A Era dos Impérios 1875-1914

Eric J. Hobsbawm · Capítulo 9 de 51

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A Era dos Impérios 1875-1914

Capítulo 3

Esses países constituíam o grosso da econom ia m undial. Juntos representavam 80% do m ercado internacional. E m ais, eles determ inavam o desenvolvim ento do resto do m undo, cuj as econom ias cresciam ao prover às necessidades estrangeiras. Não se pode saber o que teria acontecido ao Uruguai ou a Honduras se lhes tivesse cabido a iniciativa. (De qualquer m aneira, não era provável que isso ocorresse: o Paraguai j á tentara um a vez escapar ao m ercado m undial e fora m assacrado e forçado a voltar a ele — cf. A Era do Capital, cap. 4.) O que nós sabem os é que o prim eiro produzia carne porque havia um m ercado para ele na Grã-Bretanha e, o outro, bananas porque alguns com erciantes de Boston calcularam que os am ericanos pagariam para com ê-las. Algum as econom ias satélites se saíram m elhor que outras, m as quanto m elhor se saíssem , m aior o proveito das econom ias do núcleo central, para quem esse crescim ento se traduzia em m ercados m aiores e crescentes para a exportação de bens e capital. A m arinha m ercante m undial, cuj o crescim ento indica grosso m odo a expansão da econom ia global, perm aneceu m ais ou m enos estável entre 1860 e 1890. Seu volum e flutuou entre 16 e 20 m ilhões de toneladas. Entre 1890 e 1914, quase duplicou.

 

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Então, com o podem os sintetizar a econom ia m undial da Era do Im pério?

Em prim eiro lugar, com o vim os, foi um a econom ia cuj a base geográfica era m uito m ais am pla do que antes. Sua parcela industrializada e em processo de industrialização aum entara: na Europa, devido à revolução industrial na Rússia e em países com o a Suécia e a Holanda, até então pouco atingidos por ela, e, fora da Europa, por causa do desenvolvim ento da Am érica do Norte e, j á até certo ponto, do Japão. O m ercado internacional dos produtos prim ários cresceu enorm em ente — entre 1880 e 1913 o com ércio internacional dessas m ercadorias quase triplicou — bem com o, por conseguinte, tanto as áreas destinadas a sua produção com o sua integração ao m ercado m undial. O Canadá se integrou ao grupo dos m aiores produtores m undiais de trigo após 1900, com um a safra que passou da m édia anual de 18 m ilhões de hectolitros nos anos 1890 a 70 m ilhões em 1910-1913. Ao m esm o tem po, a Argentina se tornava um exportador im portante de trigo — e todos os anos os lavradores italianos, apelidados de "andorinhas" (golondrinas), atravessavam 16 m il quilôm etros de Oceano Atlântico, indo e voltando para fazer sua colheita. A econom ia da Era dos Im périos foi aquela em que Baku (no Azerbaij ão) e a bacia do Donets (na Ucrânia) foram integradas à geografia industrial, ao passo que a Europa exportava tanto bens com o m oças a cidades novas com o Johannesburgo e Buenos Aires, e aquela em que teatros de ópera foram erguidos sobre os ossos de índios m ortos em cidades nascidas do boom da borracha a 1600 quilôm etros rio acim a da foz do Am azonas.

Por conseguinte, com o j á foi observado, a econom ia m undial agora era notavelm ente m ais pluralista que antes. A econom ia britânica deixou de ser a única totalm ente industrializada e, na verdade, a única industrial. Se reunirm os a produção industrial e m ineral (incluindo a construção), em 1913 os EUA forneceram 46% deste total, a Alem anha 23,5%, a Grã-Bretanha 19,5% e a Franca 11%. A Era dos Im périos, com o verem os, foi essencialm ente caracterizada pela rivalidade entre Estados. Adem ais, as relações entre o m undo desenvolvido e o subdesenvolvido tam bém foram m ais variadas e com plexas que em 1860, quando a m etade do total das exportações da Ásia, África e Am érica Latina se dirigiu a um só país, a Grã-Bretanha. Por volta de 1900, a participação britânica caiu a um quarto, e as exportações do Terceiro Mundo para outros países da Europa ocidental j á superavam as destinadas à Grã-Bretanha (31%). A Era do Im pério j á não era m onocêntrica.

