A babá (Família Brown, Livro 1)

Andressa Raquel · Capítulo 25 de 50

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A babá (Família Brown, Livro 1)

Capítulo 24

 

Bruna Watts

A dor me sufocava, ela me rasgava pelo meio. O medo de ter perdido o meu pai era impossível de descrever.

Não quis me arrumar, não quis sair dos braços de Nathan... Depois de cinco dias sendo ignorada, Nathan finalmente estava perto de mim, me ajudando nesse meu momento de dor e me fortalecendo um pouco.

O caminho até a clínica levou uma eternidade, apoiei minha cabeça na janela do carro, fechei meus olhos e me mantive em minha oração enquanto as lágrimas insistiam em cair.

Nathan me puxou pelo braço e me fez deitar a cabeça em seu peito.

— Vai ficar tudo bem. — Disse ele, passando a mão nos meus cabelos.

Não, não vai.

Essa frase nunca me transmitiu calma, ela apenas me assustava ainda mais. Nada ia ficar bem, ele não estava bem e eu sentia isso em meu peito.

Assim que o carro parou em frente a clínica, saí de perto de Nathan e corri para dentro da mesma desesperadamente. Assim entrei, encontrei Michael na portaria.

— Ca...cadê ele? — Perguntei, assim que entrei.

Ele segurou meus ombros com força e disse firmemente:

— Calma, Srta. Watts! Ele teve uma parada respiratória... — Disse Michael.

Sua voz foi abafada quando as palavras “parada respiratória'' foram ditas. Naquele momento, o chão pareceu se abrir, minha visão escureceu e o piso de cerâmica pareceu estar muito próximo. Senti meu corpo sendo suspenso e meu rosto próximo ao peito de alguém.

— Michael, que merda! Não sabe dar uma notícia? — Gritou Nathan

— Aprendi a ser verdadeiro.

— Enfia a sua sinceridade no...

Apertei a camiseta de Nathan e tentei forçar minha visão para vê-lo melhor.

— Bruna! — Ele disse, surpreso. — Se acalme! Vou levá-la ao hospital.

— Não, por favor. — Disse, já em lágrimas novamente. — Eu... eu preciso ver o meu pai.

— Você não está bem, preciso....

— Acho melhor a deixa vê-lo. — Disse Michael, com calma.

Nathan encarou doutor Richmond por um tempo e tornou a me observar, seus olhos transmitiam compaixão. Senti um leve aperto ao redor do meu corpo e sabia que ele não queria me soltar, podia jurar que ele era capaz de sair correndo comigo em seus braços para bem longe dali, a qualquer momento.

— Consegue ficar de pé? — Perguntou Nathan, me fazendo afirmar com a cabeça e ele, com certo desprazer, me colocou novamente em pé.

Forcei meu corpo a se manter erguido e encarei Michael que observava a cena com calma.

— Posso ir para o quarto dele?

— Ele foi transferido de quarto, Srta. Watts. — Explicou o médico.

— Onde ele está? — Perguntou Nathan.

— Na ala da enfermaria. Venham, vou lhes mostrar. — Disse ele indo por outro caminho que eu desconhecia.

A clínica tinha o dobro do tamanho que eu imaginava, a cada passo que dava meu coração pulsava fortemente em meu peito. Doutor Richmond parou em uma porta, respirou fundo e me encarou.

— Tenho que ser verdadeiro com a senhorita, o estado dele é crítico, a doença avançou ferozmente. Não quero que se assuste com o que verá. Ele ainda está inconsciente e sua presença no quatro terá que ser breve. — Concordei com a cabeça. — Depois do seu momento com ele explicarei, o seu real estado.

— Quer que eu entre com você? — Perguntou Nathan, segurando meu ombro.

— Não, eu quero...preciso ir sozinha. — Disse, tentando encontrar forças onde eu não tinha.

Michael abriu a porta e deu um passo para trás para que eu pudesse entrar, tomei todo o fôlego possível e entrei no quarto.

Em um leito hospitalar, com várias máquinas ligadas ao seu corpo e uma máscara de oxigênio em seu rosto, estava meu pai. Seu corpo estava magro e visivelmente desnutrido, ele usava um dos famosos vestidos hospitalar descartáveis.

Tampei minha boca com as mãos e impedi que saísse qualquer tipo de reação ao vê-lo assim. Me aproximei devagar do seu leito, olhando cada máquina ligada ao seu corpo e peguei em sua mão gelada.

— Perdão, pai! Me desculpa pelas vezes que não te obedeci, pelas vezes que não te escutei, por ter te levado para aquela clínica... Perdão por não ser a filha que o senhor tanto sonhou. — Senti um leve aperto em minha mão, levantei minha cabeça e o vi me olhando, com os olhos cheios de lágrimas. — Pai!

