Restos Humanos
Annabel
— NÃO QUERO DIFICULTAR AS COISAS para você, Annabel, nas atuais circunstâncias, mas você percebe que colocou toda a investigação em risco?
Olhei para os dedos de Paul Moscrop, que pousara ambas as mãos abertas na mesa à sua frente, bem estendidas, como se ele estivesse tentando algum tipo de experiência sobrenatural para fazer a mesa girar.
Mas a mesa não se mexeu.
— Não foi a minha intenção, senhor.
— Sem mencionar sua própria vida.
— É que pensei que ele estivesse sendo vigiado.
Ele não tinha resposta para isso, é claro. As equipes tinham, conforme Jenna Jackson me dissera, sido mobilizadas para ajudar em outro caso.
— É evidente que, sem suas análises, poderíamos não ter encontrado Audrey Madison a tempo. Mas, de qualquer maneira, você não tem formação de investigadora e sequer está trabalhando para a Delegacia de Homicídios. Você se colocou numa situação de grande perigo e mal consigo imaginar o que teria acontecido se as coisas tivessem dado errado.
— Eu sei.
Olhei depressa para Bill, que fingia ler as folhas em cima de uma pasta aberta na mesa à sua frente. Suas bochechas estavam coradas, por constrangimento ou por causa do calor que fazia dentro da sala, era difícil dizer. Como estávamos no início de dezembro, o sistema de aquecimento em todas as delegacias da região funcionava no nível máximo. Estava sufocante ali dentro.
— A Promotoria Pública ainda está resolvendo se não se tratou de uma indução a ato criminoso.
— Podem dizer para eles que eu estava temporariamente privada de minhas faculdades mentais, se isso ajudar — propus.
— Para falar a verdade, preferiria não ter que passar por isso, Annabel. Se dependesse de mim, eu condecoraria você. O que você fez foi de extrema coragem, e muito, muito estúpido.
— Não farei mais isso — afirmei.
— Ótimo. — Ele chegou a esboçar um breve sorriso. — Acho que devemos encerrar aqui. Todos de acordo?
Bill pareceu aliviado e assentiu; a mulher dos Recursos Humanos, com sua expressão azeda, olhou depressa para mim, mas concordou com o inspetor chefe. A representante do sindicato pareceu satisfeita. Imaginei que isso fosse um bom sinal.
Sam estava me esperando na cafeteria onde nos encontramos pela primeira vez, o que parecia anos atrás, mas só fazia pouco mais de dois meses.
— Como foi? — perguntou ele, quando larguei minha bolsa e meu casaco na cadeira à sua frente.
— Tudo foi resolvido em vinte minutos. Pensei que fosse demorar mais.
— O que eles disseram?
Mantive o suspense por alguns instantes, o tempo de ir até o balcão pegar outras canecas para nós.
— Eles vão me telefonar quando tomarem uma decisão — respondi ao me sentar.
— Eles deveriam lhe dar algum tipo de prêmio de cidadania, Annabel, em vez de lhe pressionar. E Audrey, como ela está?
Audrey ficaria na casa dos pais por enquanto. Para a minha surpresa, e é provável que a dela também, acabamos nos tornando grandes amigas. Ela havia se recuperado bem, fisicamente, mas não conseguia dormir e sofria com frequência de crises de pânico. Já que não precisava me preocupar com o trabalho, enquanto a investigação disciplinar estava pendente, fui visitá-la todos os dias. Sam fora comigo uma ou duas vezes, mas ambos percebemos que Audrey não se sentia à vontade quando ele estava presente.
— Vaughn ligou enquanto eu estava lá.
— É?
— Ele quer fazer uma visita para ela. Mas ela nem quer ouvir falar nisso.
— Acho que ela deve culpá-lo de alguma forma. Pobre coitado. Não leva jeito para escolher os amigos.
Pela manhã, Audrey estava vestindo uma calça jeans e uma camiseta larga demais para ela, mas já representava uma melhora em comparação àquela camisola horrível. Ela também tinha lavado o cabelo.
— Uau! — exclamei. — Vamos sair para algum lugar?
Por um segundo, ela pareceu tomada pelo pânico, mas depois sorriu para mim. Quando sorria, ela ficava muito diferente. Era o tipo de garota descolada demais para se tornar minha amiga na escola ou no trabalho. Ela seria amiga de Kate e do resto do pessoal e nunca teria me dado a menor atenção. Pensando nisso, perguntei à sua mãe se Audrey realmente queria que eu continuasse a visitando, ou se ela apenas sentia pena de mim.
— Não, nada disso — replicou ela. — Por favor, não deixe de vir. Audrey tem enorme admiração por você. Ela me disse que você é a pessoa mais corajosa e mais forte que ela conhece.
