A babá (Família Brown, Livro 1)
Capítulo 27
Bruna Watts
Aqueles foram os mais longos dias da minha vida, cada segundo se transformou em horas. Não queria reagir ou acreditar que tudo era dolorosamente real. Três dias e eu esqueci quem Bruna Watts era, tentava pensar no que restava para mim depois de tudo e cheguei à conclusão de que não tinha me restado nada.
Seria loucura dizer o quanto ele me deixava estupidamente nervosa? A sua simples frase, dizendo que me veria ao anoitecer, estava me deixado aflita e não eu não fazia ideia do que esperar daquela noite. Tentei esquecer o assunto e aproveitar, ao máximo, o meu dia no jardim.
Voltei para o piquenique e observei cada um que estava ali, rindo e conversando alegremente, como uma grande família feliz. Theo tocava violão ao lado da Melissa, enquanto os seus pais estavam deitados próximos a uma árvore, Noemi estava deitada no colo do marido e Luís, ao meu lado, olhava para Melissa.
— O que será que eles tanto estão achando graça? — Perguntou Luís.
Olhei para a mesma direção e vi que eles estavam rindo, Theo se aproximou do ouvido da Mel e sussurrou algo, a fazendo rir ainda mais.
— Talvez uma piada? — Tentei adivinhar.
Ele me deu um sorriso cínico
— Conheço aquele sorriso dele e com certeza não foi uma piada que ele contou para ela.
— Está preocupado em saber qual é o assunto?
— Não me preocupo com isso, não ligo para nada que envolva a Melissa.
— Não acredito nisso, pelo contrário, você se preocupa sim com ela, a ponto de se irritar por ele estar tirando um simples sorriso dela.
— Está lendo muito livro de romance, Bruninha. — Disse, se levantando. — Aproveite o seu dia.
Ele saiu, me deixando sozinha. Encostei minhas costas em uma árvore e fechei os olhos.
Estava preocupada com Arthur, mesmo ele estando com o pai. Gostaria de estar com ele já que fiquei três dias longe e perdi tanta coisa, cada segundo longe me fazia pensar que perderia mais alguma coisa.
Abri o medalhão e fixei o olhar na foto dentro do mesmo.
— Lindo presente! — Disse tio Alberto, me assustando e me fazendo fechar o medalhão. — Desculpa, não queria te assustar, mas gostaríamos te entregar seu presente agora.
Ele se sentou à minha frente, acompanhado pela tia Anne, e Melissa se sentou ao meu lado. Olhei para outra direção e vi Theo se aproximando dos pais. Voltei minha atenção para eles quando Melissa tocou em meu braço.
— O nosso presente representa nós três. — Anne me estendeu um grande presente embrulhado em papel vermelho.
O presente, apesar de grande, era fino e pesado. Dei um sorriso e comecei a rasgar o embrulho, revelando uma moldura de mamadeira muito bem trabalhada, e logo percebi que se travava de um porta-retratos com uma foto do meu aniversário de quatorze anos. Estava próxima a uma grande árvore de Natal e minha mãe estava com um sorriso lindo ao lado do meu pai que estava com a mão em meu ombro.
Me lembrava daquele dia, minha mãe deu à luz na véspera do natal e sempre disse que era o melhor presente que ganhou na vida, as minhas festas sempre eram ao redor da grande mesa da ceia de natal e eu adorava o fato do meu pai colocar a vela sobre o peru, fazendo todos cantar os parabéns. E logo depois vinha o bolo verdadeiro. Ganhei meu primeiro salto alto naquele dia e meu pai fez os biscoitos de avelãs e minha mãe o famoso macarrão com queijo. Estávamos tão felizes, a vida parecia perfeita.
— O...obrigada. — Apertei o porta-retratos ao meu peito. — É o melhor presente da minha vida.
— É apenas um dos melhores presente que você terá na sua vida, pequena. — Disse Mel, me lançando um sorriso.
— É para você sempre se lembrar deles e de que a sua vida continua... Os dois estarão vigiando o seu caminhar. — Anne disse, me lançando um sorriso.
— Eu sei, tia... Eu sei. — Afastei o quatro do meu peito e olhei novamente a foto. — Só é... Difícil, sabe? Difícil de acreditar.
— É difícil para todos. — Comentou Alberto.
— Vou pregá-lo na parede, em frente a minha cama, assim vou poder vê-los todos os dias ao acordar e antes de dormir.
A noite chegou mais rápido do que eu gostaria. Estava terminado de pentear os cabelos do Arthur quando Noemi e Cloe entraram no quarto sorrindo.
— Bruna, a Noemi vai cuidar do Arthur. — Disse Cloe.
— Por quê?
— Nathan me pediu para ajudá-la com o vestido e os acessórios.
— E eu estou com saudades de brincar com esse gordinho. — Disse Noemi, pegando Arthur que estava segurando o mordedor transparente.
— Vestido? Acessórios? Aonde vamos? — Perguntei.
— Fazer um passeio. — respondeu Cloe
— Apenas aproveita a noite, menina, e vai que a Cloe cuidará de você. — Noemi disse, me lançando um sorriso.
Não deu tempo para responder, fui puxada para fora do quarto e levada ao meu quarto. Tomei um banho demorado, passei um hidratante na minha pele, amarrei apertado o roupão ao meu corpo e abrir a porta do banheiro. Cloe estava em pé, olhando a foto da minha família que Theo me ajudou a colocar na parede.
