A Era dos Impérios 1875-1914

Eric J. Hobsbawm · Capítulo 7 de 51

Páginas do PDF

A Era dos Impérios 1875-1914

Capítulo 2 | Uma economia mudando de marcha

CAPÍTULO 2

 

UMA ECONOMIA MUDANDO DE MARCHA

 

A combinação tornou-se gradualmente a alma dos sistemas comerciais modernos.

A. V. Dicey , 1905

 

O objetivo de qualquer fusão de capital e unidades de produção ... deve ser sempre a maior redução possível dos custos de produção, administração e venda, visando a realizar os maiores lucros possíveis por meio da eliminação da concorrência destrutiva.

Carl Duisberg, fundador de I. G. Farben, 1903-1904

 

Há momentos em que o desenvolvimento está a tal ponto amadurecido em todas as áreas da economia capitalista — no terreno da tecnologia, dos mercados financeiros, do comércio, das colônias — que é preciso ocorrer uma expansão extraordinária do mercado mundial. O conjunto da produção mundial será aumentado a um nível novo e mais abrangente. Neste momento, o capital começa a entrar num período de avanço impetuoso.

I. Helphand ("Parvus"), 1901

 

1

 

Ao estudar a econom ia m undial em 1889, ano da fundação da Internacional Socialista, um ilustre especialista am ericano observou que ela se caracterizara, desde 1873, por "agitação sem precedentes e depressão do com ércio". "Sua peculiaridade m ais digna de nota", escreveu ele,

 

"foi sua universalidade; afetando tanto nações que se envolveram em guerras com o as que

m antiveram a paz; as que têm um a m oeda estável com padrão ouro com o as que têm

m oeda instável...; as que vivem num sistem a de livre com ércio de m atérias-prim as e

aquelas onde há restrições com erciais, m aiores ou m enores. Ela foi penosa em

com unidades antigas com o a Inglaterra e a Alem anha, bem com o na Austrália, na África

do Sul e na Califórnia, que constituíam as novas; ela se tornou um a calam idade

excessivam ente pesada tanto para os habitantes das terras estéreis da Terra Nova e do

Labrador, com o para as ensolaradas e férteis ilhas açucareiras das Índias Orientais e

Ocidentais; e não enriqueceu as com unidades situadas nos centros com erciais do m undo,

que norm alm ente ganham m ais quando os negócios são flutuantes e incertos".

Os observadores contem porâneos do autor partilhavam am plam ente esse ponto de vista — norm alm ente expresso num estilo m enos barroco — em bora alguns historiadores viessem , m ais tarde, a achar difícil entendê-lo. Pois em bora o ritm o com ercial, que configura o ritm o básico de um a econom ia capitalista, tenha, por certo, gerado algum as depressões agudas no período entre 1873 e m eados dos anos 1890, a produção m undial, longe de estagnar, continuou a aum entar acentuadam ente. Entre 1870 e 1890, a produção de ferro dos cinco principais países produtores m ais do que duplicou (de 11 para 23 m ilhões de toneladas); a produção de aço, que agora passa a ser o indicador adequado do conj unto da industrialização, m ultiplicou-se por vinte (de 500 m il para 11 m ilhões de toneladas). O crescim ento do com ércio internacional continuou a ser im pressionante, em bora a taxas reconhecidam ente m enos vertiginosas que antes. Foi exatam ente nessas décadas que as econom ias industriais am ericana e alem ã avançaram a passos agigantados e que a revolução industrial se estendeu a novos países, com o a Suécia e a Rússia. Muitos dos países ultram arinos recentem ente integrados à econom ia m undial conheceram um surto de desenvolvim ento m ais intenso que nunca — preparando assim , circunstancialm ente, um a crise de endividam ento internacional m uito sem elhante à dos anos 1980, sobretudo por serem os nom es dos Estados devedores em grande m edida os m esm os. O investim ento estrangeiro na Am érica Latina atingiu níveis assom brosos nos anos 1880, quando a extensão da rede ferroviária argentina foi quintuplicada, e tanto a Argentina com o o Brasil atraíram até 200 m il im igrantes por ano. Será que um período com um aum ento tão espetacular da produção podia ser descrito com o um a "Grande Depressão"?

