A Era dos Impérios 1875-1914
Epílogo
Wirklich, ich lebe in finsteren Zeiten!
Das arglose Wort ist töricht. Eine glatte Stirn
Deutet auf Unempfindlichkeit hin. Der Lachende Hat die furchtbare Nachricht
Nur nock nicht empfangen.
Bertolt Brecht, 1937-1938
As décadas precedentes foram, pela primeira vez, percebidas como uma longa idade de ouro, de avanço constante, quase ininterrupto. Exatamente como disse Hegel, só começamos a entender uma era quando as cortinas vão se fechar sobre ela ("a coruja de Minerva só abre suas asas ao anoitecer") e, assim, só podemos chegar a reconhecer abertamente seus traços positivos ao entrarmos na era subseqüente, cujos problemas agora queremos destacar pintando-a de cores fortemente contrastantes com a anterior.
Albert O. Hirschm an, 1986
1
Se a palavra "catástrofe" fora m encionada pelos m em bros da classe m édia européia antes de 1913, quase com certeza seria relacionada a um dos poucos acontecim entos traum áticos em que hom ens e m ulheres com eles se viram envolvidos no decorrer de um a vida longa e, em geral, tranqüila: com o o incêndio do Karltheater, em Viena, em 1881, durante um a apresentação dos Contos de Hoffman, de Offenbach, no qual perderam -se quase 1.500 vidas, ou o naufrágio do Titanic com núm ero equivalente de vítim as. As catástrofes m uito m aiores que atingiram a vida dos pobres — com o o terrem oto de 1908 em Messina, m uito m ais grave que o m odesto trem or de São Francisco (1905), ao qual, contudo, se deu m uito m ais im portância — e as contínuas am eaças à vida, à integridade física e à saúde que sem pre atorm entou a existência das classes trabalhadoras ainda hoj e cham am m enos a atenção do público.
Após 1914, o m undo sugeria, sem som bra de dúvida, outras e m aiores calam idades, até aos m ais im unes a elas em suas vidas pessoais. A Prim eira Guerra Mundial acabou não sendo "os últim os dias da hum anidade", com o Karl Kraus a cham ou em seu quase-dram a de denúncia; m as ninguém que tenha vivido um a vida adulta, tanto antes com o depois de 1914-1918, em qualquer lugar da Europa e, cada vez m ais, em am plas áreas fora do m undo europeu, poderia deixar de observar que os tem pos haviam m udado dram aticam ente.
A m udança m ais óbvia e im ediata foi que agora a história m undial se desenrolava, evidentem ente, através de um a série de convulsões sísm icas e cataclism as hum anos. A idéia de progresso ou m udança contínua nunca se m ostrou tão pouco plausível com o durante a vida dos que passaram pelas duas guerras m undiais, por dois períodos globais de revoluções após cada guerra, pela descolonização generalizada e em parte revolucionária, por duas expulsões em m assa de povos que culm inaram em genocídio e ao m enos um a crise econôm ica cuj a gravidade foi suficiente para despertar dúvidas sobre o próprio futuro dos setores do capitalism o ainda não derrubados pela revolução — levantes que afetaram continentes e países bastante distantes da zona de guerra e convulsão política européia. Um a pessoa nascida, digam os, em 1900 teria passado por tudo isso diretam ente — ou através dos m eios de com unicação de m assa que tornaram os fatos im ediatam ente acessíveis — antes de atingir a idade da aposentadoria. E, é claro, o perfil histórico configurado por convulsões continuaria.
Antes de 1914, as únicas quantidades m edidas em m ilhões, fora as da astronom ia, eram praticam ente as populações dos países e os dados da produção, do com ércio e das finanças. A partir de 1914, nos acostum am os a ter núm eros de vítim as de tais m agnitudes: as guerras, m esm o localizadas (Espanha, Coréia, Vietnã) — as m aiores fazem dezenas de m ilhões —, o núm ero dos que são levados à im igração forçada ou ao exílio (gregos, alem ães, m uçulm anos no subcontinente indiano, kulaks), e até o dos m assacrados em genocídios (arm ênios, j udeus), sem contar os que m orrem por causa da fom e e das epidem ias. Com o tais m agnitudes hum anas fogem a um registro preciso ou com o a m ente hum ana não consegue com preendê-las, elas são discutidas acaloradam ente. Mas os debates giram em torno de milhões a m ais ou a m enos. Essas cifras astronôm icas tam bém não podem ser cabalm ente explicadas, e ainda m enos j ustificadas, pelo rápido crescim ento da população m undial em nosso século. A m aioria delas se refere a áreas onde ela não estava crescendo tão depressa assim .
