A babá (Família Brown, Livro 1)

Andressa Raquel · Capítulo 15 de 50

Páginas do PDF

A babá (Família Brown, Livro 1)

Capítulo 14

 

Bruna Watts

Duas semanas de angústia e sofrimento. A clínica não atendia mais nenhuma das minhas ligações. Não saberia dizer quantas horas passei tentando ligar, mas eles simplesmente me ignoravam. Melissa também não conseguiu ligar para eles, o que me deixou ainda mais aflita.

Não conseguia dormir, algo estava errado, eu sabia. Meu pai precisava de mim ou era eu quem precisava dele, não sabia ao certo, mas algo estava tirando meu sono e eu sentia que não era coisa boa.

Arthur era o único que tirava um pouco da ansiedade em saber o que estava acontecendo com meu pai. Ele me fazia sorrir, eu encontrava um pouco de tranquilidade próximo dele. A cada dia ele me surpreendia com algo novo que aprendia, ele começou a segurar alguns objetivos com mais firmeza por alguns segundos e cores fortes conquistavam sua atenção facilmente.

Noemi e Mart conquistaram minha afeição, fazia questão de fazer a refeições com eles na cozinha, mesmo que Luís e Cloe tentavam me convencer que deveria comer na sala de jantar.

Theo se tornou um grande amigo. Mesmo que passássemos pouco tempo juntos, aproveitávamos ao máximo o tempo, babando Arthur enquanto eu fazia os passeios vespertinos pela fazenda.

Mas eu já não conseguia disfarçar a minha preocupação e Noemi percebeu logo no dia seguinte, após a minha conversa com Lola, o que me fez chorar no seu ombro, contando um pouco da minha história. Foi bom ganhar um pouco de atenção e desabafar um pouco, mas mesmo assim foi inútil para acalmar meu coração.

Estava ajudando Noemi arrumar a cozinha depois do almoço, já que aos domingos Arthur era todo da família Brown, me deixando sem nada para fazer. Terminei de limpar o balcão quando Nathan entrou na cozinha com uma roupa formal.

— Bruna, está ocupada? — Perguntou Nathan, entrando na cozinha.

— Não, senhor, precisa de ajuda com o Arthur?

— Quero que você já se arrume, Mart está te esperando.

— Vamos para algum lugar? Eu não tenho roupa pra...

— Nós não, você vai... Cremos que deseja ver seu pai. — Disse ele, com um sorriso nos lábios.

Coloquei minhas mãos na minha boca e olhei para Noemi que tinha o mesmo sorriso no rosto. Meu coração se encheu de esperança.

— Eu...eu vou ver meu pai? — Perguntei em êxtase.

— Bom, se não quiser posso...

— Não! — Quase gritei. — Eu quero, quero muito.

— Então vá logo, Mart está te esperando.

Coloquei o guardanapo no lugar, passei por ele e dei um beijo rápido na sua bochecha e subi as escadas correndo. Não daria tempo de ligar para clínica e tinha quase certeza de que eles não iriam atender, então acho que eles não ligaria de eu estar quebrando uma das regras. Vesti uma roupa rapidamente, amarrei meu cabelo em um rabo de cavalo apertado, peguei minha bolsa e sai do quarto.

Agradeci novamente ao Nathan, dei um beijo em Arthur e prometi voltar antes do jantar.

Finalmente vou ver o meu pai, saber como ele está, acalmar o meu coração, vou provar para mim mesma que ele está bem e que tudo era apenas uma nova experiência de ficar pela primeira vez longe dele e que no fundo ele está sendo bem cuidado e talvez até melhor do que eu penso.

O trajeto até a clínica pareceu durar uma eternidade, tinha me esquecido o quanto a fazenda era afastada da cidade. Mart se manteve em silêncio, talvez porque sabia que eu estava ansiosa demais para manter uma conversa. Não sabia como consegui ficar tanto tempo sem ter notícias do meu pai. Depois de matar a saudade do meu pai, vou ter uma conversa muito séria com a Lola. Como ela pode simplesmente desaparecer por duas semanas? Duas malditas semanas sem me dar nenhuma notícia dele.

Foram apenas alguns minutos, mas para mim parecia uma eternidade. Finalmente Mart parou o carro em frente a clínica.

— Não quer mesmo que eu fique esperando? Esse bairro não é muito seguro. — Disse Mart assim que abriu a porta para mim, olhando ao redor.

— Não precisa, Mart. — Falei.

