Restos Humanos
Colin
A CAMPANHA DO CHRONICLE CONTINUA. TRÊS semanas atrás, publicaram um curto parágrafo no seu proselitismo habitual sobre uma mulher que fora encontrada num “estado de perturbação” e levada para o hospital. O Sr. Sam Everett usou sua coluna para fazer um apelo, pedindo a qualquer um que conhecesse a pessoa responsável para entrar em contato com ele. Responsável pelo quê, exatamente? Por ajudar as pessoas a escaparem dos bons samaritanos indesejados que não entendem que, às vezes, o estado mais bem-aventurado de existir é ser deixado em paz?
Não há nada de interessante na capa de hoje, só um artigo na página de dentro sobre a importância de manter contato com os amigos e parentes, independentemente de onde eles morem no mundo. E há também uma pequena entrevista com o homem no comando da investigação. O inspetor chefe da polícia, Paul Moscrop. Ele se parece com um desses americanos retratados como “enérgicos” — dentes regulares e brancos e penteado de gerente. Ele diz que as investigações estão avançando bem e que qualquer um que disponha de alguma informação deve se manifestar.
Lendo isso, sinto uma vontade momentânea de me manifestar, emergir chamejante, do meio da multidão e surpreender a todos. A verdade é que um rápido momento de reconhecimento no jornal me estimulou, e agora quero mais. Quando penso que eles já estão se entediando com essa história — mas já! — e ainda restam outras surpresas para eles, outras maravilhas em estoque, fico com os dentes trincados de frustração. Deviam estar orgulhosos de mim, de minhas realizações. Deveriam reconhecer o que estou fazendo e me elogiar por isso — não ignorar sua importância e chamar isso de crime, como se eu tivesse pichado um muro ou roubado um pedaço de carne no supermercado.
Se estão entediados, precisarei lhes dar algo que os desperte um pouco. Terei que lhes mostrar exatamente do que eu sou capaz.
Embora haja outros por aí, ainda sozinhos, sem terem sido perturbados, se transformando dentro da privacidade de seus lares, posso sentir que estou perdendo o interesse. Já vi tantos deles. E apesar das diferenças, das variações no processo, muito pouco do que acontece me surpreende. Dessa forma, preciso acrescentar algumas variáveis, algo novo, que provocará a centelha de ignição.
Em outras palavras, a deliciosa Audrey.
Cheguei ao centro da cidade meia hora atrás, às seis e meia, enquanto ainda estava movimentado com pessoas voltando para suas casas, tornando possível que eu me misturasse aos demais. Exatamente em frente ao restaurante italiano chamado Luciano’s há um fast-food com lugares para sentar no piso superior. Comprei um café e subi com ele. Provavelmente devia ter comprado algo para comer também, mas não estou a fim de estragar meu aparelho digestivo com isso, nem gastar dinheiro com porcaria. Então, foi só um café, que por sinal estava quase intragável.
De qualquer modo, sentado ao lado da janela que dá para a praça, disponho de um ponto de observação perfeito de onde posso vigiar o restaurante, além dos vários pubs e boates. Posso até ver a fila de táxis se me levantar e me inclinar um pouco.
Vejo Audrey chegando com uma amiga, às sete e cinco. Está usando um vestido curto de tecido escuro e sedoso, justo em suas coxas. Seu sapato de salto alto torna sua caminhada pelo chão de pedras particularmente arriscada. Mesmo assim, suas coxas… Não consigo desviar meus olhos delas. Tenho me concentrado nelas, examinando-as desde quarta-feira à noite nas várias fotos que postou no Facebook, mas ainda assim vê-las ali, se movendo, roçando uma na outra, os músculos embaixo da pele e seu corpo em movimento — a forma como sua bunda se mexia, visível através do contorno do tecido sedoso e justo — e a tentação de ir até lá e agarrá-la, obrigá-la a olhar para mim e, em vez de falar (pois na verdade, não há nada, nada mesmo, a se dizer), passar a mão por sua coxa e arrancar seu vestido…
Elas entram no Luciano’s e fecham a porta.
Fico bebendo pequenos goles do café morno, que pode muito bem ser confundido com um molho de carne, e aguardo.