Os historiadores podem duvidar de tal descrição, m as os contem porâneos não. Estariam aqueles ingleses, franceses, alem ães e am ericanos inteligentes, bem inform ados e preocupados sendo vítim as de um a alucinação coletiva? Esta suposição seria absurda, em bora o tom algo apocalíptico de alguns com entários pudesse ter parecido excessivo m esm o à época. Mas os "espíritos m ais ponderados e conservadores" não partilhavam , de form a algum a, da sensação do Sr. Wells da "am eaça de um contingente de bárbaros internos — ao contrário dos antigos, que vinham de fora —, que investiria contra toda a organização atual da sociedade, am eaçando inclusive a continuidade da própria civilização". No entanto, alguns concordavam com ele, sem falar do crescente grupo de socialistas que aguardavam ansiosam ente a ruína do capitalism o devido a suas contradições internas insuperáveis, que a era da depressão parecia dem onstrar. A nota pessim ista da literatura e da filosofia dos anos 1880 não pode ser cabalm ente entendida sem considerar essa sensação generalizada de m al-estar econôm ico, e, por conseguinte, social.

Quanto aos econom istas e em presários, o que preocupava até os de m entalidade m enos apocalíptica era a prolongada "depressão de preços, um a depressão de j uros e um a depressão de lucros", com o disse Alfred Marshall, o futuro guru da teoria econôm ica, em 1888. Em sum a, após o colapso reconhecidam ente drástico dos anos 1870 (ver A Era do Capital, cap. 2), o que estava em questão não era a produção, m as sua lucratividade.

A agricultura foi a vítim a m ais espetacular desse declínio dos lucros — na verdade, alguns de seus setores foram os que sofreram depressão m ais profunda de toda a econom ia — e aquela cuj o descontentam ento teve conseqüências políticas m ais im ediatas e de m aior alcance. Sua produção, que havia aum entado m uito no decorrer das décadas precedentes (ver A Era do Capital, cap. 10), agora inundava o m ercado m undial, até então protegido contra a concorrência estrangeira pelo custo elevado do transporte. As conseqüências para os preços agrícolas, tanto na agricultura européia com o nas econom ias exportadoras ultram arinas, foram dram áticas. Em 1894, o preço do trigo era apenas pouco m ais de um terço do que fora em 1867 — um prêm io esplêndido para os com pradores, m as um desastre para os agricultores e trabalhadores agrícolas, que ainda representavam entre 40 e 50% dos trabalhadores do sexo m asculino nos países industrializados (à exceção apenas da Inglaterra) e até 90% nos outros. Em algum as regiões, a situação era agravada pela superposição de outros flagelos, com o a infestação de filoxera após 1872, que reduziu em dois terços a produção vinícola francesa entre 1875 e 1889. As décadas da depressão foram um m au m om ento para os agricultores de qualquer país envolvido com o m ercado m undial. A reação dos agricultores variou, dependendo da riqueza e da estrutura política de seus países, da agitação eleitoral à rebelião, sem falar dos que m orreram de fom e, com o na Rússia em 1891-1892. O coração do populism o, que assolou os EUA nos anos 1890, se situava no Kansas e em Nebraska, terras produtoras de trigo. Entre 1879 e 1894 houve revoltas cam ponesas, ou agitações tratadas com o tais, na Irlanda, na Sicília e na Rom ênia. Os países que não precisavam se preocupar com um cam pesinato porque j á não o tinham , com o a Grã-Bretanha, podiam deixar sua agricultura se atrofiar: neste caso desapareceram dois terços da superfície de trigais entre 1875 e 1895. Alguns países, com o a Dinam arca, m odernizaram propositalm ente sua agricultura, passando aos rentáveis produtos anim ais. Outros governos, com o o alem ão, e especificam ente o francês e o am ericano, optaram pelas tarifas alfandegárias, que m antiveram os preços elevados.