Esse pluralism o crescente da econom ia m undial ficou, até certo ponto, oculto por sua persistente e, na verdade, crescente dependência dos serviços financeiros, com erciais e da frota m ercante da Grã-Bretanha. Por um lado, a City de Londres era, m ais que nunca, o centro de operações das transações com erciais internacionais, tanto que o rendim ento de seus serviços com erciais e financeiros, sozinho, quase com pensava o grande déficit do item m ercadorias de sua balança com ercial (137 m ilhões de libras contra 142 m ilhões, em 1906-1910). Por outro lado, o enorm e peso dos investim entos britânicos no exterior e de sua frota m ercante reforçou ainda m ais a posição central do país, num a econom ia m undial que girava em torno de Londres e se baseava na libra esterlina. A Grã-Bretanha continuou a ter um a posição dom inante no m ercado internacional de capitais. Em 1914, a França, a Alem anha, os EUA, a Bélgica, a Holanda, a Suíça e os dem ais, j untos, som avam 56% dos investim entos ultram arinos m undiais; a Grã-Bretanha, sozinha, detinha 44%. Em 1914, a frota britânica de navios a vapor era, sozinha, 12% m aior que a totalidade das frotas m ercantes de todos os outros países europeus reunidos.

Na verdade, a posição central da Grã-Bretanha por ora estava sendo reforçada pelo próprio desenvolvim ento do pluralism o m undial. Pois, com o as econom ias em processo de industrialização recente com pravam m ais produtos prim ários do m undo subdesenvolvido, acum ulavam em seu conj unto um déficit com ercial bastante substancial em relação a este últim o. A Grã-Bretanha, sozinha, restabelecia um equilíbrio global, pois im portava m ais bens m anufaturados de seus rivais, exportava seus próprios produtos industriais para o m undo dependente, m as principalm ente obtinha rendim entos invisíveis de vulto, provenientes tanto de seus serviços com erciais internacionais (bancos, seguros, etc.) com o da renda gerada pelos enorm es investim entos no exterior do m aior credor m undial. Assim , o relativo declínio industrial britânico reforçou sua posição financeira e sua riqueza. Os interesses da indústria britânica e da City, até então bastante com patíveis, com eçaram a entrar em conflito.

A terceira característica da econom ia m undial é a que m ais salta aos olhos: a revolução tecnológica. Com o todos nós sabem os, foi nessa época que o telefone e o telégrafo sem fio, o fonógrafo e o cinem a, o autom óvel e o avião passaram a fazer parte do cenário da vida m oderna, sem falar na fam iliarização das pessoas com a ciência por m eio de produtos com o o aspirador de pó (1908) e o único m edicam ento universal j am ais inventado, a aspirina (1899). Tam pouco devem os esquecer a m ais benéfica de todas as m áquinas do período, cuj a contribuição para a em ancipação hum ana foi im ediatam ente reconhecida: a m odesta bicicleta. Apesar de tudo, antes de saudarm os essa safra im pressionante de inovações com o um a "segunda revolução industrial", não devem os esquecer que só retrospectivam ente elas são consideradas com o tal. Para o século XIX, a principal inovação consistia na atualização da prim eira revolução industrial, através do aperfeiçoam ento da tecnologia do vapor e do ferro: o aço e as turbinas. As indústrias tecnologicam ente revolucionárias, baseadas na eletricidade, na quím ica e no m otor de com bustão, com eçaram certam ente a ter um papel de destaque, em particular nas novas econom ias dinâm icas. Afinal de contas, Ford com eçou a fabricar seu m odelo T em 1907. Contudo, considerando apenas a Europa, entre 1880 e 1913 foi construída a m esm a quilom etragem de ferrovias que na "idade da ferrovia" inicial, entre 1850 e 1880. França, Alem anha, Suíça, Suécia e Holanda aproxim adam ente duplicaram suas redes ferroviárias nesses anos. O últim o triunfo da indústria britânica, o virtual m onopólio britânico da construção naval definido entre 1870 e 1913, foi conquistado por m eio da exploração dos recursos da prim eira revolução industrial. Não obstante, a nova revolução industrial reforçou, m ais que substituiu, a antiga.

A quarta característica foi, com o j á vim os, um a dupla transform ação da em presa capitalista: em sua estrutura e em seu modus operandi. Por um lado, houve a concentração de capital, o aum ento da escala, que levou à distinção entre "em presa" e "grande em presa" (Grossindustrie, Grossbanken, grande industrie...), ao retraim ento do m ercado de livre concorrência e a todos os dem ais aspectos que, por volta de 1900, levaram os observadores a buscar em vão rótulos gerais que descrevessem o que parecia ser cabalm ente um a nova fase de desenvolvim ento econôm ico (ver próxim o capítulo). Por outro lado, houve um a tentativa sistem ática de racionalizar a produção e a direção das em presas aplicando "m étodos científicos" não só à tecnologia, m as tam bém à organização e aos cálculos.

