A Era dos Impérios 1875-1914
Capítulo 4
O Im pério Otom ano há m uito vinha desm oronando, em bora, ao contrário de todos os outros im périos antigos, continuasse sendo um a força m ilitar capaz de dar bastante trabalho até aos exércitos das grandes nações. Desde o fim do século XVII, suas fronteiras setentrionais vinham sendo forçadas a retroceder para dentro da península balcânica e da Transcaucásia pelo avanço dos im périos russo e Habsburgo. Os povos cristãos dos Bálcãs estavam cada vez m ais inquietos e, com o incentivo e a aj uda de grandes nações rivais, j á haviam transform ado boa parte dos Bálcãs num a série de Estados m ais ou m enos independentes, o que havia roído e esfarelado o que restava do território otom ano. A m aioria das regiões rem otas do im pério, no norte da África e no Oriente Médio, não estava m ais subm etida de m aneira regular e efetiva ao governo otom ano há m uito tem po. Agora, cada vez m ais, se não quase oficialm ente, essas regiões passavam para as m ãos dos im perialistas britânicos e franceses. Em 1900 era claro que tudo que ficava entre a fronteira ocidental do Egito e do Sudão e o Golfo Pérsico provavelm ente viria a ser área de influência ou dom ínio britânico, salvo a Síria a partir do norte do Líbano, que a França reivindicava, e a m aior parte da península arábica, onde, com o ainda não fora encontrado petróleo ou qualquer outra coisa de valor com ercial, as disputas entre os chefes tribais locais e os m ovim entos de revivificação islâm icos de pregadores beduínos podiam ser entregues à própria sorte. De fato, em 1914 a Turquia desaparecera quase por com pleto da Europa, fora totalm ente elim inada da África e conservava um im pério débil apenas no Oriente Médio, onde não sobreviveu à guerra m undial. Contudo, ao contrário da Pérsia e da China, a Turquia tinha um a alternativa potencial im ediata ao im pério em processo de desintegração: um a grande população étnica e lingüisticam ente m uçulm ana turca na Ásia Menor, que podia constituir a base de algo com o um a "nação-Estado" segundo o m odelo ocidental aprovado do século XIX.
É quase certo que isso não estava, inicialm ente, nos planos das autoridades ocidentalizadas e dos funcionários públicos, aos quais se uniram os m em bros das novas profissões liberais, com o a
advocacia e o j ornalism o[b], para em preender a tarefa de fazer o im pério reviver por m eio da revolução, pois as fracas tentativas, sem m uito em penho, do próprio im pério no sentido de se m odernizar — a m ais recente data dos anos 1870 — m alograram . O Com itê para a União e o Progresso, m ais conhecido com o os Jovens Turcos (fundado nos anos 1890), que tom ou o poder em 1908 na esteira da Revolução Russa, desej ava im plantar um patriotism o que abarcasse todos os otom anos, passando por cim a de divisões étnicas, lingüísticas e religiosas, e baseado nas verdades seculares do Ilum inism o (francês) do século XVIII. A versão do Ilum inism o que m ais lhes agradava se inspirava no positivism o de Augusto Com te, que com binava um a fé cega na ciência e na m odernização inevitável com o equivalente secular da religião, o progresso não dem ocrático ("ordem e progresso", para citar o lem a positivista) e um planej am ento social de cim a para baixo. Por m otivos óbvios, essa ideologia seduziu as ínfim as elites m odernizadoras no poder em países atrasados e tradicionalistas, que elas tentaram arrastar à força para o século XX. Essa ideologia provavelm ente nunca foi tão influente com o na últim a parte do século XIX nos países não europeus.
Nesse sentido, com o em outros, a revolução turca de 1908 fracassou. Na verdade, ela acelerou a derrocada do que restava do Im pério Turco, ao m esm o tem po que carregava o Estado com um a constituição liberal clássica e um parlam ento m ultipartidário feitos para países burgueses onde não se esperava que os governos governassem m uito, pois as questões da sociedade estavam nas m ãos ocultas de um a econom ia capitalista dinâm ica e auto-regulada. O fato de o regim e dos Jovens Turcos ter dado continuidade ao com prom isso econôm ico e m ilitar do im pério com a Alem anha, o que colocou a Turquia no lado perdedor da Prim eira Guerra Mundial, lhe seria fatal.
Assim , a m odernização turca passou de um quadro liberal-parlam entar a um m ilitar-ditatorial e da esperança em um a lealdade política secular-im perial à realidade de um nacionalism o exclusivam ente turco. Incapaz de continuar a ignorar as lealdades grupais ou de dom inar as com unidades não-turcas, a Turquia optaria, após 1915, por um a nação etnicam ente hom ogênea, o que im plicou a assim ilação forçada dos gregos, arm ênios, curdos e outros, quando não foram expulsos em bloco ou m assacrados. Um nacionalism o turco etnolingüístico deu m argem até a sonhos im periais baseados no nacionalism o secular, pois am plas regiões da Ásia ocidental e central, principalm ente na Rússia, eram habitadas por povos que falavam variantes da língua turca; o destino da Turquia lhe im punha, sem dúvida, reuni-lo num a grande união "pan-turcaniana". Assim , entre os Jovens Turcos a balança pendeu não do lado dos m odernizadores partidários da ocidentalização e da transnacionalização, m as para o dos m odernizadores tam bém ocidentalizados, porém defensores de um a enfatização da etnia ou m esm o da raça, com o o poeta e ideólogo nacional Zia Gökalp (1876-1924). A verdadeira revolução turca, que com eçou de fato com a abolição do próprio im pério, teve lugar sob tais auspícios após 1918. Mas seu conteúdo j á estava im plícito nos obj etivos dos Jovens Turcos.
Assim pois, ao contrário da Pérsia e da China, a Turquia não apenas liquidou um antigo regim e com o tam bém passou bem depressa a construir um novo. A Revolução Turca inaugurou, talvez, o prim eiro dos regim es m odernizadores contem porâneos do Terceiro Mundo: intensam ente com prom etido com o progresso e as luzes contra a tradição, com o "desenvolvim ento" e com um a espécie de populism o não perturbado pelo debate liberal. Na falta de um a classe m édia revolucionária, ou, na verdade, de qualquer outra classe revolucionária, os intelectuais e especialm ente, após a guerra, os soldados assum iriam o controle do processo. Seu líder, Kem al Atatürk, um general duro e bem -sucedido, im plem entaria im placavelm ente o program a m odernizador dos Jovens Turcos: foi proclam ada um a república, o islam ism o deixou de ser um a religião oficial, o alfabeto rom ano substituiu o árabe, o véu das m ulheres foi abolido e estas m andadas para a escola, e os hom ens turcos — quando necessário, por m eio de força m ilitar — foram obrigados a usar chapéu-coco ou de qualquer outro m odelo ocidental, em vez dos turbantes. A fraqueza da Revolução Turca, observável em sua econom ia, residia em sua incapacidade de se im por à grande m assa da população rural turca ou m udar a estrutura da sociedade agrária. Contudo, os corolários históricos dessa revolução foram im portantes, m esm o se insuficientem ente reconhecidos pelos historiadores, cuj os olhos tendem a se fixar, no que tange ao período anterior a 1914, nas conseqüências internacionais im ediatas da Revolução Turca — a derrocada do im pério e seu papel na gênese da Prim eira Guerra Mundial — e, quando se voltam para depois de 1917, na Revolução Russa, m uito m ais im portante. Por m otivos óbvios, os fatos relativos a esta últim a eclipsaram os acontecim entos contem porâneos na Turquia.