Entretanto, as duas reações não governam entais m ais com uns foram a em igração e a form ação de cooperativa, sendo esta últim a a opção, principalm ente, dos sem -terra e dos proprietários de terras sem bens líquidos, estes sobretudo cam poneses com propriedades potencialm ente viáveis. Os anos 1880 conheceram as taxas m ais elevadas de m igração ultram arina, no caso dos países de em igração antiga (salvo o caso excepcional da Irlanda na década seguinte à Grande Fom e) (ver A Era das Revoluções, cap. 8:5), e o início real da em igração em m assa de países com o a Itália, a Espanha e a Áustria-Hungria, seguidos pela

Rússia e pelos Bálcãs[a]. Era a válvula de escape que m antinha a pressão social abaixo do ponto de rebelião ou revolução. Quanto às cooperativas, ofereciam em préstim os m odestos aos pequenos cam poneses — por volta de 1908. m ais da m etade dos agricultores independentes da Alem anha pertenciam a tais m inibancos rurais (cuj o pioneiro foi o Raiffeisen católico, nos anos 1870). Nesse m eio tem po, as cooperativas de com pra de suprim entos, de com ercialização e de processam ento (estas últim as notadam ente no setor de laticínios e, na Dinam arca, de defum ação de bacon) se m ultiplicaram em vários países. Dez anos depois de 1884, os agricultores franceses aproveitaram um a lei destinada a legalizar os sindicatos em benefício próprio, quando 400 m il

deles entraram para dois m il desses syndicats[b]. Por volta de 1900, havia 1.600 cooperativas processando laticínios nos EUA, a m aioria delas do m eio-oeste, e as cooperativas de agricultores detinham firm em ente o controle da indústria de laticínios da Nova Zelândia.

O setor em presarial tinha seus próprios problem as. Um a época em que se incutiu a crença de que um aum ento de preços ("inflação") é um desastre econôm ico pode ter dificuldades de acreditar que os hom ens de negócios do século XIX se preocupavam m uito m ais com um a queda dos preços — e, em um século globalm ente deflacionário, nenhum período foi m ais drasticam ente deflacionário que 1873-1896, quando o nível britânico de preços caiu em 40 por cento. Pois a inflação não é boa só para os devedores, com o sabem todos os proprietários de im óvel com um a hipoteca longa, m as constitui tam bém um im pulso autom ático à taxa de lucro, j á que os bens produzidos são vendidos por um preço m ais alto, em vigor quando chegam ao ponto de venda. Sim etricam ente, a deflação reduz a taxa de lucro. Um a grande expansão do m ercado poderia m ais que com pensar essa redução, m as a rapidez real do crescim ento do m ercado não foi suficiente, em parte porque a nova tecnologia industrial fez aum entar enorm em ente tanto o produto possível com o o necessário (ao m enos quando a fábrica funcionava a um ritm o rentável), em parte porque o próprio núm ero de produtos e econom ias industriais concorrentes estava crescendo, aum entando, assim , significativam ente a capacidade instalada total, e em parte tam bém porque um m ercado de m assa para os bens de consum o ainda se desenvolvia devagar. Mesm o para os bens de capital, a com binação de um a capacidade instalada nova e aperfeiçoada a um uso m ais eficiente do produto e às m udanças na dem anda teria efeitos drásticos: o preço do ferro caiu 50% entre 1871-1875 e 1894-1898.

Outra dificuldade foi que os custos de produção eram , a curto prazo, m ais estáveis que os preços, pois — com algum as exceções — os salários não podiam ser, ou não foram , reduzidos proporcionalm ente, ao passo que as em presas tam bém estavam sobrecarregadas com fábricas e equipam entos j á obsoletos, ou em vias de se tornar; ou com fábricas e equipam entos novos e caros, que, dados os baixos lucros, dem oravam m ais que o previsto a se pagarem . Em algum as partes do m undo a situação se com plicava ainda m ais devido à queda — gradual, porém a curto prazo flutuante e im previsível — do preço da prata e de sua cotação em relação ao ouro. Enquanto am bos perm aneceram estáveis, com o durante m uitos anos antes de 1872, os pagam entos internacionais calculados em m etais preciosos, que eram a base da m oeda m undial,

eram bastante sim ples[c]. Quando a paridade passou a ser instável, as transações com erciais entre países cuj as unidades m onetárias tinham com o padrão m etais preciosos diferentes se tornaram bem m enos sim ples.

