Restos Humanos
Colin
EU ESTAVA COMENDO CEREAIS E LENDO em voz alta as piadas da última página do meu exemplar anual da revista em quadrinhos Beano de 1982 quando meu pai colocou as mãos no peito e caiu morto no chão da cozinha.
Hoje, olhando para trás, quase parece engraçado, mas acredito que foi nesse momento que minha vida tomou outra direção. Meu pai era o tipo de pessoa para quem se pode ler piadas. Ele passava os domingos consertando o carro e eu o ajudava, aprendendo onde se encaixava cada peça e para que elas serviam. Ele ria um bocado e, juntos, nós ríamos ainda mais da minha mãe, que era magra, séria e amarga.
Depois que ele morreu, nunca mais fui capaz de ler a Beano. Também nunca mais fui capaz de rir de verdade.
* * *
É sinistro sentir-se desta maneira na manhã de uma segunda-feira. Outras pessoas estão com ressaca, as da minha idade; ou passaram o fim de semana acampando, ou trepando com a namorada. Ou trepando com a namorada de alguém. Eu passei o fim de semana escrevendo um ensaio e fiquei acordado até tarde, à base de uísque e pornografia. Em consequência disso, estou com dificuldade para me concentrar nos orçamentos.
O problema é que não tenho mais certeza se ainda quero uma namorada. Gosto da minha vida do jeito que ela está, cuidadosamente em ordem. Gosto da minha casa do jeito que ela é. Não chego a ser asseado de forma patética — nenhum psicólogo que viesse aqui se preocuparia com minha sanidade —, mas acho que seria desagradável se tivesse que arrumar lugar para as coisas de outra pessoa. Minhas roupas conhecem o caminho até o armário. Os livros, até as estantes. A comida, até a geladeira. Não, não estou a fim disso. Não tem espaço na minha casa. Eu também não acho que tenha espaço dentro da minha cabeça.
Apesar disso, seria legal pelo sexo.
Garth, mais uma vez, não tomou banho nesse fim de semana. Ele fica na outra extremidade do escritório, mas, mesmo assim, de vez em quando consigo sentir o cheiro dele. Por mais que me esforçasse para pensar em coisas mais alegres, não conseguia me impedir de respirar na sua direção, aspirando o ar incessantemente, incapaz de acreditar que aquele odor possa vir de um adulto normal com um emprego remunerado. Ele remove restos de comida dos dentes, acompanhando com o som de seu nariz fungando, e embora isso me dê náuseas, eu me surpreendo olhando para ele, observando-o extirpar alguma coisa de trás dos molares com um dedo audacioso e me perguntando o que ele deve ter comido que ficou assim tão grudado nos dentes. Seus dedos também estão sujos de tinta, como um aluno do jardim de infância e, embora deteste esse cara, embora cada segundo na sua presença seja uma tortura para meus sentidos, sinto um terrível fascínio por ele — uma inextinguível curiosidade: como alguém tão repulsivo pode subsistir no mundo moderno?
Atrasada, Martha chega rebolando. Sapatos novos, eu notei — o terceiro par este mês, pelas minhas contas.
— Bom dia, Colin. Foi bom o fim de semana?
Ela não quer mesmo saber, é claro. Levei um tempo para me tocar que aquela era uma pergunta retórica, um ritual das manhãs de segunda-feira. Nas primeiras vezes em que ela me perguntou, eu lhe contei demoradamente o que havia feito no fim de semana, editando com cuidado detalhes que até eu sabia que não eram adequados para serem partilhados com uma colega. Após um instante, ela já estava distraída. Depois disso, parou de me perguntar e, só recentemente — acho que foi quando outra pessoa me perguntou a mesma coisa e recebeu uma resposta breve — ela recomeçou com o ritual de segunda-feira.
— Ótimo, obrigado. E o seu? — Com certeza o meu tinha sido agitado, especialmente a noite de sexta-feira, mas é claro que eu não ia lhe dar detalhes.
Ocasionalmente, eu a ouvia contando para um dos outros colegas como fora seu fim de semana — tinha praticado kitesurf, se bronzeado ao sol, viajado, ido a uma festa, jogado futebol, visitado o primo ou feito paisagismo no jardim —, porém sua resposta para mim era sempre a mesma.
