A Era dos Impérios 1875-1914
Capítulo 4
O potencial prático de tais redes, num m undo de negócios nacionais e internacionais, pode ser indicado pelo fato de um a dessas fraternidades norte-am ericanas (a Delta Kappa Epsilon) gabar-se de ter seis senadores, quarenta congressistas, um Cabot Lodge e o Theodore Roosevelt, em 1889, ao passo que em 1912 incluía igualm ente dezoito banqueiros de Nova Iorque (inclusive J. P. Morgan), nove personagens abastados de Boston, três diretores da Standard Oil e pessoas de peso com parável no Meio-Oeste. Não seria decerto desvantaj oso para o futuro em presário de, digam os, Peoria, subm eter-se aos rigores da iniciação na Delta Kappa Epsilon, num colégio apropriado e pertencente à Ivy League.
Tudo isso adquiria im portância econôm ica e social à m edida que se desenvolvia a concentração capitalista e atrofiava-se a indústria puram ente local ou m esm o regional, carecendo de liam es com redes m ais am plas, com o foi o caso dos "bancos rurais" ingleses. Todavia, conquanto o sistem a de escolaridade form al e inform al fosse conveniente para a elite econôm ica e social estabelecida, era essencial principalm ente para os que desej avam fazer parte dela, ou ter sua "chegada" a ela certificada pela assim ilação de seus filhos. A escola era a escada pela qual os filhos dos m em bros m ais m odestos do estrato interm ediário passavam para o alto; pois até nos sistem as educacionais m ais m eritocráticos, poucos eram os filhos de verdadeiros cam poneses, e m enos ainda os de operários, que passavam além dos degraus m ais baixos.
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A relativa facilidade com que "os dez m il do alto" (com o vieram a ser cham ados) sabiam estabelecer exclusividade não resolveu o problem a dos cem m il do alto, que preenchiam o m al definido espaço entre a gente superior e o populacho; e m enos ainda o problem a das bem m ais num erosas "classes m édias inferiores", não raro situadas apenas por um fio de cabelo (financeiram ente falando) acim a dos operários qualificados m ais bem pagos. Pertenciam certam ente ao que os observadores sociais ingleses cham avam de "classe que tem em pregados" — 29% da população, num a cidade provinciana com o York. Apesar do fato de o núm ero dos em pregados dom ésticos haver estacionado ou m esm o declinado, de 1880 em diante, não tendo m antido, portanto, o m esm o ritm o de crescim ento que o dos estratos m édios, as aspirações da classe m édia ou m esm o da classe m édia baixa eram inconcebíveis sem em pregados dom ésticos, exceto nos EUA. Nesta m edida, a classe m édia era ainda um a classe de senhores (cf. A Era do Capital), ou antes, de senhoras, de j ovens m ulheres trabalhadoras. Certam ente, davam aos filhos e, cada vez m ais, tam bém às filhas, educação secundária. Na m edida em que isso era para os hom ens um a qualificação para o status de oficial da reserva (ou oficiais "cavalheiros tem porários" nos exércitos de m assas da Inglaterra de 1914), igualm ente os m arcava com o potenciais senhores de outros hom ens. No entanto, um núm ero crescentem ente m aior desses hom ens j á não eram "independentes" no sentido form al, m as recebiam salários de seus em pregadores, ainda quando estes eram eufem isticam ente cham ados por algum outro nom e. Ao lado da antiga burguesia de em presários, profissionais independentes e daqueles que reconheciam som ente ordens de Deus e do Estado, crescia agora a nova classe m édia dos gerentes, executivos e peritos técnicos assalariados no capitalism o das grandes corporações estatais e na alta tecnologia: era a burocracia pública e privada, cuj a ascensão foi analisada por Max Weber. Ao lado, m as sobrepuj ando a pequena burguesia antiga, de artesãos independentes e pequenos loj istas, surgia agora a nova pequena burguesia dos escritórios, loj as e adm inistração subalterna. Eram estes, realm ente, estratos num ericam ente m uito am plos, e a gradual m udança das atividades econôm icas prim árias e secundárias para as terciárias prom etia aum entar sua dim ensão. Nos EUA, em torno de 1900, eram j á m ais num erosos que a própria classe operária, em bora constituísse exceção.
A nova classe m édia e a classe m édia baixa eram dem asiado num erosas e, com freqüência, dem asiado insignificantes tom adas individualm ente; seu m eio am biente era dem asiado desestruturado e anônim o (especialm ente na cidade grande), e a escala em que a econom ia e a política operavam era dem asiado am pla para que contassem com o pessoas ou fam ílias, com o as da "classe m édia alta" e as da "haute bourgeoisie". Sem dúvida, sem pre fora assim num a grande cidade, m as em 1871 m enos de 5% dos alem ães m oravam em cidades de 100.000 ou m ais habitantes, ao passo que em 1910 m ais de 21% o faziam . Progressivam ente, portanto, as classes m édias eram identificadas não tanto com o indivíduos "levados em conta" com o tais e sim por m eio de sinais coletivos de reconhecim ento: pela educação que haviam recebido, pelo estilo de vida e por práticas que indicavam sua situação aos outros, aliás tão inidentificáveis, com o indivíduos, quanto eles próprios. Para as classes m édias reconhecidas, aqueles sinais norm alm ente envolviam um a com binação de rendim entos e educação, bem com o certa distância visível das origens populares, tais com o as indicadas, por exem plo, pelo uso habitual da linguagem da cultura nacional padrão e do sotaque indicador de classe, no relacionam ento social com outros que não os inferiores. As classes m édias baixas, antigas e novas, eram claram ente separadas e inferiores pelos "rendim entos insuficientes, m ediocridade cultural e proxim idade das origens populares". O principal obj etivo da "nova" pequena burguesia era o de dem arcar tão nitidam ente quanto possível a distância que as separava das classes operárias — obj etivo que geralm ente as inclinava para a direita radical, na política. Sua form a de esnobism o era a reação.
