Restos Humanos

Elizabeth Haynes · Capítulo 10 de 52

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Restos Humanos

Colin

 

CHEGUEI À CASA DE VAUGHN EXATAMENTE às sete e trinta da noite, levando uma garrafa de vinho branco embrulhada num papel de seda. Tinha custado metade do preço no supermercado, tendo seu valor, que eu consideraria extravagante, reduzido a um que era aceitável; o mais provável seria Vaughn achar que eu gastara mais do que fora realmente o caso.

— Colin! — disse ele, ao abrir a porta para mim. Apertou calorosamente minha mão, o que achei bem estranho. Não estou acostumado a ter contato físico com Vaughn Bradstock. Já o conheço há uns quatro anos e não me recordo realmente da última vez em que toquei nele. Se é que de fato um dia o fiz.

Ele se afastou para me deixar entrar, e eu tirei o casaco no corredor e lhe entreguei a garrafa. Sua casa era surpreendentemente grande e decorada bem de acordo com a tendência atual: piso laminado e paredes de cores neutras. Como se chamava aquela cor? Cor de cogumelo? Cinza-acastanhado? Era medonho, de qualquer maneira, como a cor da água quando acabamos de enxugar o pincel de aquarela pela centésima vez. E ele tem um daqueles vasos horríveis, cheios de ramos secos, no canto da sala — ramos brotando de um bengaleiro de cerâmica perfeitamente funcional. Por que as pessoas seguem a moda dessa maneira é algo que nunca entenderei totalmente.

— Vamos, entre — disse Vaughn, sendo cordial. — Venha conhecer Audrey.

Também fiquei surpreso ao perceber que ele estava usando calça jeans e uma camisa que me pareceu ser de grife. Tinha uma aparência tão mais jovem do que aquela de quando nos encontrávamos na hora do almoço, a camisa velha e com gravata, o botão de cima sempre aberto. Sempre achei que ele tivesse pelo menos dez anos a mais que eu, porém não tinha mais tanta certeza assim.

A sala de estar era aberta, o teto alto e pintado com outra daquelas cores contemporâneas horríveis que ficarão terrivelmente datadas daqui a alguns anos. E que cor era aquela? Cor de trigo? Broa de milho? Queijo de Gloucester?

Eu estava tão ocupado olhando a decoração e as diversas obras de arte nas paredes, que nem notei a mulher que saíra da cozinha, até Vaughn pigarrear sutilmente e dizer, com palavras dotadas de uma modulação curiosa, sugerindo adoração:

— Colin, essa é Audrey.

Desviei o olhar daquele turbilhão abstrato em cores de chocolate e café e, automaticamente, estendi a mão para cumprimentá-la. Ela apertou minha mão dando um sorriso, mas também se ergueu até minha altura e me deu um beijo em cada bochecha, o que me deixou surpreso e envergonhado. Acho até que me retraí um pouco. Estou muito desacostumado a isso, a esse contato social. Senti vergonha de estar ali. E era só o Vaughn, caramba, não era ninguém importante. Senti minhas bochechas corarem e, por um instante, não consegui olhar diretamente para ela, pois talvez tivesse percebido meu desconforto.

Isso não tinha importância, de qualquer maneira, pois ela retornara à cozinha, depois de dizer algumas palavras que mal absorvi — prazer em conhecê-lo, obrigada por ter vindo, está quase pronto, já vou servir… alguma coisa assim.

— Sente-se — disse Vaughn, enfim.

Vaughn tem sofás de couro, daqueles que sempre estão em promoção, presumivelmente sendo substituídos pelos proprietários sempre que redecoram a casa. Eu me acomodei no mais próximo deles. Pela primeira vez, percebi o som de uma música, um piano clássico contemporâneo. Seria Alexis Ffrench? Ou, possivelmente, Ludivico Einaudi?

— Você está bem, cara? — perguntou Vaughn. — Parece um pouco… tenso.

