A babá (Família Brown, Livro 1)

Andressa Raquel · Capítulo 7 de 50

Páginas do PDF

A babá (Família Brown, Livro 1)

Capitulo 06

 

Bruna Watts

Depois que tia Anne saiu, dei uma pequena faxina na casa, tomei um banho rápido, vesti um short e uma blusa verde, fui à área da frente da minha casa e sentei ao lado do meu pai enquanto ele balançava na cadeira cantarolando qualquer música.

Dei o jantar para ele na área mesmo, pois ele não quis sair da cadeira.

Estava ficando tarde e estava frio do lado de fora, meu pai continuava olhando a paisagem monótona do final da rua com a esperança de que minha mãe apareceria com seu uniforme amarelo com cheiro de gordura, trazendo uma caixinha cheia de rosquinhas com receio de creme.

— Pai, vamos entrar... Está frio. Vamos tomar um banho e deitar, assim...

— Quero esperar sua mãe, filha. Ela já deve estar chegando.

Levantei-me, segurei suas mãos e o puxei para que saísse da sua velha cadeira de balanço.

— Vem pai, já está tarde. Você precisa descansar.

— Não quero descansar, quero esperar pela sua mãe. Bruna, me deixa.

— Pai, vamos pelo ao menos tomar um banho e tomar seus remédios, por favor.

Ele soltou das minhas mãos e foi até a ponta da área, olhando fixamente para o mesmo lugar.

— Pai...

Aproximei-me devagar e vi que seus olhos estavam cheios d’água. Ele piscou, deixando suas lágrimas caírem.

— Estou esquecendo do rosto dela, não consigo lembrar-me do seu rosto. Apenas escuto sua voz em meus sonhos, mas não consigo me lembrar do seu rosto, minha doce e ingênua Rebeca está sumindo os poucos.

O que eu poderia dizer? Eu era apenas uma menina de vinte anos, ele era quem deveria me dar conselhos. O que eu falaria para um homem de cinquenta e três anos, chorando pela esposa que não vai voltar de um trabalho na lanchonete? Eu simplesmente não achei palavras.

Puxei-o para próximo do meu corpo e o abracei forte, chorando junto com ele.

Sabia que a Alzheimer tem três estágios e que o leve já havia passado. O que doía era saber que ele provavelmente estava no estágio moderado e o que assustava era que o avançado estava chegando rápido.

Como ele podia esquecer-se de quase tudo, mas não esquecia a minha mãe?

 

Enxuguei minhas lágrimas o puxei para dentro ouvindo seus protestos, dei um banho nele. Outro lado mal do Alzheimer era que algumas coisas ficavam difíceis de fazer, coisas simples como escovar os dentes e tomar banho se tornava difícil com o passar do tempo.

Terminei seu banho, sequei seus poucos cabelos, vesti seu pijama, sequei suas lágrimas, dei seus remédios e o deitei na cama o cobrindo. Ele não deixou que eu deitasse ao seu lado, simplesmente me expulsou do quarto dizendo que queria ficar sozinho.

Desci as escadas chorando, vi Melissa entrando pela sala e simplesmente corri e a abracei forte.

— Vou ficar e cuidar de você hoje.

Tudo que eu queria era que alguém cuidasse de mim mesmo que fosse por um curto tempo.

Melissa trouxe ingredientes para um chocolate quente e pequenos

Marshmallow, tomamos em silêncio enquanto passava qualquer programa na televisão.

— Antes que me esqueça. — Ela se levantou, foi até sua bolsa, pegou um papel e voltou para sofá, esticando o papel para mim. — Sr. Brown, mandou lhe entregar.

Peguei o papel da sua mão e vi que se tratava de um cheque, coloquei a mão na boca quando vi o valor.

— M...meu Deus...é...

— É, são cinco mil dólares, ele mandou o Luís me trazer da faculdade só para não correr risco de ser roubada.

— É muito dinheiro, Melissa. Eu ainda nem comecei a trabalhar... Pensei que ele ia me dar um pequeno adiantamento, não que... Meu Deus, estou sonhando! — Disse, olhando para o cheque em minhas mãos.