— Foi ótimo, obrigada.
Vaughn me enviou um e-mail querendo saber se eu gostaria de almoçar no Red Lion. Sinto vontade de perguntar se ele quer ir agora; duvido que as coisas fiquem mais animadas por aqui nas próximas três horas. É triste pensar que passar meia hora num pub sombrio e bolorento ao lado de uma usina de gás como Vaughn Bradstock seja tão animador.
* * *
Quando chego ao Red Lion, vinte minutos mais cedo, ainda não é meio-dia, e Vaughn já está na nossa mesa habitual no canto, com uma caneca de cerveja John Smith’s esperando por mim. Vaughn e eu trabalhamos juntos muitos anos atrás. Ele era fornecedor no departamento de tecnologia de informação do conselho municipal e, por alguma razão, nossa amizade perdurou mesmo quando ele se ocupou com outros projetos. Tinha desistido daquele emprego em troca da segurança de algo mais estável, e agora trabalha em uma empresa de software no centro da cidade. Convenientemente próxima ao Red Lion.
— Colin — disse ele, pronunciando meu nome sem emoção, ao constatar minha chegada.
— Vaughn — respondi.
Ele quer falar sobre sua namorada outra vez. Normalmente é isso, ou filatelia.
Eu me preparo para escutar com alguns bons goles de cerveja, me perguntando se é cedo demais para pensar numa dose de uísque para acompanhar. Enquanto isso, Vaughn começa a resmungar, dizendo que talvez sua namorada esteja tendo um caso. Penso em lhe dizer que ela já não é mais tão jovem, portanto, isso não é meio improvável? Mas ele está convencido de que ela está mentindo sobre alguma coisa. Ele está sentado com a cabeça abaixada na direção da caneca de cerveja, ponderando se é uma boa ideia levá-la no seu trailer para Weston-super-Mare.
Minha mãe me levou para Weston-super-Mare de férias, no verão após a morte de meu pai. Ficamos numa casa de hóspedes a três ruas da praia; perto o bastante para ouvir as gaivotas, mas não o suficiente para escutar o mar. Eu estava com quase treze anos e já me sentia um tanto desajustado. Eu lia Eliot e Kafka e assistia aos documentários da BBC. Ficava acordado até tarde e levantava de manhã cedo para assistir aos programas da Open University. Naquela época todos tinham barba e usavam calças boca de sino. Minha mãe queria que eu construísse castelos de areia e brincasse no mar, queria me ver rindo. Acho que não ri sequer uma vez todo o tempo que passamos lá. Eu me sentava à sombra e ficava lendo até ela arrancar meus livros. Então, eu continuava sentado à sombra, tentando não olhar para as garotas na praia.
— Weston-super-Mare provavelmente é uma má ideia — falei.
Finalmente, fiquei com pena do coitado do Vaughn e lhe contei sobre reações córtico-límbicas e sugestões não verbais, pobre sujeito.
— Que porra é essa de reação córtico-límbica? — perguntou ele e, antes que eu pudesse responder, disse: — Ah, não! Por favor. É aquela droga de curso que você está fazendo, não é?
Pobre Vaughn: ele gosta de pensar que é intelectual porque lê o Guardian e bebe café javanês nos fins de semana.
— É um jeito de saber se alguém está mentindo para você — explico. — Você examina a linguagem corporal, as insinuações visuais, as reações autônomas, esse tipo de coisa. Você pode achar graça, mas o curso é realmente fascinante.
Ele parece pasmo.
— Muito bem — prossigo. — Vamos tentar uma pequena experiência. Vou fazer três perguntas e quero que você minta deliberadamente numa das respostas. Vamos ver se eu sei dizer quando está mentindo. Se eu acertar, você me paga mais uma cerveja. Se eu errar, pago suas bebidas durante um mês. Topa?
— Ok, vamos lá, então — responde ele.
Tenho a impressão de que ele está um pouco mais animado. Está rindo, mas nem sempre confio nos meus instintos quando se trata de Vaughn. Até onde sei, ele pode muito bem ter tendências suicidas. Sou conhecido pelos meus equívocos. Afinal de contas, Eleanor sorriu para mim àquela noite, não foi? E veja só como acabou.