— Audrey não está tão mal — falei para Sam. — Ela estava até bem vestida, hoje. Espero que concorde em dar uma saidinha de casa em breve.
— Que boa notícia. Ela contou algo mais sobre o que aconteceu?
Ela me contara algumas coisas. Eu sabia que Sam não ia publicar nada sobre isso, a menos que recebesse permissão, embora estivesse ávido para fazer tal coisa. Era quase como se ele quisesse se vingar de Colin utilizando o melhor método que tinha à disposição. Mas seu próprio código moral lhe silenciava, além do que, isso poderia prejudicar um futuro julgamento, caso publicasse detalhes sobre o cativeiro de Audrey.
— Ela está chegando lá, mas precisa de tempo.
Colin tentara fazer com ela exatamente o que fizera comigo, seja lá o que tenha sido, hipnotismo, lavagem cerebral… Mas não funcionou, ele não conseguiu controlar a mente dela, então teve que mantê-la trancada. Ela sentiu como se tivesse sido jogada fora. Tinha medo de fechar os olhos e dormir, no caso de acordar e encontrá-lo ali à sua frente. Ou no caso de nunca mais acordar.
Sam bebeu seu cappuccino, percebendo que eu não revelaria mais nada.
— Então, quando eles ligarem para você será o fim? — perguntou ele.
— Acho que sim. Ou vão me expulsar ou volto a trabalhar.
— Bem, nesse caso, você pode sair de férias com a gente. Se voltar a trabalhar amanhã mesmo, poderá pedir uma licença, não é?
Fazia pelo menos quinze dias que ele insistia nisso. Eles iam passar a semana do feriado de Natal num chalé em Devon, algo programado desde o ano anterior. Só havia dois quartos, mas Sam dormiria no sofá se eu fosse com eles. Eu precisava de férias, Irene insistia nisso.
O que preciso é voltar para casa e resolver minha vida, pensei.
— Acho mesmo que não poderei ir — falei. — É muita gentileza de vocês. Mas há tantas coisas que preciso fazer. E não posso deixar Audrey.
— Você mesma disse que ela estava melhorando. Uma semana não fará diferença alguma. Tudo o que você precisa fazer continuará aqui quando voltar.
Precisávamos ter uma conversa, que estava pairando sobre nós desde que ele dera um jeito para eu ir morar no quarto de hóspedes da sua casa. Até então, eu adiara isso, esperando que o problema desaparecesse, mas só estava piorando.
— Sam — comecei. Mas, nossa, como era constrangedor. — Na verdade, não entendo. Simplesmente, não sei… o que você quer de mim?
— Não quero nada — respondeu ele jovialmente.
— Quero dizer… Não sei. Somos amigos, certo?
— Claro que sim.
— Nada mais? É que eu… é estranho eu estar morando na sua casa. E agora, fazer uma viagem de férias com vocês. Não sou muito boa com essas coisas, nunca entendi de verdade as motivações das pessoas. E eu francamente não gostaria que você… sabe… esperasse que…
— Não estou esperando nada — disse ele. — E não há nada de estranho em você morar com a gente. Nós que convidamos, não foi? É isso que fazem os amigos, ajudam uns aos outros.
— Sinto muito. — De repente, eu estava sentindo muito calor. Por ele estar se mostrando desconcertantemente imperturbável, as coisas ficaram bem mais difíceis do que eu pensara.
— Não há razão para isso — disse ele.
— Você é gay? — perguntei depressa. — Quero dizer, não que você tenha que ser gay para não se interessar por mim, longe disso, quero dizer, afinal de contas, por que você se interessaria por mim? Sou doze anos mais velha que você, pelo menos e… bem… — Olhei para mim mesma, como se isso falasse por si.
Sam tomou um gole de café e acabou engasgando. Ao se recuperar, olhou com atenção para o resíduo dentro da xícara, como se a resposta estivesse escrita na borra do café.
— Não sou gay. — Ele estava sorrindo, tentando conter uma gargalhada. — É só que no momento estou bem satisfeito em ser solteiro. Isso basta?
Houve uma pausa. Dei um gole no meu chá. Isso não estava indo muito bem. No instante em que eu tentava encontrar um modo de me desculpar, ele me surpreendeu, dizendo:
— Não é que você não seja atraente. Acho você adorável e, é claro, esperta, e é muito interessante conversar com você, apesar de não parecer se dar conta disso. Mas… — Ele respirou fundo. — Podemos ser só amigos?
— Podemos — respondi, aliviada. — Isso me parece ótimo.
— O que quer dizer que podemos sair de férias?
Agora não dava mais para recusar, não é mesmo?
— Tudo bem, então — respondi. — Como amigos.
Dentro da minha bolsa, meu telefone começou a tocar. Na tela, vi que o número era privado, o que provavelmente significava que era do quartel-general da polícia. Respirei fundo e atendi.