A Era dos Impérios 1875-1914
Capítulo 3
As crises internas dos grandes Im périos Chinês e Otom ano eram m ais antigas e m ais profundas. O Im pério Chinês vinha sendo abalado por um a crise social im portante desde m eados do século XIX (A Era do Capital). Só conseguira superar a am eaça revolucionária do Taiping às custas de praticam ente liquidar o poder adm inistrativo central do im pério e de deixá-lo à m ercê dos estrangeiros, que haviam estabelecido enclaves extraterritoriais e praticam ente assum ido o controle da fonte principal das finanças im periais, a adm inistração alfandegária chinesa. O enfraquecido im pério, dirigido pela im peratriz (viúva do im perador) Tzu-hsi (1835-1908), m ais tem ida dentro do im pério que fora dele, parecia fadado a desaparecer sob os ataques violentos e com binados do im perialism o. A Rússia avançou sobre a Manchúria, de onde seria expulsa por seus rivais j aponeses, que separaram Taiwan e a Coréia, da China, após um a guerra vitoriosa em 1894-1895, e se preparavam para abocanhar m aiores porções do território. Enquanto isso, os britânicos alargaram sua colônia de Hong Kong e praticam ente separaram o Tibete, que eles viam com o um a dependência de seu im pério indiano; a Alem anha preparou terreno para si no norte da China; os franceses exerceram algum a influência nas vizinhanças de seu im pério da Indochina (tam bém separado da China) e am pliaram suas posições no sul; até o fraco Portugal obteve a concessão de Macau (1887). Se, por um lado, os lobos estavam dispostos a form ar um bloco contra a presa, com o fizeram quando Grã-Bretanha, França, Rússia, Itália, Alem anha, EUA e Japão se uniram para ocupar e saquear Pequim em 1900, sob o pretexto de debelar a assim cham ada Guerra dos Boxers, por outro lado não conseguiam chegar a um acordo quanto à divisão da im ensa carcaça. Ainda m ais pelo fato de um a das potências im periais m ais recentes, os Estados Unidos, agora cada vez m ais proem inente no Pacífico Ocidental — que há m uito era área de interesse dos EUA —, insistir na "abertura das portas" da China, isto é, que tinham tanto direito de saqueá-la quanto os prim eiros im perialistas. Com o no Marrocos, essa rivalidade no Pacífico pelo corpo em decom posição do Im pério Chinês contribuiu para a gênese da Prim eira Guerra Mundial. Seus efeitos m ais im ediatos foram tanto a preservação da independência nom inal da China com o a aniquilação final da m ais antiga entidade política viva do m undo.
Existiam na China três forças principais de resistência. A prim eira, a instituição im perial da corte e dos servidores civis confucianos graduados, reconheceu com toda clareza que só a m odernização segundo o m odelo ocidental (ou talvez m ais exatam ente, o j aponês, inspirado no ocidental) poderia preservar a China. Mas isso teria significado a destruição precisam ente do sistem a m oral e político que eles representavam . As reform as de cunho conservador estariam fadadas ao fracasso m esm o se não tivessem sido dificultadas pelas intrigas e divisões palacianas, enfraquecidas pela ignorância técnica e periodicam ente arrasadas, com intervalos de poucos anos, por repetidos assaltos da agressão estrangeira. A segunda, a antiga e poderosa tradição de rebelião popular e de sociedades secretas im pregnadas de ideologias de oposição, não perdera nada de seu vigor. Na verdade, apesar da derrota de Taiping, tudo contribuía para reforçá-la, pois entre 9 e 13 m ilhões de pessoas m orreram de fom e no norte da China no final da década de 1870 e os diques do rio Am arelo se rom peram , significando a ruína de um im pério cuj o dever era protegê-los. A assim cham ada Guerra dos Boxers de 1900 foi, na verdade, um m ovim ento de m assas, cuj a vanguarda era a organização Lutadores-com -os-punhos pela Justiça e a Unidade, oriunda da grande e antiga sociedade secreta budista conhecida com o Lotus Branco. Contudo, por m otivos óbvios, a xenofobia e o antim odernism o m ilitantes constituíam o ponto crítico dessas rebeliões. Elas visavam os estrangeiros, a cristandade e as m áquinas, o que, em bora proporcionasse um a parte da força necessária à revolução chinesa, não podia lhe oferecer nem program a nem perspectiva.
A base para tais transform ações só existia, em bora estreita e instável, no sul da China, onde os negócios e o com ércio sem pre haviam sido im portantes e onde o im perialism o estrangeiro assentou as bases para algum desenvolvim ento burguês autóctone. Os grupos dirigentes locais j á estavam se afastando tranqüilam ente da dinastia m anchu, e foi só aqui que as antigas sociedades secretas de oposição se interessaram e se aliaram a algo com o um program a m oderno e concreto para a renovação chinesa. As relações entre as sociedades secretas e o j ovem m ovim ento sulista de revolucionários republicanos, dos quais em ergeria Sun Yat-sen (1866-1925) com o principal inspirador da prim eira fase da revolução, foram obj eto de m uito debate e incerteza, m as não resta dúvida de que eram m uito próxim as e essenciais. (Os republicanos chineses no Japão, base de sua agitação, até criaram um local especial das Tríades em Yokoham a para seu próprio uso.) Am bos partilhavam um a enraizada oposição à dinastia m anchu — as Tríades ainda se dedicavam à restauração da antiga dinastia Ming (1368-1644) —, um ódio ao im perialism o — que podia ser form ulado na linguagem da xenofobia tradicional ou na do nacionalism o m oderno, tirada da ideologia revolucionária ocidental — e um conceito de revolução social, que os republicanos transpuseram do registro da antiga insurreição antidinástica ao da m oderna revolução ocidental. Os fam osos "três princípios" — nacionalism o, republicanism o e socialism o (ou, m ais exatam ente, reform a agrária) de Sun Yat-sen podem ter sido form ulados em term os derivados do Ocidente, notadam ente de John Stuart Mill, m as na verdade até os chineses que não dispunham dessa base ocidental (com o o m édico praticante form ado nas m issões e m uito viaj ado) podiam considerá-los extensões lógicas de conhecidas reflexões antim anchus. E os poucos intelectuais urbanos republicanos viam as sociedades secretas com o essenciais para atingir as m assas urbana e, especialm ente, rural. Essas sociedades provavelm ente tam bém aj udaram a organizar o apoio das com unidades de im igrantes chineses que o m ovim ento de Sun Yat-sen foi o prim eiro a m obilizar politicam ente para obj etivos nacionais.
No entanto, as sociedades secretas (com o os com unistas m ais tarde descobririam ) dificilm ente poderiam ser a m elhor base para a construção de um a nova China, e os intelectuais radicais ocidentalizados ou sem i-ocidentalizados do litoral sul ainda não eram suficientem ente num erosos, influentes, nem organizados para tom ar o poder. Tam pouco os m odelos liberais ocidentais em que se inspiravam lhes davam um a receita para governar o im pério. O im pério caiu em 1911 devido a um a revolta (no sul e no centro) onde se com binavam elem entos de rebelião m ilitar, da insurreição republicana, da retirada da lealdade por parte dos fidalgos, e da revolta popular e das sociedades secretas. Na prática, contudo, ele foi substituído à época não por um novo regim e, m as por um am ontoado de estruturas de poder regional instáveis e que se sucediam com m uita rapidez, principalm ente sob controle m ilitar ("senhores da guerra"). Nenhum novo regim e nacional estável surgiria na China por quase quarenta anos — até o triunfo do Partido Com unista em 1949.