A babá (Família Brown, Livro 1)
Capítulo 13
Bruna Watts.
Não sabia se deveria ir ao piquenique. Não que eu não tivesse perdoado o Theo, mas não me via indo a um piquenique em uma fazenda com um homem que havia conhecido no dia anterior. Fiquei pensando sobre este assunto o dia todo e sinceramente não havia chegado a nenhuma solução para o meu pequeno problema.
Não vi Nathan o dia todo, ele deixou somente um bilhete dizendo que no final da tarde estaria de volta.
Cloe ficou vigilante a cada movimento meu com Arthur, me senti um rato pronto a ser capturado por um falcão faminto. Ela nunca falava nada, apenas esboçava um sorriso tímido, o que me dava um alívio. Estava fazendo o certo.
Noemi e Mart, toda vez que me encontravam pela casa, pediam desculpas pelo filho. Dei muita sorte de não ter visto Theo, não tinha resposta para o seu convite e se o encontrasse não conseguiria negar seu pedido.
Já estava tarde e Arthur estava lindo em um conjunto azul e vermelho, terminei de arrumar a gola da sua roupa, o peguei e coloquei para que ficasse olhando para frente, apoiei sua cabeça em meu peito e o segurei perto do meu corpo.
— Bom, acho que temos um piquenique para ir. — Disse olhando para ele pelo espelho. — Me prometa que, qualquer coisa, fará algo para me fazer fugir de lá. Estou contando com você, pequeno. — Soltei um suspiro. — Seja o que Deus quiser.
A macieira não era muito longe da casa, pelo que Noemi me disse, passava apenas pelo estábulo e tinha que seguir por um caminho de cascalho até encontrar uma grande macieira com uma velha casa de bonecas ao lado.
A toalha xadrez estendida no chão revelava que estava no lugar certo, uma variedade de comida estava espalhada pela toalha, o que me fez duvidar que seria apenas nós dois naquela tarde.
Sentei-me com cuidado e comecei a brincar com Arthur já que éramos somente nós dois ali, tirei seu brinquedo favorito da bolsa e brinquei com ele por um tempo.
— Confesso que fiquei com medo de você não aparecer. — Disse Theo.
Ele estava em pé, na direção contrária da que eu havia chegado. Suas roupas casuais me fizeram admirá-lo por mais um tempo, pela primeira vez, vi seu corpo sem aquele terno de três peças. Ele estava usando uma calça jeans e uma regata preta, deixando visível o início de uma tatuagem em seu ombro direito.
— Arthur insistiu muito, não tive como negar. — Disse enquanto olhava Arthur apertar meu dedo em sua pequena mão.
— Vou compensá-lo mais tarde. — Disse se aproximando com uma jarra de suco. — Bruna, queria me desculpar por ontem, falei sem pensar e acabei magoando seus sentimentos. Não lhe dei uma boa impressão, agindo daquela forma. Queria me desculpar ontem mesmo, mas minha mãe deu a ideia do piquenique. Espero que tenha gostando.
— Não se preocupe com ontem, já esqueci e sua mãe e seu pai já pediram desculpas por você umas duzentas vezes hoje, fiquei até com medo de ela escrever ''desculpe o meu filho'' na panqueca, com calda de chocolate.
— Estou impressionado por ela não ter feito.
Rimos.
— Estou perdoado?
— Está sim.
Ele soltou um suspiro de alívio e logo se sentou à minha frente, com um sorriso cativante.
— Eu não sabia o que você gostava, então comprei de tudo um pouco. O que gostaria de provar primeiro?
Depois de olhar a variedade de pratos à minha frente mais uma vez, acabei decidindo.
— Estou curiosa para experimentar a famosa torta da sua mãe. — Disse lhe lançando um sorriso tímido.
Ele me lançou um sorriso e pegou um pedaço de torta que já estava cortada, colocou à minha frente o prato junto com um garfo.
— Deixa que eu seguro o Arthur enquanto você experimenta. — Disse, já o pegando do meu colo, meio atrapalhado, mas logo achou uma posição segura.
Entreguei a fralda de boca e peguei o prato, cortei o primeiro pedacinho com a ajuda do garfo e logo coloquei na boca. A massa adocicada, levemente amanteigada, derreteu na minha boca, o recheio de Blueberry ainda morno fazia um complemento maravilhoso. Soltei um gemido de satisfação com os olhos fechados e ouvi a risada tímida do Theo.
— Nossa! — Exclamei — É a melhor coisa que já comi na minha vida, literalmente comeria essa torta rezando.
— Minha mãe ficará feliz em saber disso, mas acho que você não comerá mais nada depois dessa torta. — Disse olhando para a comida espalhada pelo chão.
Não poderia mentir, sinceramente passaria o dia comendo aquela torta, mas seria um desperdício negar toda aquela comida.
— Não prometo comer tudo, mas vou comer outras coisas sim.
O piquenique foi agradável, Arthur não ficou muito tempo no colo do Theo, logo depois de um tempo ele resmungou e o peguei no colo. Não comemos nem a metade da comida, mas logo Noemi e Mart se juntaram a nós, deixando Theo sem graça, mas a presença deles deixou o dia mais descontraído e Arthur amou se mimado pelo dois. No final da tarde, agradeci Theo pelo o convite e me despedi de todos, já que estava tarde e os mosquitos estavam a incomodando o Arthur.
Estava na sala com Cloe, que brincava com os bracinhos do neto, quando Nathan chegou.
— Oi, meu filho. — Cloe cumprimentou o filho.
