Restos Humanos

Elizabeth Haynes · Capítulo 46 de 52

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Restos Humanos

Colin

 

O INTERROGATÓRIO CONTINUOU INTERMITENTEMENTE DURANTE TODO o dia. Entre uma sessão e outra, eu era levado de volta para a cela que já começava a considerar minha. No almoço, me deram uma bandeja com algo que parecia ser uma torta de carne e ervilhas de cor parda, provavelmente enlatadas, além de um copo plástico com água. Comi um pedaço da torta e logo me arrependi. O gosto continuará na minha boca ainda por muitas horas.

Eles me perguntaram outra vez se eu precisava de um advogado, pois tenho direito a um, o que obviamente eu sei, e disseram que conseguiriam um defensor público para mim, caso eu não preferisse algum específico. Novamente, eu disse que não precisava.

Na verdade, quase nada disso me incomoda, mas eu objeto à perspectiva de dormir numa cela de concreto em cima de um colchão plastificado, então perguntei educadamente por quanto tempo estavam pensando em me manter detido. O carcereiro me disse que provavelmente ficaria ali por pelo menos mais dezoito horas. Dezoito horas! Mesmo assim, não me faltam distrações. As celas adjacentes à minha parecem estar vazias, porém, mais adiante, posso ouvir gritos de reclamação vindos de bêbados que foram detidos. Eles querem me deixar com medo, dá para perceber. Mas não tenho nada a perder, nada mesmo — enquanto eles estão numa posição bem complicada. Especialmente no que diz respeito à cobertura que a imprensa tem feito do caso até o momento.

A única coisa que me preocupa um pouco é a pergunta que fizeram para saber se eu tinha contado a alguém sobre a morte de Rachelle. Será que não relatar uma morte é um crime? Eu me lembro vagamente de ter lido uma matéria sobre uma mulher que foi descoberta depois de ter guardado seus filhos natimortos no sótão de casa — e ela foi presa, é claro. Mas não foi ela quem os matou. Porém, relatar a morte é responsabilidade dos familiares, dos parentes mais próximos — não de um estranho fortuito que por acaso estava lá na hora.

* * *

Quando escureceu, estávamos no quarto interrogatório. Novamente com Topping e Lewis, a dupla de comediantes. Desta vez, trouxeram uma caixa de papelão com eles, que Lewis deixou na mesa, ao seu lado. Talvez tivesse alguns sanduíches ali dentro. Esperava que sim.

Já tínhamos percorrido a lista de nomes, e tive uma feliz surpresa ao descobrir que faltavam alguns. Eles ainda não descobriram todos. Gostei disso. Não importa o que acontecer aqui, meu legado ainda estará lá fora, como joias enterradas, esperando um arqueólogo as encontrar.

A cada interrogatório, era possível sentir que a confiança deles esmaecia e as dúvidas aumentavam. Se não pudessem me acusar de omitir uma morte, o que mais poderiam fazer? Eu não machucara ninguém. Exceto talvez por um toque delicado no braço, eu não encostara um dedo sequer em nenhum deles. E se quisessem tentar me acusar de assistir a um suicídio, bem — como poderiam provar isso?

— Colin — disse Lewis, com uma voz que parecia mais animada desta vez. Talvez tivesse concedido a si mesmo uma xícara de café forte no intervalo. Inspirei o ar à minha volta, mas só consegui sentir o odor corporal, e algo mais que deveria ser queijo e cebola.

— Inspetor Lewis — respondi.

Ele franziu as sobrancelhas por um breve momento, mas estava claro que não ia deixar meu humor estragar sua surpresa.

— Gostaria de perguntar sobre os celulares.

— Pois não.

— Você entregou um celular a cada um dos indivíduos dos quais falamos na última vez. Ou seja… — Ele procurou em suas anotações a lista sobre a qual tínhamos concordado e depois, percorrendo os nomes com o dedo, recitou-os em voz alta. — …Rachelle Hudson, Robin Downley, Shelley Burton, Edward Langton, Dana Viliscevina e Eileen Forbes. Correto?

— Correto.

— Quando esses indivíduos faleceram, você buscou os celulares em suas residências?

— Algumas vezes. Na maioria dos casos, acabava deixando-os por lá mesmo.

— Por que você fazia isso?

— Eu não precisava deles. Eram aparelhos baratos, de qualquer maneira.

