Restos Humanos

Elizabeth Haynes · Capítulo 20 de 52

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Restos Humanos

Colin

 

VAUGHN ME LIGOU À TARDE NO trabalho para dizer que Audrey estava na casa da mãe.

Felizmente, me calei a tempo de não lhe perguntar por que ele achava que essa informação me interessaria. O expediente chegara ao fim e eu estava arrumando minhas coisas, me aprontando para ir embora, quando ele telefonou. Eu estava com pressa de chegar ao Co-op, antes de ir para a faculdade, e lá estava eu, com o casaco pendurado no braço, falando no telefone e me sentindo razoavelmente entediado.

— Ela não estava em casa — disse ele, com um entusiasmo pueril. — Não estava me ignorando, não; só tinha ido passar uns dias com a mãe. Ela disse que me avisou, mas com certeza eu não estava escutando.

— Ou então se esqueceu — acrescentei, tentando ser útil, pensando que era totalmente possível que ele estivesse sendo vítima de uma demência precoce.

— Enfim, achei que devia ligar para você ficar sabendo — informou ele. — Eu sabia que você estava preocupado.

Ignorei aquela leve sugestão sarcástica presente no último comentário.

— E você comprou um anel?

— Comprei. Estou pensando em qual será o melhor momento para fazer a proposta. O que você acha?

De todas as pessoas, ele foi perguntar logo para mim. Como se eu tivesse alguma ideia sobre aquele assunto.

— Você poderia levá-la a algum lugar — sugeri. — No fim de semana. Ou algo assim.

— Weston-super-Mare? — indagou ele.

— Não. Não para Weston-super-Mare. Um lugar romântico. Paris, Bruges. Ou talvez até Roma.

— Roma? — repetiu ele, como se eu tivesse lhe sugerido a Sibéria. — Sinceramente, eu estava guardando um lugar mais exótico assim para a lua de mel.

— Vaughn — falei. — Agora preciso mesmo ir.

— Ah, me desculpe, meu camarada. Estou atrasando você?

— É, está.

Ele desligou e fui para casa, passando antes no supermercado para comprar algumas coisas essenciais. E, depois disso, uma dessas deliciosas coincidências aconteceu, o que me levou a supor que alguma força superior guiava minhas mãos naquele empreendimento. Saí do Co-op com a intenção de esperar um pouco por ali, para ver se detectava alguma nova vítima, qualquer uma que parecesse promissora dentre as que acabaram de perder alguém. E lá estava ela — a mulher que eu vira na fila do caixa na noite de terça-feira. E embora não tivesse me parecido pronta apenas dois dias atrás, agora ela certamente estava. Observando-a, senti um arrepio de afeto e excitação que me convenceu completamente de que acabara de encontrar a próxima.

Ela carregava uma bolsa, uma espécie de mochila de lona num tom sujo de marrom, as alças cruzadas em seu peito. Parecia pesada. Eu me perguntei por que sentira aquele tremor repentino, ao olhar para aquela bolsa, e depois, me dei conta de que era porque Helen tivera uma exatamente igual. Era a bolsa que levava para a escola — coberta por frases, assinaturas e desenhos feitos a hidrocor de várias cores, um emblema pedindo o desarmamento nuclear, e outro, maior, onde se lia “Free Mandela” e em cima do qual algum gaiato escrevera “na compra de qualquer mercadoria”.

* * *

No meu último ano em Gaviston Comprehensive arrumei uma amiga, ou algo parecido. Ela entrara na escola no último ano do ensino médio, pois no seu colégio precedente não havia curso pré-vestibular. Durante a maior parte desse período, mal notei sua presença. Era do tipo confiante, uma garota que não tinha dificuldade em fazer amizade. Ela se misturava com aqueles que saíam todos os fins de semana e, depois, passavam o resto da semana falando sobre isso.

Eu sobrevivia sem essas complicações.

Numa sexta-feira, eu estava voltando da escola e já havia escurecido, portanto deve ter sido no inverno. Helen estava indo para casa também, andando uns cinquenta metros à minha frente, e não lhe dei atenção. Acho que, parte do caminho, ela percorreu com outra garota e então, em um determinado momento, elas se separaram e se despediram. Helen seguiu andando e eu desacelerei um pouco, devido à pausa rápida que ela fizera, pois não queria reduzir a distância entre nós.

No alto da ladeira, ela atravessou a rua principal e seguiu por um beco ao longo da parte de trás do centro municipal de lazer, para em seguida sair na Newarke Street. A ruela era iluminada somente por um poste, que ficava no meio do caminho.

