A babá (Família Brown, Livro 1)
Capítulo 05
Bruna Watts
Depois de dias andando pela cidade em busca de qualquer trabalho e me esforçando ao máximo para conseguir dinheiro para os remédios do meu pai, graças a uma faxina que fiz na casa de uma senhora, acabei conseguindo comprar os mais importantes, mas sinceramente a cada dia que amanhecia, pedia para Deus que meu pai não se esquecesse de mais nada. Ele fazia perguntas constantes sobre minha mãe e eu nunca tinha respostas para as suas perguntas, seus dias em frente à televisão assistindo novelas foram substituídos por uma cadeira de balanço em frente à casa. Segundo ele, estava esperando a minha mãe chegar do trabalho de garçonete. Tirá-lo da cadeira e fazê-lo ir para cama ou fazê-lo tomar um banho era um sacrifício. Ele sempre acabava chorando feito uma criança, dizendo que eu era a pior filha do mundo por estar o impedindo de ver a esposa, o que cortava meu coração em milhões de pedaços. Sempre acabava chorava junto com ele. Depois que ele dormia ficava mais alguns minutos em sua cama, sentindo seu perfume amadeirado que sempre gostei de sentir.
O banco mandou uma carta e um representante dizendo que se eu não pagasse a dívida, a casa e tudo que tem dentro seria leiloado, me dando alguns meses como prazo para pagamento da dívida. Além das dívidas e os remédios, tinha a hipoteca da casa que com certeza não conseguiria pagar, então se não arrumasse um trabalho o mais rápido possível, acabaria morando embaixo de um viaduto qualquer com meu pai.
Depois que dei café da manhã para o meu pai e seus remédios, pedi para tia Anne, mãe de Melissa, ficasse de olho em meu pai enquanto ia fazer a entrevista na empresa Brown, me despedi dele com um grande beijo na bochecha e fui até a sala.
— Já vai? — Perguntou Anne.
— Vou sim, estou um pouco atrasada. — Disse pegando minha bolsa e a colocando em meu ombro. — Tia, obrigada por ficar de olho nele. Ele está meio difícil essa semana.
— Que isso, Bruna. É um prazer ajudar. Agora vá antes que chegue mais atrasada e pode entregar isso para Melissa? — Perguntou me mostrando uma pasta azul transparente com algumas folhas dentro. — É o trabalho da faculdade. Ela esqueceu na mesa hoje de manhã.
— Eu entrego, tia. Novamente, obrigada! Acho que não vou demorar muito lá, então estarei de volta o mais rápido possível.
— Qualquer coisa eu dou um jeito. Agora vá, menina. Você não pode chegar atrasada. Boa sorte!
— Obrigada! Vou precisar. — Disse, já passando pela porta da cozinha.
Depois de meia hora dentro de um metrô lotado, consegui chegar a empresa. Atrasada, mas consegui. Dei o meu nome na recepção e me mandaram direto para o andar da presidência. Caminhei apressada até a mesa da Melissa.
— Menina, está louca? Você está atrasada e ele odeia atraso. — Disse ela com um tom baixo, mas ainda com um tom de desespero.
— Desculpa, é que...
— Está bem... deixa para lá. Estou no meu horário de almoço. Tenho menos de uma hora. Bate na porta e entra quando ele mandar. — Falou um pouco rápido, pegando sua bolsa e se levantando. — Boa sorte, amiga!
— Espera! — A chamei. — Seu trabalho da faculdade... Sua mãe mandou entregar.
— Obrigada! — Disse, praticamente correndo para o elevador.
Puxei um pouco de ar para os meus pulmões e me aproximei da porta de vidro. Mordi o lábio inferior e bati três vezes, olhei pela porta, mas não vi ninguém. Quando estava prestes a sair de perto da porta, um chorinho me chamou atenção, aproximei meu ouvido da porta e escutei que o choro vinha de dentro da sala, abri a porta lentamente e olhei para todos os lados.
— Oi! Alguém? Eu vim para a entrevista de emprego.
Sem nenhuma resposta, o chorinho me chamou novamente a atenção. Entrei na sala e fui andando de até uma mesa de aço moderna, vi que ao lado de mesa, próximo a uma cadeira de couro preta tinha um bebê conforto com um bebezinho lindo choramingando sem abrir os olhinhos, me aproximei dele e o peguei no colo junto com sua manta azul. O coloquei apoiado em meu peito e o balancei tentando acalmá-lo, cantando uma música que meu pai cantava para eu dormir. Andei pelo escritório até que ele parou de chorar... provavelmente estava dormindo ou quase isso. Continuei cantando a música baixinho enquanto sentia seu cheiro delicioso.
Estava prestes a colocá-lo novamente no bebê conforto quando escutei um estrondo me assustando e fazendo o pequeno em meus braços ficar agitado. Um homem alto, de cabelos negros e um olhar furioso, pisando duro em minha direção e esbraveja para mim.
— O que está fazendo com o meu filho?
— E... eu e... estava... — Gaguejei sem saber o que dizer diante da sua raiva.