— E como você fazia contato com essas pessoas enquanto estavam vivas? Você usava seu telefone pessoal?

— Exatamente.

— Segundo nossos dados, cada celular que você deixou com as vítimas recebia chamadas de um número de telefone diferente. O que tem a nos dizer sobre isso?

— Não são vítimas, Inspetor Lewis, são membros inocentes da sociedade que resolveram acabar com suas próprias vidas, nada mais.

— Você está ciente de que nós apreendemos seu celular, Colin?

— Estou.

— No momento, estamos efetuando uma perícia nesse telefone, que confirmará que você usou diferentes chips para cada vítima. Foi isso o que aconteceu?

Eu me surpreendi indagando rapidamente aonde queriam chegar com aquilo. E daí se descobrissem que usei chips diferentes para todos eles? Isso era importante? Que diferença poderia realmente fazer?

— Fiz isso, sim — respondi.

— E por quê?

Não respondi à pergunta, pressentindo que estavam desviando do ponto que devia ser abordado. A estupidez e a insolência deles, o cheiro opressor de seus corpos cansados, suados, das roupas que vestiam desde manhã, amarrotadas e desgastadas, me irritavam. Em casa, meu jantar esperava por mim, pronto, porém, não cozido: os legumes dentro de uma panela com água, no fogão, as finas fatias de salmão marinando no vinho e no limão, dentro da geladeira. Eles ainda não haviam conseguido nada com seus interrogatórios e isso porque ficamos ali o dia todo. O dia todo!

— Para ser justo, cavalheiros — falei —, consigo entender porque estão confusos. Nenhum de vocês jamais conheceu alguém como eu, não é? Não conheço mais ninguém que esteja tão à vontade com o conceito de morte quanto eu. Todas essas pessoas, e tantas outras por aí afora, que estão cansadas, doentes e deprimidas… e o que nós fazemos com elas? Pagamos tratamentos médicos demorados e invasivos às custas daqueles que cuidam dos nossos corpos e assim permanecemos em forma e saudáveis. Ou então simplesmente as colocamos em asilos, com gastos ainda maiores, onde elas não têm mais a opção de pôr um fim a tudo por conta própria. Estamos tratando nossos vizinhos de forma pavorosa. Nós os deixamos morrer gradualmente durante meses, anos até, quando tudo do que precisam é de alguém que lhes diga que está tudo bem, que, se quiserem ir embora, podem ir. Que é fácil, simples e pode ser indolor. Podem escolher esse caminho se assim quiserem. E Deus sabe quantos deles fazem isso, diante das alternativas que lhes restam! Tudo o que fiz foi mostrar a essas pessoas que elas podem escolher esse caminho. Poderiam ter escolhido outro se assim desejassem. Mas não o fizeram. Escolheram morrer. E eu não as “ajudei”, apenas conversei com elas e ofereci conforto e segurança quando não tinham mais ninguém que lhes desse isso. E onde estavam vocês quando elas precisavam de ajuda? Sequer sabiam que elas existiam, não é? Porque vocês estão aqui para obrigar as pessoas a agirem e se comportarem de certa maneira. Mesmo quando, ao que parece, nenhuma lei foi desrespeitada.

Eles estavam me encarando. Bebi um gole de água do copo plástico que estava à minha frente na mesa.

— Terminou? — perguntou Lewis.

Não respondi. Ainda estava com raiva.

— Isso é um interrogatório, Colin. Embora apreciemos sua contribuição, seria muito mais útil se você pudesse se ater às perguntas que estamos fazendo. Acha que consegue fazer isso?

— Se preciso for.

Lewis respirou fundo, inclinando-se ligeiramente para a frente na minha direção, apoiado na mesa.

— Como você faz?

Eu o encarei.

— Vamos, Colin, você desenvolveu uma técnica genial para levar as pessoas a se matarem. Como você faz?

Ergui o queixo, desafiadoramente.

— Precisei de alguns anos de estudo detalhado, Inspetor Lewis. Para explicar tudo, eu levaria mais tempo do que nós dois temos.

— Talvez você possa fazer um resumo — disse ele.

— Vocês não entenderiam.

— Tente.

Inspirei com força e profundamente pelo nariz, me perguntando como começar, se seria capaz de formular em frases algo que um samango fosse capaz de compreender.