Ela estava andando mais devagar, o que começou a me irritar. Reduzi meu ritmo para evitar alcançá-la, não só furioso com seu ritmo, mas também com o próprio fato de que pensar nisso estava desviando minha atenção de algo em que eu queria pensar, especificamente as dificuldades em manter a frequência de ressonância com um mínimo de corrente elétrica.

Já havíamos cruzado um quarto da extensão do beco, quando notei que havia alguém andando à frente dela, alguém que também desacelerara os passos. Alguns instantes depois disso, Helen parou de andar. Estava a ponto de entrar no foco de luz formado pelo poste de iluminação; na verdade, estava parcialmente iluminada por ele, seu cabelo formava uma auréola alaranjada em torno da cabeça. Ela olhou para trás, me viu e depois virou-se na outra direção.

Claramente, eu devo ter parecido menos ameaçador se comparado ao que ela vira à sua frente, pois logo se virou e começou a andar na minha direção, os passos ficando mais apressados. Suspirei aborrecido. Não queria ter que dar um passo para o lado para lhe dar passagem no beco estreito de modo que não nos tocássemos, não queria ter que sorrir ou acenar com a cabeça ou seja lá o que for que se deve fazer em situações como aquela.

Apesar de tudo isso, alguma coisa me chocou. É a única maneira de descrever o que aconteceu. Não acho que tenha sido a expressão dela — que era estranha. Mas sim o fato de estar olhando para ela propriamente pela primeira vez, e ela me encarando, articulando a palavra: “SOCORRO.”

Ela veio até mim e, atrás dela, vinha outra menina da mesma série, outra daquelas com as quais eu não queria ter relação alguma. Não conseguia sequer me lembrar do seu nome. Ela avançava na nossa direção e Helen ficou parada atrás de mim, sem se mover, simplesmente ficou atrás de mim, como se fosse esperado que eu devesse fazer alguma coisa; mas o quê? Ficar entre elas? Agir como uma espécie de amortecedor físico para que pudéssemos continuar voltando para casa na mesma direção?

A situação era muito peculiar. Eu me senti constrangido com aquilo tudo. Não era medo, essa não era a palavra certa.

E estava mais constrangido com Helen se protegendo atrás de mim do que com a garota que vinha na nossa direção.

Ela trazia uma faca na mão. Eu me lembro de ter indagado o motivo de ela estar exibindo aquilo. Como se as pessoas saíssem todo dia carregando uma faca consigo, mas exibi-la assim para todo mundo era de algum modo completamente inadequado.

— Está se escondendo atrás de Colin, o Sinistro, não é? — disse a menina. — Acha que isso vai adiantar alguma coisa?

Eu estava parado e à vontade, as pernas parcialmente afastadas. Foi então que senti alguma coisa, uma excitação. A perspectiva de um confronto era algo que eu costumava evitar, mas aquele tinha um contexto que me dava permissão a me comportar de certa maneira. Afinal de contas, eu estava sendo ameaçado. Mesmo que a faca se destinasse a Helen, no momento estava apontada para mim.

— Tome cuidado, ela tem uma faca — disse Helen, de algum lugar atrás de mim.

— É, obrigado, mas estou vendo — respondi.

Bastou um soco para derrubá-la. Não pensei que seria tão fácil, e se tivesse descoberto isso antes, teria colocado um pouco mais de força para poder aproveitar ao máximo. Imagino que ela simplesmente não esperava que eu a acertasse. Eu não tinha o costume de bater em meninas, nem mesmo em meninas que vinham na minha direção empunhando uma faca, e de todas as pessoas, ela provavelmente não esperava que eu fosse lhe causar qualquer problema.

Atrás de mim, Helen soltou um grito de surpresa.

A garota, quem quer que fosse, aterrizara num monte de terra ao lado do muro de tijolos que delimitava a fronteira do jardim de alguém. Perto dali, um cachorro latia. A menina não se mexia. Eu me virei para encarar Helen. Ela estava ofegante, seu peito arfando sem parar, boquiaberta com o choque. Para minha surpresa, sob a luz do poste, vi lágrimas em sua face. Quase perguntei: “Por que você está chorando?”

Mas ela apenas olhou para a garota e depois para mim, antes de sair andando na direção de casa. Seus passos foram acelerando e de repente ela começou a correr cada vez mais rápido.