A quinta característica foi um a transform ação excepcional do m ercado de bens de consum o: um a m udança tanto quantitativa com o qualitativa. Com o aum ento da população, da urbanização e da renda real, o m ercado de m assa, até então m ais ou m enos restrito à alim entação e ao vestuário, ou sej a, às necessidades básicas, com eçou a dom inar as indústrias produtoras de bens de consum o. A longo prazo, isto foi m ais im portante que o notável crescim ento do consum o das classes ricas e favorecidas, cuj o perfil de dem anda não m udou de m aneira acentuada. Foi o Ford m odelo T, e não o Rolls-Roy ce, que revolucionou a indústria autom obilística. Ao m esm o tem po, um a tecnologia revolucionária e o im perialism o concorreram para a criação de um a série de produtos e serviços novos para o m ercado de m assa dos fogões a gás, que se m ultiplicaram nas cozinhas da classe operária britânica no decorrer desse período, à bicicleta, ao cinem a e à m odesta banana, cuj o consum o era praticam ente desconhecido antes de 1880. Um a de suas conseqüências m ais óbvias foi a criação dos m eios de com unicação de m assa, que só agora m erecem esse nom e. Um j ornal britânico atingiu pela prim eira vez um a tiragem de um m ilhão de exem plares nos anos 1890, e um francês por volta de 1900.

Tudo isso im plicou um a transform ação não apenas da produção, pelo que agora veio a ser cham ado de "produção em m assa", m as tam bém da distribuição, inclusive do crédito ao consum idor (sobretudo através das vendas a prazo). Assim , a venda de chá em pacotes padronizados de 1/4 de libra com eçou na Grã-Bretanha em 1884. Ela faria a fortuna de m ais de um m agnata de em pórios saído das ruelas dos bairros operários das grandes cidades, com o Sir Thom as Lipton, cuj os iate e dinheiro conquistaram a am izade do rei Eduardo VII, m onarca com notória atração por m ilionários pródigos. O núm ero de filiais da Lipton passou de zero em 1870 a 500 em 1899.

O aspecto acim a tam bém se aj ustava naturalm ente à sexta característica da econom ia: o crescim ento acentuado, tanto absoluto com o relativo, do setor terciário da econom ia, tanto público com o privado — trabalho em escritórios, loj as e outros serviços. Tom em os apenas o caso da Grã-Bretanha, um país que, em seu apogeu, dom inara a econom ia m undial com um a quantidade ridiculam ente reduzida de trabalho de escritório: em 1851, havia 67 m il funcionários públicos e 91 m il em pregados de com ércio, num a população ativa total de cerca de 9,5 m ilhões de pessoas. Mas por volta de 1911, o com ércio em pregava quase 900 m il pessoas, das quais 17% eram m ulheres, e o funcionalism o público triplicara. A porcentagem da população ativa que o com ércio em pregava quintuplicara desde 1851. Mais adiante abordarem os a conseqüência social dessa proliferação de trabalhadores de colarinhos brancos e m ãos lim pas ("brancas").

A últim a característica da econom ia que destacarei aqui será a crescente convergência de política e econom ia, quer dizer, o papel cada vez m aior do governo e do setor público, ou o que ideólogos da persuasão liberal, com o o advogado A. V. Dicey, consideraram com o o avanço am eaçador do "coletivism o" às custas da velha, boa e vigorosa iniciativa individual ou voluntária. Na verdade, tratava-se de um dos sintom as do retraim ento da econom ia da livre concorrência, que fora o ideal — e até certo ponto a realidade — do capitalism o de m eados do século XIX. De um a form a ou de outra, após 1875, houve um ceticism o crescente quanto à eficácia da econom ia de m ercado autônom a e auto-regulada, a fam osa "m ão oculta" de Adam Sm ith, sem algum a aj uda do Estado e da autoridade pública. A m ão estava se tornando visível das m ais variadas m aneiras.

Por um lado, com o verem os (capítulo 4), a dem ocratização da política forçou governos m uitas vezes relutantes e inquietos a enveredarem pelo cam inho de políticas de reform a e bem -estar sociais, bem com o de ação política na defesa dos interesses econôm icos de certos grupos de eleitores, com o o protecionism o e — de certa form a com m enos eficácia — m edidas contra a concentração econôm ica, com o nos EUA e na Alem anha. Por outro lado, ocorreu a fusão da rivalidade política entre os Estados com a concorrência econôm ica entre grupos nacionais de em presários, o que contribuiu — com o verem os — tanto para o fenôm eno do im perialism o com o para a gênese da Prim eira Guerra Mundial. Levaram tam bém , a propósito, ao crescim ento de indústrias em que, com o na indústria bélica, o papel do governo era decisivo.