Que m edidas podiam ser tom adas em relação à depressão dos preços, lucros e taxas de j uros? Um a solução com que m uitos concordaram , com o sugere a im portância do debate da época sobre o "bim etalism o", foi um a espécie de m onetarism o às avessas, que atribuía a queda dos preços fundam entalm ente a um a escassez m undial de ouro, que gradativam ente se tornava a única base do sistem a m undial de pagam entos (através da libra esterlina, com sua paridade fixa em relação ao ouro — ou sej a, o soberano de ouro). Um sistem a baseado tanto no ouro com o na prata, disponível em quantidades cada vez m aiores, especialm ente na Am érica, certam ente provocaria um a alta de preços através da inflação m onetária. A inflação da m oeda — atraente

sobretudo para os agricultores das prairies[d], que estavam sob pressão, sem falar dos operadores das m inas de prata das Montanhas Rochosas — tornou-se um cavalo de batalha im portante dos m ovim entos populistas am ericanos, e a perspectiva da crucificação da hum anidade num a cruz de ouro inspirou a retórica do grande tribuno do povo, William Jennings Bry an (1860-1925). Com o no caso de outras causas favoritas de Bry an, com o a verdade literal da Bíblia e a conseqüente necessidade de elim inar o ensino das doutrinas de Charles Darwin, ele apoiou um perdedor. Os banqueiros, os grandes em presários e os governos dos países centrais do capitalism o m undial não tinham a m ínim a intenção de abandonar o padrão ouro, que para eles tinha valor parecido ao do Livro do Gênese para Bry an. De qualquer m aneira, apenas países com o o México, a China e a Índia, que não contavam , se baseavam principalm ente na prata.

Os governos eram m ais propensos a dar ouvidos aos grupos de influência e de eleitores organizados, que os instavam a proteger o produtor nacional contra a concorrência de bens im portados. Pois destes não fazia parte apenas — com o se poderia pensar — o enorm e bloco de agricultores, m as tam bém im portantes organizações de industriais nacionais, que procuravam m inim izar o problem a da "superprodução" pelo m enos m antendo o rival estrangeiro fora do país. A Grande Depressão fechou a longa era de liberalism o econôm ico (cf. A Era do Capital, cap. 2),

ao m enos no que tange ao com ércio de m atérias-prim as[e]. Com eçando com a Alem anha e a Itália (têxteis) no final dos anos 1870, as tarifas protecionistas se tornaram um elem ento perm anente do cenário econôm ico internacional, culm inando, no início dos anos 1890, com as tarifas punitivas associadas aos nom es de Méline, na França (1892) e McKinley, nos EUA

(1890)[f].

A Grã-Bretanha foi o único país industrial im portante a logo abraçar a causa do com ércio livre e irrestrito, apesar dos poderosos desafios ocasionais lançados pelos protecionistas. Os m otivos eram óbvios, e não se relacionavam à ausência de um cam pesinato grande e, portanto, de um voto autom aticam ente protecionista grande. A Grã-Bretanha era, de longe, o m aior exportador de produtos industrializados, e no decorrer do século sua econom ia se orientou cada vez m ais para a exportação provavelm ente m ais que nunca nos anos 1870 e 1880 — m uito m ais que seus principais rivais, em bora não m ais que algum as econom ias avançadas m uito m enores, com o a Bélgica, a Suíça, a Dinam arca e a Holanda. A Grã-Bretanha era, de longe, o m aior exportador de capital, de serviços financeiros e com erciais "invisíveis" e de serviços de transporte. De fato, à m edida que a concorrência estrangeira ia prej udicando a indústria britânica, a City de Londres e a m arinha m ercante britânica iam se tornando m ais centrais que nunca para a econom ia m undial. Inversam ente, em bora isto m uitas vezes sej a esquecido, a Grã-Bretanha era, de longe, o m aior m ercado com prador das exportações de produtos prim ários do m undo, e dom inava — pode-se até dizer que constituía — o m ercado m undial de alguns deles, com o o açúcar de cana, o chá e o trigo, dos quais ela foi responsável, em 1880, pela m etade do total com ercializado internacionalm ente. Em 1881, a Grã-Bretanha com prou quase a m etade de toda a carne exportada no m undo e m uito m ais lã e algodão (55% das im portações européias) que qualquer outro país. Na verdade, com o a Grã-Bretanha perm itiu o declínio de sua própria produção de alim entos durante a Depressão, sua tendência à im portação se tornou realm ente extraordinária. Em 1905-1909, ela im portou não apenas 56% de todo o seu consum o interno de cereais, m as tam bém 76% do queij o e 68% dos ovos.