Olhei as pernas brancas da garota no chão. Ela estava estremecendo, fazendo um ruído como se estivesse sem fôlego, lutando para respirar. A faca estava no chão imundo, onde caíra.

Havia várias opções à minha frente, várias. Qualquer uma que escolhesse mudaria minha vida a partir daquele instante. Mas eu ainda não estava preparado para isso, na época. Frequentemente, volto a pensar naquela noite, já pronta para acolher o inverno, o ar frio, mas ainda não cortante, o som dos passos de Helen, correndo pela ruela, a imagem da garota com as pernas esticadas, a cabeça apoiada na base do muro, o rosto nos cacos de vidro, sujeiras e merda de cachorro acumuladas ao longo da passagem.

Foi então que eu a chutei. Não vi onde o chute acertou, e foi apenas um, só para ter certeza de que ela ainda estava viva. Não lhe disse nada. Simplesmente fui embora, na mesma direção que Helen, mas andando no ritmo de uma caminhada resoluta. Sequer olhei para trás.

Quando voltei para casa, subi e fui direto para o banheiro. Minha mãe estava na cozinha preparando o jantar. Não tinha certeza de que ela me ouvira entrando em casa; de qualquer maneira, fui para o banheiro e tranquei a porta. Havia sangue na manga da minha camisa da escola, e as articulações dos meus dedos estavam vermelhas e inchadas, embora não doessem. Não fazia ideia de onde tinha vindo aquele sangue. Coloquei a manga da camisa embaixo da torneira e esfreguei com uma escova para unhas até ficar limpa, depois coloquei a camisa no aquecedor para secar. Estava ciente do meu estado de excitação, mas apenas de um modo abstrato, até me despir e entrar no chuveiro. Era a isso que a violência me induzia?, eu me perguntava. Ou era só porque eu batera em uma garota? E então, a imagem dela caída, estendida na sujeira e no lixo do chão, quase imóvel — suas pernas brancas entreabertas — e o ruído dos passos de Helen, Helen fugindo. E o cabelo de Helen, como uma auréola em torno de sua cabeça, o formato da sua boca quando sussurrou aquela palavra para mim… SOCORRO. Eu provavelmente tinha interpretado mal toda a situação; entendera tudo errado. Mas nada disso importava enquanto eu me aliviava debaixo do chuveiro, pensando numa combinação de todas essas coisas, e o fato de que aquilo talvez não fosse o que o mundo considerava normal nem me passava pela cabeça.

Helen começou a se comportar de forma estranha comigo, após o incidente no beco. Na escola, ela ficava me encarando. Quando estava com as amigas, me cumprimentava e as outras a cutucavam e riam dela. Na hora do almoço, ela se sentava ao meu lado e começava a falar sobre ao que assistira na televisão na noite anterior. Eu fazia de tudo para tentar evitar suas abordagens, mas, embora elas não fossem facilitadas, tampouco eram indesejadas. Toda vez que a via, eu sentia o mesmo leve abalo que sentira no beco, quando ela veio na minha direção com aquela palavra silenciosa nos lábios.

Quanto à menina que eu derrubara — imaginei que se recuperara completamente. Nunca mais ouvi falar sobre o assunto e nunca mais voltei a vê-la.

Helen não mencionava o incidente em seus monólogos, o que tornava suas abordagens ainda mais estranhas. Todas as suas amigas pareciam achar que ela ficara totalmente louca a ponto de conversar comigo. Mas isso continuou durante o verão, no nosso último semestre, quando estávamos todos sob pressão para entrar na faculdade, e o calor e as reações alérgicas piorando a cada dia.

A última prova de Helen era na quinta-feira; a minha, no dia seguinte. Ela foi para o pub com os amigos, assim que a prova terminou e, logo que acabei minha revisão na biblioteca, ela já estava indo para casa. Consegui alcançá-la porque ela andava devagar, sorrindo e cantando em voz alta.

— Colin! — exclamou ela ao me ver. — Tudo terminou. Não é incrível?

— Para mim, ainda não. Minha última prova de física é amanhã.

— Hunf, física.

Ela balançava a bolsa na altura do tornozelo e nós caminhamos na direção do beco. Tínhamos feito esse trajeto — juntos — quase todos os dias, desde o incidente no inverno, porém, não trocamos nenhuma palavra sobre o assunto. Mas naquele dia, ao entrarmos no beco, ela pareceu hesitar, embora fizesse sol e estivesse bem claro.

