Restos Humanos

Elizabeth Haynes · Capítulo 47 de 52

Páginas do PDF

Restos Humanos

Maggie

 

NEM SEMPRE FUI ASSIM. SOLITÁRIA, QUERO dizer. Eu tinha um marido e uma família, dois filhos. Quando cresceram e saíram de casa, voltamos a ser só nós dois, Leonard e eu, o que foi ótimo para mim. Eu trabalhava dois dias por semana numa casa de chá da cidade, mas fazia isso só para me divertir, de verdade. Leonard ocupava um alto cargo na empresa quando se aposentou e, depois que os meninos foram embora, ficamos com uma boa reserva financeira. Stephen disse que devíamos vender a casa, comprar algo menor, mas isso só nos deixaria com ainda mais dinheiro parado no banco, praticamente sem juros algum, e como poderíamos gastá-lo? Saíamos de férias, é claro; um cruzeiro, normalmente, e um mês ou mais ao sol durante os dias frios e sombrios de inverno. Mas, mesmo quando estávamos longe, eu ficava sempre ansiosa para voltar para casa.

Nossa casa era grande, numa ruazinha sossegada fora da cidade, com um jardim que se estendia até a beira do rio e suas árvores seculares, que gemiam e arfavam quando ventava muito. Aquela casa nos nutriu, cuidou de nós, nos manteve em segurança, e nela nossos filhos cresceram, se tornaram homens fortes e admiráveis. Por que eu iria querer morar em outro lugar?

Stephen se casou com uma moça norueguesa chamada Ina. Eles foram morar no norte de Londres e tiveram duas filhas. Eu os via com certa regularidade, pelo menos uma vez por mês. Costumavam vir almoçar no domingo. Meu filho caçula, Adrian, conheceu uma garota e resolveu viajar com ela. Eles acabaram ficando na Austrália, porque a família dela era de lá, e um ano depois tiveram um filho. Mas nunca se casaram. É claro que eu não os via com a mesma frequência que Stephen e Ina. Adrian e Diane vieram uma vez passar o Natal conosco. Apareceram no meu sexagésimo aniversário. E mais tarde, voltaram para o julgamento.

Vieram atrás dele bem cedo, numa manhã de terça-feira. Leonard ainda estava na cama, dormindo profundamente. Eu já estava de pé, porque naquela época não conseguia mais dormir depois das cinco. Preparei um bule de chá e estava à mesa da cozinha, lendo o jornal da véspera, esperando que clareasse totalmente para poder continuar capinando lá fora, a partir do ponto em que deixara de lado ao escurecer, no dia anterior.

Bateram à porta e eu pensei: “O carteiro veio cedo, hoje.” Mas é claro que não era o carteiro. Eram dois inspetores da polícia, um homem e uma mulher.

— O que houve? Aconteceu alguma coisa com os meninos? O que foi? — perguntei.

— Precisamos falar com seu marido, Sra. Newman. Ele está em casa?

Peguei a identificação policial que o homem me entregou, fechei a porta e a examinei no corredor. Depois disso, os deixei entrar.

— Onde está seu marido? — perguntou a mulher, assim que entraram no corredor. — Onde está Leonard?

— Está na cama, é claro, são seis e meia da manhã. Do que se trata tudo isso?

O inspetor subiu a escada e fiquei aguardando na cozinha com a mulher. Estava tudo muito silencioso lá em cima. Não houve gritos, estrondo ou qualquer ruído. Alguns minutos depois, Leonard desceu a escada com o policial, vestido como se fosse cuidar do jardim: calça jeans e um suéter por cima de uma velha camiseta. Seu cabelo estava arrepiado, pois não o penteara. Ele estava ao lado da porta com aquele homem, calçando seus sapatos e, por um terrível instante, pensei, que ele sequer perceberia minha presença, então o chamei:

— Leonard!

Ele disse alguma coisa ao homem e foi até a cozinha. Sua expressão era horrenda, como se tivesse acabado de receber uma notícia aterradora.

— O que houve, Leonard? O que está acontecendo, pelo amor de Deus?

Ele não se aproximou mais de mim, sequer tentou me tocar. Apenas disse duas palavras:

— Sinto muito.

Sequer pronunciou meu nome.

Quando o levaram embora, liguei para o advogado dele, que prometeu ir para a delegacia assim que possível. Havia muita gente na minha casa; no final, eu já não fazia a menor ideia de quem eram. Preparei chá para todos e algumas pessoas olharam para mim com bastante piedade. Outras tinham uma expressão diferente, que não consegui interpretar.