Ele pegou o bebê dos meus braços que começou a chorar novamente e o afastou de mim, balançando-o calmamente ao mesmo tempo em que colocava uma mamadeira sobre a mesa. Não tinha dúvidas de que esse era o famoso Nathan Brown. Ele tinha um jeito carinho de cuidar do filho mesmo sendo muito grande e o filho parecer um boneco em seu colo. Ele demonstrou ter muita experiência com o filho. O estranho era ele estar com um terno de três peças com um menininho em seus braços.
— Ainda não me respondeu quem é você e por que estava segurando meu filho. — Disse mais baixo dessa vez, mas eu ainda podia sentir a raiva no tom da sua voz.
— Eu ouvi o choro dele e como vi que não tinha ninguém, resolvi pegá-lo para ele se acalmar.
— Então, invadiu minha sala? Não sei o que faz aqui, mas saía!
— Olha aqui, playboy mentido a besta, eu te ajudei... Tá legal? Eu vim aqui para a entrevista de emprego, mas vejo que perdi meu tempo. — Disse, indo em direção a porta.
— Espera! Você veio para a entrevista? Quantos anos tem? Não deve ter nenhuma referência.
— Tenho vinte anos, tenho ensino médio completo, curso de técnica enfermagem, trabalhei em uma creche e cuido de crianças desde os meus treze anos. Não preciso que você me diga o que posso ou não posso fazer. Sei que eu seria melhor do que qualquer uma que você provavelmente irá contratar, então passar bem. — Disse, me encaminhado para a porta e quando estava prestes a fechar a mesma, sua voz ecoou na sala.
— Segunda-feira, às oito horas, na minha casa.
Girei meus calcanhares e o encarei.
— O quê?
— Deixe seu endereço com minha secretaria que o meu motorista irá pegar você e suas coisas para levar até a minha casa.
— Espera! Você está me contratando?
— É o que parece, não é? Quero que prove que é melhor do que qualquer uma mesmo, segunda o que senhorita disse.
— Espere, eu não posso, eu...
— Pensei que quisesse o emprego.
— Eu quero, mas tenho um pai doente. Não posso deixá-lo sozinho. Com o salário vou colocá-lo em uma clínica para um tratamento, mas...
— Deixe seu contato com minha secretaria que amanhã mesmo o dinheiro estará na sua conta.
— Você está me dando um adiantamento?
— Estou.
— Por que?
— Eu não sei. Apenas pegue o dinheiro, coloque seu pai na clínica e esteja na minha casa, segunda-feira.
— Eu não posso...
— Segunda-feira! Agora se me dê licença, tenho que trocar o meu filho.
— Obrigada!
— Só não me decepcione. — Disse indo em direção ao sofá, pegou uma bolsa de bebê e seguiu até uma porta que eu podia jurar que era um banheiro.
Saí da sua sala com um sorriso enorme e sem entender nada do que aconteceu naquela sala. Não sei o motivo de ele estar me ajudando, mas digamos que estou muito feliz por ele estar fazendo isso.
Cheguei a minha casa ainda com um sorrisinho nos lábios, passei pela porta da cozinha e vi tia Anne, colocando uma lasanha na mesa e servindo meu pai.
— Filha! Sabia que a vizinha veio fazer o almoço hoje? Ela é muito generosa!
— Ela é sim, papai — Disse dando um beijo em sua bochecha.
— Como foi?
— Confuso, estranho e por incrível que pareça... Acabei sendo contratada.
— Parabéns, menina! Você merece.
Fiquei olhando para o meu pai que comia em silêncio, meu coração apertado em saber que teria que ficar longe dele. Nunca me afastei dele, no máximo quando ia aos acampamentos de verão nas minhas férias, mas nunca pensei em deixa-lo, não sou daquelas filhas que não se importa com os pais e acaba os deixando, só revendo-os em alguma comemoração uma vez por ano. Uma lágrima solitária rolou pelo meu rosto e me afastei dele indo para sala.
— Mas por que essa carrinha?
— Vou começar segunda-feira... tenho só dois dias para colocar ele em uma clínica. Não sei se posso fazer isso.
— Oh menina, você sabe que será melhor para ele e você não estará deixando-o para sempre. Ele cuidou de você todo este tempo e agora está na hora de você cuidar dele. Mesmo que doa, você tem que pensar no que é melhor para ele.
— Eu sei. Amanhã mesmo vou à clínica que pesquisei. — Disse, enxugando minhas lágrimas.
— Agora venha cá. — Disse abrindo os braços.
Dei um sorriso tímido e a abracei forte.
— Vocês querem ouvir a história de quando eu salvei uma família inteira em um incêndio?
Por um tempo esqueci que ele contava suas histórias de bombeiro na hora do almoço. Mesmo esquecendo algumas coisas, ele contava tudo com um sorriso nos lábios.
Afastei-me da tia Anne e falei:
— Não pai, você nunca contou essa, quero muito ouvir. — Disse, entrando na cozinha e sentando ao seu lado.
Almoçamos em silêncio, enquanto meu pai contava a história que eu estava cansada de ouvir, mas sempre fazia cara de surpresa nas partes de ação.
Fiquei olhando para ele por um tempo, ele intercalava a história com as garfadas de lasanha.
Tia Anne tinha razão, ele se dedicou por anos para cuidar de mim, estava na hora de eu cuidar dele.