A Era dos Impérios 1875-1914
Capítulo 13 | Da paz à guerra
CAPÍTULO 13
DA PAZ À GUERRA
Durante o debate [de 27 de março de 1900] expliquei... que eu entendia por política mundial tão-somente o apoio e o avanço nas tarefas geradas pela expansão de nossa indústria, de nosso comércio, da força de trabalho, da atividade e da inteligência de nosso povo. Não temos a intenção de implementar uma política agressiva de expansão. Queríamos apenas proteger os interesses vitais que conquistamos no mundo inteiro, no desenrolar natural dos acontecimentos.
Chanceler alem ão von Büllow, 1900
Não é certo que uma mulher vá perder seu filho se ele for para o front; na verdade, a mina de carvão e o pátio de manobras de uma ferrovia são lugares mais perigosos que o campo militar.
Bernard Shaw, 1902
Glorificaremos a guerra — a única higiene do mundo —, o militarismo, o patriotismo, o gesto destrutivo dos construtores da liberdade, belas idéias pelas quais vale a pena morrer e que as mulheres desprezam.
F. T. Marinetti. 1909
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A partir de agosto de 1914, a presença da guerra m undial rondou, im pregnou e assom brou a vida dos europeus. Quando da redação do presente texto, a m aioria das pessoas deste continente, com m ais de setenta anos, passou ao m enos por um a parte de duas guerras no curso de suas vidas; todas as de m ais de cinqüenta, com exceção dos suecos, suíços, irlandeses do sul e portugueses, têm a experiência de ao m enos parte de um a delas. Mesm o os nascidos depois de 1945, depois de as arm as terem silenciado nas fronteiras dos países europeus, conheceram raros anos em que em algum lugar do m undo não houvesse guerra, e viveram a vida toda com o som brio espectro de um terceiro conflito m undial, nuclear, m antido sob controle apenas pela infindável concorrência visando a garantir a destruição m útua, com o praticam ente todos os governos lhes disseram . Com o podem os cham ar tal época de tem po de paz, m esm o que a catástrofe global estej a sendo evitada por quase tanto tem po quanto o foi um a guerra im portante entre potências européias, entre 1871 e 1914. Pois, com o observou o grande filósofo Thom as Hobbes,
"a guerra não consiste apenas na batalha, ou no ato de lutar, m as num lapso de tem po
durante o qual o desej o de rivalizar através de batalhas é suficientem ente conhecido".
Quem pode negar que esta sej a a situação do m undo desde 1945?
Não era assim antes de 1914: a paz era o quadro norm al e esperado das vidas européias. Desde 1815 não houvera nenhum a guerra envolvendo as potências européias. Desde 1871, nenhum a nação européia ordenara a seus hom ens em arm as que atirassem nos de qualquer outra nação sim ilar. As grandes potências escolhiam suas vítim as no m undo fraco e não-europeu, em bora às vezes calculassem m al a resistência de seus adversários: os boers deram aos britânicos m uito m ais trabalho que o esperado e os j aponeses conquistaram seu lugar entre as grandes nações ao derrotar a Rússia em 1904-1905, surpreendentem ente com poucos transtornos. No território da m aior e m ais próxim a vítim a potencial — o Im pério Otom ano, há m uito em processo de desintegração — a guerra era, de fato, um a possibilidade perm anente, dado que os povos a ele subm etidos procuravam se estabelecer ou se expandir com o Estados independentes e, por conseguinte, guerreavam entre si, arrastando as grandes nações em seus conflitos. Os Bálcãs eram conhecidos com o o barril de pólvora da Europa, e foi, de fato, ali que a explosão global de 1914 com eçou. Mas a "Questão Oriental" era um ponto conhecido da pauta da diplom acia internacional, e em bora tivesse gerado crises internacionais sucessivas durante um século, inclusive um a guerra internacional bastante substancial (a Guerra da Crim éia), nunca escapara totalm ente ao controle. Ao contrário do Oriente Médio desde 1945, os Bálcãs pertenciam , para a m aioria dos europeus que não viviam ali, ao reino das estórias de aventuras, com o as do autor alem ão de literatura infantil Karl May, ou das operetas. A im agem das guerras balcânicas, no final do século XIX, era a do livro Arms and the Man, de Bernard Shaw, que, caracteristicam ente, foi transform ada em m usical (The Chocolate Soldier, de um com positor vienense, 1908).