— Qualquer coisa me ligue, virei buscá-la o mais rápido possível.

— Não precisa. Vou fazer uma visita para uma amiga, ela me leva até a fazenda.

— Então, se cuida, menina. Te espero para o jantar. — Disse ele, se aproximando da porta do carro.

— Obrigada, Mart! — Agradeci.

Arrumei minha bolsa no ombro e me afastei, indo em direção a clínica. Tentei abrir a grande porta de entrada, porém a mesma estava trancada. Soltei um suspiro de irritação e comecei a bater na porta até que um moreno alto, com um cara nada boa, apareceu na porta. Ele deveria ter o dobro do meu tamanho, me senti uma criança de seis anos próxima a ele.

— O que quer? — Curto e grosso.

— Quero falar com o meu pai, o senhor...

— Não. — Falou, se afastando da porta.

— Ei! Espera aí! Como assim “não”? Eu pago essa clínica! Tenho direito de ver o meu pai. — Disse batendo no vidro da porta, ainda fechado. — Quero falar com a doutora Lola.

— Olha aqui, princesinha, a doutora Lola não está e até ela voltar, ninguém entra, então, eu sugiro que não encoste nessa porta novamente, pois se encostar não terá mão.

Afastei-me da porta aos poucos, ainda encarando o homem do outro lado da porta, com um pouco de medo.

Apertei minha bolsa ao meu corpo e sentei ao meio fio, um pouco afastado da clínica. Não tinha muito o que fazer, Mart tinha ido embora, Melissa provavelmente estaria em seu sono, após o famoso almoço de domingo da tia Anne e eu não tinha outro lugar para ir.

Esperei duas semanas, para ver o sorriso do meu pai, sentir seu cheiro amadeirado, tocar em seu cabelo cinza e tocar em suas mãos enrugadas, mas tudo isso que parecia tão perto de mim, foi arrancado de uma maneira brutal por um homem extremamente arrogante e sem escrúpulos.

Levantei a cabeça passei a mão nos meus cabelos para domar os fios que insistiam em não ficarem presos juntamente com os outros. Apertei os olhos para ver melhor, um pouco longe de onde eu estava, um caminhão branco com verde saia da lateral da clínica. Depois que o caminhão saiu, o portão continuou aberto.

Quando percebi, eu já estava correndo para o outro lado da rua e parando ao lado do portão.

Não dispensaria a oportunidade de rever o meu pai.

Olhei todos os cantos de dentro da clínica para ter certeza que não havia ninguém ali. Entrei com cuidado, me escondendo em todos os lugares possíveis, o que não era difícil para os meus 1,60m de altura. Passei por uma porta ao meu lado e a fechei rapidamente, com medo de alguém me ver. Encostei a cabeça na porta e tentei acalmar a minha respiração que estava irregular.

— O que está fazendo aqui? — Uma voz feminina, atrás de mim, me fez saltar de susto.

Virei aos poucos e me vi de frente para uma mulher vestida como uma faxineira. Esfreguei meus braços, tentando pensar em alguma mentira ou uma desculpa por estar ali, mas nada vinha a minha mente.

— Eu...

— Devia ter chegado há uma hora. Sorte sua que a Lola não está na clínica, se não já estaria demitida antes mesmo de começar. — Ela se aproximou e me entregou uma sacola com roupas iguais às que ela estava vestindo. — Agora se arrume logo. Vamos começar pelos V.R.

Depois que ela saiu, me deixando sozinha para me trocar, vesti a roupa azul escura e um par de botas de borracha. Soltei meu cabelo para o caso daquele brutamonte me ver, não me conhecer.

— Ótimo! Está pronta. Agora vamos, Katharine, estamos atrasadas. — Sai do cubículo e vi dois carrinhos de limpeza. — Antes que me esqueça, meu nome é Elizabeth, seja bem-vinda! — Disse empurrando seu próprio carrinho de limpeza.

— O... Obrigada. — Gaguejei.

— Não se animei, menina. Esse lugar não é o que parece.

— Como assim?

— Creio que a Lola te fez assinar o contrato, então logo você irá descobrir que essa clínica é o pior lugar do mundo.

Suas palavras não faziam sentindo, a clínica era um lugar estranho, tinha que admitir, mas ganhar aquele título parecida um exagero.

— O que você quis dizer com V.R.? — Perguntei curiosa.

