A babá (Família Brown, Livro 1)
Capítulo 17
Bruna Watts
A dor no meu peito deveria ter passando, afinal sabia que meu pai estava seguro e nada lhe faria mal, mas a dor ainda existia. A verdade era que eu sabia que ele não estava bem, mesmo que ninguém me dissesse nada, sabia que ele estava fraco e doente.
O pior de tudo era que sentia que no fundo ele que iria me abandonar. A droga da doença o estava matando aos poucos, ele se recusou a comer ou beber qualquer coisa e nem uma frase sequer ele disse, nem quando toquei em seus machucados no banho junto com a enfermeira. Os hematomas não eram tão grandes, mas só em saber que ele estava machucado, me machucou também.
Nunca fui de sentir ódio de ninguém, mas Lola conseguiu despertar meu pior lado.
Não conseguia entender como alguém tinha coragem de machucar alguém tão inocente como meu pai. Ele nunca levantou a mão para mim, sempre disse que tudo podia ser resolvido com uma boa conversa. Ele era um pacifista, um homem que qualquer filha amaria ter por perto. Sempre lutou para salvar vidas, protegeu as pessoas a vida toda e acabou sofrendo nas mãos de uma pessoa que deveria cuidar e proteger dele.
Estava com medo, muito medo do que podia acontecer com meu pai, medo pelos outros pacientes naquele lugar repugnante, medo de Elizabeth ter sido pega e eles terem feito algo com ela e medo de enfrentar Lola no tribunal.
Não tinha como agradecer o que Nathan estava fazendo por mim. Sempre ouvi dizer que ele tinha um grande coração e, depois daquele dia, eu podia afirmar com todas as letras que isso era verdades.
Sempre fui religiosa, o lado judeu dos meus pais me ensinou que Deus tem que ser nosso primeiro socorro em qualquer situação. Então, toda vez que me sentia sozinha, fazia uma oração para os céus.
Por incrível que pareça, dormi muito bem, até demais para o meu gosto. Todos já estavam acordados, inclusive Arthur que estava adorando receber os carrinhos da avó. Não contei para ninguém sobre o que aconteceu, mas senti que Nathan não conseguiu esconder de todos os motivos de ter desaparecido por tanto tempo. Noemi e Mart me deram um abraço forte, Theo me surpreendeu com uma hortênsia e um beijo na bochecha, Cloe me lançou um sorriso confiante e Arthur me fez sorrir quando ele veio para o meu colo. Percebi que estava rodeada por pessoas boas.
Liguei para Melissa e contei tudo, ela se culpou por não ter percebido nada e se preocupou comigo logo que disse o estado que meu pai se encontra. Ela implorou para me ver, mas menti dizendo que estava bem e que logo iria vê-la para que matássemos um pouco da saudade.
A clínica foi invadida e revistada pela polícia logo de manhã, a notícia saiu em todos os jornais. Todos os documentos e computadores foram levados pelos policiais e 168 idosos que estavam na clínica foram transferidos para outro lugar ou para casas dos parentes, 124 estavam desnutridos ou desorientados e dois foram encontrados em óbito. Quando vi a fotos dos documentos dos que haviam morrido, me arrepiei ao ver a senhora que havia ajudado a beber água no V.R. Os funcionários foram detidos por serem cúmplice e Lola estava foragida. Não aguentei ficar na frente da televisão assistindo a tudo aquilo. Mesmo que o problema tivesse sido resolvido, ainda me sentia insegura em saber que Lola estava solta e provavelmente muito longe, com todo o dinheiro.
Vaca.
Era a única coisa da qual conseguia chamá-la, mesmo que ela merecesse ser chamada de todos os nomes impróprios do mundo, eu simplesmente não conseguia. Meu pai e minha mãe fizeram um ótimo trabalho me educando, pois nem um xingamento eu era capaz de pronunciar para insultar aquela mulher.
Arthur foi o único que me fez sorrir o dia todo. Enquanto todos estavam atentos a televisão, eu estava no quarto passando pomada, mesmo com ele insistindo em levantar as pernas e ficar balançando-as, me fazendo gargalhar.
— Arthur, me deixa colocar a fralda. — Tentei ser firme, mas ele apenas mostrou sua boca desdentada e continuou com a sua brincadeira. — Esta bem! Eu desisto, tá feliz? — Disse, colocando as mãos na cintura.
Ele me olhou e simplesmente soltou um “é” fino e longo como se estivesse dizendo: “desiste mesmo, tia, ninguém ganha com o gostoso aqui”. Comecei a rir com o meu pensamento e finalmente consegui colocar a bendita fralda. Arrumei sua roupa e o peguei no colo, passando a mão em suas costas.
— Você não tem noção do quanto me faz bem. — Ele resmungou um pouquinho, como se discordasse de mim. — É... Acho que sabe sim. — Beijei o topo da sua cabeça e o fiz dormir.