A possibilidade de um a guerra generalizada na Europa fora, é claro, prevista, e preocupava não apenas os governos e as adm inistrações, com o tam bém um público m ais am plo. A partir do início da década de 1870, a ficção e a futurologia produziram , sobretudo na Grã-Bretanha e na Fra nç a , sketches, geralm ente não realistas, sobre um a futura guerra. Na década de 1880, Friedriech Engels j á analisava as probabilidades de um a guerra m undial, enquanto o filósofo Nietzsche, louca porém profeticam ente, saudou a m ilitarização crescente da Europa e predisse um a guerra que "diria sim ao anim al bárbaro, ou m esm o selvagem , que existe entre nós". Na década de 1890, a preocupação com a guerra foi suficiente para gerar o Congresso Mundial (Universal) para a Paz — o vigésim o prim eiro estava previsto para setem bro de 1914, em Viena —, o Prêm io Nobel da Paz (1897) e a prim eira das Conferências de Paz de Haia (1899), reuniões internacionais de representantes m aj oritariam ente céticos de governos e a prim eira de m uitas das reuniões que tiveram lugar desde então, nas quais os governos declararam seu com prom isso decidido, porém teórico, com o ideal da paz. Nos anos 1900, a guerra ficou visivelm ente m ais próxim a e nos anos 1910 podia ser e era considerada im inente.
E contudo sua deflagração não era realm ente esperada. Nem durante os últim os dias da crise internacional — j á irreversível — de j ulho de 1914, os estadistas, dando os passos fatais, acreditavam que realm ente estivessem dando início a um a guerra m undial. Um a fórm ula seria com certeza encontrada, com o tantas vezes no passado. Os que se opunham à guerra tam bém não podiam acreditar que a catástrofe há tanto tem po predita por eles chegara. Bem no final de j ulho, depois de a Áustria ter declarado guerra à Sérvia, os líderes do socialism o internacional se reuniram , profundam ente abalados m as ainda convencidos de que um a guerra generalizada era im possível e que um a solução pacífica para a crise seria encontrada. "Eu, pessoalm ente, não acredito que haverá um a guerra generalizada", disse Victor Adler, chefe da social-dem ocracia do Im pério Habsburgo, no dia 29 de j ulho. Nem aqueles que estavam apertando os botões da destruição nela acreditavam , não porque não quisessem , m as porque era independente de sua vontade: com o o im perador Guilherm e, perguntando a seus generais, no últim o m inuto, se a guerra, afinal de contas, não poderia ser situada na Europa oriental se se evitasse atacar a França e a Rússia — e ouvindo a resposta de que infelizm ente isso era im praticável. Aqueles que haviam construído os m ecanism os da guerra e ligado os interruptores agora estavam vendo, com um a espécie de incredulidade estupefata, as engrenagens com eçarem a se pôr em m ovim ento. Para os que nasceram após 1914, é difícil im aginar com o a crença de que um a guerra m undial não podia "realm ente" acontecer estava profundam ente enraizada no tecido da vida antes do dilúvio.
Assim , para a m aioria dos Estados ocidentais, e na m aior parte do tem po entre 1871 e 1914, um a guerra européia era um a lem brança histórica ou um exercício teórico para um futuro indefinido. A principal função dos exércitos em suas sociedades durante esse período era civil. O serviço m ilitar obrigatório — alistam ento — agora era a norm a em todas as nações de peso, com exceção da Grã-Bretanha e dos EUA, em bora, na verdade, nem todos os rapazes de fato se alistassem ; e, com o ascenso dos m ovim entos de m assas socialistas, generais e políticos às vezes ficavam nervosos — erroneam ente, com o veio a ser evidenciado — ao pensar em pôr arm as nas m ãos de proletários potencialm ente revolucionários. Para os recrutas com uns, m ais fam iliarizados com a servidão do que com as glórias da vida m ilitar, entrar para o exército se tornou um rito de passagem que m arcava a chegada de um garoto à idade adulta, seguido por dois ou três anos de treinam ento e trabalho duro, que se tornavam m ais toleráveis devido à notória atração que a farda exercia sobre as m oças. Para os suboficiais profissionais o exército era um em prego. Para os oficiais, um j ogo infantil onde quem brincava eram os adultos, sím bolo de sua superioridade em relação aos civis, de esplendor viril e de status social. Para os generais era, com o sem pre, o terreno propício às intrigas políticas e ciúm es relativos à carreira, tão am plam ente docum entada nas m em órias dos chefes m ilitares.
