Restos Humanos

Elizabeth Haynes · Capítulo 8 de 52

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Restos Humanos

Colin

 

EU DEVIA TER LIDO SOBRE SUBMODALIDADES críticas antes da aula desta noite, mas em vez disso acabei me distraindo com os livros de biologia do ano passado. Lembro-me de ter lido sobre decomposição — um processo tão lindo e perfeito: criado pela natureza, maculado e deturpado pela atividade humana. Tantas variáveis, previsíveis, todo o sistema governado pela natureza, que está além do controle humano.

Entrei na internet para pesquisar sobre a Decadência, meu estágio predileto de Decomposição. A Decadência, tecnicamente, começa após o Inchaço, a notificação da natureza — os tecidos mais frágeis são logo reduzidos nesse período, especialmente se, durante a fase do Inchaço, a pele tiver esticado tanto a ponto de rachar. Assim como a atividade dos detritívoros, processos internos (os naturais) aceleram a decomposição, inclusive a infinitamente fascinante autólise, que é a destruição das células pelas enzimas do próprio corpo. O pâncreas, cheio de enzimas digestivas, é um dos primeiros órgãos a sumir. Ao final da fase de Decadência, não sobra quase nada, nem mesmo pele. As moléculas que uma vez constituíram um ser vivo, respirando e consciente são transformadas em átomos que nutrem o solo e encorajam uma nova vida. Uma reciclagem insuperável.

Por fim, tive que largar meu computador. A caminho do curso, passei numa casa em Catswood. Só uma visita rápida. Não muito esclarecedora.

O prédio da Universidade estava cinzento com a chuva, um bloco de concreto que as pessoas acham horrendo e eu acho interessante. Sua estrutura é muito uniforme, mas quanto mais perto se chega, melhor se percebem as rachaduras, o líquen invadindo, as texturas mudando por causa da corrosão climática.

Havia cinco pessoas na aula: Darren, Lisa, Alison, Roger e eu. Nigel, o professor, estava atrasado como sempre, e nós ficamos esperando fora da sala, que estava trancada, com nossos cafés extraídos da máquina, ali em pé numa espécie de silêncio austero. Eu me perguntei se eles também estavam pensando em alguma coisa inteligente para dizer. Esse é o problema desse curso — deixa você sob a maior pressão para dizer algo interessante, quando consegue falar com outra pessoa.

Roger se aproximou de mim e limpou a garganta. Ele queria saber se eu já tinha colocado em prática algumas das técnicas.

— Nenhuma delas — respondi e logo depois sorri para ele, dando uma piscadela desanimada, pois sabia que, dada a natureza do estudo, ele seria capaz de descobrir que eu estava mentindo. Embora pudesse não ter percebido a mentira e interpretado mal a piscadela. Tão precária é a natureza de nossos métodos de comunicação.

Depois da aula, fiquei esperando na sala, fazendo perguntas fúteis sobre o potencial para estudos associados e quantos créditos esse curso me daria para uma formação posterior, dessa vez em psicologia — afinal de contas, por que não? —, mas estava de fato só protelando, de modo a não ter que andar de volta até meu carro com aquele bando de desiludidos.

Pelas portas envidraçadas, vi Lisa e Roger ao lado da entrada principal, conversando. Ela estava numa posição angular, seu quadril de frente para ele, a ponta de seu sapato apontando para o lado, longe dele. Roger se inclinava na direção de Lisa, rindo e — sim, pode acreditar — umedecendo os lábios com a ponta da língua. E ela riu também, jogando a cabeça para trás, expondo seu pescoço para ele.

Virei as costas para eles e examinei o quadro de avisos na entrada. Olhei os anúncios de apartamentos para dividir, outros de grupos sociais, sociedades esportivas e serviços para os estudantes, incluindo consultoria. Estes eu examinei mais detalhadamente. Um pequeno anúncio, escondido atrás de outro de um grupo de apoio à amamentação para jovens mães, chamou minha atenção, pois oferecia (Como é que pode? Logo ali?) apoio em caso de falecimento de entes queridos.

Somos um grupo de estudantes no qual todos sofremos com a perda de uma

pessoa querida. Nosso objetivo é aceitar nossas diferentes situações através do

apoio mútuo. Toda terça-feira, das 18h30 às 21h. Sala 13. Todos são bem-vindos.

Fiquei olhando o anúncio por alguns instantes, sem querer me virar, no caso de Lisa e Roger notarem minha presença e se perguntarem que diabos eu estava fazendo ali. Ao lado, havia outro anúncio, este para distúrbios alimentares. Outro, o maior, que parecia mais oficial, era dos Alcoólicos Anônimos.

