Restos Humanos

Elizabeth Haynes · Capítulo 1 de 52

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Restos Humanos

Mídias sociais

ELIZABETH HAYNES

Restos humanos

TRADUÇÃO DE MAURO PINHEIRO

Para as minhas melhores amigas Angela Wiley,

Karen Aslett e Lindsay Brown, com amor

Annabel

 

AO CHEGAR EM CASA, SENTI O cheiro das latas de lixo no ar frio, um leve odor desagradável que me fez franzir o nariz.

Depois de entrar, abri a porta dos fundos e sacudi a caixa de biscoitos para gatos, na esperança de fazê-la vir correndo até mim. O céu estava limpo aquela noite, então ela muito provavelmente não apareceria na porta dos fundos até que eu fosse tomar banho e ficaria miando e arranhando a porta para que eu a deixasse entrar. Apesar da gateira e de todos os meus esforços para que se acostumasse a usá-la — abrindo-a para ela, incentivando-a com petiscos a passar sozinha, chegando mesmo a empurrá-la à força para que entrasse —, ela a ignorava e só entrava e saía de casa quando eu estava ali para abrir a porta. Eu tinha até tentado tirar sua caixa de areia, mas ela simplesmente urinava no chão de linóleo da cozinha e tentava cobrir seus excrementos arranhando os cantos do cômodo. Depois disso, eu desisti.

Esperei ao lado da porta por alguns minutos.

— Lucy? — chamei, hesitante. — Lucy!

Nada. Pois então que passasse a noite toda do lado de fora, pensei, mas sabia que acabaria descendo em algumas horas, enrolada numa toalha, ainda pingando e morrendo de frio, e sacudiria a caixa de biscoitos enquanto ela ficaria sentada no gramado, olhando para mim, punindo-me por ter demorado tanto.

Preparei uma xícara de chá de hortelã e algumas torradas com queijo e me sentei à mesa da cozinha, de olho na porta entreaberta, para o caso de a gata entrar e eu conseguir prendê-la em casa. Quando acabei, juntei as migalhas de torrada e joguei-as no lixo, sentindo um odor estranho. Alguma coisa estava cheirando mal. Da última vez que sentira um cheiro de podre como aquele, a gata tinha trazido um sapo para dentro de casa e eu só me dei conta ao encontrá-lo, meio pegajoso, meio ressecado, debaixo da cômoda da sala de jantar, perto da parede. Precisei ficar de quatro, usando um chumaço de papel toalha e luvas de borracha para me livrar dele.

Fui até a porta de novo, me perguntando se dessa vez Lucy tinha matado um pombo e o deixado perto da lata de lixo, considerando-me incapaz de jogá-lo fora sozinha. Calcei meus chinelos, peguei uma lanterna na gaveta e desci os degraus me aventurando na escuridão, ouvindo o som dos carros na rodovia que ficava atrás das árvores. Na passagem estreita entre minha casa e a do vizinho, levantei a tampa das duas latas de lixo: a preta e a verde para lixo orgânico. Ambas cheiravam mal, mas não era dali que vinha o odor desagradável. Direcionei a lanterna para a base das latas. Nenhum pombo, nenhum rato, nada morto.

Já fazia algum tempo que a casa ao lado estava desocupada, mas naquele momento percebi que dava para ver uma claridade lá dentro. Uma luz dourada e fraca, como se uma única lâmpada brilhasse num dos quartos, serenamente.

Tentei me lembrar da última vez que eu estivera ali fora. Na tarde de domingo? Mas havia sido durante o dia, com o sol a pino, e mesmo que a luz estivesse acesa na casa vizinha eu não a teria notado. Talvez um corretor ou promotor imobiliário tivesse passado por lá e esquecido a luz acesa?

Logo quando me mudei, havia um casal morando ali. Fiz um esforço para me lembrar do nome dela. Shelley, era isso. Ela se apresentou uma vez. Foi no verão, num dia bem quente. Eu estava chegando em casa e ela cuidava do jardim da frente. Ela me fez parar para bater um papo, embora essa fosse a última coisa que eu quisesse. Cansada e esgotada, como sempre, tudo o que queria era entrar e arrancar meus sapatos, deixar os pés doloridos e abafados respirarem e beber algo bem gelado. Tudo o que me lembro da conversa é de seu nome e de que seu “companheiro” — o que sempre me soa estranho, por que não “namorado”, ou “marido”, ou “noivo”? — chamava-se Graham. Nunca o conheci. Acho que ele foi embora no outono seguinte e, embora eu a tivesse visto entrando e saindo algumas vezes até o inverno passado, presumi que tivesse se mudado algum tempo depois da Páscoa, pois não a vi mais depois dessa época, e o jardim do qual ela cuidava havia se transformado num matagal.