Assim sendo, o livre com ércio parecia indispensável, pois perm itia que os fornecedores ultram arinos de produtos prim ários trocassem suas m ercadorias por m anufaturados britânicos, reforçando assim a sim biose entre o Reino Unido e o m undo subdesenvolvido, base essencial do poderio econôm ico britânico. Os estancieros argentinos e uruguaios, os produtores de lã australianos e os agricultores dinam arqueses não tinham interesse em incentivar a indústria m anufatureira nacional, pois se saíam m uito bem com o planetas do sistem a solar britânico. O preço que a Grã-Bretanha pagou não foi pequeno. Com o vim os, a adoção do livre com ércio significou estar disposta a deixar a agricultura britânica afundar, se ela não conseguisse nadar. A Grã-Bretanha era o único país onde até os estadistas do Partido Conservador, apesar do seu antigo com prom isso com o protecionism o, estavam dispostos a abandonar a agricultura. O sacrifício era reconhecidam ente m ais fácil, pois as finanças dos ultra-ricos e dos proprietários rurais, ainda decisivos politicam ente, agora dependiam da renda da propriedade urbana e das carteiras de investim ento na m esm a proporção que do arrendam ento dos trigais. Isto poderia im plicar tam bém que se estava disposto a sacrificar a própria indústria britânica, com o os protecionistas tem iam ? Visto retrospectivam ente da desindustrializada Grã-Bretanha dos anos 1980, o tem or de cem anos atrás não parece irrealista. Afinal de contas, o capital existe para gerar dinheiro, e não para fazer um a seleção de produtos. Contudo, em bora j á fosse claro que, na política britânica, a opinião da City de Londres pesava bem m ais que a dos industriais de província, por enquanto os interesses da City não pareciam conflitantes com os da m aioria da indústria. Assim , a Grã-

Bretanha continuou com prom etida com o liberalism o econôm ico[g], dando aos países protecionistas ao m esm o tem po a liberdade de controlar seus m ercados internos e m uito espaço para prom over suas exportações.

Econom istas e historiadores nunca deixaram de discutir sobre os efeitos desse renascim ento do protecionism o internacional ou, em outras palavras, sobre a estranha esquizofrenia da econom ia m undial capitalista. Os elem entos constitutivos básicos de seu núcleo, no século XIX, eram , cada vez m ais, as "econom ias nacionais" — a britânica, a alem ã, a norte-am ericana, etc. Entretanto, apesar do título program ático do grande trabalho de Adam Sm ith, A Riqueza das Nações (1776), o lugar da "nação" com o unidade não era claro na teoria pura do capitalism o liberal, cuj as peças básicas eram os átom os irredutíveis da em presa, do indivíduo e da "firm a" (sobre a qual não se dizia m uito), m ovidos pelo im perativo de m axim izar os ganhos ou m inim izar as perdas. Eles operavam "no m ercado", que tinha a escala m undial por lim ite. O liberalism o foi a anarquia da burguesia e, com o o anarquism o revolucionário, não deixava espaço para o Estado. Ou antes, o Estado com o fator econôm ico só existia com o algo que interferia nas operações autônom as e autom áticas "do m ercado".