— Então, está certo — digo. — Vamos ver. Tente se lembrar do seu quarto quando era adolescente. Imagine como ele era. Agora, quero que o descreva para mim, como se estivesse olhando da porta. O que você vê?
— Deixe eu pensar. Acho que é o dormitório que eu dividia com Roger Hotchkiss em St. Stephen. Vejo duas camas, uma em cada lado do quarto; a minha bem arrumadinha, a de Hotchkiss ainda bagunçada, é claro. Há um armário ao pé de cada cama, mais perto da porta… Há também uma janela bem à minha frente, que dá para a cozinha. E uma mesa grande abaixo da janela. Estantes de livros sobre as camas. Não eram permitidos pôsteres.
Ele faz uma breve pausa, pensativo, com o dedo sob o queixo, olhando para o alto, à esquerda. Vai ser fácil.
— Só isso?
— Não consigo me lembrar de mais nada.
— Ok, então vamos para a pergunta seguinte: que som faz o seu celular quando toca?
— O som padrão, eu acho. Não gosto que nada mais elaborado me perturbe.
Essa foi um pouco mais rápida, mas ainda consigo captar a indicação de que está dizendo a verdade. Aliás, sei que é verdade porque sua resposta me lembra de já ter escutado seu telefone tocar no pub uma vez. Será que estou subliminarmente tentando trapacear? De qualquer maneira, a próxima pergunta é que importa.
— Muito bem, a última pergunta. Conte sobre sua volta para casa ontem à noite. Você foi direto para casa? Chegou que horas?
Apenas uma ínfima hesitação, um leve piscar de olhos e a cabeça se inclinando para a direita, mas já era o bastante. Quando começa a falar, ele chega a elevar o tom. Muito fácil, fácil demais.
— Não fui direto para casa, não. Parei no Co-op e comprei algumas salsichas e batatas para o jantar. Provavelmente cheguei em casa… hum, por volta das seis e quinze.
Eu me encostei na cadeira e bebi o resto da minha caneca. Pressionei os dedos nas têmporas e fechei os olhos, respirando fundo e ruidosamente pelas narinas, como se algum processo psíquico estive ocorrendo.
— Sua última resposta não foi totalmente verdadeira — digo, por fim. — Embora eu ache que a mentira foi bem disfarçada. Você chegou mesmo em casa às seis e quinze, portanto, muito provavelmente parou em algum lugar. De fato, passou no Co-op, mas o que quer que tenha comprado, não foram batatas nem salsichas. Estou certo?
Ele balança a cabeça e, por instantes, me pergunto se me enganei, ou se ele vai tentar disfarçar para sair dessa.
— Uma garrafa de vinho Zinfandel e um iogurte de caramelo — disse ele com a voz suave.
— Mais uma caneca de John Smith’s — falei.
* * *
Depois de voltar para casa, fiquei acordado até bem tarde de novo: mais uma vez, uísque demais e, mais uma vez, pornografia inútil e uma masturbação frustrada no final. Como eu disse, uísque demais. Quando voltei da minha visita, mais cedo, comecei a ler alguma coisa proveitosa — biologia forense, neste caso, um tópico infinitamente fascinante — depois, passei a ler algo proveitoso, mas era provável que não da forma pretendida pelos autores, e em seguida, algo que é improvável que seja proveitoso, exceto para o saldo bancário de algum esquálido produtor de filme pornô no Leste Europeu. Não que eu pague por isso, é óbvio.