— Isso com certeza nem fará falta para ele, sendo que ele é o terceiro homem mais rico de New York. Aliás, como você esqueceu de falar para ele que havia sido roubada? E o susto que levei quando ele perguntou o seu nome e seu endereço?

— Desculpa. Acabei esquecendo. É que aconteceu tudo tão rápido.

— Tudo bem, já pediu a segunda via dos seus documentos? Ele vai querer assinar sua carteira.

— Vai demorar um pouco para chegar. Amanhã pode ir comigo àquela clínica? Quero colocar meu pai lá.

— Tá, vamos cedo... Minha mãe pode olhar o tio Alexander.

— Não sei como agradecer o que sua família está fazendo por nós dois.

— Amamos vocês mais do que tudo. Você é minha maninha e irmãs nunca abandonam uma a outra. — Disse, me abraçando.

 

Depois de arrumar a cozinha e arrumar o colchão no chão no do meu quarto, tomei um banho, vesti meu pijama, passei no quarto do meu pai e ele estava dormindo tranquilamente, fechei suas cortinas e dei um rápido beijo em sua testa.

Já no meu quarto, demorei um pouco para dormir.

Melissa estava no chão dessa vez. Sempre fazíamos essa troca quando ela dormia aqui. Ela dormiu assim que deitou, aposto que estava cansada. Faculdade e trabalho deve ser difícil, mas admiro-a, sempre uma menina dedicada.

Pensamentos rodeavam minha cabeça. A gente nunca imagina como uma doença pode ser cruel até ela chegar à sua família e você ter o próprio gosto da dor de ver alguém que você ama sofrer e não poder fazer nada para ajudar. Alzheimer não tem cura e os remédios não estavam fazendo muita diferença, o que aumentava minha preocupação.

Fiquei olhando para o teto com os meus pensamentos até que o sono veio sem que eu percebesse.

Acordei cedo, tomei cuidado para não pisar em Melissa e saí do quarto vendo meu pai no corredor, dentro do banheiro, tentando parar de tremer para colocar a pasta de dente na escova. Quando finalmente conseguiu, metade caiu para fora da escova. Me escondi entre a porta e o meu quarto e o vi escovando os dentes devagar.

Depois que ele saiu do banheiro, o ajudei a trocar de roupa. Chorei quando ele disse que mudei. Eu era uma manteiga derretida, confesso. Fiz o seu café da manhã enquanto Melissa foi a sua casa trocar de roupa. Tomei um banho rápido e segui para a sala onde a tia Anne, Melissa e o tio Alberto já estavam se apresentado para o meu pai.

— Filha, venha conhecer nossos novos vizinhos.

— Oi, novos vizinhos!

Tio Alberto e meu pai foram para a área enquanto eu, Melissa e tia Anne discutíamos sobre o que fazer sobre a casa. Lógico que eu não conseguiria pagar a dívida, então decidi que colocaria meu pai na clínica e deixaria que o banco colocasse a casa em leilão.

Me despedi do meu pai e deixei que os pais de Melissa ficassem com ele enquanto íamos à clínica com a velha caminhonete do tio Alberto.

A clínica ficava a cerca de quarenta minutos de distância da minha casa, afastada do centro da cidade, o que proporcionava um clima mais calmo para os pacientes.

Entramos na clínica e fomos direito para um balcão de recepção onde uma mulher vestida de branco estava falando ao telefone.

— Oi, eu... — Ela fez sinal com a mão para que eu esperasse.

Fiquei em pé, a ouvindo falando com uma amiga, pois não parava de repetir. ''Sério'', ''Mentira'', ''Nossa! Não acredito que ele fez isso...'' Já estava pronta para explodir quando Melissa atravessou a barreira que nos separava da recepcionista, pegou o telefone, o colocou novamente no gancho e disparou com raiva:

— Olha, você não viu que eu e minha amiga estamos esperando há horas aqui em pé? Estávamos ouvindo sua conversa com sei lá quem, mas tenho certeza que não estava trabalhando, então faz o favor de parar de nos ignorar e começar a fazer o que você é paga para fazer: nos atender.

