Restos Humanos

Elizabeth Haynes · Capítulo 7 de 52

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Restos Humanos

Annabel

 

EU SABIA QUE NÃO ERA COMUM acreditar em anjos.

Não falei sobre isso no trabalho porque, é claro, eu me tornaria a grande piada do escritório. Meus colegas lidavam com crimes horríveis todos os dias da semana, e a única maneira de aguentar isso era rindo sempre que possível. Eles faziam piadas sobre os colegas e todos aceitavam isso, bem contentes. Frequentemente, tiravam onda com a nossa cara, as analistas. Kate não se importava nem um pouco, é claro, mas também sua autoconfiança era tanta que você podia lhe dizer que ela era uma baranga e ela reagiria com uma piscadela, um sorriso e responderia algo do tipo: “Sou mesmo, querido.”

Eu sabia que era muito sensível. Tentava não ser assim. Tentava ostentar uma expressão corajosa e feliz e me esquivar das piores piadas sobre meu peso, ou minha carência de vida social, chegando mais cedo ao trabalho. Acho que eles sentiam que havia um limite que não devia ser ultrapassado.

Foi por isso que não comentei nada sobre os anjos. Como eles eram reais, sagrados, lindos e estavam o tempo todo ao nosso redor. Eu sentia a presença deles quando estava triste — um arco-íris, uma pena, um sopro de brisa na minha pele. Eu falava com eles e prestava atenção a tudo o que podiam me dizer. Tentava agir de um modo que os deixasse felizes.

Mas, naquele momento, eu não estava feliz. Andava pensando com frequência em Shelley Burton e em todos os outros, aquelas pessoas, aquelas pobres pessoas, sozinhas em suas casas na hora da morte, esperando para serem acolhidas pelos anjos, mas continuavam na terra, sabendo que iam ficar ali, apodrecendo, sem amor, ignoradas, desrespeitadas. Só de pensar nisso, me sentia doente e envergonhada. Eu me perguntei se elas realmente sabiam o que estavam fazendo, ou se a vida as havia tratado tão mal que a necessidade de morrer se tornara uma força maior do que a terrível perspectiva do que poderia lhes acontecer em seguida.

Hoje, três agentes do Grupo Tático participaram da reunião com o Setor de Inteligência, e todos estavam se divertindo um bocado com meu fascínio repentino pelos cadáveres em putrefação. Ah, essa é boa, muito engraçado. Annabel, a gordinha desajeitada tem um fetiche com carne fétida, quem diria… Kate participava e ria com eles. Bem, para falar a verdade, até eu estava rindo, afinal o que mais poderia fazer — cair no choro? Não estavam sendo realmente desrespeitosos, porém, alguém de fora poderia ficar horrorizado com algumas coisas que diziam. Era somente o jeito deles de encarar aquilo com que tinham que lidar no dia a dia. Enquanto isso, fiquei com a mão no bolso, meus dedos sentindo a forma sólida do anjo de cristal que carrego o tempo todo, confiante de que ele me traria um pouco de paz. Esperando que pudesse fazer meu trabalho de forma adequada e persuadir alguém a examinar de perto aquele padrão de ocorrências alarmante envolvendo pessoas mal-amadas e indesejadas.

Esperando conseguir acabar com aquilo.

Mas eles não pareciam interessados. No final, respondi o e-mail de Frost, com cópia para o inspetor chefe da delegacia de homicídios, para Bill, e mesmo para a Assessoria de Imprensa (afinal de contas, por que não?). Sugeri que se tratava de uma tendência muito preocupante e que, ainda que não que houvesse realmente um crime, era um sintoma das comunidades conflituosas que estávamos tentando reparar. O inspetor chefe apagou o e-mail sem ler. A Assessoria de Imprensa o abriu e, depois, o apagou. Bill nem sequer abriu.

Bill era o analista sênior. Por conta da última medida de corte de gastos, ele também passou a se dividir entre a Divisão Leste, que sempre estivera sob sua responsabilidade, e a nossa divisão. Embora ele afirmasse estar “sempre pronto para atender nossas chamadas quando preciso”, nós só o vimos uma ou duas vezes nos seis meses, desde que passara a ser nosso analista sênior. Supostamente, era um sinal de nossa autossuficiência, de sermos capazes de continuar operando como sempre fizemos —, mas na verdade ele gostava da vida fácil, e dirigir trinta quilômetros até um distrito policial no centro da cidade, onde não conseguiria uma vaga para estacionar, estava um pouco além de sua capacidade.

Antes de quinta-feira, não tive tempo de pesquisar os cadáveres. Tinha outro trabalho para fazer, o perfil de mais um maníaco sexual, que no caso estava prestes a ser solto, após uma longa sentença. Era só uma questão de controle de riscos. Olhei sua ficha criminal, os lugares onde havia morado, suas relações, sua família, sua situação atual, tentando encontrar um padrão para determinar se havia chances de ele representar um perigo. Mas não havia pressão, estávamos apenas falando do dano mais inimaginável que pode marcar jovens vidas inocentes.

Além disso, Kate estava de folga. O que só tornava as coisas ainda mais estressantes. Eu monitorava sua lista de tarefas, além da minha.

