Restos Humanos

Elizabeth Haynes · Capítulo 42 de 52

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Restos Humanos

Colin

 

UMA LONGA NOITE PASSADA SENTADO NUMA cadeira de plástico amarela fixa ao chão trouxe enfim sua recompensa. Fui obrigado a observar pessoas entrando e saindo horas a fio. Vi brigas, desentendimentos, cinco mulheres em momentos diferentes caindo no chão — um coquetel com álcool, saltos altos e as calçadas de pedras da Market Square — e a polícia chegando em uma viatura para conter o tumulto e dispersando as pessoas, depois, circulando pela praça vestindo seus coletes fluorescentes, afastando os curiosos e ajudando mulheres bêbadas a ficar em pé novamente.

E por fim, vejo Audrey e suas amigas saindo do Luciano’s. Faltam dez para meia-noite — não era tão tarde assim, mas tarde o bastante. Minha bunda está quase dormente. E ainda sinto o gosto horrível do café na boca.

Saio dali prometendo a mim mesmo nunca mais pôr os pés naquele lugar, respirando o ar gelado do lado de fora. Enrolo meu cachecol no pescoço e na parte inferior do meu rosto, coloco a toca preta de lã na cabeça para mantê-la aquecida e, também, por causa das câmeras de segurança que neste momento estão atentas à multidão aglomerada na praça.

Audrey e uma amiga estão indo para o ponto de táxi e sua inevitável fila.

Sigo para o edifício-garagem onde deixei o carro e levo alguns minutos para fixar a placa que retirei ontem do Volvo de Garth, na rua atrás do escritório. No caso de alguma coisa não funcionar como o previsto.

Dirijo lentamente até chegar ao ponto de táxi, bem a tempo de ver Audrey se despedindo da mulher loura, pois não ia esperar na fila por um táxi. Ela vai andando. Sinto um frêmito de emoção. Tudo está saindo tão bem, tão perfeito. Não poderia ter planejado melhor. Viro à esquerda e estaciono numa rua perpendicular. A excitação e a perspectiva do que poderá acontecer mais tarde atrapalham minha concentração, então olho para o relógio no painel do carro e me obrigo a esperar cinco minutos. Depois, ligo o carro outra vez e volto à rua principal. Ainda está movimentada e os postes de luz iluminam o caminho dela. Deve se sentir segura, caminhando para casa, com carros e pessoas passando o tempo todo. Ela não se sente só. Não se sente ameaçada, nem um pouco — o que é muito bom. É ótimo.

Paro o carro ao lado dela e abro o vidro do carona.

— Audrey!

Ela interrompe a caminhada, olha para mim, para o carro. Sua fisionomia revelando uma ébria confusão. Ela está mais bêbada do que eu pensava. O que também é muito bom.

— Colin?

Ela se aproxima do carro e se inclina um pouco na janela do lado do passageiro.

— Quer uma carona? — pergunto.

O carro está aquecido e posso sentir o ar frio entrando pela janela aberta. Ao se curvar na minha direção seu decote exibe as formas dos seios. Eu me obrigo a restabelecer contato visual e abrir um sorriso tranquilizador para ela.

— É muita gentileza sua, mas estou perto de casa.

— Vamos, eu faço companhia para você no restante do caminho. Entre.

É a confiança e a simples cordialidade que funcionam. A ausência de explicação. Não implore. Trate como algo simples. Suponha um consentimento. E além de tudo isso, os sapatos estão machucando seus pés, ela está tremendo por causa do frio lá fora e o que poderia acontecer se estivesse com alguém conhecido a menos de um quilômetro da porta de sua casa?

Ela está cheirando a vinho, vestígios de um perfume cítrico e suor seco; e eu inalo sua fragrância do modo mais sutil que sou capaz, tentando manter uma conversa tranquilizadora.

— Então, como vão as coisas com Vaughn?

— Nós terminamos — responde ela.

— É mesmo? Ah, que pena. Ele não comentou nada.

— Não, ele se recusa a aceitar.

— Mas o que houve?

Ela olha pela janela enquanto reduzo a velocidade para parar no sinal fechado.

— Ele simplesmente… não é a pessoa certa para mim. Não que tenha feito algo errado. É um cara decente.

— Mas está na hora de seguir em frente?

Nesse momento, ela sorri para mim por um segundo, apenas por um segundo. Eu hesito. Essa é a coisa certa a fazer? Ainda poderia escolher outro caminho. Poderia deixá-la em casa, dar-lhe o número do meu telefone, desejar-lhe um bom fim de semana e perguntar se gostaria de sair comigo um dia desses. É assim que eles fazem, não é? Não são essas coisas que as pessoas dizem?

— É — disse ela. — Hora de seguir em frente.

Estendo a mão e toco em seu joelho. Só no joelho, não acima dele, mas ainda assim, ela se afasta, protegendo-o desajeitadamente.

— O que pensa que está fazendo, Colin? — Sua voz subiu uma oitava. — Sei que estou um pouco bêbada, o que não quer dizer que você pode se aproveitar disso, ok?

Sinto uma golfada de raiva e a bílis subindo no meu esôfago. Audrey, como você pôde? Estragou tudo assim tão rapidamente?

— Não estou me aproveitando. — Reajo com frieza. O sinal de trânsito está fechado, brilhando dentro do carro, deixando tudo avermelhado no seu interior.

Então ela se acalma.

— Ok. Desculpe se minha reação foi exagerada. Tenho andado meio nervosa. Pode virar na próxima à esquerda, bem ali no alto da ladeira.

Olho para ela, inalando seu aroma outra vez. É o momento decisivo, bem ali, bem naquele momento. Ainda podia deixá-la em casa, sem danos. Sem risco. Ou poderia pegá-la agora e seguir em frente com aquela jornada. E sua atitude, o desafio em seus olhos, me fazem a desejar isso ainda mais. Ela resistiria com força, sem a menor dúvida. Mas extrair uma reação física dela seria tão melhor, tão mais divertido do que observar gente morrendo sem a menor vontade de reagir.

Ela olha para mim, bêbada mas desafiadora, quase me provocando a tentar.

O sinal fica verde e o carro avança ladeira acima.