De certa m aneira, essa ótica tinha algum sentido. Por um lado, parecia razoável supor — sobretudo após a liberalização das econom ias em m eados do século (A Era do Capital, cap. 2) — que o que fazia essa econom ia funcionar e crescer eram as decisões econôm icas de suas partículas básicas. Por outro lado, a econom ia capitalista era, e só podia ser, m undial. Esta feição global acentuou-se continuam ente no decorrer do século XIX, à m edida que estendia suas operações a partes cada vez m ais rem otas do planeta e transform ava todas as regiões cada vez m ais profundam ente. Adem ais, essa econom ia não reconhecia fronteiras, pois funcionava m elhor quando nada interferia no livre m ovim ento dos fatores de produção. Assim , o capitalism o, além de internacional na prática, era internacionalista na teoria. O ideal de seus teóricos era um a divisão internacional do trabalho que garantisse o crescim ento m áxim o da econom ia. Seus critérios eram globais: não tinha sentido tentar produzir bananas na Noruega, pois elas podiam ser produzidas m uito m ais barato em Honduras. Eles desdenhavam os argum entos locais ou regionais em contrário. A teoria pura do liberalism o econôm ico era obrigada a aceitar as conseqüências m ais extrem as, ou m esm o absurdas, de seus pressupostos, desde que se pudesse dem onstrar que destes decorria a otim ização dos resultados globais. Se fosse possível dem onstrar que toda a produção industrial do m undo devia ser concentrada em Madagascar (com o 80% de sua produção de relógios estava concentrada num a pequena região da Suíça), ou que toda a população da França devia se m udar para a Sibéria (com o um a grande proporção de

noruegueses foi, de fato, trasladada pela m igração para os EUA)[h], não havia argum entos econôm icos contra tais procedim entos.

Que erro econôm ico podia ser dem onstrado no quase m onopólio britânico da indústria m undial de m eados do século, ou o desenvolvim ento dem ográfico da Irlanda, que perdeu quase a m etade de sua população entre 1841 e 1911? O único equilíbrio que a teoria econôm ica liberal adm itia era o m undial.

Mas, na prática, esse m odelo era inadequado. A econom ia capitalista m undial em expansão era form ada por um conj unto de blocos sólidos, m as tam bém fluidos. Independente das origens das "econom ias nacionais" que constituíam esses blocos — isto é, de econom ias definidas por fronteiras de Estados — e das lim itações teóricas de um a teoria econôm ica baseada nelas elaborada principalm ente por teóricos alem ães — as econom ias nacionais existiam porque as nações-Estado existiam . Pode ser verdade que ninguém pensaria na Bélgica com o prim eira econom ia industrializada do continente europeu se seu território tivesse continuado a fazer parte da França (com o antes de 1815) ou a ser um a região dos Países Baixos unidos (com o entre 1815 e 1830). Entretanto, j á que a Bélgica era um Estado, tanto sua política econôm ica com o a dim ensão política das atividades econôm icas de seus habitantes eram plasm adas por esse fato. Sem dúvida, é verdade que havia e há atividades econôm icas, com o as finanças internacionais, que são essencialm ente cosm opolitas, escapando assim às restrições nacionais, na m edida em que estas eram eficazes. Mesm o assim , essas em presas transnacionais tiveram o cuidado de se vincular a um a econom ia nacional convenientem ente im portante. Assim , as fam ílias de banqueiros com erciais (m aj oritariam ente alem ãs) tenderam a transferir seus escritórios centrais de Paris para Londres após 1860. E o m ais internacional dos grandes bancos, o Rothschild, floresceu quando operava na capital de um Estado im portante e, quando não, feneceu: os Rothschild de Londres, Paris e Viena m antiveram um a força im portante, m as os Rothschild de Nápoles e Frankfurt (a em presa se recusou a se transferir para Berlim ) não. Após a unificação da Alem anha, Frankfurt j á não bastava.

As observações acim a se aplicam , é claro, basicam ente à parcela "desenvolvida" do m undo, isto é, aos Estados capazes de defender suas econom ias em vias de industrialização contra a concorrência, m as não ao resto do m undo, cuj as econom ias eram política ou econom icam ente dependentes do núcleo desenvolvido. Estas regiões não tinham opção, j á que ou um a potência colonial decidia o que tinha que acontecer a suas econom ias, ou um a econom ia im perial tinha condições de transform á-las num a banana — ou café — republic. Ou, ainda, essas econom ias não costum avam estar interessadas em opções alternativas de desenvolvim ento, pois era visivelm ente rem unerador para elas se transform arem em produtoras especializadas em produtos prim ários para um m ercado m undial com posto pelos Estados m etropolitanos. No m undo periférico, a "econom ia nacional", na m edida em que se puder dizer que tenha existido, tinha funções diferentes.