— É — falei, acho que foi a primeira vez que consegui dizer algo. — Estou, sim. Só fiquei preso no engarrafamento, sabe…

Minha repentina incapacidade de manter uma conversa não pareceu perturbá-lo nem um pouco, e ele continuou falando sem parar sobre qualquer bobagem — a situação econômica, seu carro novo, se devia ou não expandir a parte de trás do seu terreno — e durante todo esse tempo, eu pensava em Audrey, me perguntando por que ela estava com Vaughn.

Sempre tive a impressão de que ela era mais velha do que ele, mas agora não entendia por quê. Audrey tinha um cabelo liso e preto e olhos azuis cintilantes num rosto sem rugas. Era mignon, e mesmo usando calça jeans, parecia elegante, chique. Nunca considerei realmente o significado da palavra “chique”, mas não havia melhor palavra para descrever Audrey.

Enquanto Vaughn falava, eu me levantei e fui até a cozinha, sem pensar no que estava fazendo ou se pareceria grosseiro me afastar do meu anfitrião enquanto ele tentava estabelecer uma conversa comigo.

Queria ver Audrey.

Eu me apoiei na porta, segurando minha taça de vinho, numa pose que pretendia ser casual, convidativa, amistosa. De início, ela não notou minha presença, pois estava ocupada mexendo alguma coisa no fogão. Observei-a se movimentando.

— Ah! — exclamou ela ao me ver. — Não vai demorar.

Não sabia o que dizer, meu perpétuo problema, e ao mesmo tempo, não queria ficar calado.

— Há quanto tempo você conhece Vaughn? — perguntei.

Ela me olhou surpresa, como se eu tivesse lhe perguntado sua idade ou seu peso. Afinal de contas, o que havia de errado com aquela pergunta? Será que era muito tarde para voltar atrás?

— Ele não contou? Eu o conheci no ano passado, em um site de relacionamento.

— É mesmo? — indaguei, autenticamente surpreso. — Qual?

— O Matchmakers.

É claro que devia ser um desses sites mais novos, provavelmente destinados a pessoas do tipo que eu desconsideraria. Prefiro aqueles em que os critérios de seleção incluem detalhes sobre grau de escolaridade, aspirações profissionais e faixa salarial, em vez do tamanho do pênis. Embora, talvez tenha sido neste ponto que me enganei. Talvez devesse voltar a considerar os sites de relacionamento; afinal de contas, já faz muito tempo desde que molhei o dedo do pé em um lago metafórico. Mas minhas necessidades eram um pouco diferentes agora, certo? E além disso, as mulheres não entram mais em sites de relacionamento da mesma forma que antes. Elas entram e depois contam tudo para as amigas. Avisam para as amigas e a família onde estão indo, quem vão encontrar, a que horas devem voltar para casa. Elas não entram nesses sites, a menos que tenham esperança no futuro.

— Ah — falei, cheio de perguntas para fazer e indagando qual delas seria a menos ofensiva.

Ela me entregou um prato com fatias de melão e prosciutto sobre elas.

— Você pode ir levando isso?

Por um momento, estabelecemos contato visual. Foi imaginação minha ou ela de fato reteve o prato nas mãos, após eu já tê-lo segurado? Ela realmente sustentou meu olhar por uma fração de tempo a mais do que eu esperava? Havia um desafio no seu olhar, uma curiosidade… talvez. Quase um atrevimento?

Sorri para ela, sentindo o calor da minha vergonha se dissipar um pouco, pela primeira vez desde que chegara. Não estava exatamente relaxando, mas começava a antever as possibilidades noite adentro. Audrey, Audrey , pensei, sua danadinha. Sua caixinha de surpresas.

Vaughn sentou-se na minha frente à mesa de jantar, supostamente para poder tocar nas pernas dela com sua pata suada, mas estava claro que Audrey tinha outras coisas em mente. Senti seu pé roçar no meu, assim que começamos a comer o prato principal. De início, ela o puxou de volta e olhou para mim, com um sorrisinho de desculpas, como se tivesse me chutado com força e não apenas confundido minha perna com a da mesa. Olhei-a fixamente em resposta, e deixei meu pé onde estava. E, pouco tempo depois, seu pé voltou e, desta vez, pousou suavemente no meu, enquanto escutava Vaughn tagarelar sobre o preço das ações e se servia de mais uma colher cheia de molho. E a comida estava razoável, tenho que dar crédito a ela por isso.