Para os governos e as classes dirigentes, os exércitos eram não só forças para enfrentar inim igos internos e externos, m as tam bém um m odo de garantir a lealdade, ou m esm o o entusiasm o ativo, de cidadãos com sim patias inquietantes por m ovim entos de m assas que solapavam a ordem política e social. Junto com a escola prim ária, o serviço m ilitar era talvez o m ecanism o m ais poderoso à disposição do Estado com vistas à inculcação do com portam ento cívico apropriado e, não m enos im portante, à transform ação do habitante de um povoado no cidadão (patriota) de um a nação. A escola e o serviço m ilitar ensinaram os italianos a com preender, se não a falar, a língua "nacional" oficial, e o exército fez do espaguete, anteriorm ente prato regional do sul em pobrecido, um a instituição de toda a Itália. No que tange à população civil, o colorido espetáculo público da exibição m ilitar foi m ultiplicado para seu divertim ento, inspiração e identificação patriótica: paradas, cerim ônias, bandeiras e m úsica. O aspecto m ais fam iliar dos exércitos, para os habitantes não-m ilitares da Europa, entre 1871 e 1914, era provavelm ente a onipresente banda m ilitar, sem a qual era difícil im aginar os parques e os festej os públicos.
Naturalm ente, os soldados e, bem m ais raram ente, os m arinheiros de vez em quando desem penhavam suas funções básicas. Podiam ser m obilizados contra desordens e protestos em m om entos de perturbações e de crise social. Os governos, especialm ente os que precisavam se preocupar com a opinião pública e com seus eleitores, costum avam ser cuidadosos ao confrontar as tropas com o risco de atirar em seus com patriotas: as conseqüências políticas dos tiros que soldados pudessem disparar contra civis podiam ser m uito negativas, e as de sua recusa a fazê-lo podiam ser ainda piores, com o ficou patente em Petrogrado em 1917. Entretanto, as tropas eram m obilizadas com bastante freqüência, e o núm ero de vítim as nacionais da repressão m ilitar não foi, de form a algum a, irrelevante nesse período, m esm o nos Estados da Europa central e ocidental, onde não se supunha a im inência da revolução, com o a Bélgica e a Holanda. Em países com o a Itália tais intervenções podiam ser, de fato, m uito substanciais.
Para as tropas, a repressão interna era um a atividade inofensiva, m as as guerras eventuais, especialm ente nas colônias, eram m ais perigosas. O risco era reconhecidam ente m ais m édico que m ilitar. Dos 274 m il m ilitares am ericanos m obilizados para a guerra hispano-am ericana de 1898, houve apenas 379 m ortos e 1.600 feridos em com bate, porém m ais de cinco m il m orreram de doenças tropicais. Não adm ira que os governos apoiassem com tanto entusiasm o as pesquisas em m edicina, que no período que nos ocupa conseguiram algum controle sobre a febre am arela, a m alária e outros flagelos dos territórios ainda conhecidos com o "a tum ba do hom em branco". A França perdeu um a m édia de oito oficiais por ano em operações coloniais, entre 1871 e 1908, incluídas as cifras relativas à única zona onde houve perdas sérias, Tonkin, onde caiu quase a m etade dos 300 oficiais m ortos nesses 37 anos. Não é nosso intuito subestim ar a seriedade dessas cam panhas, sobretudo sabendo-se que as perdas entre as vítim as eram desproporcionalm ente pesadas. Mesm o para os países agressores, essas guerras eram tudo m enos viagens de lazer. A Grã-Bretanha enviou 450 m il hom ens à África do Sul em 1899-1902, voltando com um saldo de 29 m il m ortos em com bate ou com o conseqüência de ferim entos e 16 m il de doença, o que representou um ônus de 220 m ilhões de libras esterlinas. Tais custos eram im portantes. Contudo, o trabalho do soldado nos países ocidentais era, de longe, consideravelm ente m enos perigoso que o de certos grupos de trabalhadores civis, com o os dos transportes (especialm ente por m ar) e das m inas. Nos três últim os anos das longas décadas de paz, m orriam por ano 1.430 m ineiros de carvão britânicos, e 165 m il (ou m ais de 10% da força de trabalho) sofriam ferim entos. E a taxa de acidentes nas m inas de carvão britânicas, em bora m ais elevada que a belga ou a austríaca, era algo m ais baixa que a francesa, cerca de 30% m enor que a alem ã e não m ais de um terço do que a dos EUA. Os que corriam o m aior risco de vida e de integridade física não usavam farda.