— É local onde Lola joga os idosos que estiverem a irritando, o que faz com que a maioria esteja lá, já que tudo a tira do sério. Eles são nomeados por V.R. Velhos Rebeldes. Os pobres coitados recebem o dobro do medicamento, a maioria fica fraca, fazendo com que eles falem menos e deem menos trabalho para ela. Espero que tenha estômago forte para o que verá. — Disse ela, abrindo uma porta grande de ferro.

Deixei o meu carrinho de limpeza próximo a uma parede e entrei no cômodo. Camas hospitalares estavam espalhadas pelo local, em cada uma das cama havia um idoso, a maioria estava dormindo. O cheiro de mofo misturado com produto de limpeza barato fez com que me sentisse enjoada. Me aproximei de uma velhinha no segundo leito que tentava pegar um copo d’água e a ajudei. O local recebia pouca luz e as poucas janelas estavam muito altas e as grossas barras de ferro impedia que a luz do dia entrasse.

Deveria ter uns trinta idosos naquele lugar repugnante, a maioria estava fraca e desorientada. Descobri que não tinha estômago para isso. Eles não mereciam serem tratados daquela maneira, queria tirar cada um dali e dar um pouco de alegria para eles, mas quando estava prestes a correr e fugir para bem longe daquele lugar, algo me chamou a atenção.

Em um leito afastado, um senhor estava de costas para aos demais. Eu conhecia aquelas roupas, mas não podia ser ele, não, ele não. Me aproximei devagar tentando não acreditar no que meus olhos estavam vendo.

Não!

Não!

Não!

É ele, sim, ele. Por incrível que pareça, era ele, mesmo aparentando ter envelhecido dez anos, era ele. Estava tão magro e sua pele muito amarelada. Ele não percebeu que eu havia me aproximando, simplesmente continuava olhando o chão. Sentei ao seu lado e toquei em sua pele gelada.

— Pa...Pai? — Ele continuava a olhar a cerâmica vazia. Segurei seu rosto com as minhas mãos e o forcei a olhar para mim. — Pai? — Seus olhos azuis estavam vazios, ele não demonstrou nenhuma surpresa ao me ver, ele simplesmente virou o rosto novamente e fixou o olhar no chão, como antes.

Não me contive, deixei as lágrimas descerem. Pela primeira vez, ele não falou nada ao me ver, não disse nenhuma frase sobre meu “repentino acrescento”. Pela primeira vez, ele não me reconheceu. Sabia que este dia chegaria. Mas naquele momento, a culpa era toda minha, aquele lugar realmente era o pior lugar do mundo.

— Você não é a nova auxiliar de limpeza, não é? — Perguntou a faxineira, me fazendo negar com a cabeça. — Quem é você?

Não me importei de olhar nos olhos dela, sabia que estava atrás de mim, em busca de uma explicação, afinal não é normal uma estranha entrar em uma clínica e assumir o lugar de outra pessoa. Mas precisava ver meu pai e depois do que tinha visto não vou sairia dali sem uma explicação. Segurei forte a mão gelada do meu pai e a respondi.

— Sou...Sou a filha dele.

 

Finalmente o ônibus escolar parou em frente a minha casa, me despedi da minha amiga, arrumei minha mochila e peguei minha lancheira.

Enquanto o velho ônibus se afastava eu continuava mandando um tchauzinho para todos de dentro do mesmo.

— Ei, pequenina.

Um sorriso se formou no meu rosto, me virei devagar e lá estava ele sobre o velho portão de ferro meio enferrujado. Corri até ele e recebi o famoso abraço de urso do papai!

— Estava morrendo de saudades, papai.

— Eu também, pequenina. Deixe-me te ver. — Disse me colocando no chão e afastando meus poucos cabelos loiros do rosto. — Meu Deus! Passei uma semana e meia fora e você já cresceu tudo isso? Minha princesinha está muito grande para seis anos.

— Seis anos e meio, papai. — O corrigi,

— Ah sim! Seis anos e meio. Como esqueci? — Disse, batendo em sua própria testa.

— Pai, você está com cheiro de fumaça.

— Sabe o que isso significa? — Perguntou ele, com um sorriso enorme nos lábios, me fazendo sorrir também.

— Aventura! — Gritamos juntos.

— Agora vá, pequenina, entre em casa, guarde sua mochila e lave as mãos. Durante o almoço contarei como ajudei a apagar um incêndio no décimo quinto andar, no centro.

— Eba! Eba! Já volto, papai. — Gritei me afastando dele.