No começo, foi só uma impressão, um leve receio, e então ouvi um ruído vindo da casa vazia. Havia algo errado. Tentava enxergar em meio à escuridão quando a gata surgiu pelo portão, correndo até onde eu estava e roçando as minhas pernas. Ela estava coberta por alguma substância, o pelo sujo e viscoso, um cheiro pútrido que impregnava minha saia. Cobri rapidamente a boca e o nariz com a mão para me proteger do fedor.

Naquele instante, pensei em voltar para a cozinha e telefonar para a polícia. Pensando agora, em retrospectiva, era exatamente isso o que devia ter feito. Mas era uma noite de sexta-feira, e como eu trabalhava no distrito policial, sabia que todas as patrulhas estariam ocupadas: se não estivessem limpando o sangue e o vômito das ruas do centro de Briarstone, estariam levando algumas pessoas detidas para a delegacia. Eu estava trabalhando com a polícia havia anos e nunca tinha precisado ligar para ela. Nem sequer saberia o que dizer. Que havia um cheiro ruim vindo da casa ao lado? Com certeza me recomendariam telefonar para a prefeitura na segunda-feira de manhã.

O portão baixo de metal dos fundos estava pendurado pelas dobradiças; atrás dele, o que restava do que um dia fora um canteiro bem organizado e agora era um matagal intratável. A grama e as ervas daninhas chegavam à altura da cintura em alguns trechos, tendo ido além de suas próprias forças e se curvado sobre si mesmas, como um exército a caminho de uma batalha. Eu saí andando pelo gramado até alcançar o caminho de tijolos que levava à porta dos fundos. O parapeito da janela da cozinha estava coberto de moscas mortas. Iluminei com a lanterna o cômodo vazio. Algumas moscas ainda se arrastavam sobre o vidro da janela e outras voavam descrevendo um trajeto angular no centro do cômodo. A porta para a sala de jantar estava entreaberta, deixando escapar uma claridade, uma luz débil e alaranjada vindo de algum lugar lá dentro.

Olhei para baixo. A parte inferior da porta dos fundos estava faltando. Manchas escuras marcavam as extremidades, tufos de pelo de gato, como se gatos de várias cores e raças tivessem entrado e saído dali quantas vezes quiseram. Tentei abrir a porta. Era esperar demais que estivesse destrancada, é claro. Então resolvi bater com os dedos no vidro, que balançou em seu caixilho. Empurrei a porta delicadamente e, depois, com mais força. E antes que eu pudesse entender o que tinha acontecido, o vidro despencou e se espatifou sobre o piso do chão da cozinha.

— Merda! — exclamei em voz alta. Depois disso eu estaria em apuros.

Devia ter me afastado. Devia ter voltado para casa e trancado a porta, sem pensar mais naquilo tudo. Afinal, o problema não era meu, não é mesmo? Mas, já tendo praticamente arrombado a casa, achei que poderia muito bem terminar o que começara e ver se havia alguém lá dentro.

Enfiei a mão pelo vão agora sem vidro e alcancei o outro lado da porta. A chave estava na fechadura. Tentei girá-la — parecia emperrada, não era aberta havia muito tempo. E pensei que talvez também pudesse haver trincos na parte de cima e de baixo da porta. Mas, quando girei a chave, a porta se abriu sem problema. Um fedor forte veio lá de dentro repentinamente. Depois, se dissipou com a mesma rapidez, como se toda a maldade do interior tivesse escapado e se desvanecido na noite.

— Ô, de casa! — chamei, sem esperar uma réplica e sem saber o que teria feito se houvesse uma. — Tem alguém aí?

A casa estava mais aquecida do que a minha, ou talvez eu sentisse isso só porque estava entrando ali, deixando para trás o frio do jardim. Meus passos esmagaram os cacos de vidro, o que ecoou na cozinha vazia, e eu coloquei a mão sobre a boca e o nariz para tentar abafar o cheiro, que se intensificara novamente ali dentro. Iluminei ao redor da cozinha, direcionando o foco da lanterna para armários, prateleiras e para o fogão sujo; todas as superfícies pareciam embaçadas por uma camada viscosa de poeira.