Depois do jantar, Audrey pediu a Vaughn que levasse os pratos para a cozinha e me conduziu até a sala de estar, pegando uma segunda garrafa de vinho e servindo mais uma taça para mim assim que me sentei no sofá de couro de Vaughn. Quando ela se inclinou para a frente, apreciei seu generoso decote, embora tenha tentado disfarçar. Seus seios eram bem redondos, o tecido de sua blusa se esticava sobre eles, e senti um odor de perfume — ou talvez fosse somente o sabonete ou o gel de banho que usara mais cedo naquela noite enquanto se arrumava para a minha chegada. Fiquei me perguntando se ela teria pensado sobre a perspectiva de eu enterrar minha cabeça entre seus peitos, se tinha considerado a possibilidade de eu querer fazer sexo com ela.

— Esse é bom, não é? — comentou ela.

Decidira sentar-se ao meu lado no sofá, embora houvesse outro assento na sala, bem em frente àquele. Ela se encolhera confortavelmente, como uma gata aninhada num canto, seus pés apontados para mim, pequenos e descalços, com as unhas pintadas de rosa-claro. Como pude imaginar que ela teria quase cinquenta anos? Tinha uns trinta, se tanto.

— O quê? — perguntei.

— O vinho.

— Ah, sim — respondi, embora para mim tivesse gosto de vinagre.

No final das contas, eu deveria ter trazido uma garrafa decente, algo que permitisse uma conversa adequada. Podia ver que ela era uma mulher que sabia o que queria.

Da cozinha, o som de pratos e talheres se entrechocando nas mãos de Vaughn fornecia uma percussão encorajadora para a melodia de nossa conversa.

— O que você faz? — quis saber ela. — Vaughn nunca me disse.

— Sou analista de desempenho executivo na prefeitura.

— Parece interessante — disse ela, e depois começou a rir, o que foi um alívio para mim, pois aquela era uma mentira óbvia. Estava sendo irônica. Um homem pode se apaixonar por uma mulher como esta, pensei. Não estava interessado em trepar com ela, eu queria me casar com ela.

— Alguém aceita um café? — perguntou Vaughn da cozinha.

— Sim, por favor — respondeu Audrey. Ela inclinou a cabeça para trás, apoiando-a nas almofadas, expondo o pescoço para mim e mais uma vez aquele delicioso decote. Senti vontade de passar a língua atrás de sua orelha e depois ir descendo até chegar entre seus seios, tirando o tecido do caminho.

— E você? — perguntei. — O que você faz?

— Trabalho com assistência social — respondeu ela.

Minha aguçada capacidade habitual de conversação travou nesse momento, muito provavelmente por causa da excitação: um excesso de fluxo sanguíneo desviado do cérebro para partes mais vitais de minha anatomia. Afinal de contas, que interesse poderíamos ter numa conversa assim? Não havia dúvidas de que queríamos passar a agir; certamente só precisávamos nos livrar de Vaughn para poder trepar. Era isso o que ela queria, tanto quanto eu.

No momento em que essa ideia surgiu em minha cabeça, soube que precisava fazer algo a respeito.

Limpei a garganta e me levantei. Ela me olhou, surpresa.

— Eu… hum… posso usar o banheiro?

Ela sorriu, aliviada.

— Claro, fica no alto da escada. Infelizmente, o deste andar está temporariamente interditado.

Subi a escada um pouco desajeitado. Lá em cima, olhei para a esquerda e vi o quarto de Vaughn — algo que preferiria não ter visto, para ser sincero — paredes cinza-claro, a mais afastada decorada com um papel de parede dramático e de uma cor só. Uma “parede focal”, é como chamam isso, não é? Eu ficaria com dor de cabeça, se tivesse que dormir ali.