Ainda estou me sentindo bem satisfeito comigo mesmo. Vaughn ficou tão impressionado com meu show de genialidade que me pediu para lhe contar como eu fizera aquilo. Expliquei sobre sugestões não verbais, como observar os olhos das pessoas para criar um conceito visual, em oposição às recordações, como identificar sinais de desconforto, e como cada uma das pequenas sugestões se soma às outras, formando uma imagem incontestável. Assinalei que, quando ele estava pensando na resposta para minha última pergunta, seus olhos haviam se virado para a direita, um sinal seguro de conceito visual, seguido por uma olhada para a esquerda, indicando que também haveria alguns elementos da lembrança no que diria. Isso me mostrou que ele estava planejando enquadrar sua mentira em torno de certos elementos verdadeiros. Além disso, ele pareceu desconfortável quando me preparei para fazer a última pergunta, a tensão nos ombros, o jeito de se mexer na cadeira — afastando-se ligeiramente de mim, notei — e sua respiração, me garantindo que ele havia me contado a verdade nas duas primeiras respostas e sabia que seria preciso agora incluir alguma mentira. Quando ele me contou o que comprou, as salsichas e — o que mais? — as batatas, foi isso — salsicha com purê, o que poderia ser mais apropriado? — ele umedeceu os lábios rapidamente com a ponta da língua e, depois, esfregou os dedos na boca. Um gesto natural, é claro, e em qualquer outro contexto poderia ter se tratado apenas de uma coceira, uma fungada, uma migalha de pão. Mas foi o que confirmou a mentira.
Eu lhe disse tudo isso, e é claro, sugeri alguns elementos que ele poderia observar na próxima vez em que Audrey e ele estivessem conversando sobre assuntos indelicados. Fiz o que pude para não imaginar Audrey porque, sempre que faço isso, me surpreendo visualizando-a nua e, a partir desse ponto, basta um curto passo para começar a imaginar Vaughn pelado também, e os dois fodendo sem parar, um casal feliz fazendo papai e mamãe, se é que isso existe. Apesar de meus grandes esforços, ainda assim acabo levando o pensamento até o final, quando Vaughn, de repente, fica rígido e solta um berro, gritando de um modo que nunca o ouvi gritar no escritório, e tampouco no pub.
Eu me senti bem imundo após esse pequeno lapso de concentração e tive que me levantar da cama às quinze para as três da manhã para tomar outra ducha.
* * *
Certa vez, Martha me perguntou sobre meus pais. Eu devia estar me sentindo comunicativo naquela ocasião em particular, ou então deve ter sido uma dessas situações em que se recusar a responder provavelmente pareceria rude; de qualquer maneira, contei para ela como meu pai havia morrido, quando eu tinha onze anos.
— Coitadinho — disse ela. Eu me perguntei se deveria me sentir ofendido, mas então entendi que ela estava se referindo à idade que eu tinha na época. — Deve ter sido incrivelmente traumático perder o pai numa idade tão difícil.
Não entendi o que quis dizer com idade difícil e, realmente, tampouco o que sugeria com a palavra traumático.
— A vida continua — falei, encolhendo os ombros.
— Claro, mas ainda assim… É uma pena.
— O vivente é só uma espécie de morto, e uma espécie muito rara.
— Isso parece uma citação, Colin. Quem disse isso?
— Eu disse. Quer dizer, para ser justo, estou parafraseando Nietzsche. Supus que você ia preferir ouvir em inglês, e não no original em alemão.
Ela me acha esquisito; todos acham. Isso aconteceu no início, quando comecei a trabalhar no conselho municipal — na época, todos eram muito falantes. Agora, percebo que me excluíram e evitam conversar comigo, a menos que as circunstâncias os obriguem. Mesmo assim, parecem me olhar com cautela. Tenho a impressão de que Martha me vê como um desafio pessoal, ou algo parecido.
O enterro do meu pai foi realizado num sábado, para permitir que seus colegas de trabalho pudessem comparecer. Houve um debate considerável sobre minha presença no evento. Lembro-me de ter ouvido por alto uma conversa entre minha mãe e sua amiga, alguns dias antes.
— Você sabe como ele é — dizia minha mãe. — Ele pensa demais nas coisas.
— Mas ele é quase um adulto, Delia. Pode ser bom para ele passar a encarar as coisas de frente.
No fim, minha mãe cedeu — o que também pode ter sido devido à falta de uma babá para ficar de olho em mim. Como acabou sendo uma ocasião tremendamente dramática, agradeço até hoje por ter tido a oportunidade de comparecer.