— Todas essas pessoas queriam acabar com suas vidas. Vocês precisam entender isso: se não estivessem prontas para morrer, qualquer que fosse minha “técnica”, como vocês a chamam, ela não teria funcionado.

— Então, você não é responsável pelas mortes dessas pessoas?

— Óbvio que não. Elas tiraram a própria vida, todas elas.

— Mas você… as ajudou?

— Ajudei-as a tomar a decisão. Minha “técnica” é algo que preparo sob medida para atender às necessidades de cada uma. Algumas delas tinham medo de sentir dor, então minhas conversas com elas eram focadas no alívio da dor, ou na obstrução dessas sensações, e também na perda do medo. Porque, tenho certeza de que sabem disso, o medo torna a dor mais aguda. Se não sentimos medo, fica mais fácil suportar a dor. Então ajudei a cada uma dessas pessoas com suas necessidades específicas.

— Mas a fome não supera tudo isso? — perguntou Topping bruscamente. — Quero dizer, com certeza o corpo humano precisa de comida e água…

— A Recusa Voluntária aos Alimentos e Fluidos é algo surpreendentemente comum, sabia? — retruquei. — Sugiro que pesquisem na internet. É também chamada de Morte Voluntária por Desidratação, ou MVD. E já vi se referirem a ela como Desidratação Terminal. Assim que certo ponto é ultrapassado, o corpo começa a se desligar, e a partir daí, tudo se simplifica. Não leva muito tempo, e se você souber lidar com o medo e com uma quantidade limitada de dor, é uma maneira bem agradável de morrer. Dependendo de sua forma física ou de alguma patologia subjacente, a duração média é de cinco a sete dias, e na maior parte do tempo, o indivíduo está adormecido, repousando. Não há nenhuma violência; na verdade é bem sereno, como se caísse suavemente no sono.

Ambos estão me encarando.

— Se qualquer uma dessas pessoas tivesse mudado de ideia e desistisse de morrer, poderia beber um pouco de água. Estavam em suas próprias casas. Algumas delas ainda tinham comida na geladeira, nos armários. Poderiam ter mudado de opinião em qualquer estágio. Mas elas tinham escolhido seu caminho. Tudo o que fiz foi tornar as coisas mais fáceis para elas seguirem em frente.

— Você estava lá quando elas morreram?

— Não. Era um momento íntimo para elas. Geralmente, quando perdiam a consciência, eu as deixava sozinhas.

— Mas você voltava?

— Voltava para me certificar de que tinham atingido seus objetivos.

Eles trocaram olhares. Esperei perguntarem se eu voltava lá depois disso, porque, se tivessem me feito essa pergunta, provavelmente eu não teria respondido a verdade. Mas, felizmente para mim e minha devoção à verdade, a ideia de alguém passar por vontade própria algum tempo com corpos humanos em decomposição ia além da compreensão deles.

— Vamos voltar a falar dos telefones que você usou, Colin. Você admitiu ter usado diferentes chips para cada uma das… é… das pessoas que encontrou.

— Acho que sim.

— Você acha que sim?

— Ok, eu usei, sim.

— Por que você fez isso?

— Era uma forma de rastrear todas essas pessoas.

— Parece ser uma maneira complicada de fazer isso. Por que você, simplesmente, não salvou os números delas na lista de contatos do seu telefone?

— Não tenho uma lista de contatos no meu celular. Vocês devem ter percebido isso.

— E por que não?

— Prefiro separar as coisas, só isso.

Lewis suspirou, algo que identifiquei como o prenúncio de uma iminente mudança de direção.

— Seu telefone também teve… — ele consultou suas anotações — outros vinte e sete chips, além daqueles sobre os quais já conversamos. O que tem a dizer sobre isso?

— Não tenho nenhum comentário a fazer.

— Fala sério, Colin. Outros vinte e sete chips! Deve ser muito chato ter que retirá-los e trocá-los o tempo todo, não foi assim que aconteceu?

— Na verdade, não. Usei chips diferentes durante bastante tempo.

— E foram todos usados com o mesmo propósito?

— Para manter contato com as pessoas, sim.

— Tenho razão em pensar que há outras vinte e sete pessoas lá fora que ainda não foram encontradas?

Sorri para ele.

— Parece bastante gente, não? Vocês com certeza não protegem a comunidade tão bem quanto pensam.