E o banheiro. Não estava com vontade de usá-lo, é claro. Estava esperando por ela.

Entrei e fechei parcialmente a porta, olhando para os azulejos bege limpos, me perguntando quando Vaughn os tinha colocado — fazia pouco tempo, considerando o leve odor de argamassa —, e as torneiras brilhantes e cromadas que, sem dúvida, deviam ter custado uma pequena fortuna. Audrey, Audrey, pensei, como se pudesse fazer com que ela subisse a escada, só em repetir mentalmente seu nome, como um mantra.

Olhei para os artigos de banho enfileirados no peitoril da janela. Eram todos, sem exceção, masculinos: xampu, sabonete líquido, um barbeador e um creme de barbear com a base enferrujada da marca do supermercado. Não havia nenhum desses xampus caríssimos de cabeleireiro, nem perfume ou cosméticos.

Voltei a abrir a porta e segui direto para o quarto de Vaughn. Mais uma vez, um quarto seguramente masculino. Havia até alguns aparelhos de ginástica no canto, o que me fez rir alto. Imaginei Vaughn malhando ali, suando, à medida que remava em busca de um abdômen musculoso. Bem improvável. Duvidava que tivesse usado sequer um dia.

Então, a deleitosa Audrey ainda não tinha se mudado para lá. Tampouco dormia ali com frequência, caso contrário já teria trazido algumas coisas suas. Nada ali era dela. Eu me perguntei se haveria calcinhas na gaveta de Vaughn, talvez uma ou duas sobressalentes, ou talvez algo especial, aquela que só vestiria para ele, só quando estivesse planejando fazer sexo.

— Está tudo bem?

Audrey estava atrás de mim. Não a escutara subindo as escadas. Virei e sorri para ela, respondendo:

— Tudo.

— O que você está fazendo? — Sua pergunta era direta.

— Estava vendo se você já tinha se mudado para cá — respondi, preferindo falar a verdade.

Se fosse Vaughn que tivesse subido até ali, eu faria algum comentário sobre o papel de parede. Mas era Audrey, e não fazia sentido mentir. Ela havia subido porque eu a intimara a fazer isso, tinha deixado transparecer o que queria fazer com ela. E ali estava ela, em pé ao meu lado, na verdade, bem próxima de mim, mais do que o necessário.

— Você poderia ter simplesmente perguntado. De qualquer maneira, não — respondeu ela com a voz baixa. Seu peito arfava como se estivesse sem fôlego.

— E por quê? — perguntei, dando um pequeno passo na sua direção.

Ela recuou. Ah, havia me precipitado? Muito? Rápido demais? Eu teria que ser cauteloso. Precisaria fazer isso delicadamente, para não assustá-la. Ela valia esse esforço. Valia a conquista.

Sua expressão ficou estranha.

— Tenho minha própria casa — disse ela.

Isso não era resposta. Por que tinha entrado em um site de relacionamento se não queria um compromisso? De fato, é isso o que todas as mulheres querem: um parceiro com uma casa para onde possam se mudar, casamento, filhos. A menos que quisesse outra coisa. A menos que só quisesse sexo.

Encontrei seu olhar outra vez. Sustentei o contato visual, um contato firme.

Ela não se mexeu.

Ah, a resistência! Gostei daquilo. Gostei que ela fosse um desafio. Sorri para ela, um breve sorriso encorajador.

— Audrey? Onde vai tomar seu café?

— Estou indo! — respondeu ela, sem desviar os olhos dos meus. Sua voz soou automática, desprovida de tom. Sua expressão era difícil de interpretar. Será que estaria atraída por mim? Queria que eu a beijasse? Como reagiria se eu o fizesse?

— Você é…

— O quê? — perguntei num sussurro, umedecendo os lábios com a ponta da língua. — Eu sou o quê?

— Porra, você é um cara muito estranho, Colin — disse ela, antes de se virar e descer a escada, sem olhar de volta para mim.