Hecatom bes nessa escala estavam além do alcance da im aginação do século XIX, e as que ocorreram se situavam no m undo do atraso ou da barbárie, fora do âm bito do progresso e da "civilização m oderna", e estavam , com certeza, destinadas a recuar diante do avanço universal, em bora desigual. As atrocidades do Congo e da Am azônia, de proporções m odestas pelos padrões m odernos, chocaram tanto a Era do Im pério — com o testem unha o livro O Coração das Trevas, de Joseph Conrad — só porque eram , m anifestam ente, regressões do hom em civilizado à selvageria. O estado de coisas a que nos acostum am os, no qual a tortura voltou a fazer parte dos m étodos policiais em países que se orgulham de seu grau de civilidade, teria não apenas repugnado a opinião política com o teria sido considerado, com razão, um a recaída na barbárie, o que foi contra todas as tendências históricas de desenvolvim ento observáveis desde m eados do século XVIII.
Após a catástrofe m aciça de 1914 e cada vez m ais, os m étodos da barbárie se tornaram parte integrante e esperada do m undo civilizado, tanto que encobriram os avanços contínuos e notáveis da tecnologia e da capacidade hum ana de produzir e inclusive as inegáveis m elhorias na organização social hum ana em m uitos lugares do m undo, até que se tornasse im possível ignorá-los, no decorrer do grande salto para a frente da econom ia m undial, no terceiro quartel do século XX. Em term os de m elhoria m aterial da hum anidade com o um todo, para não m encionar sua com preensão e seu controle da natureza, os argum entos a favor de um a visão da história do século XX com o progresso são, na verdade, m ais convincentes do que no caso do século XIX. Pois m esm o se europeus m orreram e fugiram aos m ilhões, os sobreviventes estavam se tornando m ais num erosos, m ais altos, m ais sadios e viviam m ais tem po. A m aioria vivia m elhor. Mas os m otivos por que perdem os o hábito de pensar em nossa história com o progresso são óbvios. Em bora o progresso do século XX sej a inegável, as previsões não sugerem um ascenso contínuo, m as a possibilidade, talvez até a im inência, de algum a catástrofe: outra e m ais letal guerra m undial, um desastre ecológico, um a tecnologia cuj o triunfo torne o m undo inabitável para a espécie hum ana, ou qualquer outra form a atual que o pesadelo possa revestir. A experiência nos ensinou, em nosso século, a viver na expectativa do apocalipse.
Mas para os m em bros do m undo burguês instruído e próspero que viveram nessa era de catástrofe e convulsão social, não parece se tratar, em prim eira instância, de um cataclism a fortuito, algo com o um furacão generalizado que devastasse tudo à sua passagem . Parecia ser dirigido especificam ente contra sua ordem social, política e m oral. Seu resultado provável, que o liberalism o burguês não tinha com o evitar, era a revolução social das m assas. Na Europa a guerra gerou não só a ruína ou a crise de todos os Estados e regim es a leste do Reno e na borda ocidental dos Alpes, m as tam bém o prim eiro regim e que em preendeu, deliberada e sistem aticam ente, a transform ação dessa ruína na derrubada geral do capitalism o, na destruição da burguesia e na construção de um a sociedade socialista: o regim e bolchevique, que chegou ao poder na Rússia com o desm oronam ento do czarism o. Com o vim os, os m ovim entos de m assa do proletariado teoricam ente dedicados a esse obj etivo j á existiam na m aior parte do m undo desenvolvido, em bora os políticos dos países parlam entares tenham concluído que ali não constituíam um a real am eaça para o status quo. Mas a com binação da guerra à derrocada e à Revolução Russa tornaram o perigo im inente e quase irresistível.
O perigo do "bolchevism o" dom inou não só a história dos anos im ediatam ente posteriores à Revolução Russa de 1917, com o toda a história do m undo desde então. Inclusive, por m uito tem po, deu a seus conflitos internacionais a aparência de um a guerra civil e ideológica. No final do século XX, ele ainda dom ina a retórica do confronto entre as superpotências, ao m enos unilateralm ente, em bora até o olhar m ais superficial perceba que os anos 80 não com binam com a im agem de um a revolução m undial única prestes a esm agar o que o j argão internacional cham ou de "econom ias de m ercado desenvolvidas", ainda m enos se orquestrada a partir de um centro único e com vistas à construção de um único sistem a socialista m onolítico sem vontade ou capacidade de coexistir com o capitalism o. A história do m undo desde a Prim eira Guerra Mundial tom ou form a à som bra de Lenin, real ou im aginário, com o a história do m undo ocidental no século XIX tom ou form a à som bra da Revolução Francesa. Em am bos os casos, acabou saindo da som bra, m as não totalm ente. Da m esm a m aneira que os políticos, m esm o em 1914, especulavam sobre se o espírito reinante no pré-guerra lem brava 1848, assim nos anos 1980 cada derrubada de algum regim e em algum lugar do Ocidente ou do Terceiro Mundo evoca esperanças ou tem ores do "poder m arxista".