— Pe...pequenina. — Disse, com dificuldade.

Ele se lembrou! Ele sabia quem eu era!

— Por favor, não fale, você está fraco... Eu vou chamar o médi...

— N...não, pequenina. — Ele tomou fôlego e continuou. — E... eu estou pronto para ir.

— Não, não, pai, eu não estou pronta... Por favor, eu não vou conseguir... — Ele apertou minha mão novamente.

Com a outra mão, ainda trêmula, ele tirou a máscara de oxigênio.

— Pai, você precisa da máscara. — Disse, tentando colocá-la novamente.

Ele segurou minhas mãos e afastou do seu rosto.

— Deus me deu a oportunidade de me lembrar de você, minha filha. — Ele umedeceu os lábios ressecados e continuou: — Você está pronta, minha menina, já fui um grande empecilho na sua vida.

— N... não, pai. — Disse, negando com a cabeça.

— Você é forte.... — Ele tomou fôlego. — Você é capaz de muito mais do que imagina. Demorei para perceber, mas você não é a minha pequenina. Você se transformou em uma grande mulher com um coração maior ainda, tudo o que eu devia lhe ensinar... Você apreendeu com êxi..êxito. — Ele tocou em meu rosto com dificuldade. — Vou sentir saudades do seu... sorriso.

— Pai, por favor... não me deixa. — Implorei.

Ele fechou os olhos por alguns segundos e tornou a abrir.

— Eu lhe...perdoou.

Um bolo se formou na minha garganta quando ele fechou os olhos, sua mão caiu sobre o leito e as máquinas começaram a apitar. O abracei forte e chamei seu nome alto. O barulho forte de porta batendo e passos se aproximando não me fizeram sair de perto dele.

Senti o meu corpo sendo forçado a se afastar do meu pai, que continuava imóvel, sem vida. Uma equipe médica se formou ao redor dele e tentaram reanimar algo que já não tinha volta. Era inútil a tentativa, ele já tinha ido embora, a dor em meu peito me avisava isso.

O ar em meus pulmões sumiu e meu corpo não respondia aos meus comandos. Coloquei as duas mãos sobre o meu peito e tentei amenizar a

dor insuportável que estava sentindo .

 

Queria acreditar que era apenas um pesadelo e que logo acordaria e ele estaria em sua cadeira de balanço, segurando um copo de limonada, olhando o final da rua, esperando a minha mãe retornar de um movimentado dia na lanchonete. Queria acreditar que provavelmente iríamos sentar em volta de uma mesa e contar como foi o dia de cada um.

Mas eu não tinha uma casa, não tinha uma mesa para me sentar ao redor, ou cadeira de balanço, nem uma limonada... Não tinha minha mãe e também não tinha o meu pai. Tudo era malditamente real.

Tentei parar de soluçar, parar de chorar, para ver se aquela dor passava, mas sabia que será inútil. Eu queria chorar, queria sofrer, queria que a dor me matasse.

Depois que saí da ala da enfermaria, corri, ignorando o meu nome sendo pronunciado e o protesto de que não deveria correr ou tentar fugir da dor. Mas não estava fugindo da dor, ela estaria comigo para onde fosse, apenas corri para o único lugar em que gostaria de estar.

Ignorei os gritos e os socos na porta do quarto do meu pai e abracei forte o porta-retratos do seu casamento, deitei em sua cama que ainda tinha o seu cheiro, fiquei na posição fetal e chorei.

Não percebi quando eles pararam de gritar ou me chamar até que só escutava uma voz me chamar. Percebi que a voz era do Nathan e, mesmo por trás da porta. sua voz carregava um pouco de preocupação.

— Por favor, Bruna, abra a porta.

Me obriguei a sair da cama e praticamente me arrastei até a porta. Assim que abri, Nathan empurrou rapidamente a porta e me abraçou. Um abraço forte, tudo o que eu precisava, um ombro para chorar.

Afundei o rosto em seu peito e chorei enquanto ele me pegou no colo e me levou novamente para cama, deitando junto comigo.

Nunca tinha me deitado com um homem a não ser meu pai e provavelmente pediria para ele sair em outra ocasião, mas não me importei. Naquele momento, eu precisava do seu abraço, do seu carinho.

— Não podemos ficar aqui para sempre, minha pequena menina. — Disse ele, secando minhas lágrimas com o polegar. — Precisamos ir para casa, descansar... Amanhã será um dia cheio. Melissa está a caminho da fazenda com o Luís, então deixe que eu cuido de tudo, quero que você apenas descanse, ok?