— Oi, mãe. Como está o meu filhão? — Perguntou se aproximando e beijando a testa da sua mãe.
— Cada dia mais esperto e a Bruna está cuidando muito bem dele.
Era o primeiro elogio, isso me surpreendeu, pois pensei que ela não gostava de mim ou estava com ciúmes do neto estar comigo, mas seu comentário fez com que me sentisse um pouco melhor.
— Vou tomar um banho para brincar com ele. — Disse ele se afastando. — Bruna, antes que eu me esqueça, isso é para você. — Disse me entregando a caixa de um celular.
Estava prestes a negar quando ele continuou.
— Aceite como um telefone do trabalho. Não posso sempre ligar para minha mãe ou para Noemi para saber sobre Arthur e creio que gostaria de ligar para clínica onde seu pai está.
Ele tinha razão, nunca fiquei um dia sem ouvir a voz do meu pai, estava com saudades das suas histórias, da sua expressão quando me via de manhã, até do seu cheiro, eu sentia saudades.
— Obrigada! — Agradeci timidamente.
— Vá tomar um banho, meu filho. E, Bruna, fica à vontade para ligar para o seu pai. Vou ficar com Arthur.
Agradeci novamente aos dois e fui para o jardim, sentei na grama e liguei primeiro para Melissa, antes que ela fosse para a faculdade. No segundo toque, ela atendeu.
— Estou vendo que não esqueceu meu número.
— Como sabia que...
— Quem você acha que comprou o celular? Como você está amiga?
— A fazenda é linda, tem tanta coisa, tem...
— Fazenda? Tipo, cavalo, vaca, galinhas, plantação de milho e muito mais? — Perguntou ela, surpresa.
— Bom, pensei que você sabia que ele morava em uma fazenda.
— Ele é reservado quando o assunto é a vida pessoal. Pensei que ele morava em uma mansão cercada de segurança, nunca imaginei que ele ficava no meio do nada, cercado de boi e galinhas.
— Segurança tem até demais pela fazenda, mas nunca vi o Nathan mexendo com os animais. Na verdade, nem o vejo muito.
— A vida dele é meio fechada, mas me fala: como você está? Como é o Arthur?
— Estou ótima! Nathan trata todos os funcionários como da família e Arthur é a criança mais linda que já vi. Ele é tão gordinho! Parece um marshmallow gigante, fico morrendo de vontade morder ele todinho.
— Sabia que ia gostar do trabalho, você ama crianças.
— Agora me diga co
mo estão as coisas?
Ela suspirou.
— O banco foi avaliar a sua casa hoje pela manhã, o leilão será daqui três meses.
Fiquei em silêncio por um tempo, olhando para o nada, um frio atravessou meu corpo e tentei não chorar, mas foi inútil.
— Desculpa, amiga, eu não deveria ter... — Disse ela ressentida.
— Não, tudo bem... Sabia que isso ia acontecer, só pensei que ia demorar um pouco, sabe? — Suspirei.
— Você ainda tinha esperança de conseguir a casa novamente, né?
— Tinha, mas parece que não vou conseguir muita coisa.
— Se eu pudesse ajudar...
— Você já fez muito mais do que o suficiente. Obrigada por me avisar, mas vou ter que desligar, Mel. Vou ligar para a clínica.
— Vai ligar para mim amanhã?
— Prometo.
— Até, pequena.
— Até. Mel.
Subi para o meu quarto, peguei o cartão da clínica, sentei na cama e liguei.
— Clínica de repouso...
— Dra. Lola? — Perguntei.
— Quem está falando?
— Bruna Watts, filha do...
— Ah! — Exclamou ela, surpresa. — Querida, que surpresa estar ligando.
— Surpresa? Mas avisei que ligaria.
— É só um modo de dizer, querida. Não está vindo visitar seu pai, né?
— Por quê? Aconteceu algo? Ele...
— Não, não, está tudo bem, tudo ótimo, foi... Foi apenas uma pergunta.
— Entendi, posso falar com ele?
— Não vai ser possível, .ele está em umas das atividades e não posso tirá-lo de lá. É uma regra, sabe?
— Outra?
— O mundo é movido por regras, Srta. Watts. Se não gosta do jeito que coordeno minha clínica, sugiro que encontre outro lugar para o seu pai.
— Não, não, desculpe. Eu...eu não quis dizer isso, eu só queria falar com ele.
— Mas não será possível, flor.
— Então, me diga como ele está?
— Ele está ótimo! Fez vários amigos, nos contagia com suas histórias de bombeiro e sempre fala de uma tal de Rebeca.
Ele não tinha perdido as velhas manias. Era bom saber que ele não se esqueceu da minha mãe mesmo longe da nossa velha varanda.
— Fico feliz em saber disso. Ele pergunta por mim? — Perguntei.
— Sempre! Ele fala muito sobre você.
— Posso ligar quando a atividade terminar, talvez...
— Acho impossível, ele está cheio de atividades, talvez na quinta-feira.
— Nossa! Eu queria...
— Ok. Bom, querida, me liga quinta-feira. Até.
Ela desligou na minha cara?
Deitei na cama e fiquei olhando o teto.
Aquela mulher era estranha, ela parecia estar sempre com presa de terminar a conversa. E que regra ridícula é essa de ele não poder sair da atividade? Isso era estranho. Não vou aguentar até a quinta-feira sem falar com ele. Qualquer coisa, eu acabaria com meu sofrimento e iria até a clínica para vê-lo.
Tinha que ver ele pessoalmente, algo me dizia que Lola não era 100% confiável.