Eu não tinha roupa adequada, então vesti o uniforme da escola, inclusive o paletó e o boné. Era um dia quente, com o sol batendo forte incessantemente e, é claro, a multidão que compareceu estava toda de preto. Minha mãe chegou até a vestir seu casaco preto, aquele com a gola de vison que meu pai comprara para ela em Nova York. Todos transpiravam a caminho da igreja, sentiram algum alívio durante a missa e, depois, voltaram a transpirar lá fora, durante o sepultamento. Em meio a um tédio imenso, fiquei assando e suando — minha camisa estava encharcada sob o paletó. Fiquei ao lado da minha mãe e pensei em algo que tinha lido: como o corpo de Henrique VIII ficara tão inchado por causa dos gases de decomposição, enquanto estava sendo transportado de Whitehall para Windsor, o caixão acabou se abrindo durante a noite. Na manhã seguinte, eles encontraram cães se alimentando do rei. E isso foi no inverno! Como ficaria o corpo do meu pai, considerando que estávamos no ápice do verão? Pensei que seu corpo, mantido refrigerado por quase três semanas à espera do resultado da autópsia e do inquérito, poderia realmente ainda estar congelado, descongelando lentamente dentro daquele caixão, como um sorvete de chocolate derretendo. Senti vontade de tocar na madeira, para ver se estava fria. Enquanto o vigário continuava sua cantoria, dei um passo na direção do caixão, que estava sobre um canteiro de grama sintética, dessas que vemos em barracas de feiras inglesas. Minha mãe, que deve ter entrado em pânico com meu movimento súbito, estendeu a mão para me segurar pelo ombro e tropeçou no chão irregular. Com isso, ela me derrubou e nós dois acabamos deitados a poucos centímetros do túmulo aberto. O choque que aquilo provocou, ou talvez o calor excessivo e seu casaco ridículo, ou quem sabe as doses de gim que ela tomara mais cedo para se fortalecer, tendo em vista a provação que a aguardava, a fizeram vomitar, enquanto as pessoas se apressaram para ajudá-la a se reerguer. Não consegui segurar o riso, aquelas pessoas sendo aspergidas pelo vômito, enquanto levantavam minha mãe. Alguns dos presentes começaram a se sentir enjoados. E o rosto do vigário…
Este foi o principal assunto no velório que se seguiu. Todas as opções concebíveis foram levadas em consideração: minha mãe desmaiara e eu tentara segurá-la; ela se sentira mal de repente e caíra em cima de mim; estávamos ambos tão abatidos pela dor que tentamos nos atirar dentro da cova. Minha mãe, pálida e chorosa, reabastecendo sua corrente sanguínea com mais gim e se abanando com o missal, ficou de olho em mim no velório e, depois, nunca mais falamos sobre isso.
Briarstone Chronicle Março
Mulher morta levou “quase um ano” para ser descoberta, informou a polícia
O corpo de uma mulher foi descoberto ontem numa casa na rua Laurel Crescent, em Briarstone. Um porta-voz da polícia informou que o corpo estava em avançado estado de decomposição e foi encontrado no quarto nos fundos de uma propriedade isolada.
O imóvel era um dos vários na rua Laurel Crescent marcados para serem demolidos, e a polícia foi chamada após os operários perceberem que a residência parecia ainda estar ocupada.
A correspondência achada no endereço indicava que a falecida podia estar ali há quase um ano. O nome da pessoa encontrada não foi divulgado pela polícia e os investigadores estão tentando localizar parentes ou alguém que possa ter conhecido a mulher.
Judith
Meu nome é Judith May Bingham, e eu morri com noventa e um anos.
Até o final, tive medo de tantas coisas, o que pode parecer uma idiotice agora, porque, é claro, no final nada mais importa, nada mesmo tem a menor importância. Eu sentia medo das pessoas que moravam na casa ao lado, dos adolescentes que entravam e saíam quando bem queriam, batiam a porta e ficavam sentados do lado de fora da minha casa, na calçada, ou até mesmo sobre a minha cerca, até quebrarem. Passavam o tempo todo subindo e descendo a rua em suas motos, ou então fumando, bebendo latinhas, gritando e jogando coisas uns nos outros.
Eu estava com medo de ficar sem dinheiro e ser incapaz de comprar comida ou manter a casa aquecida.
Comecei a sentir medo de sair na rua.