Elas, praticamente, desmantelaram o escritório de Leonard. Levaram os computadores dentro de sacos plásticos, assim como os celulares, inclusive o meu.

Usei o telefone fixo para falar com Stephen. Eu tinha a impressão de não conseguir passar para ele toda a seriedade da situação. Ele estava se preparando para ir trabalhar, e até eu começar a chorar e ficar histérica, ele só teve vontade de ir embora e me ligar à noite. Mas, quando desabei, ele disse que viria logo em seguida. Depois, tentei telefonar para Adrian na Austrália, mas ninguém atendeu.

Pensei que ele tivesse sido flagrado sonegando impostos. Foi a primeira coisa que me veio à cabeça e, por um bom tempo depois disso, não conseguia pensar em uma alternativa possível. Parecia ser o problema mais provável, que explicava porque estavam se concentrando em seu escritório, mais do que em qualquer outra parte da casa.

Stephen foi à delegacia na parte da tarde enquanto permaneci em casa arrumando e limpando tudo, mas ele voltou logo depois. Não lhe revelaram nada. Seu pai ainda estava sendo interrogado. Era pouco provável que o liberassem antes da manhã seguinte. Pedi a Stephen que voltasse lá, levando uma bolsa com pijama, roupão e sua nécessaire com artigos de higiene pessoal. Além de uma camisa limpa.

— Ele não está na porra de um hotel, mamãe — disse Stephen.

— Não importa — retorqui. — E não use palavrões ao falar comigo.

Ele fez o que eu pedi, mas, quando voltou, queria algo mais. Não o tinham deixado ver o pai, mas um pedido dele chegara às suas mãos. Precisava de um terno.

— Para quê?

— Ele vai ver o juiz, amanhã de manhã — respondeu Stephen. — Ele quer ir usando um terno. Como se isso pudesse ajudar.

— Claro que pode ajudar — afirmei.

Subi a escada e peguei o melhor terno dele, um feito sob medida que ele vestia nas reuniões da diretoria. Uma camisa nova, uma gravata de seda azul para realçar a cor de seus olhos.

Na manhã seguinte, ele foi acusado de ter imagens de abuso sexual infantil. O choque foi imenso. Acho que todos pensaram que eu estava me recusando a aceitar os fatos — na verdade, foi Stephen que disse isso —, mas não era verdade. Eu sabia que não era possível, de modo algum tal coisa poderia ser verdade. Havia poucas pessoas em que eu podia confiar, e uma dessas era minha irmã Janet, que morava a trinta quilômetros de distância. Fui ficar na casa dela por alguns dias, cedendo à insistência de Stephen. Acho que ele pensou que a imprensa poderia acabar descobrindo e não queria que aparecessem para me fotografar no jardim de casa, ou em pé ao lado da porta, como uma alma perdida.

— Não consigo acreditar nisso — confessei para Janet. Já devia ter dito isso umas cinco vezes. — Simplesmente, não consigo acreditar. Para falar a verdade, ainda temos uma boa vida sexual! Com certeza, ele não…

Ela me olhou por cima da sua caneca de chá e deixou que eu desabafasse o quanto quisesse. O problema era que isso não adiantava. Falar só piorava as coisas, porque minha incredulidade não arrefecia. Era como se alguém tivesse armado tudo aquilo só para nos fazer sofrer. Tentei pensar em alguém que nos odiasse o bastante para agir assim, nos separando.

Finalmente, ele pagou fiança e voltou para casa, mas a essa altura a imprensa já havia descoberto quem ele era e do que estava sendo acusado, e algumas vans com câmeras de televisão estacionaram em frente a minha casa.

Tivemos que nos mudar. Leonard não tinha permissão para sair do país, então fomos obrigados a cancelar nossas férias, que já estavam pagas e reservadas. Nossa seguradora não cobriu os gastos; aparentemente, ser preso, ainda que por algo que você não fez, não pode ser qualificado como pretexto para receber uma restituição. Ele tentou insistir para que eu fosse sem ele, mas eu não podia. E se eles voltassem outra vez e o levassem sem eu saber? E além do mais, se o pior acontecesse — eu queria passar o máximo de tempo com ele.

Ele se esforçou ao máximo para se comportar como se nada tivesse acontecido. Tentamos levar uma vida normal, na casinha que pertencia a amigos nossos que estavam morando no exterior. Somente os familiares próximos sabiam onde estávamos, e a polícia, é claro. Leonard só saía de casa uma vez por semana para comparecer à delegacia. Quando saíamos de lá, rodávamos vários quilômetros, para nos certificarmos de que não estávamos sendo seguidos até em casa.