É estranho como o destino intervém em momentos como este. Eu estava diante do quadro de avisos, lendo sobre alcoólatras e luto e, de repente, ela apareceu ali, ao meu lado, lendo as mesmas coisas inúteis que eu. Olhei-a de soslaio e senti algo, o rumor de uma excitação. Ela usava uma jaqueta jeans com uma echarpe que dava várias voltas no seu pescoço. Puxou as mangas surradas e desfiadas da jaqueta para esconder as mãos.

Olhei-a e arrisquei um sorriso. Ela encontrou meu olhar e desviou os olhos para o lado novamente. Havia aquele ar de desespero em seu rosto. Eu não sabia o que tinha provocado aquilo, de onde vinha. Mas, de um modo ou de outro, estava ali.

Coloquei a mão no seu braço e ela teve um ligeiro sobressalto.

— Olhe — falei. — Acho que é um anúncio assim que você devia estar lendo.

Apontei aleatoriamente para um aviso no quadro, o de um grupo de orientação para estudantes. De imediato, ela se inclinou, aproximando-se do quadro, e de mim, e examinou com atenção o pedaço de papel.

— Acho que…

— Ou você acha que esse outro pode ser o que você procura? — falei, apontando para outro anúncio.

— É — respondeu ela, olhando para mim e sorrindo. — É esse mesmo. Acho que é esse. Obrigada.

— É tão fácil melhorar as coisas — falei.

Ela fez um som com a boca. Estabeleci contato visual com ela no instante em que uma lágrima brotou no canto do seu olho e escorreu pela face.

Toquei novamente em seu braço.

— O que você precisa pensar em fazer é talvez ir comigo até o pub; isso seria bem fácil, não?

Sua hesitação foi bem imperceptível. Até me surpreendi.

— Ok, tudo bem — respondeu ela.

Felizmente, Lisa e Roger tinham ido embora. Eu a conduzi até o estacionamento, me perguntando se levá-la no meu carro tão cedo seria uma boa ideia. Havia um pub na esquina que não parecia estar cheio, o que significava que teríamos mais chances de ser notados, mas não havia outro jeito. Não podia me arriscar levando-a no meu carro. Era um pub frequentado por pessoas mais velhas, o que aumentava a probabilidade de dois estranhos chamarem a atenção; por outro lado, era improvável que houvesse uma câmera de circuito interno funcionando.

Fui com ela para o bar e fiz com que se sentasse ao lado de uma lareira apagada.

— Onde você prefere se sentar? Aqui parece um bom lugar, não acha? — Ela aceitou sem hesitar. — Você quer beber uma Coca?

— Sim — disse ela.

Olhei para o velho sentado com uma caneca de cerveja preta à sua frente, era a única outra pessoa sentada no bar. Do outro lado, dava para ouvir o som de bolas de sinuca se chocando e as risadas de homens mais jovens. Aquele era o lugar certo.

Uma atendente surgiu de trás do balcão. Era jovem, o cabelo louro oxigenado preso em uma trança irregular que caía por um dos ombros.

— Do que gostariam?

— Uma Coca e uma caneca de John Smith’s, por favor — respondi, entregando-lhe o dinheiro.

Enquanto ela enchia a caneca, olhei para trás vendo minha acompanhante sentada onde eu a deixara, puxando nervosamente as mangas da jaqueta, como se estivesse esperando para ser atendida pelo dentista ou ser entrevistada para uma vaga de emprego. Todos esses anos imaginando como fazer para conseguir uma mulher e, na verdade, a coisa era ridiculamente direta. Basta lhes dizer o que fazer. É tão simples.

Levei as bebidas até a mesa e sentei à sua frente.

— Qual é seu nome? — perguntou ela.

— Meu nome é John — respondi, escolhendo um nome qualquer; toda vez, um nome diferente, um sinal de reconhecimento por ter que ser uma pessoa diferente para cada uma delas.

— John — repetiu ela, degustando a palavra.

— E o seu?

— Leah.

— Seu nome é Leah — repeti. — Isso aí.

Ela pegou o copo de refrigerante e bebeu, sem questionar, ou sequer parecer perturbada pela minha estranha escolha de palavras. Foi neste instante que eu soube que a tinha nas mãos. Ela agora é minha, toda minha, posso fazer o que quiser. Tínhamos muito sobre o que conversar, Leah e eu. Eu queria ouvir sua história, queria que me contasse tudo sobre suas angústias, seus medos e sua falta de esperança. E agora eu sabia como ajudá-la.