Restos Humanos

Elizabeth Haynes · Capítulo 43 de 52

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Restos Humanos

Annabel

 

ACORDEI CEDO NO DOMINGO, VESTI UMA das roupas que usava para trabalhar e desci a escada. Irene estava na cozinha, preparando alguma coisa frita para o café da manhã. A gata, que se instalara com mais facilidade do que eu podia imaginar, se enroscou afetuosamente entre minhas pernas.

— Não se preocupe com ela, já lhe dei comida — disse Irene ao me ver. — Que tal ovos mexidos com bacon?

O cheiro era bom, mas eu estava sem fome. A experiência, contudo, já me ensinara que Irene tinha dificuldade em aceitar a palavra “não” e portanto, era mais fácil ceder.

— Obrigada. Acho que vou querer só um pouco, pode ser?

Havia um bule de chá em cima da mesa, me servi uma caneca cheia e o provei. Era chá preto e estava requentado, mas eu não me importava.

Tinham me dado alta do hospital só com a condição de que alguém ficasse de olho em mim, e Sam assumira a responsabilidade de ser essa pessoa. Isso deveria durar apenas alguns dias, mas, quando voltamos à minha casa para que eu pegasse mais algumas roupas, minha chave sobressalente tinha sumido. Eu a guardava na estante de livros e ela simplesmente não estava mais lá. Depois disso, não senti mais vontade de voltar para casa, mesmo depois de trocar as fechaduras a um custo exorbitante. Do jeito que as coisas iam, parecia que eu ia ficar na casa dos Everett por mais um tempo ainda.

— Você voltou tão tarde na sexta à noite — disse ela. — Nem ouvi você chegando.

— Estava no trabalho.

— Até tão tarde assim? Acha mesmo que seja uma boa ideia, Annabel?

— Correu tudo bem. Eu precisava terminar umas coisas, só isso. E eles vão me pagar algumas horas extras, por isso vou trabalhar hoje de manhã também.

Irene fez um ruído que poderia significar uma desaprovação.

— Então, é melhor tomar um bom café da manhã.

Ela encheu meu prato com ovos e bacon. A gata começou a roçar a pata na minha perna, as garras prudentemente retraídas para não desfiar a meia. Ela miava de maneira estúpida e era provável que estivesse babando em mim também. Estiquei o braço na mesa e ela aninhou a cabeça na palma da minha mão.

— Onde está Sam? — perguntei.

Naquele instante a porta dos fundos se abriu e Sam entrou, ofegante, limpando seus tênis no tapete.

— Não sabia que você corria — falei.

— É a primeira vez… em muito tempo… Não é nada fácil — respondeu ele. — Sobrou um pouco de chá?

Servi-lhe uma xícara e ele se sentou à minha frente na mesa da cozinha. Irene também colocou um monte de comida no seu prato e ele acrescentou um esguicho de ketchup por cima.

— É como fazer um esforço inútil — disse ele, com a boca cheia —, sair para correr e depois me encher de comida.

— Acho que sim.

Discretamente, a gata transferira seu afeto para Sam, rondando em torno de suas pernas com delicadeza, seu rabo retorcido na forma sensual de um ponto de interrogação. Sam fez uma pausa, dando-lhe dissimuladamente um pedaço de bacon, quando Irene estava virada para a pia.

— Acho que essa gata esqueceu que nós morávamos juntas — ressaltei.

— Não seja boba — protestou Sam. — Ela está feliz porque sabe que você está bem aqui, que se sente segura e está se recuperando, só isso.

Ela fica feliz sempre que alguém lhe dá bacon e faz carinho atrás da sua orelha, pensei. Mas quem poderia culpá-la por estar zangada comigo? Eu a ignorara por vários dias. Ela deve ter se sentido completamente abandonada. Era um milagre que ainda ficasse por perto.

— Então, para onde você está indo?

Por mais legal que fosse ter um lugar onde ficar, com pessoas atenciosas que se importavam em saber onde eu estava e a que horas voltaria, que cozinhavam e preparavam chá para mim, eu estava começando a me sentir como uma adolescente.

— Só estou indo trabalhar — respondi, comendo um pedaço de bacon e tentando contornar a necessidade de estabelecer uma conversa.

— Ahn? — A postura de Sam passou do desleixo a um estado de alerta num segundo, farejando uma reportagem por cima do forte aroma salgado de seu café da manhã com ketchup. — Você vai trabalhar num domingo?

Respirei bem fundo. Como poderia fazer isso parecer menos emocionante?

— Na verdade, não. Só vou fazer hora extra. Atualizar algumas planilhas. Ficar a par das coisas. Já que volto a trabalhar em breve.

— Se eles querem que faça hora extra, então com certeza alguma coisa está acontecendo. Mas sei que eles não têm nenhum dinheiro sobrando para pagar horas extras. O que aconteceu? É a investigação? Acharam mais um?

— Sam — disse Irene —, pare de atormentá-la. Annabel diga a ele para cuidar da sua própria vida se a estiver incomodando.

— Ele é jornalista — respondi. — Meus interesses são interesses dele. Infelizmente.

