Restos Humanos

Elizabeth Haynes · Capítulo 22 de 52

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Restos Humanos

Colin

 

HOJE CEDO, LIGUEI PARA O TRABALHO, lhes disse que tiraria a manhã de folga e, em seguida, fui para o centro comercial conforme planejado, com o intuito de me encontrar com minha nova descoberta. Ela foi mais fácil do que pensei — aquiescente e madura, uma imensa mudança em relação ao que eu vira no supermercado na noite de terça-feira. Tratava-se evidentemente de um luto. Em geral, este é o caso. Enquanto esperava por ela, fui até o Co-op e comprei o jornal e um pouco de leite.

Ela me aguardava em frente à agência funerária. Pensei que ela me dissera que tinha um compromisso, mas, se era verdade, ela se esquecera completamente. Aquilo me aborreceu, porque eu pretendia passar algum tempo sozinho para poder ler o jornal — mas isso teria que esperar. Ela me disse onde morava e eu a segui até lá, deixando minhas compras na parte de trás do carro. Conversamos um pouco na cozinha dela. O gato estava do lado de fora, miando e arranhando a porta e, por um momento, pensei que ela fosse abrir e deixar aquele bicho infernal entrar. Eu lhe disse que não havia nada melhor do que silêncio e paz. Não ter nada mais com o que se preocupar. Aquilo pareceu funcionar, pois o gato foi ignorado. No final, acho que ele acabou desistindo, porque quando subimos a escada, o barulho tinha cessado.

Deixei-a sozinha cerca de uma hora mais tarde e voltei para minha casa com as compras. Será necessário termos mais conversas como essa, antes que ela esteja pronta, mas isso pode esperar, por ora.

Sinto um arrepio de excitação ao abrir o jornal.

Há menos informações do que eu esperava encontrar. Sim, acharam Dana e Eileen, como eu sabia que fariam. Sim, eles muito sensatamente perceberam que há algo mais ligando essas pessoas do que só a depressão e a falta de atenção dos vizinhos. Mas o que estão fazendo quanto a isso? Muito pouco, ao que parece.

Mas será que manteriam o Briarstone Chronicle atualizado com os detalhes da investigação? Bem improvável. Eu me pergunto se não fiz uma grande besteira, permitindo que soubessem das minhas atividades.

Quando chego ao trabalho, me sinto tomado por uma tensão nervosa crescente e mal consigo me conter. Eu me sento à mesa e ligo o computador sem falar com ninguém, esperando que as planilhas de contabilidade consigam me deixar calmo novamente.

Do outro lado da sala, Garth está respirando ruidosamente pelo nariz. Quando nos mudamos para aquele escritório, vindos do térreo, há um ano, no mês de dezembro, acabei ficando com a mesa bem em frente a de Garth. Ele invariavelmente cheirava mal, à mofo e fazia muitos barulhos: não era sequer capaz de respirar em silêncio. Se não estava respirando, estava roncando, ou cantarolando, ou rindo sozinho, resmungando, batendo nos dentes da frente com a ponta de um lápis, ou passando a mão compulsivamente pelo cabelo oleoso e escasso, ou coçando a barba curta, lambendo os lábios, pigarreando, ou se inclinando em sua cadeira, deixando a camisa se soltar do cinto e assim exibindo uma parte de sua barriga branca e peluda.

Aturei isso por um dia e meio. Depois, procurei Martha e lhe disse que precisava ficar próximo da janela porque eu era claustrofóbico. Não conseguiram convencer Alan a trocar de mesa comigo, então, me deslocaram para um espaço exíguo ao lado da xerox, atrás da qual havia uma janelinha que dava para o estacionamento. Bastava para mim. Estou longe de todos os outros. E embora ainda possa vê-los e ouvir suas conversas imbecis, posso me concentrar tranquilamente no meu trabalho sem as percussões dissonantes das funções corporais de Garth.

Isso é fácil, desde que Garth esteja em boa condição de saúde. Mas, se ele não estiver bem, como é o caso hoje, os níveis de ruído aumentam a tal ponto que consigo ouvi-lo do outro lado da sala, apesar do espaço entre nós. E seu cheiro percorre o ambiente como um gás mostarda atravessando as trincheiras. Os ruídos: catarro, mucos, nariz sendo assoado, as suas escavações nasais com o lenço; e então, os suspiros, os gemidos, os chiados.

Procuro o iPod dentro da minha bolsa, que pelo menos abafará os sons das enfermidades recentes de Garth, mas para minha decepção descubro que o deixei em casa.

No final, resolvo falar com ele.

— Garth.

Ele não me escutou, pois naquele exato instante estava assoando o nariz com um lenço, o barulho úmido de um par de botas de pescaria sendo atirado do último andar de um edifício-garagem.

— Garth!

— O quê? Não estou ouvindo direito — berra ele do outro lado da sala. — Meus ouvidos estão entupidos.

— Você se incomoda em fazer menos barulho? — peço bem alto, tentando manter um tom cordial.

— Sinto muito, cara. Vou tentar.

Aquela familiaridade me faz estremecer.

— Deixe-o em paz — intervém Martha, erguendo o olhar atrás da tela de seu computador. — Ele não está bem.

E então seu telefone toca, antes que possa dizer mais alguma coisa ou que eu consiga formular uma resposta, e sou obrigado a ouvir sua conversa com uma de suas colegas da Contabilidade, rindo e fazendo piada, como se estivessem numa mesa de bar e não num ambiente de trabalho. Por que todos eles são tão BARULHENTOS?

Olho para a planilha, mas não consigo me desligar deles, e agora, Garth começou com uma crise de tosse que está me deixando enjoado de verdade. Quase consigo ver os germes vindo pela sala na minha direção. Eu me levanto, jogando a caneta em cima da mesa e vou até a cozinha. Nenhum deles percebe.

Na cozinha, depois de desinfetar a mesa, encher a chaleira com água fresca e lavar as mãos, fico ali em pé, esperando a água ferver. Alguém deixou por ali um exemplar do Briarstone Chronicle, outra vez, e apesar da aflição dolorosa que ainda restou no meu peito, acabo relendo a matéria.

Vinte e seis, dizem eles. Será que foram mesmo tantos assim? Mas também, deve haver alguns que não têm nada a ver comigo, e o jornal e a polícia não seriam capazes de encontrar a diferença.

Olhando as fotos, eu me lembrei daqueles que conheci… que sensação deliciosa a de deixá-los para trás para passarem pela transformação: espécimes vulgares, imundas e nojentas da humanidade pairando entre a desgraça da vida e o vazio da morte. Depois de deixá-los, eles têm um momento de transição e então tudo fica bom, puro; não restam mais decisões a tomar; tudo o que se segue é ditado pela natureza. Suas transformações obedecem às leis imutáveis da deterioração, regras das quais não se pode desviar. Há uma beleza e uma simplicidade nisso que é exatamente a mesma de quinhentos anos atrás. Inalterada assim como a trajetória da Terra. O processo desnaturado do mundo moderno sendo finalmente superado pela natureza, de modo tão glorioso e inevitável quanto a própria vida.