— Alguma delas ainda está viva, Colin?

— Eu estava esperando que me perguntasse isso.

— E então? Ainda há alguma delas viva lá fora?

Ambos voltaram a me encarar. Paralisados em suas cadeiras, prendendo a respiração. E, enfim, me perguntavam algo interessante, algo que pudesse fazer alguma diferença. E chegara a hora de mentir para eles pela primeira vez.

— Não.

Os dois soltaram um suspiro de alívio. Chegava a ser engraçado. E tive a impressão de que acreditaram em mim, ou talvez apenas quisessem tanto acreditar naquilo que suas cabecinhas não conseguiam registrar qualquer alternativa possível.

— Você tem certeza disso?

— Há algumas semanas teve uma moça, mas acho que alguém interveio antes que ela tivesse tempo suficiente.

Houve uma pausa acompanhada pelo rumor de folhas de papel. Lewis chutou a caixa de papelão debaixo da mesa.

— Certo, voltando aos telefones. Você sempre usou esse método para manter contato?

— Sempre.

— Com seus amigos também, além das pessoas que você… hum… “ajudou a escolher o caminho certo”?

— Não tenho amigos, Inspetor Lewis.

— Isso não me surpreende. Você passa tempo demais se metendo na vida das outras pessoas, não é?

— Isso é uma pergunta?

— Por que você faz isso, Colin?

Agora, estava tentando ser cordial comigo, se esforçando para romper os obstáculos que ele percebia existir entre nós. O único obstáculo era a mesa. Ele havia levantado todas essas questões quando, na verdade, tudo era serena e maravilhosamente simples.

— Conte, Colin. Por que você faz isso?

— Já expliquei. Estou economizando uma fortuna para os contribuintes e fazendo as pessoas se sentirem mais felizes com elas mesmas.

— E isso o deixa feliz também, não é?

— Por que não deixaria?

— Você fica excitado quando está lidando com essas pessoas, Colin?

Por um instante, fiquei chocado demais para responder. Eu o encarei, meu rosto queimando por causa da sua insolência. A mudança de tópico tinha sido repentina e, dessa vez, inesperada.

— Como você ousa dizer isso? — perguntei, a voz calma e baixa. Disfarçando minha fúria da melhor forma que podia.

— Sabe, nossa equipe vasculhou e achou isso em sua casa, Colin.

De dentro da caixa de papelão em cima da mesa, Lewis retirou um saco plástico, lacrado, coberto com inscrições, mas transparentes. Dentro dele, havia um velho exemplar do Briarstone Chronicle, aberto numa página dupla com as fotos de todos os indivíduos. Todos sorrindo, felizes.

— Você sabe o que é isso?

— Um exemplar de jornal — respondi num tom tranquilo.

— Nós o encontramos, como eu disse, na sua casa. Para ser mais exato, em seu quarto. E ainda mais especificamente, debaixo de sua cama.

— É mesmo?

— Está coberto de sêmen, Colin. É seu?

Fiquei corado mais uma vez e não consegui emitir qualquer palavra que exprimisse o suficiente minha indignação e desconforto. Maldito policial!

Por fim, sussurrei entre os dentes:

— Prefiro não comentar.

— Você se masturbou em cima do jornal, Colin?

— Prefiro não comentar!

— Você sentia tesão em saber que provocou a morte dessas pessoas?

— Prefiro não comentar!

Os dois ficaram sentados, me encarando por vários segundos. Eu estava ofegante, minhas mãos se fechando e se abrindo diante daquela grosseria, daquela abominável intrusão na minha vida particular. Como ousam fazer isso?, pensei. Não têm ideia de quem eu sou, do que sou capaz de fazer?

— O quê? — perguntei. — E se masturbar é crime, agora? Vocês vão me acusar de profanar essa merda de jornal?

— Por favor, não fique nervoso, Colin.

— Prefiro que me chame de Sr. Friedland, Inspetor Lewis.

— Tanto faz — disse Lewis, suspirando. — Vamos parar aqui por enquanto. Vou pedir que levem você de volta para sua cela.

* * *

Agora que finalmente me acalmei e estou deitado no estreito leito da minha cela, eu me dou conta de algo que me faz sorrir. O jornal é a melhor arma que eles têm. O que significa que não encontraram meu caderno nem minhas imagens. Se não acharem isso, não terão nada nas mãos.