Subi as escadas correndo, joguei a mochila na minha cama, coloquei a lancheira no lado da minha cômoda, corri para o banho e, em seguida, desci as escadas.

Entrei na cozinha e lá estavam eles, meus pais, dançando uma música romântica da velha coleção de discos de vinil da minha mãe. Eles davam pequenas risadas quando meu pai fazia ela dar uma voltinha desajeitada.

Minha mãe, sempre linda com seus cabelos loiros presos por alguns grampos, seus olhos verdes brilhavam e seu sorriso era contagiante. Ela deu um selinho rápido no meu pai e se aproximou aos poucos de mim, passando às mãos no avental preso a sua cintura.

— Olá, minha princesinha! — Disse minha mãe, me abraçando com ternura, me fazendo sentir seu cheiro de flor do campo misturado com cebola.

— Minhas duas estrelas. — Disse ele carinhosamente, abraçando nós duas. — Eu amo muito vocês!

— Nós te amamos também. — Dissemos juntas.

 

Nunca mais teria isso de volta, ela se foi e ele não se lembrava de mim, naquele momento me senti completamente sozinha.

Já sabia o que esteve tirando o meu sono. Meu pai precisava de mim e fui uma idiota irresponsável. Ele, de certa maneira, estava certo. Eu o abandonei. Mas droga! Eu voltei, eu tentei, eu me esforcei, mas foi em vão e não faria diferença reclamar. Nada faria ele se lembrar de mim, da Melissa, da tia Anne ou do tio Alberto, nunca iria recuperar suas lembranças.

De certa maneira, eu realmente o abandonei.

— Vem... Você tem que sair daqui. — Disse Elizabeth.

Ela me fez despertar dos meus pensamentos, esqueci que ela estava ali, estava tão focada nele que me esqueci de todo o resto, estava com tanta raiva misturada com dor que me sufocava. Olhei para ela ainda com os olhos embaçados.

— Não! Não vou deixar ele aqui. — Segurei a única gota de coragem que me restava e a enfrentei. Me levantei e enxuguei minhas lágrimas com as costas das mãos. — Sem ele eu não vou à lugar nenhum, vou processar este lugar. O que vocês fazem aqui é desumano, eles não merecem passar por isso, eles...

— Eu espero que faça isso mesmo, denuncie esse lugar, coloque cada um atrás das grades e que eles sofram pelo menos um décimo do que fizerem com eles. — Falou ela, me surpreendendo

— O quê? Por quê? — Perguntei confusa.

— Olha, a maioria dos parentes deles não está nem aí para saber como eles estão, mas têm alguns que ainda se preocupam. Lola consegue os persuadir e fazer com que acreditem em algo que não é real, ela é uma maldita filha da puta. Eles recebem o dobro do medicamento, mas alguns nem recebem medicamentos. Ela assina os atestados de óbito deles e ninguém nunca desconfiou de nada, afinal ela é muito esperta, sempre está um passo a frente. Ninguém merece ser tratado assim, mas infelizmente monstros existem e um deles se chama Lola Ghey. Não posso fazer muita coisa, mas posso ajudar a você sair daqui com ele.

— Você vai me ajudar?

— Sim, não irei privar alguém de sair desse inferno.

— Muito obrigada! — Agradeci.

— Apenas faça com que esse inferno acabe. Agora, venha, vamos sair logo.

Ela saiu do grande cômodo e voltou logo com uma cadeira de rodas, ela se aproximou, colocou a cadeira ao lado do meu pai e ficou me olhando.

— O que está esperando, menina? Me ajuda. — Disse ela, tentando levantar meu pai.

— Ele não se lembra de ninguém, não é? — Ela negou com a cabeça. Olhei para o meu pai e peguei em suas mãos. — Vem, Sr. Watts, vamos passear um pouco... que tal um jardim?

Ele não respondeu, apenas se sentou na cadeira com dificuldade, juntou as próprias mãos e não fez questão de levantar sua cabeça, me dando uma visão da sua calvície.

Elizabeth colocou um edredom fino em cima dos ombros dele enquanto eu levantava seus pés para colocar nos apoios.

— Agora, vamos, daqui a pouco eles vão vir para darem a segunda dose do remédio. — Ela olhou para todos os lados e continuou.

— Segunda? Mas não é nem duas horas ainda. — Olhei ao redor e meu coração gelou apenas em pensar no que eles passavam. — Quantas doses são?