Nunca me sentira à vontade com uma garota antes de Helen, e havia levado meses desde que ela começara a sorrir para mim e a conversar comigo para que eu passasse a confiar nela. Mas nas últimas semanas, justamente naquele verão tenso, cheio de estudos, pressão e profunda concentração, eu começara a me perguntar se ela se sentia atraída por mim. Uma vez que essa ideia entrou na minha cabeça, não saiu mais, e passei a tentar interpretar tudo o que ela dizia, todos os breves comentários, as risadas, como se talvez fosse seu jeito de flertar comigo.

Para mim, não fazia sentido algum o sistema complicado de interação entre os sexos. O modo como as garotas ficavam paradas ou se moviam. Aparentemente, era possível saber se alguém gostava de você pelo jeito como a pessoa se comportava quando você estava por perto.

Era o último dia de Helen no colégio. As provas haviam terminado, ela não tinha mais motivo para aparecer por lá e preencheria o resto do verão com dias preguiçosos, pegando sol e fazendo compras, viajando com os pais e saindo à noite com as amigas. Aquela seria nossa última caminhada juntos para casa. E minha última chance de descobrir se havia algo a mais naquilo tudo.

— Você podia me ligar — disse ela enquanto andávamos. — Nós podíamos nos encontrar, sabe. Se você estiver a fim.

— Ou então, você podia me ligar — falei, já sabendo que ela não faria isso.

— Anote seu telefone na minha bolsa — pediu ela, pegando um hidrocor preto na sua mochila de lona e arrancando a tampa com os dentes.

Não tive escolha, senão obedecer. Havia um pedaço pequeno ainda não utilizado na parte de dentro da aba da bolsa, e ela apoiou a mão do outro lado para aplainar o tecido enquanto eu escrevia o número do meu telefone, seguido do meu nome em letras maiúsculas. A tinta se dissolveu um pouco na lona e eu me perguntei se ainda estaria legível mais tarde. A cabeça dela estava perto da minha, raios de sol iluminando seu cabelo. Devolvi-lhe a caneta e continuamos andando.

— Helen — chamei, ao chegarmos no fim do beco.

— Hum? — respondeu ela, parando de andar assim como eu. Parecia sonolenta, os olhos semiabertos, uma das mãos fazendo sombra para protegê-la do sol, enquanto tentava olhar para mim.

Eu não conseguia pensar em mais nada para lhe dizer, então a beijei. Empurrei-a delicadamente no muro e a beijei. Mesmo agora, não sei como eu imaginava que seria, mas estava despreparado para a reação dela, e quando ela correspondeu, emiti um som que pareceu assustá-la, fazendo com que se afastasse de mim.

— Colin? Está tudo bem.

Então a beijei de novo, e dessa vez também foi embaraçoso. Eu era bem mais alto do que ela e meu pescoço estava inclinado num ângulo desconfortável para facilitar o beijo.

Quando acabou, me lembro de ir andando para casa — não exultante, nem um pouco, mas decepcionado. Então era só isso?, lembro-me de ter pensado. Aquela sensação quente e viscosa de ter a língua de outra pessoa encostando na sua? O gosto do chiclete de hortelã e da cerveja que ela bebera… Por pouco não estremeci.

A prova final baixou minha nota de A para B, e eliminou de fato minhas chances de conquistar uma vaga em Oxford ou Cambridge. Nunca mais vi Helen. Ela nunca me ligou, é claro, e possivelmente isso acabou me causando certo alívio.

Enquanto eu conversava com a mulher mais cedo, naquela noite, em frente a agência funerária do centro comercial, olhei para baixo — só uma vez — e vi a bolsa de lona que carregava e me perguntei se caso a abrisse encontraria meu nome escrito ali com a ponta de um hidrocor, ao lado de um número de telefone desbotado no tecido.

* * *

De qualquer modo, Vaughn entrou em contato com Audrey, portanto, tudo vai bem no mundinho dele. Não sei se tomou a decisão de lhe pedir em casamento. Mas acho divertido tentar imaginá-los em diferentes situações e qual delas ele escolheria para executar a façanha… ajoelhado, no cinema? Mergulhando de cilindro? Assistindo a televisão comendo um prato requentado no micro-ondas, cada qual em sua mesinha dobrável?

Estou sendo indelicado. A refeição que serviram fora perfeitamente aceitável, e estou mesmo feliz pelos dois, apesar de Audrey ter dado em cima de mim de forma audaciosa na outra noite. Ela foi meio, como diria, atrevida.