Mesmo com ele dormindo, fiquei com ele no meu colo por mais alguns minutos. Com muito desgosto, o coloquei no berço e saí do quarto, levando a babá eletrônica comigo.
— Bruna, você poderia me fazer um favor? — Olhei para Nathan, encostado na parede do corredor, com sorriso diferente nos lábios.
— Claro! O que deseja?
— Gostaria que você pegasse seus documentos, será necessário para o caso. Eles chegaram, né?
— Sim, sim, vou buscar no meu quarto. — Disse, me afastando.
Sabia que ele estava alguns metros atrás de mim, entrei no meu quarto deixando a porta aberta para que ele entrasse e abri o meu guarda-roupa, em busca da caixa onde guardava a segunda via dos meus documentos.
— Nossa! Seu quarto é maior do que a minha casa. — Disse Melissa
Parei o que estava fazendo e olhei para um canto do meu quarto e a vi sentada em uma poltrona, próxima a minha penteadeira. Ela se levantou, parando a alguns metros de mim, esticando os braços em minha direção como sempre fazia.
Corri até ela, a abracei forte, abri os meus olhos ainda nos braços da minha amiga e vi, de relance, Nathan parado na porta com o mesmo sorriso. Neste momento descobri que não precisava pegar os meus documentos, era apenas um plano para rever a minha melhor amiga, apertei ainda mais Melissa e sussurrei um ''muito obrigada'' para ele.
— Vai faltar a faculdade? — Perguntei a Melissa.
— Pedi para uma colega me passar o conteúdo amanhã, hoje você me terá todinha para você, pequena.
— Sinto-me lisonjeada.
— É bom sentir mesmo, é um privilégio de poucos.
— Imagino. — Debochei.
— Agora, me fala, tem algum boy gostoso aqui? — Dei uma risada e olhei para ela. Como senti saudade dela.
Melissa sendo Melissa.
— Se tem, está muito bem escondido.
— Vamos procurar, então! — Disse ela, animada.
— Vou informar tudo isso para o tio Alberto.
— Chata. — Disse, me mostrando a língua. — Então, vamos assistir a um filme.
— Filme?
— É.
— Onde vamos assistir? Nem filme eu tenho aqui.
— Eu posso ajudar? — Perguntou Luís, no batente da porta com as mãos dentro dos bolsos da calça.
— Não! — Disse Melissa.
— Calma, princesa, eu tenho uns filmes no meu quarto, se vocês quiserem eu posso...
— Não queremos ver sua coleção de filmes indecentes, Luís.
— Não tenho filmes indecentes, princesa, sou mais de praticar do que assistir. — Disse ele, com um sorriso de lado.
Melissa bufou e foi para o outro lado do quarto, enquanto eu continuava a ver Luís se divertir com a cara dela.
— Você me emprestar algum filme, Luís? — Perguntei.
— Claro, mas com uma condição. — Disse ele.
— Qual? — Perguntei.
— Vou assistir com vocês. — Disse ele, com um sorriso.
— Não! — Gritou Melissa.
— Por mim, tudo bem! — Disse.
— Ótimo! Vou pegar os filmes e ligar para pedir uma pizza. — Falou ele, saindo do quarto.
Me virei e encarei Mel que estava com os braços cruzados na altura dos peitos e com um biquinho lindo.
— Você não fez isso. — Falou ela.
— Isso o quê? — Me fingi de desentendida.
— Não brinca comigo, Bruna Watts, você o convidou de propósito.
— Poxa! Me chamando pelo nome todo... Magoou. Mel, ou assistimos o filme com ele ou ficamos aqui, uma olhando para outra.
— Prefiro a segunda opção.
— E perder a oportunidade de ver o Luís?
— Você me paga.
A noite seria longa.
Tivemos que assistir ao filme no quarto do Luís já que a sala estava ocupada e no meu não tinha televisão. Mel me fez prometer que não a deixaria dormir na cama dele enquanto assistia ao filme. A cama tinha espaço para nos três tranquilamente, mas Luís ficou em uma poltrona, deixando eu e Mel um pouco mais à vontade.
Não estava prestando muita atenção ao filme, fiquei apenas olhando para televisão para disfarçar, mas meus pensamentos estavam longe dali, muito longe.
Melissa não dormiu, ela nem piscou para não correr o risco. Depois que o segundo filme acabou e ela bocejou, dei por encerrada a maratona de filmes. Agradeci ao Luís pela gentileza e mostrei para Mel um pouco da casa.
Depois que Melissa foi embora, fiquei sem saber o que fazer. Ir para sala de tv estava fora de cogitação, a maioria das pessoas da casa estava dormindo e Nathan ainda não havia voltado, então fiquei na cozinha tomando um chá, enquanto lia uma história em quadrinho de uma caixa de cereal.
