A Era dos Impérios 1875-1914
Capítulo 3
Para esse estrato m édio em am pliação, o nacionalism o possuía igualm ente um a atração m ais am pla e m enos instrum ental. Oferecia-lhes um a identidade coletiva, com o "fiéis defensores" da nação que deles se esquivava, com o classe, ou com o aspirantes ao pleno status burguês que tanto cobiçavam . O patriotism o com pensava a inferioridade social. Assim na Inglaterra, onde não havia serviço m ilitar com pulsório, a curva do alistam ento voluntário de soldados operários na im perialista Guerra Sulafricana (1899-1902) sim plesm ente reflete a situação econôm ica. Subia e descia com o desem prego. Mas a curva do alistam ento dos j ovens de classe m édia baixa e de colarinho branco refletia claram ente a atração da propaganda patriótica. Em certo sentido, aliás, o patriotism o uniform izado trazia suas recom pensas sociais. Na Alem anha, oferecia o status potencial de oficial da reserva, para os rapazes que haviam tido educação secundária até a idade de dezesseis anos, ainda que não houvessem prosseguido seus estudos. Na Inglaterra, conform e a guerra dem onstraria, m esm o os am anuenses e vendedores a serviço da nação poderiam tornar-se oficiais e — na term inologia brutalm ente franca da classe superior inglesa — "gentlemen tem porários".
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O nacionalism o, contudo, entre 1870 e 1914, não pode ser confinado à espécie de ideologia que atraía as classes m édias frustradas ou os antiliberais (e anti-socialistas), precursoras do fascism o. Inquestionavelm ente, nessa época os governos e partidos ou m ovim entos que podiam fazer, ou dar a entender, um apelo nacional gozariam de vantagem com plem entar; e inversam ente, aqueles que não o podiam ou não o queriam fazer, até certo ponto se prej udicariam . É absolutam ente inegável que a guerra de 1914, ao ser deflagrada, produziu explosões genuínas, em bora curtas, de patriotism o de m assas, nos principais países beligerantes. E nos Estados m ultinacionais, os m ovim entos operários organizados em toda a extensão do Estado lutaram e foram derrotados, num a ação de retaguarda contra a própria desintegração em m ovim entos separados, baseada nos operários de cada um a das nacionalidades. O m ovim ento trabalhista e socialista do Im pério Habsburgo, portanto, desm oronou antes que o próprio im pério o fizesse.
Não obstante, há um a im portante diferença entre o nacionalism o com o ideologia de m ovim entos nacionalistas e de governos agitadores de bandeiras e a m ais am pla atração da nacionalidade. O prim eiro não lançava o olhar para além do establishment ou da grandeza da "nação". Seu program a consistia em resistir, expelir, derrotar, conquistar, subm eter ou elim inar "o estrangeiro". Tudo m ais era sem im portância. Era suficiente afirm ar a qualidade de irlandês, ou a germ anidade, ou a qualidade de croata do povo irlandês, alem ão ou croata, num Estado independente, pertencente exclusivam ente a eles, anunciar seu futuro glorioso, e estar disposto a fazer todos os sacrifícios para alcançá-lo.
Era isto que, na prática, lim itava sua atração a quadros de ideólogos entusiastas e de m ilitantes; às classes m édias inform es em busca de coesão e autoj ustificação; e àqueles grupos (m ais um a vez, entre os "pequenos hom ens" que lutavam pela vida) que pudessem atribuir todos os seus descontentam entos aos m alditos estrangeiros. E, é claro, este nacionalism o atraía igualm ente governos, que recebiam de braços abertos um a ideologia que dizia aos cidadãos que o patriotism o era suficiente.
Para a m aioria, porém , o nacionalism o não era o bastante. Isso, paradoxalm ente, fica m ais claro precisam ente nos m ovim entos reais das nacionalidades que não haviam ainda alcançado a autodeterm inação. Os m ovim entos que receberam genuíno apoio de m assas, em nossa época — e nem todos os que o desej aram realm ente o conseguiram — foram , quase invariavelm ente, aqueles que com binavam a atração da nacionalidade e da língua com algum interesse ou força m obilizadora m ais poderosa, antiga ou m oderna. A religião era um a delas. Sem a Igrej a Católica, o m ovim ento flam engo e o basco teriam sido politicam ente desprezíveis e ninguém duvida de que o catolicism o deu consistência e força de m assa ao nacionalism o dos irlandeses e poloneses, dirigidos por governantes de outra religião. De fato, durante essa época, o nacionalism o dos fenianos irlandeses, originalm ente um m ovim ento secular e até anticlerical, que apelava aos irlandeses além das fronteiras confessionais, tornou-se um a força política m uito im portante, precisam ente por haver perm itido que o nacionalism o irlandês se identificasse essencialm ente com irlandeses católicos.
