Restos Humanos
Annabel
ENFIM, ELES ME DERAM ALTA NO hospital. Não haviam sido capazes de descobrir o que tinha acontecido comigo, mas, como minha recuperação era nítida, eles disseram que eu podia ir, desde que tivesse a companhia de alguém no começo. Conversaram sobre uma indicação de terapia, consultas ambulatoriais regulares, e uma carta a ser entregue ao meu clínico geral.
Sam veio me buscar e me levou até sua casa, na Keats Road. Eu me lembro de ter ficado dentro do carro, observando aquela casa, no dia em que minha mãe estava no hospital e eu lhe dei uma carona. Tinha a impressão de que toda uma vida se passara desde então.
Fiquei calada. Ele tentou me fazer perguntas, mas como eu não respondia, acho que acabou desistindo. Eu estava com medo de tudo, assustada com o entorpecimento na minha cabeça, que não me permitia pensar direito ou me concentrar. O hospital era um lugar ruim, mas de certo modo o mundo do lado de fora era pior. Não devia estar aqui, fiquei pensando. Devia estar morta. Será que virei um fantasma? É assim que a gente se sente então?
Sam morava com o pai, Brian, um antigo membro das forças armadas que passava a maior parte do tempo no clube de veteranos bebendo com os amigos, e a esposa dele, Irene. Ela era tudo o que minha mãe nunca fora: brilhante, animada, cheia de vida. E havia sido a cuidadora da mãe de Sam, no passado. Ambos me acolheram cordialmente em sua casa, sem fazer perguntas, oferecendo-me um quartinho de hóspedes — Irene se desculpando por ele enquanto eu exprimia minha profunda gratidão, pois fora graças a eles que eu conseguira sair do hospital.
Sam me mostrou o quarto no andar de cima, que tinha uma cama de solteiro com uma colcha florida e um bichinho de pelúcia encostado no travesseiro.
— Vou deixar você se acomodar — disse ele. — Quer uma xícara de chá?
— Mais tarde, talvez — respondi. — Agora eu gostaria de dormir.
Ele deixou a porta aberta e desceu a escada. Eu a empurrei e me deitei na cama, fechando os olhos.
* * *
No dia seguinte, Frost telefonou perguntando se eu estava disposta a falar com alguém. Sam tinha ido para o trabalho, deixando Irene comigo. Sem ele, me senti um pouco perdida, desprotegida.
— Acho que sim — respondi. — Não sei de nada.
Ele apareceu com uma policial que eu nunca vira antes e cujo nome esqueci assim que ela se apresentou. Nós nos sentamos na sala de estar. Irene preparou o chá e deixou uma bandeja com bolo de maçã caseiro na mesa à nossa frente, sem parar de falar sobre o tempo, as obras de trânsito nas ruas do centro da cidade e a escalação para o Dança dos Famosos daquele ano. Quando ela enfim se foi, nos deixando com os ouvidos ainda zumbindo, a impressão era de que todos tínhamos ficado surdos.
— Você está com uma aparência boa, Annabel — disse Frost. — Como está se sentindo?
— Bem — respondi automaticamente.
— Não precisa se preocupar — disse a jovem policial, sorrindo para mim. — Qualquer coisa que você puder lembrar, a essa altura, será útil.
— Não me lembro de nada — respondi.
— Sam nos contou que você lhe falou de um homem. Um anjo. Você se lembra disso?
Pensei um instante, fechando os olhos. Eu queria ajudá-los. Queria me lembrar.
— Era uma pessoa comum. Um homem normal. Mas ele me dizia coisas que me acalmavam. E era gentil.
— Ele foi até sua casa com você?
— Não. Voltei de carro. Havia um arco-íris.
Eu queria acrescentar que o arco-íris era um sinal da minha mãe, um sinal de que eu podia confiar nele, que ela o enviara para que tomasse conta de mim, mas não revelei essa parte. Eles não seriam capazes de entender. Teriam achado graça.
— O que aconteceu quando você foi para casa?
— Nada. Saí na manhã seguinte. Falei com você pelo telefone — contei, olhando para Frost.