O grosso da classe m édia "sólida" e incontestável não era num eroso: em princípios da década de 1900, m enos de 4% das pessoas que m orriam , na Inglaterra, deixavam m ais de 300 libras em propriedades (inclusive casas, m óveis, etc.). Todavia, ainda que um rendim ento m ais que confortável de classe m édia — digam os 700-1.000 libras por ano — tenha sido talvez dez vezes superior a um bom rendim ento da classe operária, não se poderia com parar ao dos realm ente ricos, para esquecer os super-ricos. Era enorm e o abism o entre a classe m édia superior, estabelecida, reconhecida e próspera, e aquilo que então veio a ser cham ado "plutocracia", que representava, segundo um observador de fins da era vitoriana, "a visível obliteração da distinção convencional entre os aristocratas de nascim ento e os do dinheiro".
A segregação residencial — m ais que provável, num subúrbio elegante — era um m odo de estruturar essas m assas endinheiradas com o grupam ento social. A educação, com o vim os, era outro. Am bos conj ugavam -se num a prática que se institucionalizou, essencialm ente, durante o últim o quartel do velho século: o esporte. Form alizado em torno desta época na Inglaterra, que lhe ofereceu o m odelo e o vocabulário, alastrou-se com o um incêndio aos dem ais países. Em seu início, sua form a m oderna foi associada especialm ente à classe m édia e não necessariam ente à classe alta. Os j ovens aristocratas poderiam experim entar, com o na Inglaterra, qualquer form a de proeza física, m as o cam po em que se especializavam era o dos exercícios ligados à equitação e à m atança, ou pelo m enos ao ataque aos anim ais e às pessoas: a caça, o tiro, a pesca, as corridas de cavalos, a esgrim a e coisas sem elhantes. Efetivam ente, na Inglaterra, a palavra "esporte" era originalm ente restrita a tais atividades, sendo os j ogos e com petições físicas (hoj e cham ados "esporte"), classificados com o "passatem po". A burguesia, com o sem pre, não apenas adotou com o transform ou os m odos de vida dos nobres. Os aristocratas, caracteristicam ente, tam bém se entregaram a form as de atividade notavelm ente dispendiosas, tais com o o recém -inventado autom óvel, que foi corretam ente descrito na Europa de 1905 com o "brinquedo de m ilionários e m eio de transporte das classes endinheiradas".
Os novos esportes abriram cam inho até a classe operária, e, m esm o antes de 1914, alguns deles eram entusiasticam ente praticados por operários — havia, na Inglaterra, talvez um m ilhão de j ogadores de futebol — que eram observados e seguidos com paixão por grandes m ultidões. Este fato incorporou ao esporte um critério de classe próprio, o am adorism o, ou antes, a proibição ou a estrita segregação da casta dos "profissionais". Nenhum am ador poderia distinguir-se de m odo genuíno nos esportes, a não ser que pudesse dedicar a eles m ais tem po do que os operários dispunham , exceto se fossem pagos. Os esportes que se tornaram m ais característicos das classes m édias, com o o tênis, o rugby, o futebol am ericano — ainda um j ogo dos estudantes de faculdade, apesar do esforço que exige — ou os ainda não desenvolvidos esportes de inverno, todos eles obstinadam ente rej eitaram o profissionalism o. O ideal do am adorism o, que apresentava a vantagem adicional de reunir classe m édia e nobreza, foi entesourado nos Jogos Olím picos, um a nova instituição (1896), nascida no cérebro de um francês adm irador do sistem a inglês de escolas públicas, que havia sido construído em torno de seus cam pos de j ogos.
Que o esporte era considerado elem ento im portante na form ação da nova classe governante, segundo o m odelo do gentleman britânico burguês treinado em escola pública, é evidente, pelo papel das escolas ao introduzi-lo no continente. (Os futuros clubes profissionais de futebol eram , freqüentem ente, tim es de firm as inglesas expatriadas e de seus funcionários.) Que o esporte apresentava um aspecto patriótico e até m ilitarista é igualm ente claro. Mas serviu tam bém para criar novos padrões de vida e de coesão da classe m édia. O tênis, inventado em 1873, rapidam ente tornou-se o j ogo perfeito dos subúrbios da classe m édia, em grande parte por ser bissexual e por conseguinte oferecer um m eio para os "filhos e filhas da grande classe m édia" encontrarem parceiros não apresentados pela fam ília m as certam ente de posição social com parável à deles. Em sum a, os esportes alargavam o estreito círculo de fam ília e conhecidos, da classe m édia e, por m eio da rede de entrelaçam ento e interação dos "clubes de tênis com sócios contribuintes", criavam um universo social fora das células dom ésticas auto-abrangentes. "A sala de visitas da casa não tardou a m inguar e a tornar-se um ponto insignificante". O triunfo do tênis é inconcebível sem a suburbanização e a progressiva em ancipação da m ulher da classe m édia. O alpinism o e o novo esporte do ciclism o (que se tornou o prim eiro esporte para espectadores de m assa, da classe operária, no continente), e os novos esportes de inverno, precedidos da patinação, beneficiaram -se tam bém , e substancialm ente, da atração entre os sexos; aliás, desem penharam um significativo papel na em ancipação fem inina, por essa razão.