O m ais surpreendente, conform e j á sugerim os, é que os partidos cuj o obj etivo original e principal era a libertação internacional e social de classe, acabaram por se tornar os veículos tam bém da libertação nacional. O restabelecim ento de um a Polônia independente foi alcançado, não sob a liderança de qualquer um dos num erosos partidos do século XIX, voltados exclusivam ente à independência, m as sob liderança proveniente do Partido Socialista Polonês, da Segunda Internacional. O nacionalism o arm ênio revela o m esm o padrão, com o o fã? igualm ente o nacionalism o territorial j udeu. Quem fez Israel não foi Herzl nem Weizm ann, m as o sionism o trabalhista (inspirado na Rússia). Conquanto alguns desses partidos fossem j ustificavelm ente criticados dentro do socialism o internacional, por haverem colocado o nacionalism o m uito adiante da libertação social, o m esm o não se pode dizer de outros partidos socialistas ou até m arxistas, que para surpresa deles próprios deram consigo m esm os a representar certas nações, em particular o Partido Socialista Finlandês, os m encheviques da Geórgia, o Bund j udeu, em am plas áreas da Europa oriental — na verdade, m esm o os rigidam ente não-nacionalistas bolcheviques da Letônia. Inversam ente, os m ovim entos nacionalistas tornaram -se cônscios de que era desej ável definir, se não um program a social específico, pelo m enos um a preocupação com questões econôm icas e sociais. Caracteristicam ente, foi na Boêm ia industrializada —
dilacerada entre tchecos e alem ães, am bos atraídos por m ovim entos operários[g] — que em ergiram m ovim entos que se autodescreviam especificam ente com o nacional-socialistas. Os nacional-socialistas tchecos eventualm ente tornaram -se o partido característico da Tchecoslováquia independente e forneceram o últim o presidente (Beneš). Os nacional-socialistas alem ães inspiraram um j ovem austríaco que lhes adotou o nom e e a com binação de ultranacionalism o anti-sem ita com im precisa dem agogia populista social, na Alem anha do pós-guerra: Adolf Hitler.
O nacionalism o, portanto, tornou-se genuinam ente popular, m as especialm ente quando bebido com o coquetel. Sua atração não residia tanto em seu sabor quanto na com binação com outros ingredientes ou com ingredientes que, esperava-se, estancariam a sede espiritual e m aterial dos consum idores. Um tal nacionalism o, todavia, em bora bastante genuíno, não era tão m ilitante nem tão dedicado a um só obj etivo e certam ente não tão reacionário quanto o desej aria a direita agitadora de bandeiras.
O Im pério Habsburgo, prestes a desintegrar-se sob várias pressões nacionais, ilustra paradoxalm ente as lim itações do nacionalism o. Em bora, no com eço da década de 1900, a m aioria do povo estivesse inquestionavelm ente consciente de que pertencia a um a nacionalidade ou outra, poucas pessoas achavam isso incom patível com o apoio à m onarquia Habsburgo. Mesm o após o início da guerra, a independência nacional não veio a ser questão im portante, e em apenas quatro das nações sob os Habsburgo era encontrada inequívoca hostilidade contra o Estado — três das quais identificáveis com Estados nacionais além de suas fronteiras (italiano, rom enos e tchecos). A m aioria das nacionalidades não desej ava visivelm ente evadir-se daquilo que a classe m édia e a classe m édia baixa, pela boca de seus fanáticos, gostava de cham ar "a prisão dos povos". E quando, no decorrer da guerra, avolum aram -se os sentim entos revolucionários e a insatisfação, tom aram a form a, em prim eiro lugar, de revolução social e não de m ovim entos de independência nacional.