Contudo, em bora o papel estratégico do setor público pudesse ser crucial, seu peso real na econom ia perm aneceu m odesto. Apesar da proliferação dos exem plos em contrário — com o a aquisição pelo governo britânico de um a participação na indústria petrolífera do Oriente Médio e seu controle da nova telegrafia sem fio, am bos significativos do ponto de vista m ilitar; a presteza com que o governo alem ão nacionalizou parcelas de sua indústria; e, acim a de tudo, a política sistem ática de industrialização do governo russo a partir dos anos 1890 — os governos e a opinião pública encaravam o setor público apenas com o um a espécie de com plem ento m enor à econom ia privada, m esm o em se considerando o crescim ento acentuado da adm inistração pública (sobretudo m unicipal) na Europa, na área do serviço direto com o na das em presas de utilidade pública. Os socialistas não partilhavam dessa crença na suprem acia do setor privado, em bora dessem pouca ou nenhum a atenção aos problem as de um a econom ia socializada. Talvez possam ter considerado essas iniciativas m unicipais com o um "socialism o m unicipalista", m as a m aioria delas se devia a autoridades sem intenções, nem m esm o sim patias, socialistas. As econom ias m odernas am plam ente controladas, organizadas e dom inadas pelo Estado foram produto da Prim eira Guerra Mundial. Entre 1875 e 1914, a parcela dos crescentes produtos nacionais que os gastos públicos consum iam na m aioria dos países líderes tendeu a se reduzir: e isto apesar do acentuado aum ento dos gastos com os preparativos para a guerra.

Esses foram os rum os do crescim ento e da transform ação do m undo "desenvolvido". Contudo, o que m ais forte im pacto causava nas pessoas do m undo "desenvolvido" e industrial à época era, m ais até que a evidente transform ação de suas econom ias, seu ainda m ais evidente êxito. Vivia-se, obviam ente, num tem po de prosperidade. Até as m assas trabalhadoras se beneficiaram com essa expansão, ao m enos na m edida em que a econom ia industrial de 1875-1914 era predom inantem ente do tipo m ão-de-obra intensiva e sua oferta de trabalho não especializado, ou de aprendizado rápido, para hom ens e m ulheres que afluíam à cidade e à indústria parecia quase ilim itada. Foi isso que perm itiu que os europeus que em igraram para os EUA se adaptassem a um m undo industrial. Contudo, em bora a econom ia fornecesse trabalho, ainda não propiciava m ais que um alívio m odesto, às vezes m ínim o, à m iséria que a m aioria dos trabalhadores encarou, no transcurso da m aior parte da história, com o seu destino. Na m itologia retrospectiva das classes operárias, as décadas que precederam 1914 não figuram com o um a idade de ouro, com o no caso dos europeus ricos ou m esm o da m ais m odesta classe m édia. Para estes, a belle époque foi de fato o paraíso que seria perdido após 1914. Para os hom ens de negócio e os governos posteriores à guerra, 1913 seria o ponto de referência perm anente, ao qual eles aspiravam retornar, deixando para trás um a era problem ática. Vistos dos nublados e conturbados anos do pós-guerra, os m om entos excepcionais do últim o boom anterior a ela faziam figura de ensolarada "norm alidade", a que am bos aspiravam retornar. Em vão. Pois, com o verem os, as m esm as tendências da econom ia pré-1914, que tornaram a era tão dourada para as classes m édias, em purraram -na à guerra m undial, à revolução e aos distúrbios, excluindo a hipótese de um a volta ao paraíso perdido.

 

[a] A única parcela da Europa m eridional que conheceu em igração significativa antes dos anos

1880 foi Portugal.

[b] Em francês no original. (N. da T.)

[c] Grosso m odo, 15 unidades de prata = 1 unidade de ouro.

[d] Pradarias; neste caso, denom inação específica das do vale do Mississippi, EUA.

[e] Acentuaram -se a livre m ovim entação de capital, transações financeiras e m ão-de-obra.

[f] Nível m édio das tarifas alfandegárias na Europa. 1914.

Reino Unido 0%; Holanda 4%; Suíça, Bélgica 9%; Alem anha 13%; Dinam arca 14%; Áustria-

Hungria, Itália 18%; França, Suécia 20%; EUA (1913) 30% [Reduzidas de 49,5% (1890), 39,9%

(1894), 57% (1897) e 38%, (1909)]; Rússia 38%; Espanha 41%.

[g] Salvo em m atéria de im igração irrestrita, pois o país foi um dos prim eiros a criar um a legislação contra a entrada m aciça de (j udeus) estrangeiros em 1905.

[h] Entre 1820 e 1975, o núm ero de noruegueses que em igraram para os EUA — cerca de 855

m il — foi quase equivalente à população total da Noruega em 1820.

[i] Syndicate: "grupo econôm ico, corporação, associação de capitalistas, sociedade de banqueiros

ou com panhias form ada para a realização de negócio vultoso (esp. para controlar o m ercado de

determ inado produto)" (Dicionário Inglês-Português Webster's, 1982). (N. da T.)