O m undo não se tornou socialista, em bora em 1917-1920 isso fosse considerado possível, ou m esm o inevitável a longo prazo, não só por Lenin com o tam bém , por algum tem po, pelos que representavam e governavam regim es burgueses. Durante alguns m eses, até os capitalistas europeus, ou ao m enos seus porta-vozes intelectuais e adm inistradores, pareciam resignados à eutanásia, pois estavam diante de m ovim entos operários socialistas im ensam ente fortalecidos depois de 1914 e que, na verdade, em alguns países com o a Alem anha e a Áustria, constituíam a única força organizada e capaz de apoiar o Estado, que havia sobrevivido à ruína dos antigos regim es. Qualquer coisa era m elhor que o bolchevism o, até a desistência pacífica. Os longos debates (sobretudo em 1919) sobre em que m edida as econom ias deviam ser socializadas, com o deviam ser socializadas e quanto devia ser concedido ao novo poder do proletariado não eram apenas m anobras táticas para ganhar tem po. Só o aparentaram quando ficou provado que o período de grave perigo, real ou im aginário, para o sistem a tinha sido tão breve que, afinal de contas, nada de drástico precisava ser feito.
Retrospectivam ente podem os ver que o susto foi exagerado. O m om ento de revolução m undial potencial passou, deixando atrás de si apenas um regim e com unista num país extraordinariam ente enfraquecido e atrasado, cuj o principal trunfo era a vastidão de seu território e de seus recursos, que o transform ariam num a superpotência política. Tam bém deixou atrás de si um potencial considerável de revolução anti-im perialista, m odernizadora e cam ponesa, à época sobretudo na Ásia, que reconhecia suas afinidades com a Revolução Russa, e as parcelas dos m ovim entos socialista e trabalhista pré-1914, agora divididos, que arriscavam a sorte com Lenin. Nos países industrializados, esses m ovim entos com unistas geralm ente representavam um a m inoria dos m ovim entos de trabalhadores antes da Segunda Guerra Mundial. Com o o futuro dem onstraria, as econom ias e sociedades das "econom ias de m ercado desenvolvidas" eram notavelm ente resistentes. Caso contrário, dificilm ente poderiam ter em ergido sem revolução social dos cerca de trinta anos de vagalhões históricos que poderiam ter feito navios em m ás condições naufragarem . O século XX foi cheio de revoluções sociais, e outras ainda podem ocorrer antes de seu térm ino; m as as sociedades industriais desenvolvidas foram m ais im unes a elas que quaisquer outras, salvo quando a revolução lhes chegou com o subproduto de um a derrota ou conquista m ilitar.
Assim , a revolução poupou os principais bastiões do capitalism o m undial, em bora por um m om ento até seus defensores pensassem estar prestes a desabar. A antiga ordem repeliu o assalto. Mas conseguiu afastá-lo — tinha que consegui-lo transform ando-se em algo m uito diferente do que era em 1914. Pois, após essa data, diante do que um em inente historiador liberal cham ou de "crise m undial" (Elie Halevy ), o liberalism o burguês ficou totalm ente perplexo. Podia renunciar ou ser varrido. Ou podia se assim ilar a algo com o os partidos social-dem ocratas "reform istas", não-bolcheviques, não-revolucionários, que, de fato, surgiram na Europa com o a principal garantia da continuidade social e política após 1917 e, por conseguinte, deixaram de ser partidos de oposição para se tornarem governo, efetivo ou potencial. Em sum a, podia desaparecer ou se tornar irreconhecível. Mas sob sua form a antiga ele não tinha m ais nenhum a chance.