Mas o m undo desenvolvido não era só um a m assa de "econom ias nacionais". A industrialização e a Depressão transform aram -nas num grupo de econom ias rivais, em que os ganhos de um a pareciam am eaçar a posição de outras. A concorrência se dava não só entre em presas, m as tam bém entre nações. Daqui em diante, os leitores britânicos se horrorizariam com os relatos j ornalísticos da invasão econôm ica alem ã — Made in Germany (1896), de E. E. William s, ou American Invaders (1902), de Fred A. Mackenzie. Seus pais não tinham perdido a calm a diante das advertências (j ustificadas) sobre a superioridade técnica dos estrangeiros. O protecionism o expressava um a situação de concorrência econôm ica internacional.

Mas qual foi seu efeito? Podem os considerar com o com provado que um excesso de protecionism o generalizado — que procura erguer barricadas em torno da econom ia de cada nação-Estado, por m eio de fortificações políticas que a defendam do m undo exterior — é pernicioso para o crescim ento econôm ico m undial. Isto seria pertinentem ente provado entre as duas guerras m undiais. Entretanto, no período 1880-1914, o protecionism o não era nem geral nem , com exceções ocasionais, proibitivo e, com o vim os, restringia-se ao com ércio de m ercadorias e não afetava os m ovim entos de m ão-de-obra nem as transações financeiras internacionais. O protecionism o agrícola, de m aneira geral, funcionou na França, falhou na Itália (onde a reação a ele foi a m igração em m assa) e protegeu os interesses dos grandes proprietários rurais na Alem anha. O protecionism o industrial, de m aneira geral, aj udou a am pliar a base industrial do m undo, ao incentivar as indústrias nacionais a produzirem com vistas aos m ercados internos de seus países, que tam bém estavam se expandindo a passos largos. Calculou-se que o aum ento global da produção entre 1880 e 1914 foi, por conseguinte, nitidam ente m aior do que fora durante as décadas de livre com ércio. Em 1914, sem dúvida, a produção industrial foi distribuída m enos desigualm ente no m undo m etropolitano ou "desenvolvido" do que havia sido quarenta anos antes. Em 1870, os quatro principais Estados industriais haviam sido responsáveis por quase 80% do total m undial de produtos m anufaturados, m as, em 1913, sua participação foi de 72%, com um a produção cinco vezes m aior. Saber até que ponto o protecionism o contribuiu para esse resultado é um a discussão em aberto. Parece claro que ele não pode ter com prom etido seriam ente o crescim ento.

Se o protecionism o era a reação política instintiva do produtor preocupado com a Depressão, essa não era, contudo, a reação m ais significativa do capitalism o a suas dificuldades. Ela resultava da com binação de concentração econôm ica e racionalização em presarial ou, na term inologia am ericana que agora com eça a definir estilos globais, "trustes" e "adm inistração científica". Am bos eram tentativas de am pliar as m argens de lucro, com prim idas pela concorrência e pela queda de preços.

A concentração econôm ica não deve ser confundida com m onopólio em sentido estrito (controle do m ercado por um a única em presa), nem no sentido am plo m ais usual de controle do m ercado por um pequeno núm ero de firm as dom inantes (oligopólio). Por certo, os exem plos dram áticos de concentração, que m ereceram acolhida negativa por parte do público, foram desse tipo, geralm ente decorrentes de fusões ou de acordos, com vistas ao controle do m ercado, entre firm as que, segundo a teoria da livre iniciativa, deviam estar concorrendo entre si, o que beneficiaria o consum idor. Era o caso dos "trustes" am ericanos que geraram um a legislação antim onopolista, com o a Lei Anti-Truste, de Sherm an (1890), de eficácia duvidosa — e dos

syndicates[i] ou cartéis alemães — principalmente na indústria pesada — que desfrutavam do beneplácito governam ental. O Cartel do Carvão do Reno e da Westfália (1893), cuj o controle da produção de carvão dessa região era da ordem de 90%, ou a Standard Oil Com pany, que em 1880 controlou 90-95% do petróleo refinado nos EUA, eram , sem dúvida, m onopólios. Assim tam bém , para fins práticos, o "truste de bilhões de dólares" da United States Steel (1901), que detinha 63% da indústria siderúrgica am ericana. Tam bém é claro que um a tendência — oposta à concorrência irrestrita — à "com binação de vários capitalistas que antes operavam isoladam ente", tornou-se inegavelm ente óbvia durante a Grande Depressão e se m anteve no novo período de prosperidade m undial. Um a tendência ao m onopólio ou oligopólio é inegável na indústria pesada, em setores profundam ente dependentes de encom endas governam entais — com o o de arm am entos, em rápida expansão —, em atividades que geram e distribuem novas form as revolucionárias de energia, com o o petróleo e a eletricidade, nos transportes e em algum as indústrias produtoras de bens de consum o de m assa, com o sabão e tabaco.