Estou ansioso para ler a edição de amanhã do Briarstone Chronicle. Pretendo comprar um exemplar a caminho do trabalho e, depois, espero lê-lo no carro antes de chegar lá. Desconfio que vou achá-lo bastante… divertido. Em seguida, é claro, tenho que cuidar da minha nova descoberta. Tenho que me certificar de que não ficarei disperso demais por causa do jornal, a ponto de perder a oportunidade de observar essa nova criatura se transformar.

Imagino se, rapidamente, eu dissesse alguma coisa um pouquinho — inoportuna — para Audrey e ela tomasse a mesma decisão das outras? Não era de modo algum minha intenção. Mas me pergunto, às vezes, se não sou simplesmente bom demais nisso. Talvez eu não tenha plena consciência de como esses poderes são excepcionais. Ou talvez eu esteja ficando tão à vontade que começo a confundir os limites entre o que é e o que não é aceitável.

De qualquer maneira, como eu digo, estou feliz que ela tenha reaparecido, bem e em segurança. Audrey sobrevive para enfrentar mais um dia… e quem sabe, com ou sem pedido de casamento, eu conseguirei encontrar uma oportunidade para tentar dar outro bote nela, um dia desses. Talvez eu devesse retribuir a gentileza e convidar os dois para jantar na minha casa. O que pensariam disso, eu me pergunto, desse casarão em estilo eduardiano? Aposto que ficariam surpresos ao ver que moro num lugar como aquele, e sem hipoteca a pagar, tampouco, é claro — todo o meu salário para eu fazer o que bem entender com ele. E, quando minha mãe finalmente resolver assumir seu lugar no reino da eterna danação, meu nome também estará na escritura.

Briarstone Chronicle Outubro

 

Denúncia leva à descoberta de mais dois corpos. Polícia caça o assassino

A polícia de Briarstone confirmou o início de uma investigação de homicídio, após a descoberta de mais dois corpos no bairro, na noite de terça-feira e na manhã de quarta-feira, revelou hoje um porta-voz da polícia. Dana Viliscevina, 30, originária da Sérvia que estava morando na Hawthorn Crescent, em Carnhurst, foi descoberta após o Chronicle receber por telefone a denúncia de uma mulher que afirmava saber o paradeiro de outros corpos abandonados. A denunciante desligou sem informar seu nome. Ontem, uma fonte da polícia disse que um segundo corpo havia sido encontrado. A segunda vítima foi identificada como Eileen Forbes, 45, residente na Oak Tree Lane, em Briarstone. Acredita-se que a Sra. Forbes tenha morrido somente poucas horas antes de ser encontrada, mas nossa fonte confirma que sua morte está estritamente ligada à investigação em andamento.

A Sra. Viliscevina trabalhava na escola primária St. Margaret’s Church of England, em Newington, como professora assistente. A diretora da escola St. Margaret’s, Bethan Davis, disse ontem que a Sra. Viliscevina estava havia muito tempo de licença médica. “Não fazíamos ideia”, disse ela ontem. “Eu mantinha contato regularmente com ela e seu estado parecia melhorar. Todos nós esperávamos que voltasse logo ao trabalho. As crianças ficaram bem abaladas.” Um serviço de apoio psicológico foi acionado para atender aos alunos que tiveram a Sra. Viliscevina como professora no início deste ano.

Os dois corpos descobertos esta semana levam a um total de 26 cadáveres encontrados até o momento, na área de Briarstone, desde o início do ano. A campanha “Ame seu Vizinho” foi lançada pelo Briarstone Chronicle num esforço visando transmitir a importância de cuidar das pessoas solitárias e vulneráveis de nossa sociedade. Todavia, parece claro, considerando a denúncia telefônica, que o aumento do número de corpos em decomposição em Briarstone não se trata de uma coincidência aleatória, e tampouco retrata uma falha da comunidade em cuidar de nossos vizinhos. Atualmente, a polícia procura um indivíduo que pode ter tido contato com todas as pessoas que foram encontradas mortas, esperando descobrir exatamente como elas faleceram.

Quem tiver qualquer informação relacionada à morte de Dana Viliscevina deve telefonar para a polícia de Briarstone.

É bom lembrar também que nunca é tarde para conferir como estão seus vizinhos!

Segundo o inspetor Andy Frost: “Todos nós temos o dever de cuidar das pessoas que sabemos que moram sozinhas. Há várias pessoas vulneráveis em nossa comunidade e as notícias recentes indicam que devemos cuidar delas e não deixar que outra pessoa faça isso.”