Assim , se deixarm os de lado a guerra britânica na África do Sul, a vida do soldado e do m arinheiro de um a grande nação era bastante pacífica, em bora não fosse o caso nos exércitos da Rússia czarista, envolvidos em sérias guerras contra os turcos nos anos 1870 e em outra, desastrosa, contra os j aponeses em 1904-1905; nem no exército j aponês, que lutou vitoriosam ente tanto contra a China com o contra a Rússia. Essa situação ainda pode ser identificada nas m em órias e aventuras inteiram ente não-bélicas daquele im ortal ex-m em bro do fam oso 91º Regim ento do exército im perial e real austríaco, o bom soldado Schweik (inventado por seu autor em 1911). Os quarteis-generais, naturalm ente, se prepararam para a guerra, com o era seu dever. Com o de costum e, a m aioria deles se preparou para um a versão m elhorada da últim a guerra im portante de que os com andantes se lem bravam ou que haviam vivido.
Os britânicos, com o era natural no caso da m aior nação naval, se prepararam para um a participação apenas m odesta na guerra terrestre, em bora fosse ficando cada vez m ais evidente para os generais que faziam os preparativos para a cooperação com os aliados franceses, nos anos que precederam 1914, que se exigiria m uito m ais deles. Mas, de m aneira geral, foram os civis, e não esses hom ens, que previram as terríveis transform ações da guerra, graças aos avanços da tecnologia m ilitar, que os generais — e m esm o alguns alm irantes m ais abertos à questão tecnológica — dem oraram a entender. Friedrich Engels, velho am ante de assuntos m ilitares, cham ou m uitas vezes a atenção sobre suas lim itações, m as foi um financista j udeu, Ivan Bloch, que em 1898 publicou em São Petersburgo os seis volum es de seu Technical, Economic and Political Aspects of the Coming War, um trabalho profético que predizia o em pate m ilitar da guerra de trincheiras, o que levaria a um conflito prolongado cuj os custos econôm icos e hum anos intoleráveis exauririam os beligerantes ou os fariam m ergulhar na revolução social. O livro foi rapidam ente traduzido para num erosos idiom as, sem qualquer conseqüência no planej am ento m ilitar.
Enquanto apenas alguns observadores civis com preendiam o caráter catastrófico da futura guerra, governos que não o entendiam se lançaram entusiasticam ente à corrida para se equipar com os arm am entos cuj a nova tecnologia o propiciaria. A tecnologia da m orte, j á em processo de industrialização em m eados do século (ver A Era do Capital, cap. 4:2), avançou notavelm ente nos anos 1880, não apenas devido a um a verdadeira revolução na rapidez e no poder de fogo das arm as pequenas e da artilharia, m as tam bém através da transform ação dos navios de guerra por m eio de m otores-turbina, de um a blindagem protetora m ais eficaz e da capacidade de carregar m uito m ais arm as. A propósito, até a tecnologia da m orte civil foi transform ada pela invenção da "cadeira elétrica" (1890), em bora os algozes de fora dos EUA tenham perm anecido fiéis a antigos e com provados m étodos, com o o enforcam ento e a decapitação.
Um a conseqüência óbvia foi que os preparativos para a guerra se tornaram m uito m ais caros, especialm ente porque os Estados com petiam uns com os outros para m anter a prim eira posição ou ao m enos para não cair para a últim a. Essa corrida arm am entista com eçou de m aneira m odesta no final da década de 1880 e se acelerou no novo século, em particular nos últim os anos antes da guerra. Os gastos m ilitares britânicos perm aneceram estáveis nos anos 1870 e 1880, tanto em term os de porcentagem do orçam ento total com o per capita em relação à população. Mas passou de 32 m ilhões em 1887 a 44,1 m ilhões de libras esterlinas em 1898-1899, e a m ais de 77 m ilhões em 1913-1914. E o crescim ento m ais espetacular foi o da m arinha, o que não é surpreendente, pois se tratava da ala de alta tecnologia de guerra, correspondente aos m ísseis nos gastos m odernos em arm am entos. Em 1885, a m arinha custara ao Estado 11 m ilhões de libras — em torno da m esm a ordem de grandeza que em 1860. Em 1913-1914 custou m ais de quatro vezes esse m ontante. No m esm o período, os gastos navais alem ães aum entavam de m odo ainda m ais acentuado de 90 m ilhões de m arcos por ano em m eados da década de 1890 a quase 400 m ilhões.