Entretanto, o controle do m ercado e a elim inação da concorrência constituíam apenas um aspecto de um processo m ais geral de concentração capitalista, e não eram nem universais nem irreversíveis: em 1914 houve um a concorrência m uito m ais acentuada nos setores petroleiro e siderúrgico norte-am ericanos do que houvera dez anos antes. Neste sentido, é ilusório falar, em relação a 1914, daquilo que por volta de 1900 era claram ente identificado com o sendo um a nova fase do desenvolvim ento capitalista, com o "capitalism o m onopolista". Mas não im porta m uito com o o cham em os ("capitalism o associado", "capitalism o organizado", etc.), desde que se adm ita — e é preciso adm itir — que o cartel avançou às custas da concorrência de m ercado, as sociedades anônim as às custas das firm as privadas, as grandes em presas com erciais e industriais às custas das m enores; e que essa concentração im plicou um a tendência ao oligopólio. Isto era evidente m esm o em fortalezas poderosas da antiquada em presa de pequena e m édia escala, com o a Grã-Bretanha. A partir de 1880, o padrão da distribuição foi revolucionado. "Merceeiro" e "açougueiro" agora não significavam apenas um pequeno loj ista, m as crescentem ente um a firm a de porte nacional ou internacional com centenas de filiais. No setor bancário, um pequeno núm ero de gigantescos bancos por ações, com redes nacionais de agências, substituíram m uito rapidam ente os bancos m enores: o Lloy ds Bank absorveu 164 pequenos bancos. Após 1900, com o j á foi observado, os antiquados — ou outros — "bancos rurais" britânicos passaram a ser "um a curiosidade histórica".

Assim com o a concentração econôm ica, a "adm inistração científica" (o próprio term o só entrou em uso por volta de 1910) foi filha da Grande Depressão. Seu fundador e apóstolo, F. W. Tay lor (1856-1915), com eçou a desenvolver suas idéias na altam ente problem ática indústria siderúrgica am ericana em 1880. Procedentes do oeste, essas idéias chegaram à Europa nos anos 1890. A pressão sobre os lucros durante a Depressão, bem com o o tam anho e com plexidade crescentes das firm as, sugeriam que os m étodos tradicionais, em píricos ou im provisados não eram m ais adequados à condução das em presas. Daí a necessidade de um a form a m ais racional ou "científica" de controlar, m onitorar e program ar em presas grandes e que visavam à m axim ização do lucro. A tarefa em que o "tay lorism o" concentrou im ediatam ente seus esforços — e à qual a im agem pública da "adm inistração científica" era identificada — era com o conseguir que os operários trabalhassem m ais. Esse obj etivo foi perseguido por m eio de três m étodos principais: (1) isolando cada operário de seu grupo de trabalho e transferindo o controle do processo de trabalho do operário ou do grupo a agentes da adm inistração, que diziam ao operário exatam ente o que fazer e quanto produzir, à luz de (2) um a divisão sistem ática de cada processo em unidades com ponentes cronom etradas ("estudo do tem po e do m ovim ento"), e (3) de vários sistem as de pagam ento dos salários, o que incentivaria o operário a produzir m ais. Esses sistem as de pagam ento por produção se dissem inaram m uito rapidam ente, m as, para fins práticos, o tay lorism o em sentido lato quase não se difundiu na Europa antes de 1914 — nem m esm o nos EUA — e só se tornou um slogan fam iliar nos círculos adm inistrativos nos últim os anos do pré-guerra. Após 1918, o nom e de Tay lor seria o título sintético do uso racional da m aquinaria e da força de trabalho para m axim izar a produção, paradoxalm ente tanto entre os responsáveis pelo planej am ento bolchevique com o entre os capitalistas.