, sussurrando e idealizando o mundo, como se já nos conhecêssemos por toda a vida, e não acabado de nos encontrar naquela noite. Quando ele me acompanhou até minha casa, comecei a entrar em pânico, pensando que havia interpretado mal a situação, que aquilo era só mais um caso, mais um encontro movido apenas pelo aspecto físico. Ou mesmo, nem isso. Ele era mais velho do que eu, bonito, inteligente, e eu não achei que podia ter tanta sorte assim.

Mas estava equivocado. Eu era o cara mais sortudo do mundo.

Depois disso, estávamos sempre juntos. Todo dia. Todo trabalho que pegávamos, ou nós o fazíamos juntos, ou um de nós recusava qualquer outra apresentação para estar na plateia. Simplesmente não conseguíamos suportar ficar separados, não por mais de algumas horas. Sua voz me eletrificava; ouvi-lo cantando nutria minha vida. E ele ficava sentado, me escutando tocar, horas a fio, mesmo quando já havia ensaiado o bastante, ele fazia com que eu continuasse e, sentado na poltrona atrás de mim, os olhos semifechados, entregava-se à música.

Não acho que alguém tenha realmente compreendido como se tornou profundo. Ambos tínhamos amigos, é claro, família — a dele era mais afetuosa e solidária do que a minha —, mas o que tínhamos era sólido como uma rocha, se comparado à areia movediça de todos os outros relacionamentos, pessoas que entravam e saíam de nossas vidas, passando direto por nós.

Eu o encontrei no chão. Já estava ali havia algum tempo, embora eu tivesse apenas saído rapidamente de casa para comprar algo gostoso para o jantar.

Chamei a ambulância e enquanto a esperava chegar, tentei fazer tudo o que podia por ele, massagens no peito, minha boca cálida tentando insuflar vida pela sua boca fria. Eu já sabia que era inútil. Ele se fora. A luz desaparecera de seus olhos.

Tinham-se passado três meses desde que ele me deixara, mas não tenho lembranças desse período. O tempo que veio em seguida não significou nada, nem tinha propósito. Eu não conseguia tocar; sequer tentei. Não podia ouvir música, não podia olhar para o céu, não podia andar ao ar livre sem ele, porque não havia razão para fazê-lo. Só o que eu podia fazer era esperar.