Um a conseqüência de gastos tão elevados foi a necessidade com plem entar de im postos m ais altos, ou de em préstim os inflacionários, ou de am bos. Mas um a conseqüência igualm ente óbvia, em bora m uitas vezes deixada de lado, foi que eles cada vez m ais fizeram da m orte em prol de várias pátrias um subproduto da indústria em grande escala. Alfred Nobel e Andrew Carnegie, dois capitalistas que sabiam o que os transform ara em m ilionários dos ram os de explosivos e aço, respectivam ente, tentaram com pensar a situação destinando um a parte de sua riqueza à causa da paz. Nesse sentido foram atípicos. A sim biose entre guerra e produção da guerra transform ou inevitavelm ente as relações entre governo e indústria, pois, com o observou Friedrich Engels em 1892, "com o a guerra se tornou um setor da grande industrie... la grande
industrie...[a] se tornou um a necessidade política". E, reciprocam ente, o Estado se tornou essencial para certos setores da indústria, pois quem , senão o governo, constitui a clientela dos arm am entos? Os bens que essa indústria produziam eram determ inados não pelo m ercado, m as pela interm inável concorrência dos governos, que os fazia procurar garantir para si um fornecim ento satisfatório das arm as m ais avançadas e, portanto, m ais eficientes. E m ais, o que os governos precisavam não era tanto da produção real de arm as, m as sim da capacidade de produzi-las num a escala com patível com um a época de guerra, se fosse o caso; isso quer dizer que eles tinham que zelar para que suas indústrias m antivessem um a capacidade de produção altam ente excedente para tem pos de paz.
Assim , de um a form a ou de outra, os Estados eram obrigados a garantir a existência de poderosas indústrias nacionais de arm am entos, a arcar com boa parte do custo de seu desenvolvim ento técnico e a fazer com que perm anecessem rentáveis. Em outras palavras, tinham que proteger essas indústrias contra os vendavais que am eaçavam os navios da em presa capitalista que singravam os m ares im previsíveis do m ercado livre e da livre concorrência. É claro que eles m esm os tam bém podiam se envolver na fabricação de arm as, com o o fizeram por m uito tem po. Mas nesse exato m om ento os Estados — ou ao m enos o Estado liberal britânico — preferiram chegar a um acordo com a em presa privada. Nos anos 1880, os produtores privados de arm am ento assinaram m ais de um terço de seus contratos de fornecim ento com as forças arm adas; nos anos 1890, 46%; nos anos 1900, 60%: o governo, incidentalm ente, estava disposto a garantir-lhes dois terços. Não adm ira que as em presas de arm am ento estivessem entre os gigantes da indústria, ou passassem a estar: a guerra e a concentração capitalista cam inhavam j untas. Krupp, na Alem anha, o rei dos canhões, em pregava 16.000 pessoas em 1873, 24.000 em torno de 1890, 45.000 em torno de 1900 e quase 70.000 em 1912, quando 50.000 das fam osas arm as Krupp saíram da linha de produção. Na fábrica britânica Arm strong, Whitworth em pregava 12.000 hom ens em suas instalações principais em Newcastle, que passaram a 20.000 — ou m ais de 40% de todos os m etalúrgicos do Ty neside — em 1914, sem contar os das 1.500 firm as m enores que viviam de subem preitadas da Arm strong. Tam bém eram m uito rentáveis.
Com o o m oderno "com plexo industrial-m ilitar" dos EUA, essas concentrações industriais gigantescas não teriam sido nada sem a corrida arm am entista dos governos. Assim sendo, é tentador responsabilizar tais "m ercadores da m orte" (a expressão se popularizou entre os pacifistas) pela "guerra de aço e ouro", com o a denom inou um j ornalista britânico. Não era lógico que a indústria de arm as incentivasse a aceleração da corrida arm am entista, inventando, se necessário, inferioridades nacionais ou "j anelas de vulnerabilidade", que podiam ser rem ovidas através de lucrativos contratos? Um a firm a alem ã, especializada na fabricação de m etralhadoras, conseguiu inserir um a nota no j ornal Le Figaro para que o governo francês planej asse duplicar seu núm ero de m etralhadoras. Com o conseqüência, o governo alem ão fez um a encom enda de 40 m ilhões de m arcos de tais arm as em 1908-1910, aum entando assim os dividendos da firm a de 20 a 32%. Um a firm a britânica, argum entando que seu governo subestim ara de m odo grave o program a de rearm am ento da m arinha alem ã, beneficiou-se com 250.000 libras esterlinas por cada encouraçado encom endado pelo governo britânico o que duplicou sua construção naval. Pessoas elegantes e pouco visíveis, com o o grego Basil Zaharoff, atuando em nom e da Vickers (e que m ais tarde recebeu o título de cavaleiro pelos serviços prestados aos aliados durante a Prim eira Guerra Mundial), tom aram as providências necessárias para que a indústria de arm am entos das grandes nações vendessem seus produtos m enos vitais ou obsoletos a Estados do Oriente Próxim o e da Am érica Latina, que j á estavam em condições de com prar tais utensílios. Em sum a, o com ércio internacional m oderno da m orte j á estava bem encam inhado.