Quanto aos beligerantes ocidentais, durante o curso da guerra viram aum entar progressivam ente os sentim entos contra esta e o descontentam ento social, porém sem destruir o patriotism o dos exércitos de m assa. O extraordinário im pacto internacional das revoluções russas de 1917 só é com preensível se tiverm os em m ente que aqueles que foram para a guerra de boa vontade, e m esm o com entusiasm o, em 1914, eram m ovidos pela idéia do patriotism o, que não podia ser confinada a slogans nacionalistas: incluía o senso do que era devido ao cidadão. Esses exércitos não iam para a guerra por gostarem da luta, da violência ou do heroísm o, ou para im plem entar o incondicional egoísm o e expansionism o do nacionalism o de direita. E m enos ainda por hostilidade ao liberalism o e à dem ocracia.
Ao contrário. A propaganda dom éstica de todos os beligerantes, com respeito à política de m assas, dem onstra em 1914 que o assunto a ser sublinhado não era a glória nem à conquista, m as o de "nós" serm os vítim as de agressão, ou de política agressiva, o de "eles" representarem um a am eaça m ortal aos valores da liberdade e da civilização que "nós" representam os. Mais im portante: hom ens e m ulheres não seriam m obilizados com êxito para a guerra, a não ser que sentissem sua luta com o algo m ais que um sim ples com bate arm ado: que, em algum sentido, o m undo m elhoraria com a "nossa vitória", e que "nosso" país seria — para repetir um a frase de Lloy d George — "terra digna de heróis". Os governos inglês e francês, portanto, reivindicavam a defesa da dem ocracia e da liberdade, contra o poder m onárquico, o m ilitarism o e o barbarism o ("os hunos"), enquanto o governo alem ão reivindicava a defesa dos valores da ordem , da lei e da cultura, contra a autocracia e o barbarism o russos. As perspectivas de conquista e engrandecim ento im perial poderiam ser anunciadas nas guerras coloniais; não, porém , nos conflitos m ais im portantes — m esm o que delas se ocupassem os m inistros do Exterior, nos bastidores.
As m assas alem ãs, francesas e inglesas, ao m archar para a guerra em 1914, o fizeram não com o guerreiros e aventureiros, m as com o cidadãos e civis. E este m esm o fato que, para governos que operam em sociedades dem ocráticas, dem onstra a necessidade do patriotism o e igualm ente a sua força. Apenas o sentim ento de que a causa do Estado era genuinam ente a sua, poderia m obilizar com eficácia as m assas: e em 1914 os ingleses, franceses e alem ães sentiam isso. As m assas perm aneceram m obilizadas até que três anos de m assacres sem paralelos e o exem plo da revolução na Rússia lhes ensinaram que haviam estado enganadas.
[a] Os Estados estabelecidos ou internacionalm ente reconhecidos em 1830-1871 incluíam
Alem anha, Itália, Bélgica, Grécia, Sérvia e Rom ênia. O assim cham ado "Com prom isso" de 1867
im portava na concessão de um a autonom ia de grande alcance, pelo Im pério Habsburgo, à
Hungria.
[b] Em alem ão no original. A Algemener Yidisher Arbeter Bund (União Geral de Trabalhadores
Judeus) era um a organização social-dem ocrata de m assas no Im pério Russo. (N. da T.)
[c] A força do seriado da TV alem ã Heimat residia precisam ente na conj ugação da experiência
dos personagens da patria chica, para usar o term o espanhol — a m ontanha Hunsrück — à
experiência da "grande pátria", a Alem anha.
[d] Esse term o foi realm ente utilizado por um a testem unha galesa ao com itê parlam entar sobre
educação galesa.
[e] Os três m em bros da elite do Norte e do Leste e principais responsáveis por esse m ito (que,
diga-se de passagem , expulsou o povo que era o principal criador da cultura e do vocabulário do
caubói, o m exicano), foram Owen Wister (autor de The Virginian, 1902), o pintor Frederick
Rem ington (1861-1909) e o futuro presidente Theodore Roosevelt.
[f] A proibição do uso do galês, ou de algum a língua ou dialeto local, na sala de aula — proibição
que deixou tão traum áticos vestígios na m em ória dos estudiosos e intelectuais locais, não foi
devida a algum tipo de reivindicação totalitária do Estado-nação dom inante, m as, quase
certam ente, à crença sincera de que não haveria possibilidade de um a educação adequada, a não
ser na língua do Estado, e de que a pessoa que se conservasse m onoglota seria inevitavelm ente
prej udicada em sua cidadania e em suas perspectivas profissionais.
[g] Os social-dem ocratas receberam 38% dos votos tchecos, na prim eira eleição dem ocrática —
1907 —, e em ergiram com o o m aior partido.