A babá (Família Brown, Livro 1)
Capítulo 03
Bruna Watts
— Não precisa de currículo. Já mandei o seu.
— Mas...
— Não precisa agradecer.
Dei um sorriso tímido e a abracei forte.
— O que seria a minha vida sem você? — Perguntei ainda em seus braços.
— Um tédio, provavelmente.
— Você é a irmã mais velha que nunca tive!
— E você é a minha irmã caçula. Não é à toa que cuido de você há quase quinze anos.
— Ah tá... Sabe? — Disse, me afastando dos seus braços. — Geralmente sou eu quem te tiro de roubadas. Lembra a história na casa dos Fontoura?
— Nem me lembra! Fico com vergonha até hoje de olhar para a cara da Sra. Fontoura.
— Quem mandou beber demais e resolver tomar banho pelada na piscina da casa dela?
— Você gosta de joga as coisas na minha cara. Nunca mais bebi tanto como àquela vez.
— Veja pelo lado bom.
— Tem lado bom?
— Tem sim! O lado bom é que você apreendeu que quando estiver fazendo quase sete graus nunca deve tirar a roupa e pular em uma piscina.
— Ah tá... obrigada pela lição! — Disse ela, batendo palmas com ironia. — Agora, Professor Pasquale, pode fazer um chocolate quente para que possamos assistir ao filme ou está difícil?
— Não combinamos de assistir filme algum.
— Eu sei, mas depois de um dia todo ao lado daquele pedaço de mau caminho que é Luís Brown eu preciso de um filme ao seu lado amiga.
— Quem o Luís Brown?
— Irmão do meu chefe. Ele está cuidando da empresa enquanto o Nathan está em casa, mas infelizmente ele não sabe de muita coisa sobre a empresa e eu tenho que ficar praticamente colada nele o dia todo e vou dizer uma coisa: não é fácil. O homem é muito gato. Sabe o que é o pior?
— Tem como ser pior? — Perguntei, debochando da sua situação.
— Tem sim... ele estuda na mesma faculdade que eu.
— E só agora você soube?
— O campus é enorme. Nunca imaginei o encontrar, mas o destino gosta de brincar comigo e acabei esbarrando com ele no corredor.
— Nossa! Igual filme romântico... Que fofinho!
— Fofinho seria se ele não fosse o maior galinha da faculdade inteira.
— Tá bom... Vamos tomar o chocolate quente e ver o filme antes que fique muito tarde.
— Como se minha casa fosse longe, né princesa? Faz o chocolate que eu procuro o filme.
Melissa era minha melhor amiga desde que me mudei para ao lado da casa dela quando tinha cinco anos. Eu era meio tímida e ela com sete anos já era uma criança bastante elétrica, não mudou muita coisa agora que ela tem vinte e dois anos. Continua sendo a mesma menina elétrica que conheci há quinze anos. A diferença é que ela se tornou um pouco mais responsável. Mas ela nunca saiu do meu lado. Sempre estivemos juntas nos momentos difíceis... Quando minha mãe faleceu, ela estava ao meu lado e quando ela terminou com o William, eu estava ao lado dela. Por isso que ela era minha irmã mais velha. Minha mãe nunca teve outros filhos e ela tinha o Diogo, mas ele trabalhava na marinha e passava quase um ano fora de casa e só alguns meses aqui. Então digamos que éramos apenas nos duas.
Terminei de fazer os chocolates quentes e fui para sala onde ela colocava o filme.
— Então, qual vai ser? — Perguntei colocando as canecas na mesinha de centro.
— O grito. — Disse ela.
Eu e ela nunca fomos de assistir filme de romance, sempre gostamos de filme de terror. Lógico que éramos muito medrosas e por isso sempre que assistimos a um filme de terror, ela dormia em minha casa, mas gostávamos da sensação do medo.
— Vai dormir aqui hoje?
— Já falei com os meus pais. Amanhã é sábado mesmo... Não vejo problema.
— Por mim, tudo bem.
— Não esqueça que você tem que ir à empresa, fazer a entrevista. Eu vou ligar para confirmar o dia.
— Pensei que seria na casa dele.
— Ele é bastante reservado quando o assunto é família, principalmente o filho.
— Entendi. Por mim, tudo bem.
— Ok. Vamos assistir ao filme.
Logo após o filme terminar tive que acordar a Melissa para ir para cama já que ela dormiu na metade do filme. Arrumei a cozinha e fui para o quarto, tomei um banho rápido, vesti um pijama de florzinha roxa, coloquei um colchão ao lado da cama no chão e me deitei, olhando o teto.
— Espero que tudo venha a dá certo. — Falo para mim mesma.
Acordei pela manhã no horário de sempre, deixei Melissa dormindo mais um pouco, escovei meus dentes, lavei meu rosto e fui para cozinha fazer o café da manhã. Cheguei à cozinha e vi meu pai bebendo água e olhando pela janela da cozinha, próximo a pia.
— Bom dia, pai! — Falei dando um beijo em sua bochecha. — O que está vendo pela janela?
— Estou esperando sua mãe. — Disse, sem tirar os olhos da janela.
Ele lembrou novamente da mamãe.
— Pai, olha para mim. — Falei colocando as duas mãos no seu rosto, o fazendo olhar para mim.
— Minha menina, como você cresceu... Tomou um chá de fermento? Meu Deus, você está linda! — Falou passando as mãos em meus cabelos. — Você está igual a sua mãe.
Diga-me como não chorar com isso?
Ele sempre tinha algo de diferente para dizer quando falava de mim e isso me deixava de alguma maneira emocionada.
— Pai, eu estou do mesmo jeito. Vem comigo... Vou fazer um café da manhã para você. Que tal wafer? — Perguntei, puxando ele para se sentar na cadeira da cozinha.
— Com mel e manteiga?
— Com muito mel e manteiga! — Falei sorrindo. — Então, vou fazer wafer.
Quando estava terminando de fazer todos os wafer, Melissa entrou na cozinha bocejando.
— Bom dia! — Disse ela entusiasmada
De onde ela tira tanta animação?
— Bom dia, Bela adormecida. — Disse.
— Bom dia, menina! Filha, você não me falou que uma amiga viria te visitar. Prazer sou Alexander Watts. — Meu pai falou, estendendo a mão para Melissa.
Ela me lançou um olhar de dúvida, mas acabou aceitando o comprimento do meu pai.
— Prazer! Sou Melissa Crawford.
— Pai, o senhor não se lembra dela? Ela é a filha mais nova da família Crawford, são nossos vizinhos há anos. — Perguntei colocando um prato cheio de wafer na sua frente e indo servir Melissa.
— Não me recordo, mas fico feliz em conhecê-la, Srta. Crawford. — Falou, colocando uma garfada generosa de wafer com mel na boca.
Era a primeira vez que ele não reconhecida a Melissa. Geralmente ele sempre ficava impressionado com ela, assim como ficava comigo. Senti um aperto em meu peito e minha visão ficar embaçada. Senti uma mão sobre a minha e olhei para o lado e vi Melissa me lançando um sorriso sincero e sussurrando as palavras: ''Vai ficar tudo bem! ''
De alguma maneira queria me agarrar a suas palavras e descansar meu coração, mas eu sabia que as coisas não estavam nada bem. E o que doía mais era saber que pode piorar.