— Levo você até lá — ofereceu ele. — E pode me ligar quando tiver acabado. De qualquer maneira, tenho que ir até o centro.

— Pode demorar séculos — argumentei, pois não queria ter a responsabilidade de deixá-lo esperando sentado ao volante. — Posso ir sozinha.

Mas ele acabou rapidamente seu café da manhã e, assim que peguei minha bolsa e meu casaco, ele havia tomado uma ducha e já estava na sala, pronto, seu cabelo preto penteado para trás. Ele parecia tão ansioso e empolgado que cedi e o segui até seu carro.

* * *

Para minha surpresa, o escritório não estava vazio como na sexta-feira à noite. Três mesas estavam ocupadas, e vi Paul Moscrop dentro de seu cubículo envidraçado, no canto da sala. Todos falavam ao telefone e outro aparelho tocava numa das mesas. Por um breve momento pensei em atender, mas resolvi que era melhor não. Eu me sentei na minha cadeira e liguei o computador. Mais uma surpresa. Já tinham os resultados das contas telefônicas que eu identificara, que haviam sido encaminhados pelo inspetor chefe, que os recebera de Keith Topping.

Paul saiu de seu escritório no instante em que eu começara a abrir os anexos.

— Ah! Annabel! — exclamou ele. — Que bom ver você outra vez. Já deu uma olhada nos resultados?

— Estou justamente verificando isso, senhor — respondi.

— Já falei para deixar o “senhor” para lá. Pode me chamar de Paul, ok?

— Ok. Obrigada.

— Verificamos também as linhas de celular, mas eram todos pré-pagos e não tinham registros. O que não nos surpreende. Mas as contas são bem interessantes.

Esperei até que me contasse tudo sobre aquilo, me perguntando se ele já havia analisado tudo antes de eu chegar.

Havia um sorriso oblíquo em seu rosto.

— Dê uma olhada e depois venha me dizer o que acha — concluiu ele.

Analisei os anexos, um de cada vez. E ele tinha razão: os resultados eram interessantes. Cada conjunto de contas telefônicas era a imagem espelhada daquelas obtidas dos telefones das outras vítimas. Em outras palavras, o criminoso estava usando somente um chip para cada vítima e não ligava para nenhum outro número. Após a morte de cada uma delas, presumivelmente, ele jogava fora aquele chip e passava a usar outro. Os números de telefone não eram sequenciais, sugerindo que ele os comprara em dias e locais diferentes, e não todo um lote. E como o fluxo de chamadas era tão incipiente, acabava sendo improvável que o crédito do pré-pago tivesse chegado ao fim, antes de ser descartado — ele só usava o crédito gratuito que vinha com o chip — e, com certeza, isso era mais do que suficiente para seus propósitos.

Os dados do site da empresa indicavam para todos os telefones locais no centro de Briarstone — excluindo a área residencial. Caso não morasse bem no centro da cidade, ele então só usava o telefone quando estava por lá.

Era uma pessoa metódica. E esperta, também. Mas então notei algo, levando um susto que me fez engasgar. Não era possível — não era possível que tivesse deixado passar algo tão óbvio.

Eu me levantei, apesar das minhas pernas surpreendentemente bambas, e fui até o escritório de Paul. Ele havia deixado a porta aberta e, desta vez, seu sorriso oblíquo estava amplo e radiante.

— Você viu?

— Não consigo acreditar que ele possa ter sido tão esperto e tão descuidado ao mesmo tempo — falei. — Ele trocou os chips várias vezes, mas só usou um aparelho.

— Não se trata de ser descuidado — replicou ele. — Temos que ser justos com o pobre coitado. Hoje em dia, as pessoas não têm mais telefones baratos. Elas compram smartphones, iPhones, BlackBerries. Por isso, não são assim tão fáceis de descartar, ou melhor, são tão caros que as pessoas não querem jogá-los fora. Elas pensam que jogando o chip fora quando não precisam mais dele estão apagando todos os vestígios, mas evidentemente nós sabemos que não.

— Então você solicitou os dados desses outros números? Os outros chips que ele usou nesse telefone?

— Foi a primeira coisa que fiz hoje de manhã. Enquanto esperávamos os resultados, ficamos verificando o usuário deste único aparelho.

— E aí? — Prendi a respiração.

— O telefone pertence a um Sr. Colin Friedland, que reside em Briarstone.

— Ele registrou o telefone?

— Faz cinco anos que ele tem conta com esse provedor. Com certeza é um cidadão honrado, este Sr. Friedland. Já estou gostando dele.

Se havia registrado o telefone, devia ser estúpido, completamente ingênuo ou realmente acreditava que não tinha nada a esconder. Ou talvez, quando registrou o telefone, ainda não praticasse suas atividades atuais — podia ser algo recente. Eu me perguntei se ele sequer estava ciente de que, ao manter uma conta com o mesmo provedor de serviços, todo seu empenho de trocar os chips tinha sido em vão.

O inspetor chefe esfregou as mãos.

— Acho que merecemos uma xícara de chá, não é? Eu preparo. Qual você prefere?