— Quatro. A última é sempre mais forte, por isso eles ficam desorientados. — Ela pegou a pequena mala do meu pai e a escondeu em seu carinho de limpeza. — Se alguém perguntar algo, apenas diga que é o código laranja.

— E o que significa?

—Alguns dos pacientes são inválidos e usam fraldas, a maioria dos enfermeiros desse lugar tem nojo, então apenas diga isso que eles não vão perguntar mais nada. — Ela virou o carrinho com um pouco de dificuldade e logo o empurrou para a saída. — Vou à frente, tem uma saída na parte de trás da clínica e quase ninguém vai até lá, então apenas me siga.

Comecei a empurrar a cadeira do meu pai devagar, logo atrás dela, ele não se importou em reclamar por estar sendo ajudado. Ele nunca aceitou receber ajuda fácil, sempre se esforçou o suficiente para fazer tudo sozinho. Mesmo em casa, ele tentava fazer algumas coisas lentamente, mas ele fazia com êxito e o melhor era ver o seu sorriso vitorioso por ter conseguido. Mas nem seu sorriso eu consegui ver.

O corredor parecia não ter fim e meu coração estava prestes a sair pela boca com medo de ser pega por algum funcionário. O cheiro daquele lugar me dava ânsia, e o barulho da cadeira ecoava no enorme corredor.

Elizabeth parou, olhou para os dois lados com rapidez e abriu uma porta do seu lado me chamando para passar pela mesma.

— Anda logo, menina. — Me apressou.

Passei por ela com dificuldade, já que tinha uma pequena vala na saída da porta, fazendo a cadeira ter dificuldade de atravessar. Olhei para trás e vi que ela continuava parada na porta, me olhando.

— Daqui você irá sozinha, não tem perigo. Assim que atravessar a cerca de madeira estará a salvo. Terá uma pracinha a cinco quadras daqui. De lá, ligue para a polícia. Farei tudo para te ajudar, mas no momento é só o que posso fazer por vocês.

— E se eles descobrirem? A senhora não pode ficar, é muito arriscado. — Fui até ela, a puxando pela mão. — Vamos juntos.

— Ficarei bem e apenas Lola irá perceber se alguém sumiu, até lá a denúncia já estará feita. E não se preocupe comigo, ficarei bem, estou aqui há quase trinta anos, sem mim os outros sofrerão muito mais.

— Não sei como lhe agradecer.

— Apenas vá, cuide do seu pai e acabe com essa quadrilha de escrotos.

— Farei isso.

— Ótimo! Felicidades, menina. — Disse ao fechar a porta, encerrando nossa conversa.

Voltei a minha atenção para o meu pai que não moveu nenhum músculo. Seu rosto recebia uma boa quantidade de luz do sol, mas ele não parecia se incomodar, pelo contrário, ele usava a mão para brincar com os pequenos raios de sol.

A pracinha estava cheia e os gritos das crianças me fez sentir falta dessa idade. Não tinha que me preocupar com nada, era apenas brincar e comer, não tinha problemas, nem dívidas, nem tristeza e a única preocupação era do que brincaria quando o sol nascesse.

Meu pai continuava com a cabeça baixa e as mãos em cima do colo. Fazia quase quinze minutos que estávamos ali e ele nem sequer mudou de posição.

— O senhor não se lembra de mim? — Perguntei, colocando minha cabeça em seu colo para que ele pudesse me ver. — Me diga, você sabe quem sou? — Seu silêncio me incomodava.

Queria que ele falasse, dissesse qualquer coisa, mas que pelo menos me deixasse ouvir a sua voz.

Me sentei novamente e olhe para as crianças.

— N... Não senhorita. — Sua voz saiu fina e fraca.

Eu queria que ele falasse, mas juro que não esperava essa resposta. Ele respondeu como se fosse uma criança que acabara de receber uma bronca do professor.

Virei meu rosto lentamente em sua direção depois da sua resposta e vi que ele finalmente havia levantado a cabeça, meu olhar se juntou ao seu e percebi que ele estava buscando, em sua mente, algum vestígio sobre mim.

Seus olhos estavam tão fundos, sua pele estava seca e pequenas manchas em suas bochechas me chamaram a atenção, mas nada cortava mais o meu coração do que vê-lo tão magro e fraco. Ele sempre foi robusto e alegre.

Me apressei para limpa a lágrima solitária que rolou e peguei meu celular, precisava de ajuda e no momento apenas uma pessoa passou pela minha cabeça.

— Nathan... Eu preciso de você .