Restos Humanos
Colin
RACHELLE ENTROU NA MINHA VIDA UM mês depois de Justine.
O intervalo entre as duas foi dedicado aos estudos, ao uísque e à pornografia. A única aula que frequentei durante esse período foi a PNL de Nigel — e todas as noites, depois do trabalho, me dedicava, aprofundando meus estudos sobre o assunto, também expandindo para outros tópicos, como hipnose, controle da mente e sugestão. Ficava acordado até me sentir cansado demais para enxergar o computador na minha frente, e a essa altura, eu colocava um DVD no quarto e assistia até chegar à conclusão inevitável.
Agora eu sabia aonde tudo aquilo estava me levando. Sabia e entendia tudo com uma surpreendente lucidez — aquele era meu chamado, tinha nascido para fazer isso, e tudo o que acontecera até então na minha vida havia me feito chegar àquele momento.
Conheci Rachelle quando passeava no parque em Baysbury, num domingo de manhã. O dia estava claro, frio, ensolarado — era um desses dias em que se espera encontrar um bocado de gente no parque, razão pela qual quase não fui. Eu me esquecera que havia um jogo importante de futebol e, em consequência disso, todo mundo ficara em casa ou fora aos pubs, assistir à partida. Todo mundo, exceto Rachelle e eu.
Passei andando por ela, sentada no banco do parque no meio de uma ladeira, e fiquei imediatamente impressionado pelo seu físico e pelo fato de ela estar sentada num banco vestindo calça de ginástica e tênis, sua cabeça encolhida dentro de um capuz disforme.
Ela não prestou atenção em mim, então me senti bastante confiante para voltar e me sentar ao seu lado.
— Oi — falei.
Ela não respondeu, mas olhou na minha direção, com um sorriso nervoso nos lábios. Não estava acostumada que falassem com ela. Não estava acostumada a atrair a atenção. Estava acostumada a se esconder.
— Está um dia lindo hoje — comentei.
— É, acho que sim. — Sua voz soava ofegante.
— Você saiu para correr?
— É.
— Consigo subir essa ladeira em trinta e cinco segundos — falei. Não fazia a menor ideia se tal feito era possível; foi um palpite aleatório de um número que resolveu o impasse: como se eu tivesse apertado um interruptor e ela cedeu.
— É mesmo? Trinta e cinco? Só consigo em sessenta. Isso foi na semana passada.
— Você está em boa forma — elogiei
— Não. Estou muito…
Ela desistiu de terminar a frase.
— Você está numa jornada. Cada dia é um degrau que a aproxima mais da sua meta.
Ela me encarou com uma expressão de surpresa nos olhos azuis, que pareciam demasiadamente grandes para seu rosto pálido e abatido.
Coloquei a mão — hesitantemente, mas me pareceu ser a hora certa — em seu braço. Ela estremeceu por um breve momento, mas não o moveu. Dava para sentir os ossos embaixo da minha mão, como se aquele tecido cinzento e felpudo fosse a única coisa entre minha mão e seu esqueleto.
— Você tem razão — falei. — Tudo o que você pensa e sente está certo. Está escolhendo o caminho certo.
— Sim — concordou ela.
— Você pode tomar essa decisão. Pode escolher o que vai acontecer, como vai acontecer.
— Posso mesmo? — hesitou ela.
— Você sabe que tem razão — falei, mantendo a voz calma e o contato visual. Só é necessário fazer a coisa certa no momento certo.
— Preciso saber se vai funcionar — disse Rachelle.
— Vai funcionar. Você pode fazer esta escolha. Se decidir, assim será. Você precisa saber disso.
Poucos minutos depois, ela me levou ao seu apartamento, a algumas ruas dali. Passamos por um pub que estava tão cheio de gente que algumas pessoas tiveram que ficar na rua, com copos plásticos de cerveja nas mãos, todos concentrados nas telas de televisão no interior. A situação do jogo — qualquer que fosse ele — podia ser determinada pelos urros e suspiros coletivos. Ao chegarmos à porta da sua casa, ouvi gritos de contentamento vindos de várias residências e, possivelmente, até do pub.
Não tínhamos falado desde que ela se levantara devagar do banco do parque e começara a caminhar. Mesmo assim, ela se afastou, me deixando entrar primeiro em seu apartamento. Parecia totalmente derrotada pela vida. A cumplicidade entre nós era a maior possível. Eu a ajudara a encontrar o caminho que ela mesma, inconscientemente, tinha escolhido. Contribuí para que ela pusesse um fim em sua existência miserável, só ao lhe dar a permissão para o que ela sentia que precisava para fazer. Ajudei-a a se transformar.