Apenas assenti e ficamos no quarto somente por mais alguns minutos, logo estávamos entrando na fazenda, recebendo a atenção de todos. Abracei cada um e fiquei no sofá ao lado da Melissa, peguei Arthur no colo e tentei ao máximo me distrair de qualquer maneira da dor que estava sentindo.

 

O vento levantava algumas folhas do chão do cemitério. Na primeira fileira de cadeiras, estavam eu, Melissa e seus pais. Logo atrás, amigos, colegas de trabalho, vizinhos, entre outros.

Mantive meus olhos sobre o meu colo, onde segurava forte uma rosa branca. Não sentia forças para levantar a cabeça e ver o caixão, para falar a verdade, minha cabeça estava pesando dez toneladas.

O pastor falava sobre a maravilhosa vida do meu pai, mas eu não prestava atenção alguma. Depois de algumas homenagens, o pastor falou o meu nome.

Olhei para o lado e vi a família da Melissa me lançando um sorriso encorajador. Me levantei lentamente, arrumei meu vestido preto rodado, ainda com a cabeça baixa, segui até o púlpito, retirei o papel dobrado do bolso do meu vestido, desdobrei e finalmente levantei minha cabeça.

O caixão fechado, um pedido do meu pai. Ainda me lembrava do enterro da minha mãe, quando ele disse que não queria que o vissem morto, apenas que guardassem na memória a imagem dele vivo e forte. O caixão estava com algumas coroas fúnebres e seu capacete de capitão do corpo de bombeiros.

Olhei cada rosto presente e li a pequena homenagem que havia preparado.

Herói

Eu conheci um herói, não daqueles das revistinhas em quadrinhos, nem aqueles dos filmes, ou que usa uma capa esvoaçante, mas sim um verdadeiro.

Um herói sem superpoderes, sem vilões, mas um simples homem disposto a combater qualquer desafio ou ameaças para proteger suas duas garotas de sortes.

Meu herói não venceu grandes batalhas ou liderou grandes exércitos e não salvou o mundo.

Ele apenas foi forte.

Forte para combater um incêndio, forte para liderar uma equipe, para levantar um tronco que machucou uma criança, forte para não se deixar abalar, forte para encorajar e dar o exemplo e forte para cuidar de uma família.

Mas como todo herói, esse também tinha uma fraqueza, mas ele lutou, tentou novamente ser forte, mas era inútil, o herói nunca conseguiria vencer algo que não tinha como ser derrotado.

Não direi que o herói perdeu, herói nunca perdem, ele apenas transferiu a sua missão para outras pessoas. O inimigo do meu herói é fraqueza de muitas pessoas. Mas vai existir um dia que alguém irá derrota-lo e ninguém irá sofrer.

O meu herói foi forte, exemplo, amigo, companheiro e meu pai.

Talvez deveríamos estar preparados para este momento, em que ele não estaria mais aqui, imaginei milhares de maneiras de me conformar neste momento e todos foram inúteis.

Descobri que não estou preparada.

Então me lembrarei...

Irei lembrar do seu cheiro, do sorriso, da sua voz, das histórias, das músicas, das novelas supostamente perdidas, da alegria de me ver e principalmente da sua esperança em ver a minha mãe, novamente na sua antiga cadeira de balanço.

Prometo não chorar, prometo ser forte, me esforçar a ser a menina que o senhor sempre quis, prometo comer os legumes, acordar mais cedo, não me deixar abalar por poucas coisas, ler mais, estudar menos, me divertir e fazer amigos. Mas prometo principalmente não te esquecer, meu herói, meu pai.

Olhei para frente novamente, vi todas as pessoas secando as lágrimas, segurei forte a rosa em minha mão, me aproximei do caixão preto, perfeitamente polido, passei a mão sobre a madeira e depositei a rosa sobre o mesmo.

— Sentirei sua falta, meu herói. — Disse, entre lágrimas.

— ¥—

O enterro foi silencioso, ninguém falou nada depois que o caixão foi levado até o fundo da cova sem vida, cada um apenas saiu em silêncio para seus devidos lares. E eu permaneci, em pé, olhando sua sepultura.

Não tinha mais lágrimas para chorar, não tinha força para sair do lugar, queria apenas ficar ali, parada esperando por algum milagre.

— Temos que ir. — Disse Nathan, tocando em meu ombro.

— Para onde? Já parou para pensar que tudo que eu tinha está a sete palmos do chão?

— Isso não é verdade. Prometi cuidar de você e é o que irei farei. Você não perdeu tudo, sua vida ainda está no começo e eu vou estar ao seu lado, para sempre.

Alexander Watts

Marido e pai amado.

⭐09/02/1961 ✝23/06/2014