Finalmente, a imprensa esgotou aquele assunto, mas eu continuava com medo de voltar para casa.

Minha irmã Janet me perguntou o que ele havia dito sobre tudo aquilo, que desculpa dera. Na verdade, nunca falei com ele sobre o assunto. Nunca lhe perguntei se ele era culpado dos crimes pelos quais tinha sido acusado, tamanha era minha confiança nele. Era meu marido e eu jurara ficar ao seu lado na alegria e na tristeza, e acho que não poderia ter momento de “tristeza” pior do que aquele. Então decidi que ele era inocente, que tudo não passava de um equívoco, ou da acusação maliciosa de alguém, que causara aquilo.

Entretanto, por mais que ele se esforçasse para agir normalmente, as coisas não eram mais as mesmas. Leonard passava horas escondido, trabalhando em possíveis linhas de defesa. Tarde da noite, eu o ouvia chorando, depois de ir me deitar. Apesar de seus esforços, após ler todos os documentos jurídicos que seu advogado trouxera, para lhe dar algo a fazer, seu comportamento se tornou hesitante e dava a impressão de que ele já havia se entregado.

Mas eu não tinha me entregado, de maneira alguma.

* * *

O julgamento mudou tudo. Não tinha passado nem um ano, desde aquela manhã de terça-feira quando eles apareceram para o prenderem. Estávamos preparados para o que viria, instruídos pelo advogado sobre o que podíamos esperar, mas mesmo assim os meninos sofreram terrivelmente. Rever Adrian, Diane e meu neto Joshy, que tinha cinco anos e era bem travesso… era tão bom sob certos aspectos, mas tão ruim sob outros. Diane ficou por uma semana conosco e então, quando o julgamento começou, deixou Joshy com os pais dela, na Escócia. Adrian ficou comigo e Stephen.

Fui todos os dias, exceto o segundo, quando mostraram as imagens que haviam encontrado nos computadores dele. Elas tinham sido bem escondidas, o que me convenceu de que alguém as tinha colocado lá sem o conhecimento de Leonard. Ele era um executivo de uma das maiores empresas do mundo de circuitos integrados de computação, mas não fazia realmente ideia de como essas coisas funcionavam. Ele comprava e vendia ativos, lidava com os acionistas e organizava os negócios; não sabia como cifrar um disco rígido, ou seja lá o que alegavam que havia feito.

De qualquer forma, eu não desejava vê-las.

Mas Stephen as viu. E Adrian também. Até mesmo Janet estava lá. Quando era mais jovem, ela trabalhara num centro de assistência para mulheres abusadas, portanto se considerava uma pessoa isenta aos choques, pois havia lidado com quase todo tipo de coisa. Mas, pelo visto, não era bem assim.

Naquele dia, eles voltaram quietos para casa. Eu cozinhara um bom pedaço de carne assada com pudim de Yorkshire, batatas assadas, nabo, repolho, cenoura e um molho de carne, e até um tempero à base de raiz-forte feito em casa. Fazia tudo isso principalmente para me ocupar durante as horas em que a casa ficara vazia. Mas, quando eles chegaram, ninguém queria comer. Todos os três sentaram-se à mesa da cozinha e conversaram, tentando encontrar algum sentido em tudo aquilo, enquanto eu fatiava a carne e servia os pratos. Era como se alguém tivesse desligado o otimismo deles na fonte. Não falavam mais sobre o que podiam fazer para ajudar a equipe de advogados que Leonard reunira para defendê-lo. Conversavam agora sobre o que deveriam fazer para absorver aquilo a que tinham acabado de assistir.

Stephen gritou alguma coisa para mim, algo sobre como eu não conseguiria consertar as coisas, não desta vez. E aquela carne assada para o jantar não iria melhorar a situação de repente.

O marido de Janet veio buscá-la. Ele deveria jantar conosco, mas ambos foram embora imediatamente. Os meninos ficaram sentados na cozinha, e me sentei sozinha na sala de jantar, numa mesa posta para seis pessoas (eu colocava o prato de Leonard na cabeceira da mesa todos os dias, independentemente se ele viria comer ou não). A carne tinha sido assada com perfeição, e cada garfada levada à boca tinha o sabor do ódio. Eu estava furiosa pelo fracasso deles em apoiar o pai na hora em que mais precisava; ressentida com a recusa deles em comer o que eu passara o dia todo preparando.

