Restos Humanos
Annabel
— BEBA ISSO — DISSE ELE.
Abri a boca e tentei alcançar a xícara, o copo, segurá-lo, mas ele o reteve e o vidro bateu em meu lábio inferior e em meus dentes.
— Deixe que eu seguro — afirmou ele. — Beba.
Estava gelado e me fez tossir. Quando parei de tossir, abri os olhos e vi que ele continuava segurando o copo e, desta vez, bebi dois ou três goles. A água gelada desceu pela minha garganta. O gosto era estranho e me deixou enjoada.
— Você está me reconhecendo, Annabel? — perguntou ele.
Encarei seu rosto por um instante. Havia um nome para ele, mas não conseguia me lembrar. Era como se tivesse sido apagado.
— Sou eu, Sam. Sam Everett. Você se lembra de que já nos encontramos algumas vezes?
— Não sei.
— Vai ficar tudo bem — disse ele. Sua voz soava estranha para mim: irritante, dissonante e agitada, como uma mosca, uma vespa, voando pelo quarto. — Você vai ficar bem, juro. Vou cuidar de você.
— Vá embora — falei.
— Não vou, não. — Sua voz agora parecia triste. — Não vou a lugar algum. — Ele levou o copo até meus lábios mais uma vez, mas virei a cabeça. Aquilo não adiantava mais. Eu não devia mais fazer aquilo. — Não durma, Annabel — disse ele. — Fique comigo. Fique acordada.
Meus olhos estavam se fechando. Eu estava cansada e precisava esperar dar seis horas.