Dana

Faz anos que estou neste país, mas nunca o considerei um lar. Vim para cá pois queria fugir da guerra civil que se intensificava, das histórias que escutávamos sobre os soldados atacando as aldeias e as cidades ao norte, e as coisas que faziam. Peguei todo o dinheiro que tínhamos economizado e paguei a passagem para meus pais idosos e para mim. Primeiro, fomos de navio até a Sicília, onde desembarcamos na véspera do Natal. O lugar estava caótico. Outras pessoas tentavam seguir para o norte, para o centro da Europa, pegando carona com caminhoneiros, ou se escondendo em contêineres, quando era possível.

Meus pais não tinham condição de fazer isso. Na época, minha mãe já estava doente, cuspindo sangue e muito fraca. Meu pai tinha uma artrite grave e estava com dificuldade para andar. Ainda nos restava algum dinheiro e eu sentia que era perigoso que eu ficasse com ele, então comprei passagens de avião para nós e dois dias após o Ano-Novo aterrissamos em Londres.

O aeroporto fechou após nossa chegada, por causa do mau tempo. Fomos levados para um asilo em algum lugar fora da cidade. Minha mãe foi transportada para o hospital e faleceu no dia seguinte. Teve pneumonia e demoraram demais para lhe dar os remédios que poderiam ter ajudado a salvar sua vida.

Meu pai tentou seguir em frente sem ela, mas não conseguiu. Morreu um mês depois devido a um “infarto do miocárdio”, segundo o atestado de óbito. Mas a verdade é que ele não via razão para viver sem ela. Não lhe restara mais vontade ou força. E assim, ele também me deixou.

Esta é a história de como vim parar nesse país. Na minha terra, eu era professora do ensino fundamental e um membro bem respeitado da sociedade. Aqui, eu não era nada. Ganhava dinheiro servindo mesas nos restaurantes de Londres, ajudando na cozinha. Durante algum tempo, trabalhei num hotel londrino. Fazia qualquer coisa para poder pagar o aluguel do conjugado que eu dividia com três outras meninas do leste europeu, todas refugiadas, assim como eu, de guerras civis e limpezas étnicas. Todas tinham histórias para contar sobre o que viram, e o que enfrentaram para conseguir escapar. Todas as três tinham sofrido mais do que eu.

Economizei o máximo que pude e, finalmente, juntei dinheiro suficiente para fazer um curso que me qualificava como professora assistente no Reino Unido. Procurei emprego por todo o país e, por fim, consegui ser contratada na escola primária de Briarstone.

Nunca ouvira falar de Briarstone antes, embora ficasse mais perto de Londres do que todos os outros cargos aos quais eu me candidatara. Era uma escola pequena, agradável e os funcionários eram gentis — mas eu não tinha nada em comum com nenhum deles. Eles não me conheciam e não fazia sentido lhes contar o que acontecera comigo nos últimos anos.

Não sei o que desencadeou o problema. Fiquei na escola por um bom tempo. Vi as crianças progredindo, do maternal até chegarem à puberdade, e depois, foi a vez de ver o crescimento dos irmãos mais jovens.

Acho que pode ter sido pelo fato de eu estar me sentindo cansada há tanto tempo, de ter lutado por um longo tempo para seguir em frente. Eu sentia que minhas forças estavam no fim e estava tão exausta que após fechar os olhos todas as noites era uma luta para voltar a abri-los pela manhã. Acho que se eu tivesse encontrado alguém, um amigo, um namorado — alguém para me fazer companhia, um motivo para ser feliz — então talvez tivesse ficado viva. Mas simplesmente não restara mais nada. Nenhuma força, coragem ou energia. E em casos assim, a única solução é ficar deitada, calma, e esperar.

 

Eileen

não houve ato de violência perpetrado contra minha pessoa nenhum Ato de Violência nenhum ato de violência nenhum Ato. Não houve violência eles disseram que viriam até mim um dia e eles vieram me disseram o que falar quando falar e o que fazer quando falasse

não foi violência não machucou

foi a escolha que fiz escolha de minha livre vontade meu próprio destino a distância entre nós parecendo espaços como o vazio no meu coração as vozes em meu coração as profundezas da minha alma as profundezas do meu desespero

você pode arrancar isso de mim essa dor esse sofrimento pode arrancar de mim e fazer com que desapareçam

me faça desaparecer

paz na paz em pedaços

minha escolha minha decisão minha profanação minha vontade meus ossos minha alma meu caminho que escolhi fiz do meu jeito e vocês não podem tirar mais nada de mim agora não podem tirar nada