— Eu me lembro — afirmou ele. — Onde você estava, quando nos falamos pelo telefone?
— No estacionamento. Estava indo para a agência funerária.
— Você se lembra de ter entrado e falado com as pessoas de lá?
— Não — respondi. Fechei os olhos outra vez, me esforçando para me recordar da cena. — Eu me lembro de andar na direção da funerária e lá estava ele, esperando por mim.
Olhei para Frost. Ele estava sentado, inclinado para a frente, as mãos apertadas entre os joelhos. Ao vê-lo naquela posição, me lembrei de algo que Sam me dissera, numa de suas visitas diárias ao hospital. Ele me contara que tinha saído com Ryan Frost na noite anterior. Ryan dissera a Sam que seu pai andava preocupado, infeliz, temendo ter ignorado os indícios durante nossa conversa pelo telefone naquela manhã, quando eu estava no estacionamento do centro comercial. Aparentemente, minha voz tinha soado “esquisita”. Ele achou que deveria ter feito algo, ter ido atrás de mim.
— Você pode nos descrever como ele era? — A mulher tomou para si o trabalho de fazer as perguntas. Fiquei envergonhada, pois não conseguia me lembrar do seu nome.
Ele era um anjo, pensei. Não dá para descrever os anjos. E ele teria parecido diferente para todas as outras pessoas.
Balancei a cabeça.
— Não, ele era apenas… comum.
— Era mais alto do que você?
— Não me lembro.
Frost estava ocupado, se servindo do bolo de maçã de Irene, a boca cheia de migalhas. Eu o observei.
— Sobre o que vocês conversaram? — perguntou a policial.
— Não me lembro.
— Ele pediu para você ir com ele a algum lugar?
Então, senti as lágrimas brotarem nos meus olhos, não pela frustração de não me lembrar, mas por causa das suas perguntas insistentes. Eu sentia como se os estivesse desapontando: desapontava Frost, desapontava Sam, Brian e Irene, todos que tinham sido tão gentis comigo.
— Annabel?
— Não me lembro de nada.
— Tudo bem — disse a policial, quem quer que ela fosse. Não gostei dela. Ela estava me dando dor de cabeça com seu sorriso solidário, seu cabelo brilhante e seus dentes brancos também brilhantes.
— Quero voltar a dormir — falei. — Estou mesmo muito cansada.
Eu me levantei e saí da sala. Irene estava na cozinha, em pé ao lado da porta, parecendo constrangida e impaciente. Pensei que era provável que estivesse nos ouvindo e levou um susto quando abri a porta, não tendo tempo para disfarçar, fingindo estar ocupada com uma tarefa inocente. Olhei para ela e subi a escada. Não me importava que estivesse nos ouvindo; eu não tinha nada a esconder dela, exceto meu próprio cérebro patético e sua incapacidade de lembrar o que acontecera comigo.
Eu me deitei na cama, ouvindo-os falar de mim lá embaixo.
— Ainda é muito cedo — dizia Frost. — Mas pensei que ela estivesse bem.
— Ela está bem — retrucou Irene. — Está passando por uma provação terrível. Só precisa de um pouco mais de tempo.
— Temos que fazer certas perguntas — disse a policial. — Talvez possamos voltar amanhã. Para ver se ela se lembrou de alguma coisa.
— Não — protestou Irene. — Ligaremos para vocês se ela se recordar de algo.
— Não é esse o caso — ponderou a policial. — Estamos fazendo uma investigação de homicídio, Sra. Everett. Precisamos reunir o máximo de informações possível. Sabemos o que estamos fazendo.
— Com a coitada da moça vocês não sabem, não — disse Irene. — Não vou deixar que a atormentem.
— Olhe — interveio Frost. — Isso não está nos levando a nada. Muito obrigado pelo seu tempo e pelo bolo. Ligue para mim, me avise sobre o estado dela, ok? Ela terá todo o tempo que precisar.
Irene acompanhou os dois até a porta da frente e a ouvi batendo-a com força. Eu me perguntei se ela estaria brava comigo.