A recepcionista simplesmente ficou chocada, não por Melissa a ter confrontado, mas sim por não ter terminando sua conversa. Ela passou a mão nos cabelos e lançou um sorriso falso que Melissa fez questão de devolver enquanto voltava para o meu lado.

— O que desejam?

— Quero colocar meu pai...

— Desculpa, mas não é assim que funciona. A clínica não aceita qualquer um assim... Tem exames a serem feitos para ver se realmente o inválido necessita dos nossos cuidados e depois de aceito terá que pagar uma taxa de nove mil dólares e a mensalidade de sete mil e quinhentos dólares.

Não considerava meu pai como invalido, mesmo que a idade denuncie isso nunca o vi como tal. Ele precisava de cuidados, isso eu concordava, mas não para se chamado de invalido . Depois de anos servindo a cidade, ele não ganhou nada a não ser uma medalha de cidadão do bem que ele guardava com todo o carinho no quarto ao lado de seu capacete de capitão.

— Bruna!

— O quê?

— Estava dizendo para sua amiga que nossa clínica não está aceitando novos pacientes.

— Espere, mas eu preciso colocar o meu pai em uma clínica. Como assim não está aceitando novos pacientes?

— Querida, essa é a clínica mais famosa de cidade, estamos cheios. Desculpe.

Algo me dizia que ela estava mentindo.

— O que vou fazer?

— Tem uma clínica em Drotys, próxima a nona com a oitava... Creio que lá você irá conseguir uma vaga.

— Obrigada! — Disse Melissa, me puxando para sair da clínica.

Entrei no carro e, para dizer a verdade, nem vi quando paramos em um pequeno prédio vermelho com algumas pichações. o bairro não era tão calmo e a vizinhança não parecia nada pacífica.

Entrei na clínica e fomos encaminhadas para uma sala pequena e uma mulher veio nos cumprimentar.

— Olá, sou Lola, doutora chefe do lar. O que posso fazer por vocês?

— Olá! Gostaria de colocar meu pai...

— Ai, que ótimo! Nosso lar é um lugar tranquilo... Temos dois enfermeiros a cada quatro pacientes, seis refeições por dia, tudo segundo um nutricionista. Além disso, temos artesanatos, exercícios, natação e outros. Cada paciente tem um quarto para seu próprio uso, com um banheiro apropriado.

— Nossa! — Exclamei. — É incrível...

— Então, nossa mensalidade é acessível... Seu pai tem quantos anos, mocinha?

— Cinquenta e três. Ele tem Alzheimer, então eu estava pensando...

— Fique tranquila! Muitos dos nossos pacientes têm Alzheimer, por isso temos exercícios para fortalecer a memória e todos os remédios já estão inclusos na mensalidade. Pode ficar tranquila que ele estará em segurança. Quando pretende trazer ele?

— Provavelmente amanhã.

— Ótimo! Vou separar o quarto dele. Traga roupas apenas, o resto fornecemos. Faremos a ficha dele assim que ele der entrada. O pagamento também e feito no mesmo dia, ok? Alguma dúvida?

— Não, é que...

— Ótimo! Tenho que atender um paciente que está com pneumonia... Se me derem licença, nos vemos amanhã.

Ela simplesmente saiu, fechando a porta atrás de si.

— Então, vamos? — Perguntou Melissa.

— Você não achou a doutora um pouco... Estranha?

— Não. Agitada talvez, mas estranha não. Por quê?

— Nada não, vamos.

Talvez eu deveria ter procurar mais ou devolvido o dinheiro para o Senhor Brown e ter ficado com meu pai de uma vez, mas não podia fazer nada disso. Não quando a casa em que vivíamos seria do banco. Eu precisava do dinheiro e meu pai da clínica. Não tinha muitas escolhas naquele momento. No dia seguinte, meu pai iria para a clínica e na segunda-feira, eu começaria a trabalhar.

O que tinha que fazer naquele dia era aproveitar ao máximo o meu pai porque a partir do dia seguinte estaríamos separados. Então eu faria de tudo para que nosso último dia juntos, demorasse ao máximo para passar.