Quando terminei, voltei para a cozinha. Assim que entrei, eles interromperam a conversa.

— Que tal uns pudins? — sugeri, tentando soar o mais alegre possível. — Fiz só um pouco, vocês querem provar?

Stephen se ergueu de repente, arrastando a cadeira ruidosamente no chão de terracota. Ele passou por mim sem me olhar e foi para a sala.

— E você, Adrian? Quer comer um pouquinho?

— Não, mãe — respondeu ele.

Eu me sentei perto dele e coloquei a mão em cima da sua. Lágrimas escorriam de seus olhos. A visão do meu filho crescido aos prantos me abateu mais do que qualquer outra coisa.

— Está tudo bem — falei, tirando minha mão da sua e pousando-a em seu ombro. — Tudo vai ficar bem, meu querido! Eles vão perceber que tudo não passa de um terrível equívoco e o deixarão voltar para casa. E então poderemos viver como antes outra vez.

— Você não entende — disse ele. — Aquelas fotos…

— Eu sei, eu sei. Deve ter sido horrível para você ter que ver aquilo. Mas elas estavam escondidas no computador dele, e…

— Ele aparecia nelas, mãe. Papai estava em algumas fotos.

— Mas hoje em dia as pessoas são capazes de modificar as fotos, não são? Podem ser retocadas, ou coisa parecida. Podem manipular as imagens…

— Era ele, mãe. Se você as tivesse visto…

Eu continuava não acreditando.

* * *

Depois desse dia, eles não voltaram ao tribunal. No dia seguinte, fui sozinha, assim como nos dois últimos dias do julgamento. Eu imaginava que a imprensa deveria estar noticiando todos os aspectos do caso, considerando a posição de Leonard, mas deliberadamente evitei os jornais; tampouco ligava a televisão ao voltar para casa.

Quando ele foi condenado, eu me levantei no tribunal e berrei “NÃO!” o mais alto que pude. Fui convidada a me retirar. No dia seguinte, ele recebeu sua sentença.

O julgamento foi muito dispendioso para mim. Destruiu meu casamento porque, muito embora eu tenha ficado ao seu lado a cada estágio, assim que foi condenado, Leonard se recusou a me ver. Não autorizou minha visita e, quando solicitei uma permissão diretamente ao presídio, me disseram que o prisioneiro não tinha obrigação de receber visitas que não desejava.

Stephen não apareceu mais. Falei com Ina pelo telefone uma ou duas vezes, mas eles nunca mais vieram para jantar num domingo desde então. Liguei para eles e perguntei se podia ver as meninas, se podia sair com elas um pouco. Ina arrumou algumas desculpas. Quando a pressionei, ela revelou que Stephen não queria que eu voltasse a vê-las até que fossem bem mais velhas. Isso eu não consegui entender de jeito nenhum. Leonard havia sido acusado de todas aquelas coisas horríveis, não eu. Mas Stephen disse que eu devia estar a par de tudo. Que eu lhe dera cobertura.

Eu não sabia de nada. Ainda não conseguia acreditar que pudesse ser verdade. Todos o renegaram, todos o abandonaram.

Adrian levou Diane e Joshy de volta para a Austrália e, embora me telefonasse uma vez ou outra, quando eu ligava ninguém atendia. Suas chamadas se espaçaram à medida que os meses e os anos passavam.

As coisas também mudaram com Janet. Eu ligava para ela de vez em quando para bater papo, e havia uma regra tácita entre nós de não falarmos sobre Leonard. Falávamos sobre nossos filhos, sobre política. Mas esses telefonemas também foram rareando. Ela estava fria comigo, como se meu bom humor lhe causasse náuseas.

Eu saía, ainda que com menos frequência. Descobri que não podia confiar nos meus amigos, depois que um deles deu uma entrevista “exclusiva” para um jornal e, de repente, tudo voltou à tona.

Ocasionalmente, eu ia até a universidade para ter aulas de ioga, mas, quando a série de sessões para a qual eu tinha me matriculado chegou ao fim, não renovei. Não fazia sentido. Eu chegara ao fim. Então, voltei para casa, a casa maravilhosa que havia nutrido a todos nós, nos mantido em segurança, assistido ao crescimento dos meus filhos que se tornaram homens fortes, e também me protegido naqueles meses solitários em que os lobos espreitavam à minha porta, onde me tranquei e fechei os olhos. E esperei.