Ah, Vaughn. Naquele instante ficaria feliz se o tivesse matado. Poderia ter agarrado seu pescoço com as mãos e o esmagado até expulsar todo o ar de seus pulmões. Se não fosse por aquela interrupção, ela teria cedido, eu sabia disso. Ela me queria.

Segui-a pela escada, me deliciando com seu perfume no ar. Tinha estado tão perto de mim. Gostaria que ela tivesse cedido. Mas na próxima vez, quem sabe, se entregaria. Eu me pergunto se conseguirei vê-la sozinha, encontrar alguma desculpa para visitá-la.

Ela estava de volta à cozinha com Vaughn. Pude ouvi-los sussurrando. Fiz um esforço para escutar, pensando que ela podia dizer algo útil, alguma coisa sobre como ela se sentiu impelida a agir de um modo estranho, como foi dominada por algo… Mas ela nada disse. Ouvi apenas aquele tom de voz urgente e murmurante de duas pessoas tentando não discutir diante de outras.

Eu me instalei no sofá de couro e bebi mais vinho. Mais dez minutos até eu pensar em uma desculpa para chamar um táxi e ir embora. A noite acabara sendo menos divertida do que eu tinha imaginado, e agora surgia um outro dilema: eu passara da fase em que precisava de uma mulher para a fase de perceber que não precisava de mulher alguma e, agora, estava precisando de uma novamente. Mas não de uma mulher qualquer, dessa vez. Somente ela. Somente Audrey.

Uma hora mais tarde, sozinho em casa, me aliviando enfim daquela tensão deliciosa que se tornara insuportável, comecei a pensar em como conquistá-la. Como fazer seu olhar se afastar do de Vaughn e se fixar no meu. E o que seria preciso fazer para que ela me quisesse.

* * *

Acordei no meio da noite. Estava sonhando com Audrey, é claro. Ela estava aqui, no meu quarto, e Vaughn também, aparentemente com o propósito de despi-la para mim. Eu estava deitado de costas na cama, o lençol na altura dos tornozelos. Vaughn a levou até ali, como um prêmio, como uma virgem sendo oferecida ao Templo, e tendo recebido um sinal de permissão, ele começou a tirar a roupa dela, uma peça de cada vez, enquanto Audrey permanecia imóvel, com uma expressão indecifrável. Tédio seria a palavra mais adequada para descrevê-la. Olhava diretamente para a frente, na minha direção, porém, sem me ver. Ela estava ali porque tinha que estar, não porque queria. A coação em si não me atraía, mas havia algo na sua presença que era inegavelmente excitante.

— Audrey — falei no meu sonho. Nem assim ela lançou um olhar na minha direção. Agora, parecia tão zangada quanto entediada, uma criança petulante que fora tirada de uma atividade prazerosa e levada para uma desagradável.

Vaughn tirou sua meia-calça — meia-calça, não sete oitavos — claro que não eram meias sete oitavos; por que eu precisava imaginar algo tão atraente para revestir aquelas pernas esguias, deliciosas? — e ergueu uma perna de cada vez, como um ferrador pondo ferraduras num cavalo, fazendo deslizar o náilon até o pé e deixando a meia-calça de lado, como se fosse uma pele arrancada.

E ela permaneceu ali, de calcinha e sutiã, funcional, incomparável — o sutiã meio fosco tinha um buraco na renda; a calcinha era grande e de algodão preto. Vestida, na cozinha de Vaughn, ela estava, se não exatamente linda, inegavelmente sexy. De qualquer modo, era sem dúvida atraente — atraente o bastante para me excitar. Mas agora, nos meus sonhos, tudo ficara insípido. Seu cabelo não tinha mais aquele tom lustroso de castanho, caindo em ondas brilhantes sobre seus ombros. Estavam pardos, os cachos frouxos, lânguidos. Seu rosto, pálido, os olhos de um azul acinzentado e sujo. Nada nela era atraente da forma convencional.