Estava tão absorvida que sequer notei que havia alguém atrás de mim, até que uma mão pousou sobre meu ombro e eu dei um pulo.

— Desculpe — disse ele, rindo como uma criança. Era Andy Frost. — Não quis assustar você.

— Não tem problema, senhor.

— Pare de dizer “senhor”, Annabel. Eu já pedi isso.

— Eu sei, mas é a força do hábito.

— Li seu e-mail — disse ele, empoleirando-se na beira da mesa de Kate. — Você acha que poderia dar uma olhada mais atenta na lista de cadáveres? Poderia preparar uma análise comparando os casos?

— Claro. Mas provavelmente seria algo bem básico. Não esqueça que os casos estão limitados aos registros de incidentes; não são relatórios criminais. Alguns do que li eram inacreditavelmente breves.

— Sei — disse ele, pensativo. — Eu mencionei o assunto com o Grupo Tático. A delegacia de Homicídios não demonstrou o mais remoto interesse, é claro, mas isso não me surpreende. Eles estão sobrecarregados no momento. Mas Alan Robson pareceu interessado. Eu lhe disse que conseguiria mais informações.

— Alan Robson? O diretor do Programa de Redução da Criminalidade?

Andy aquiesceu.

— Ele mesmo. Foi transferido para o setor de Operações Táticas no mês passado.

— Deve estar procurando mais uma promoção.

— Mesmo assim, é melhor do que nada. Você pode muito bem ter descoberto algo e, é claro, como você disse, é uma questão comunitária, o que atraiu a atenção dele. E se acabarmos precisando fazer alguma coisa com o Serviço Social, ou a Associação da Terceira Idade, ou sei lá quem, é com ele que você vai contar para resolver isso.

Eu sorri para ele.

— Então, é melhor eu começar logo.

* * *

Voltei para casa, passando pelo supermercado e, depois, pela casa da minha mãe para entregar as compras que me pedira na véspera. Ela já havia telefonado outra vez à tarde: esquecera-se de me pedir outras coisas de que precisava e não queria passar o fim de semana sem elas, muito embora eu geralmente fizesse compras para ela nas manhãs de domingo. Quando entrei em casa, a televisão estava ligada, o som alto como sempre, e se não fosse pelo seu grunhido em resposta ao meu “oi”, eu teria achado que ela não percebera minha chegada. Guardei a comida na geladeira e coloquei uma torta de carne moída com batatas no micro-ondas para descongelar e, depois, liguei o forno e ajustei a temperatura. Enquanto o micro-ondas zumbia, eu lavei e sequei a louça da noite anterior e a tigela de cereais dessa manhã, guardando tudo no armário.

Minha barriga roncou quando senti o cheiro da carne e do molho emanando do micro-ondas. Quando ele apitou, coloquei a embalagem dentro de uma travessa e enfiei tudo no forno, marcando o tempo.

— Vai ficar pronto em uns vinte minutos, mais ou menos — avisei. — Quer que eu prepare algum legume?

— Só algumas ervilhas bastam — respondeu ela, sem levantar o olhar. — E batatas.

— Já tem batata. É uma torta de carne com batata.

Nenhuma resposta. Suspirei e pus água na panela para ferver. Peguei uma grande batata na gaveta de vegetais da geladeira e fiquei em pé, descascando-a, indagando por que todo aquele processo me dava vontade de chorar.

Quando acabei de cozinhar a batata e as ervilhas, a torta ficou pronta, a parte de cima parecia crocante e tinha tons marrons e dourados, o molho borbulhava no purê. Coloquei-a num prato e em cima de uma bandeja com garfo e faca, além de um papel toalha como guardanapo, porque todos os guardanapos estavam guardados em algum lugar dentro de caixas fechadas com fita adesiva que tinha perdido a cola havia alguns anos e estava se soltando da superfície.

Ela começou a comer sem dizer nada, soprando brevemente a fumaça a cada garfada, e então olhou diretamente para mim, o que fez com que eu me levantasse e fosse pegar algo para ela beber. Quando coloquei o copo d’água na bandeja, ela me olhou com uma expressão de desgosto.

— O que é isso?

Naquela noite, eu não tinha energia para mais uma batalha. Às vezes, eu brigava e vencia, quase sempre era assim, mas naquela noite eu me rendi de primeira e voltei à cozinha. Na geladeira, havia uma garrafa de vinho branco fechada. Tirei a rolha e levei-a com uma taça para ela. Não fazia sentido lhe servir apenas uma taça. De qualquer modo, uma vez aberta a garrafa, ela acabaria com o vinho. Se ficasse bêbada até cair seria sua própria culpa.

E ficou por isso mesmo. Disse-lhe boa-noite, vesti meu casaco e saí para a noite.

A gata, pelo menos, pareceu bem contente em me ver, miando aos meus pés e pulando, como se isso servisse de alguma coisa, ronronando mais alto quando a tigela apareceu repentinamente em seu campo de visão. E, assim que acabou de comer, ficou miando perto da porta para poder sair. Abri a porta e ela se foi para o meio da noite, fazer seja lá o que for que ela passava horas fazendo quando escurecia. A casa ficou silenciosa, e eu estava sozinha novamente.