Giovanni Giolitti (1842-1928), da Itália, é um exem plo do prim eiro destino. Com o vim os, ele fora notavelm ente bem -sucedido na "adm inistração" da política italiana do início do século XX: conciliando e dom esticando os trabalhadores, com prando apoio político, m udando de posição e negociando, concedendo, evitando confrontos. Na situação socialm ente revolucionária de seu país no pós-guerra, tais táticas falharam totalm ente. A estabilidade da sociedade burguesa foi recuperada por m eio de gangues arm adas de "nacionalistas" e fascistas da classe m édia, num a verdadeira guerra de classes contra um m ovim ento de trabalhadores incapaz de fazer um a revolução. Os políticos (liberais) os apoiaram , com a vã esperança de poder integrá-los a seu sistem a. Em 1922, os fascistas assum iram o governo, após o que a dem ocracia, o parlam ento, os partidos e os antigos políticos liberais foram elim inados. O caso italiano foi apenas um entre m uitos. De 1920 a 1939 os sistem as dem ocráticos parlam entares praticam ente desapareceram
na m aioria dos Estados europeus, com unistas ou não[a]. Os fatos falam por si m esm os. O liberalism o na Europa parecia condenado por um a geração.
John May nard Key nes, tam bém discutido acim a, é um exem plo da segunda escolha, ainda m ais interessante por ter apoiado o Partido Liberal Britânico a vida toda e ser um m em bro consciente do que ele cham ava de sua classe, "a burguesia instruída". Com o j ovem econom ista, Key nes fora quase a quintessência da ortodoxia. Ele pensava, com razão, que a Prim eira Guerra Mundial era tão inútil com o incom patível com a econom ia liberal e com a civilização burguesa. Com o consultor profissional dos governos de guerra posteriores a 1914, foi favorável à m enor interrupção possível dos "negócios com o de costum e". Um a vez m ais, de m odo bastante lógico, achava que o grande líder de guerra (liberal) Lloy d George estava levando a Grã-Bretanha à
ruína econôm ica ao subordinar todo o resto à conquista da vitória m ilitar[b]. Ficou horrorizado, m as não surpreso, ao ver boa parte da Europa e do que ele considerava civilização européia ruir sob o peso da derrota e da revolução. Concluiu, outra vez acertadam ente, que um tratado de paz politicam ente irresponsável im posto pelos vencedores com prom eteria as chances de recuperar a estabilidade capitalista da Alem anha, e portanto da Europa, em bases liberais. Entretanto, diante do desaparecim ento irrem ediável da belle époque do pré-guerra, de que ele tanto desfrutara em com panhia de seus am igos de Cam bridge e Bloom sbury, Key nes dedicou, a partir daí, todo seu considerável brilho intelectual, sua criatividade, seu estilo e sua capacidade de persuasão a encontrar um a m aneira de salvar o capitalism o de si m esm o.
Com o decorrência, acabou revolucionando a ciência econôm ica, a ciência social m ais ligada à econom ia de m ercado da Idade dos Im périos e que evitara incorporar o sentim ento de crise, tão evidente em outras ciências sociais. A crise, prim eiro política e depois econôm ica, serviu de base para Key nes repensar a ortodoxia liberal. Ele se tornou o paladino de um a econom ia adm inistrada e controlada pelo Estado, que, apesar da evidente dedicação de Key nes ao capitalism o, teria sido considerada a ante-sala do socialism o por todos os m inistros das finanças de todas as econom ias industriais desenvolvidas anteriores a 1914.
Key nes m erece destaque porque form ulou o que seria a m aneira m ais intelectual e politicam ente influente de dizer que a sociedade capitalista só poderia sobreviver se os Estados capitalistas controlassem , adm inistrassem e até planej assem boa parte do perfil geral de suas econom ias, transform ando-as, se necessário, em econom ias m istas público/privadas. Após 1944, a lição foi adotada por ideólogos e governos reform istas, social-dem ocratas e radicais que lhe deram continuidade com entusiasm o, caso não fossem , com o na Escandinávia, pioneiros independentes dessas idéias. A lição de que o capitalism o nos term os liberais pré-1914 estava m oto foi quase universalm ente aprendida no período das duas guerras m undiais e da recessão m undial, até por aqueles que se recusavam a lhe dar novos rótulos teóricos. Durante os quarenta anos que se seguiram ao início da década de 30, os defensores teóricos de um a econom ia de livre concorrência pura foram um a m inoria isolada, além dos hom ens de negócios, cuj o ponto de vista sem pre lhes torna difícil reconhecer os interesses preferenciais de seu sistem a com o um todo, na m edida em que concentram suas m entes nos interesses preferenciais de sua firm a ou atividade específica.
A lição tinha que ser aprendida, porque a alternativa à época da Grande Recessão dos anos 30 não era um a recuperação induzida pelo m ercado, m as a derrocada. Não se tratava, com o pensavam cheios de esperança os revolucionários, da "crise final" do capitalism o, m as foi provavelm ente a única crise econôm ica até então, na história de um sistem a econôm ico que funciona essencialm ente através de flutuações cíclicas, que de fato pôs em perigo o sistem a.