Vaughn parecia incapaz de parar, muito embora fosse isso o que eu queria. Pode parar, Vaughn, eu queria dizer — pare agora. Não quero ver o resto. Mas ele continuou, automaticamente, como se seguisse um programa que não podia ser interrompido antes da hora.

E agora, semiacordado, minha mão se movia depressa sob o lençol e me surpreendi arfando e gemendo ao ver Vaughn arrancar os últimos fragmentos de náilon cinza e algodão preto da pele de sua indiferente, apática e cúmplice namorada. Nua, ela ficava pior. Deselegante, exaurida, tufos de pelos grisalhos entre as pernas; até seus joelhos eram canhestros e repletos de verrugas. Apesar disso, apesar do fato de que ela preferiria claramente estar em qualquer outro lugar do planeta em vez de estar ali, nua, no meu quarto, eu atinjo um orgasmo de intensidade ofegante, insaciável e vertiginosa. Algo como olhar para o abismo e vê-lo olhar de volta direto para mim.

* * *

Depois do jantar com Audrey e Vaughn, acordei tarde no dia seguinte. Fiquei deitado com os raios de sol entrando pela brecha das cortinas, pensando nas minhas últimas noites com a garrafa de uísque esvaziando rapidamente e me perguntando se ainda era cedo demais para eu considerar a possibilidade de procurar ajuda terapêutica para o meu problema. E quanto à masturbação — bem, graças ao meu sonho, ou terá sido um pesadelo, de ter gozado com o prolongado e decepcionante striptease de Audrey, tenho absoluta certeza de que serei capaz de seguir o caminho da abstinência por pelo menos uma semana. Há algo de profundamente desconcertante em ter que trocar os lençóis e tomar uma ducha no meio da madrugada por ter se sujado com uma ejaculação noturna como um adolescente cheio de hormônios. Até mesmo meu subconsciente considera isso uma conduta repugnante.

Finalmente, me levantei e preparei o café da manhã, depois me lavei e me vesti. A manhã estava ensolarada, então resolvi sair para dar uma caminhada e refletir sobre como preencher o resto do meu fim de semana.

Na rua principal, encontrei um texugo caído no acostamento, a cabeça esmagada pela roda de um carro. Ainda estava relativamente fresco, apenas começando a entrar na fase de Inchaço, suas quatro patas erguidas e estiradas devido aos gases da Putrefação que dilatam o abdômen, o sangue ainda vermelho em torno de sua cabeça. Fiquei ali, observando por algum tempo. Não havia uma calçada, só mato na beira da pista com uma cerca viva, além do campo.

Pensei em voltar para casa, pegar um saco qualquer e levá-lo para outro lugar, onde poderia assistir ao desenrolar do processo, mas é claro que não tinha sentido intervir. Isso acabaria com todo o objetivo. A deterioração devia acontecer ali, onde o animal morreu, do contrário, não seria um processo autêntico. Então o deixo ali, relutantemente, pensando em voltar no dia seguinte depois do trabalho, se tiver tempo, supondo que os funcionários da prefeitura ainda não o terão encontrado nem o jogado na caçamba da caminhonete que retira os animais mortos na estrada.

Após o almoço, estudei um pouco, revendo as frases interrogativas, comandos embutidos e vínculos duplos, pensando no texugo, pensando em Leah, cada um deles tão diferentes; cada qual com necessidades tão distintas.