Talvez fosse apenas cheiro de comida estragada, pensei. Talvez a pessoa que havia morado ali tivesse sido obrigada a ir embora correndo e acabou deixando para trás os restos de uma refeição. Mas a porta da geladeira fora deixada aberta e não havia luz no seu interior, parecendo uma forma negra escancarada. Obviamente, estava desligada.

Abri um pouco mais a outra porta da cozinha e assim consegui claridade suficiente para que eu apagasse a lanterna. Era a sala de jantar, com a mesa e as cadeiras em seus lugares, uma toalha e dois jogos americanos cobrindo a mesa. Havia um abajur sobre um aparador, um modelo moderno, só que, como tudo o mais, tinha a superfície encoberta por uma tênue película de poeira. Ele estava aceso.

Eu podia ouvir um som. Vozes baixas, mas um tanto metálicas — parecia uma emissão de rádio. Será que o rádio estava ligado? Com certeza então haveria alguém ali. Tive a impressão de estar sendo observada, como se alguém fora do meu campo de visão estivesse à espreita.

Disse a mim mesma para não ser tão paranoica e segui pelo corredor. Parecia ter gente morando na casa — tapete no chão e quadros nas paredes. A única luz vinha do abajur da sala de jantar.

— Olá? — Minha voz soou mais baixa, o som dos meus passos eram abafados pelo tapete. O cheiro parecia menos desagradável, ou será que talvez eu estivesse apenas me acostumando com ele, respirando pela boca?

O volume do rádio então ficou mais alto, parecia uma entrevista entre uma voz masculina e uma feminina, a mulher discutindo e o homem a acalmando. Acima desse som havia outro ruído, ou estaria imaginando coisas?

Senti algo na perna e dei um pulo; um breve grito de susto escapou de minha boca antes que pudesse contê-lo. Mas era apenas a gata, esfregando-se em volta dos meus tornozelos, antes de sair correndo para a sala de jantar e, depois, sumir em outro cômodo.

— Lucy! — chamei com urgência, desejando não ter de me agachar atrás do sofá para obrigá-la a sair de novo.

Abri a porta da sala de estar, que dava para a frente da casa. Estava tudo escuro, a luz da sala de jantar não chegava até ali. As cortinas, fechadas, deixavam passar, pelo espaço entre elas, somente uma ínfima luminosidade procedente do poste da rua. Acendi a lanterna outra vez e, ao fazê-lo, percebi um movimento, um lampejo branco. Era Lucy novamente, rolando sobre o tapete no meio da sala. Pude ouvi-la ronronando por sobre as batidas do meu coração.

O cômodo estava mobiliado, mas frugalmente: um sofá, uma pequena mesa de centro à frente. Em cima dessa mesa, um buquê do que um dia deviam ter sido cravos, duros e marrons, dentro de um vaso sem água.

O foco da lanterna clareou uma poltrona. E embora eu estivesse pressentido uma presença, e uma parte de mim estivesse esperando encontrar alguém ali, arquejei com o que vi, uma pessoa horrorosamente deformada: escurecida, a pele do rosto esticada e lacerada em alguns lugares, as pálpebras retraídas, revelando um olhar esbugalhado, negro e vazio, a barriga inchada como um balão, esticando o tecido que vestia — o que ela vestia, pois era uma saia — e o cabelo ainda colado à cabeça, longo, claro e escorrido, com algumas mechas louras, eu acho, pois estava revestido por uma camada gordurosa. E o que piorava tudo era a sua barriga se mexendo, como se ela estivesse respirando — embora isso certamente não fosse possível. Quando olhei mais de perto, porém, me dei conta de que a barriga estava tomada por um enxame de vermes fervilhando incessantemente… E apesar do horror e de minha respiração profunda, comprimida e asfixiada, não consegui desviar o olhar. Uma das mãos repousava no braço da cadeira, e a outra, com o antebraço, do cotovelo até os dedos, estava caída no chão, como se ela a tivesse largado ali, como um controle remoto fora do lugar.

E a maldita gata voltou a ronronar. Olhei para o chão e a vi rolando no tapete, ao lado da imundice toda, como se aquele cheiro fosse apetitoso para ela, aquele fedor de fluidos putrefacientes do corpo de um cadáver em decomposição.