Não demorou muito para que Nathan chegasse em casa, sua aparência mostrava que ele estava cansado. Ele deixou uma pasta preta sobre uma cadeira e colocou na minha frente um bloco grande de folhas.
— O que é isso? — Perguntei.
— 159 assinaturas dos parentes ou responsáveis dos pacientes da clínica.
— Uau! — Disse, admirada. — Você arrumou muitos clientes.
— Na verdade, apenas uma.
— Então, o que significa todas essas assinaturas?
— Eles assinaram para que você os represente no tribunal.
Folheie todas as folhas e levantei minha cabeça para olhar para ele, que mantinha o mesmo sorriso do início da noite.
— Prepare-se, Bruna, Lola foi presa.
Bônus Lola
A vadia conseguiu, sabia que ela ia ser um problema assim que colocou os pés na minha clínica, mas a ambição falou muito mais alto que a razão. E acabei detida em uma delegacia, ouvindo me perguntarem os porquês de te feito o que fiz. A resposta não era clara? O dinheiro, apenas o dinheiro.
Neste país de merda, eu nunca conseguiria o que queria trabalhando, lavando chão o dia todo. Tratei logo de me casar com o velho nojento que era o dono da clínica. Depois de um infarto fulminante, ele faleceu me deixando viúva, parcialmente rica e dona de uma clínica.
Não me arrependia do que fiz, cada velhote daquele lugar me dava nojo. Nunca gostei de crianças e eles eram umas merdas de umas crianças enrugadas e irritantes.
O pai da princesinha era um pacifista e lógico que, quando um dos meus funcionários deu uma advertência em uma velha por te molhado a cama, ele reagiu e levou o que não era para ser dele. Dez socos foi o suficiente para abaixar a bola do herói. Depois disso, mandei aumentarem a dose do remédio e os proibi de dar os remédios da Alzheimer.
Acabei economizando!
A viagem foi apenas para não estar lá quando a garota entrasse. Sabia que ela ia fazia isso, estava há quase dez dias ignorando as ligações dela. Cometi um erro, o remédio que estava sendo administrado ao pai dela continha abacaxi, o que fez com que ele ficasse pior os poucos. Só descobri depois que ele já não falava e parou de se alimentar. O que significava que sua alergia atingia suas cordas vocais e provavelmente causava inchaço, mas como o remédio tinha pouco do ingrediente da alergia, causou um efeito mais lento no seu organismo.
Um erro mínimo, mas se continuasse provavelmente iria matá-lo de fome.
E continuei! Fiz melhor, aumentei a dose, ela ia me ferrar e eu ia matar o paizinho dela.
Estava quase entrando no México quando os policias me pegaram, faltava tão pouco. Mas acabei em uma cela junto com três prostitutas e uma bêbada nojenta, em uma delegacia podre.
— Não tenho o tempo todo, Lorenna. — Odiava o meu nome e esse advogadinho fazia questão de pronunciá-lo em todas as frases.
— Está com presa, doutor? — Debochei.
— Pelo menos tenho esse título e você? Nem médica você é, Lorenna.
Filho da mãe.
— Fez a lição de casa, pelo que vejo. O que mais descobriu? — Perguntei, jogando a fumaça do meu cigarro na direção dele.
— Nada de interessante, sua vida é uma caixinha de surpresa, Lorenna. — Ele fez uma pausa e abriu uma pasta de papel amarela. — Ficou viúva os vinte cinco anos, relacionamento curto, pelo que vejo.
— Grande merda.
— Por quê? — Perguntou.
Novamente os porquês sérios? Saco!
Soltei novamente a fumaça do cigarro e encarei seus olhos azuis.
— Porque o quê, gatinho?
— O motivo de ter me chamado aqui, sendo que sou o advogado de acusação.
— A vadia deve ter dinheiro para pagar seus honorários.
— Estou ficando impaciente, Lorenna.
Lorenna não.
Bufei e o respondi:
— Ele não vai sobreviver por muito tempo.
— Ele quem?
— O pai da sua cliente, ele não vai sobreviver.
— Por que acha isso? — Perguntou ele, fechando a pasta e juntando as mãos sobre a mesa para que me olhasse atenciosamente.
— Porque eu estava dando Ananás para ele.
— O que é isso?
— Posso não ser médica, mas sei o nome científico do abacaxi, queridinho.
Ele se levantou, me assustando, batendo forte na mesa.
— Você sabe que essa conversa está sendo gravada, né? E se o pai da minha cliente morrer, você acabou de assumir um assassinato.
Me levantei com calma, joguei o cigarro no chão, fiquei na mesma posição que ele, lhe dando uma boa visão dos meus seios e disse:
— Espero que ele morra mesmo.
Um ano a mais um ano ou a menos não faria diferença, já estava no fundo do poço, pior do que estava não podia ficar.