Tinha medo da mulher da Assistência Social que veio me examinar certa vez. Ela me disse que tinha ouvido falar que eu poderia precisar de ajuda adicional. Eu lhe disse que não, mas ela não parava de falar e falar, até que eu pedi que fosse embora. Na verdade, eu a mandei ir se foder. Ela não estava esperando ouvir isso e tentou me repreender. Disse que tinha direito a um ambiente de trabalho agradável, assim como qualquer outra pessoa e que não havia necessidade de que eu fosse grosseira. Eu lhe disse que não havia necessidade, em minha própria casa, de ela falar comigo como se eu fosse uma imbecil, e que eu tinha lhe pedido para ir embora e ela me ignorara.
Naquela época, eu era corajosa — e quando ela se foi e tranquei a porta, morri de rir. Fazia muito tempo que eu não usava aquela palavra, e me senti bem. Era como se eu ainda fosse jovem.
Quarenta anos atrás, eu gerenciava um pub perto do cais. Era um lugar complicado. Havia noites em que praticamente ninguém entrava, e outras, quando um ou dois navios atracavam, em que o lugar transbordava de gente, algumas pessoas ficavam até na calçada. Tinha também umas garotas trabalhando lá. Quando meu marido Stan estava vivo, ele tentava fazer com que elas saíssem de lá, mas, na minha opinião, o dinheiro delas era tão merecido quanto o de qualquer outra pessoa. O que faziam para ganhar o pão de cada dia não era problema nosso nem de ninguém.
Havia brigas o tempo todo. Fazia parte dos planos deles quando desembarcavam — encher a cara, ficar com uma mulher, arrumar uma briga, curar a bebedeira e embarcar no navio na hora da chegada da maré. Quando tínhamos sorte, eles levavam suas desavenças para fora; se dávamos azar, uma cadeira qualquer e alguns copos seriam quebrados. Certa vez, um rapazinho foi esfaqueado. Foi horrível; mas ele sobreviveu. Ficou bem, depois. Com uma cicatriz.
Mas naquela época, nada me dava medo. Eu vivia um dia de cada vez e sabia que haveria dias ruins. Sabia que eu passaria por eles assim como tinha passado pelos dias agradáveis. Se há algo que não se pode deter é o passar do tempo.
Como disse, eu usava essa palavra o tempo todo, mas não tive oportunidade desde que me aposentei do pub. Até que a Sra. Prim e seus folhetos apareceram e tentaram me dizer o que fazer.
Algumas horas após sua visita, contudo, fiquei com medo. Medo de que ela voltasse com um formulário oficial ou alguma outra coisa que me dissesse que eu devia sair da minha casa, ir para um asilo. Eu teria preferido morrer a ir para um asilo. Pensei em arrumar as coisas, fazer algo para ter certeza de que não acabassem me levando dali, mas para isso seria preciso coragem e, na época, não me sobrara mais nenhuma.
Eu ia até o supermercado Co-op no final da rua duas vezes por semana para fazer minhas compras e aproveitava para passar no médico e pegar minhas receitas, mas, fora isso, eu nunca saía de casa. Fiz planos e mais planos para acabar com tudo outra vez, mas me parecia errado desistir e, além do mais, eu estava com medo de não fazer direito, do jeito certo. Mas, durante toda a vida, eu fiz minhas próprias escolhas, e pela primeira vez outras pessoas estavam começando a fazer escolhas por mim. Era contra isso que eu me opunha. Eu era uma mulher adulta, uma mulher velha e, enquanto eu ainda tivesse a cabeça no lugar, queria tomar uma decisão e deixar essa vida que se tornara tão exaustiva, tão vazia. Mas é claro que isso não aconteceu, não é mesmo? Se queria acabar com tudo, então eu devia estar doente, ou deprimida, ou outra coisa e, portanto, precisava de ajuda para encarar o problema, ajuda para encontrar novos meios de me divertir no mundo. É assim que os jovens veem as coisas, de suas posições de completa e extrema ignorância.
Queria que alguém me ajudasse. Queria alguém em quem pudesse confiar e que garantisse que daria certo e que eu não fosse deixada semimorta… que garantisse que eu não pudesse mudar de ideia.