Ela me contou o que aconteceu, por fim. Não foi preciso muito para lhe fazer falar, e quando começou, reagi de modo apropriado, provocando seu relato, puxando a linha bem devagar para depois vê-la desmoronar. Ela estava trabalhando num hipermercado, fazendo um treinamento gerencial, e o chefe vinha paquerando-a havia várias semanas. Ele era mais velho que ela e, gradualmente, Leah começou a ceder ao seu charme e a admitir para si mesma que o achava atraente. Finalmente, certa noite após o expediente, ela aceitou sair para beber alguma coisa com ele, e depois disso voltaram para o hipermercado. Eu queria detalhes, é claro — afinal de contas, é a parte mais interessante —, mas pressioná-la sobre isso acabaria desviando-a do objetivo principal de nossa conversa, que era ajudá-la a encontrar o caminho certo. Fazer com que se recordasse dos detalhes do seu caso sexual não ajudaria em nada. Então, eles tiveram um caso que consistia basicamente em fazer sexo no hipermercado após o expediente, ou no carro dele, estacionado numa área rural afastada. E aí, a esposa dele descobriu o que estava acontecendo e, em seguida, ocorreu um encontro humilhante no trabalho, com Leah envergonhada na frente de todos os funcionários e de alguns clientes também. Eu não teria acreditado que isso seria possível, quando a encontrei pela primeira vez — uma moça tão tímida e quieta —, mas ela, honestamente, não se dera conta de que ele era casado. E depois disso, é claro, ele passou a evitá-la de todas as maneiras, manteve-se afastado e a excluiu do treinamento para se tornar gerente, do qual ela deveria participar. Ela pediu transferência, mas o pedido foi recusado pelo escritório central. E apesar de tudo isso, apesar da conduta estarrecedora do homem, o que trouxe Leah até mim foi que ela ainda o amava, apesar de ser impossível.

Ela falou essa palavra: impossível. A palavra que eu precisava ouvir para começar tudo.

— É fácil melhorar as coisas — falei. — É fácil achar a luz no fim do túnel, e o caminho para isso é simplíssimo.

— Tenho medo da dor — replicou ela.

— E pode haver alguma dor pior do que essa?

— Não. Mas posso fazer errado. Pode não dar certo e isso seria pior…

— Não existem escolhas erradas. Você pode tomar essa decisão e sentir-se melhor em relação a tudo. É uma decisão sua. Está inteiramente nas suas mãos. Você tem o poder para isso e a força para fazê-lo.

— Acho que sim.

— Sempre existirá a paz — comentei com a voz bem suave. — Paz, sossego e um fim para todo o sofrimento. Você pode escolher que seja indolor e brando, vai ser exatamente como decidir. Cabe a você.

Do ponto de vista puramente técnico, é mesmo facílimo. As técnicas que aprendi — padrões de linguagem, induzindo a um estado de transe e a um elevado estado de relaxamento das pessoas unicamente através da conversa — era a parte mais simples de tudo. Trata-se apenas de escutar com atenção o que elas estão lhe dizendo, não somente com as palavras, mas, principalmente, com seus corpos, seus olhos, seus gestos e as mudanças de tom sutis. Não chega a ser uma ciência espacial (um imperdoável clichê), mas tampouco uma pseudociência. É de uma facilidade tranquilizadora saber como.

Você quer saber como eu faço, não é? Posso imaginar seu interesse ardente, sua curiosidade, que os outros podem classificar como mórbida: posso ver no brilho de seus olhos. Pois bem, me pergunte. Vamos. Sei que você está morrendo de vontade de…

De qualquer modo, não posso e não devo revelar os detalhes. Você acha que aprendi isso de um dia para o outro? Acha que esse nível de consciência é algo que qualquer um pode dominar? É um processo lento e longo, não se trata apenas de aprender as técnicas necessárias, mas do esforço exigido para ajustar esse mesmo processo ao indivíduo em questão. Começa com uma simples conversa, que é apenas o primeiro de vários encontros, de várias conversas assim. O mais difícil é saber se estão prontos e identificar aqueles que estão bem perto de fazer o processo funcionar.

Não tenho certeza de que Leah já esteja nesse ponto e estou pensando em dar algumas semanas a ela e talvez voltar a entrar em contato daqui a algum tempo. Ela vai seguir um caminho ou outro. Se escolher o lado certo, então estarei pronto para ela.

Às vezes, encontro pessoas que não estão prontas, e as deixo seguir seu próprio caminho. Se precisarem de mim mais tarde, eu as encontrarei novamente.

De qualquer maneira, não é como se eu não tivesse outras à espreita.