— Sua família é linda. — Disse ela.
— Obrigada!
— Agora, venha aqui, vou ajudá-la com o seu cabelo. — Caminhei até ela e sentei na cadeira em frente à minha penteadeira.
Fiquei em silêncio durante o processo de beleza. A maquiagem foi básica, tudo natural, mas ela estava em êxtase, me tratando como uma bonequinha. Ela me contou algumas histórias sobre sua vida e disse que adoraria ter uma filha para lhe fazer companhia e arrumar. Quando terminou, ela me deu um sorriso e se afastou.
— Ficou linda! Agora, venha, vou te mostrar o vestido.
Olhei para meu reflexo no espelho e me assustei, a mulher a minha frente não se parecia comigo. Pela primeira vez, não me reconheci.
— Nossa! — Disse surpresa.
— Ficou magnífica! Agora, escute, o vestido é o presente que Luís te deu, vista-o e calce algo confortável, nada de saltos. Tenho que sair para resolver algumas coisas.
— Obrigada por tudo! — Disse, me levantando.
— Não me agradeça, não ainda. Boa noite! — Ela caminhou até a porta com o mesmo sorriso. — Ah! Antes que eu me esqueça, não fale para o Nathan sobre a minha ajudinha.
— Mas não foi ele quem pediu?
— Apenas não fale. Boa noite, Bruna! — Disse ela, antes de fechar a porta.
Essa família tinha mania de sair sem terminar a conversa ou de me deixar confusa.
O vestido encaixou perfeitamente, era de um tom creme, um pouco acima dos meus joelhos e levemente rodado; o decote em formato de coração e uma renda preta na barra, o deixava ainda mais radiante. Estava terminado de calçar minhas sapatilhas quando alguém bateu na porta. Passei a mão no vestido e fui até a porta.
Nathan estava vestido casualmente, o seus cabelo estava levemente bagunçado e seus olhos azuis expressavam, claramente, desejo.
— Céus... — Disse baixo.
— Está tudo bem? — Perguntei.
— Sim, sim, você está ainda mais bela.
— Obrigada! — Disse, timidamente.
— O passeio seria para três pessoas, mas perdermos um soldado. — Disse me mostrando o bebê conforto com Arthur dormindo tranquilamente. — Vou levá-lo, assim não ficarei preocupado de voltar mais cedo, algum problema?
— Não, na verdade, me sentirei mais segura com dois cavalheiros vigilantes.
— Neste caso, o outro cavalheiro está apenas em treinamento.
— Vamos para onde?
— O meu segundo lugar favorito da fazenda.
Ele pegou o bebê conforto, me ofereceu o braço e eu aceitei. Cada cômodo da casa estava vazio e o jardim estava pouco iluminado, de longe podia ver a casa da Noemi. Nathan parou apenas para colocar uma fralda grossa sobre o bebê conforto, impedindo os mosquitos chegarem próximo de Arthur. Ele me deu uma lanterna e novamente andamos.
Não demorou muito até que avistei um lugar rodeado por pequenas lamparinas, olhei para Nathan que tinha um sorrisos nos lábios e me aproximei do lugar, vendo um pano estendido no chão, duas almofadas, uma pequena cesta de piquenique, um rádio de pilhas tocando uma melodia romântica, duas taças e um champanhe dentro de um balde com gelo.
Nathan se aproximou, olhou para cada objeto depositado ali e levantou uma sobrancelha.
— Hum...
— Bruna, não quero que pense que isso foi ideia minha. Eu juro que quando saí, deixei apenas o lençol e a cesta. Minha ideia era olhar as estrelas.
— Então, quem...
— Não se preocupe! Sei quem fez isso. Fique tranquila, vou ter uma conversa séria com ela.
Olhei para cima, para o céu repleto de estrelas.
— É lindo aqui. — Admiti.
— Vou apagar as lamparinas e ficará muito melhor.
Ele se afastou, apagou cada lamparina e eu desliguei a lanterna. Tirei minha sapatilha, coloquei o bebê conforto ao meu lado e deitei olhando o céu iluminado pelas estrelas. Logo o senti deitando ao meu lado.
— É lindo! É como se estivéssemos tão próximo delas. — Disse, admirada pelo mar de estrelar sobre nós.
— É fascinante! Sempre gostei de vir aqui e passar horas olhando as estrelas.
— Vem sempre?
— Não tanto quanto eu gostaria.
— Se pudesse, eu passaria horas aqui, olhando para esse céu.
— Passaria horas do seu lado. — Disse ele baixinho.
Levantei-me na hora e arrumei meu vestido.
— Nathan, eu acho que...
— Estou sendo sincero. Por qual motivo você sempre foge de mim? Eu sei que é confuso... É para mim também, mas não fuja, por favor.
— Eu... eu não sei o que pensar.
— Então, não pense.
Apesar da parca iluminação, podia ver seus olhos azuis perfeitamente próximos do meu corpo, sentia sua mão quente tocar em minha bochecha e seu hálito de menta tocar minha face.
— Não pense. — Tornou a repetir. — Apenas sinta o mesmo que eu sinto.
Seus lábios tocaram os meus com delicadeza e, ao mesmo tempo, com desejo, senti seus dedos afundarem em meus cabelos, me puxando para mais próximo do seu corpo quente.
Ele tinha razão, não podia sentir medo do irreconhecível, queria sentir, não queria ter medo. Parei de pensar e correspondi ao seu beijo.