Ele não preparou nada, é claro. Não tinha mais leite. Ele me levou até a cantina, que normalmente ficava cheia, mas que num domingo acolhia somente alguns policiais de plantão que saboreavam sanduíches de bacon, antes de voltar para as ruas do centro da cidade. Pegamos café na máquina e nos sentamos com eles, num silêncio ligeiramente desconfortável.

— Não consigo parar de pensar em Eileen Forbes — disse ele.

— Em Eileen? Por quê?

— Foi apenas questão de algumas horas, só isso. Se estivéssemos levando isso a sério, se tivéssemos sido um pouco mais rápidos para seguir a pista… Eu fico pensando se teríamos conseguido salvá-la.

Balancei a cabeça.

— Duvido. Acho que ela já havia passado desse ponto muito tempo antes. E era óbvio que ele tinha algum tipo de controle sobre sua mente desde o momento em que se encontraram. Vocês não conseguiriam mudar isso.

— Nós salvamos você.

Não respondi. Pensei em Sam, me perguntando se ele também achava isso.

— Como vão as coisas em casa? — perguntou ele, por fim.

— Bem — respondi, sem querer ter que dar uma longa explicação sobre como eu acabara indo morar com um repórter do Chronicle que conhecera só uma semana antes. E com seus pais. E minha gata.

Pude perceber que estava pensando em outra pergunta para mim. Examinando-as detidamente, antes de descartá-las: namorado? Não, muito pessoal… Se está tendo algum suporte por parte da família? Pode fazê-la chorar… Filhos, animais de estimação? Igualmente…

— Parece que parou de chover — comentei.

— Verdade — replicou ele, visivelmente aliviado. — É uma pena ter que ficar trancafiado aqui dentro.

Então, seu telefone tocou, alto o bastante para me sobressaltar.

— Eles o pegaram — disse Paul, ao encerrar a ligação. — Estão a caminho, agora.

Até então, eu sentira apenas a excitação de estar envolvida numa investigação em sua fase de captura do suspeito, algo que nunca fizera antes. Mas naquele momento havia outra coisa — alívio? A sensação de que estava terminado, de que eu estava acordando de um longo sono e minha vida poderia recomeçar.

Levamos nossos cafés de volta para a Sala de Operações.

Depois disso, os telefones não pararam de tocar. Agora que o caso estava quase elucidado, outros inspetores ligavam para Paul oferecendo ajuda, tentando sondar de que modo eles poderiam surrupiar um pouco do crédito de uma investigação que tinha potencial para chamar bastante atenção. Havia muito o que se ganhar com aquilo. Toda vez que Paul desligava o telefone, ríamos um pouco, relembrando como ninguém havia demonstrado interesse algum antes e agora, de repente, nossa investigação era a coisa mais importante em Briarstone. Não mencionei que estava trabalhando nesse caso havia algum tempo, antes que qualquer outra pessoa demonstrasse o menor interesse. Inclusive ele.

— Então, o que vai acontecer agora?

— Ele ficará preso enquanto fazemos uma busca em sua casa, correndo contra o tempo. Keith e Simon serão os responsáveis por colher as primeiras informações. Quando voltarem aqui faremos uma reunião para conversar sobre qual estratégia usar no interrogatório.

— Há algo que eu possa fazer?

— Você pode ir para casa.

— O quê?

— Annabel. Você foi absolutamente essencial durante toda a investigação, e sabe disso. Mas também foi uma vítima. Na verdade, não deveria ter voltado aqui enquanto estava de licença. É culpa de Frost, na realidade. Ele não sabia o que fazer com todas aquelas contas, comentou isso com Kate e ela resolveu falar para você.

— Estou feliz que ela tenha decidido fazer isso. Estou mesmo.

Fiquei engasgada, repentinamente, como se estivesse sendo dispensada.

— Não teríamos conseguido nada sem você — disse ele, com gentileza. — Mas agora precisamos que você se afaste da investigação, caso contrário, se permanecer na equipe isso pode ameaçar sua continuidade, entende o que quero dizer? Se conseguirmos levar o caso à procuradoria, você será uma testemunha fundamental. Está entendendo aonde quero chegar?

Ele estava certo. Eu sabia que estava. Mas ainda assim me sentia como se tivesse sido jogada para fora da pista. Muito bem, Annabel, obrigado por ter resolvido todo esse maldito caso para nós, agora, caia fora, volte para o seu emprego civil, que é o seu lugar.

— Você não vai poder me contar nada sobre o interrogatório? O que ele vai dizer?

Ele negou com a cabeça.

— Sinto muito. Tem que ser assim. Mas você entende, não é?

— Claro — respondi, sentindo as lágrimas brotarem e me afastando antes que ele percebesse. — Obrigada, mesmo assim. E boa sorte.

Ele começou a dizer mais alguma coisa, mas eu não podia esperar. Vesti o casaco enquanto desligava o computador. Quando acabei, ele estava no telefone novamente e consegui acenar para ele pela divisória de vidro, depois segui pelo corredor até o banheiro, onde meus soluços começaram.