A Era dos Impérios 1875-1914

Eric J. Hobsbawm · Capítulo 40 de 51

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A Era dos Impérios 1875-1914

Capítulo 12 | Rumo à revolução

CAPÍTULO 12

 

RUMO À REVOLUÇÃO

 

Ouviu falar do Sinn Fein, da Irlanda?... É um movimento interessantíssimo e muito parecido ao assim chamado Movimento Extremista da Índia. Sua política é não mendigar favores, mas arrancá-los.

Jawaharlal Nehru (aos dezoito anos) a seu pai, 12.9.1907

 

Na Rússia, tanto o soberano como o povo são de raça eslava, mas, simplesmente porque o povo não suporta o veneno da autocracia, estão dispostos a sacrificar milhões de vida para comprar a liberdade... Mas, quando olho para meu país, não consigo controlar meus sentimentos. Não apenas tem a mesma autocracia que a Rússia, como temos sido pisoteados por bárbaros estrangeiros há 200 anos.

Um revolucionário chinês, c. 1903-1904

 

Operários e camponeses da Rússia, vocês não estão sozinhos! Se conseguirem derrubar, esmagar e destruir os tiranos da Rússia feudal, policiada pelos senhores e czarista, sua vitória servirá como sinal para uma luta mundial contra a tirania do capital.

V. I. Lenin, 1905

 

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Os últim os anos do capitalism o do século XIX têm sido até hoj e considerados um período de estabilidade social e politica: de regim es que não apenas sobreviviam com o tam bém prosperavam . E, na verdade, se nos concentrássem os só nos países de capitalism o "desenvolvido", tal idéia seria razoavelm ente plausível. Econom icam ente, as som bras dos anos da Grande Depressão se dissipavam , dando lugar ao sol radioso da expansão e da prosperidade da década de 1900. Sistem as políticos que não sabiam m uito bem com o lidar com as agitações sociais da década de 1880 — com a súbita em ergência dos partidos de m assas das classes trabalhadoras voltados para a revolução ou com as m obilizações de m assa de cidadãos contra o Estado em outras bases — aparentem ente descobriram m aneiras flexíveis de conter e integrar alguns e isolar outros. Os quinze anos entre 1899 e 1914 foram a belle époque não só por terem sido prósperos — e a vida era incrivelm ente atraente para os que tinham dinheiro e dourada para os ricos —, m as tam bém porque os dirigentes da m aioria dos países ocidentais, em bora preocupados talvez com o futuro, não estavam com m edo do presente. Suas sociedades e regim es pareciam , de m aneira geral, adm inistráveis.

Entretanto, no m undo havia áreas consideráveis onde claram ente este não era o caso. Nessas regiões, os anos entre 1880 e 1914 foram um período de revoluções continuam ente possíveis, im inentes ou m esm o reais. Em bora alguns desses países fossem m ergulhar na guerra m undial, nem nesse caso 1914 foi a ruptura aparentem ente súbita que separa a tranqüilidade, a estabilidade e a ordem de um a era de dilaceram ento. Em alguns deles — o Im pério Otom ano, por exem plo — a própria guerra m undial foi só m ais um episódio de um a série de conflitos m ilitares que j á haviam com eçado alguns anos antes. Em outros — talvez a Rússia e com certeza o Im pério Habsburgo — a própria guerra m undial foi, em boa m edida, produto da insolubilidade dos problem as políticos internos. Para outro grupo de países ainda — China, Irã, México — o papel da guerra de 14 não foi de form a algum a significativo. Em sum a, no que tange à vasta área do planeta que então constituía o que Lenin sagazm ente cham ou, em 1908, de "m aterial inflam ável na política m undial", a idéia de que, de um a form a ou de outra, a estabilidade, a prosperidade e o progresso liberal teriam continuado, se não fosse a im prevista e evitável intervenção da catástrofe de 1914, não tem a m ais rem ota plausibilidade. Ao contrário. Após 1917, ficou claro que até os países prósperos e estáveis da sociedade burguesa ocidental teriam , de um m odo ou de outro, sido atingidos pelos levantes revolucionários globais que com eçaram na periferia do sistem a m undial, único e interdependente, que essa sociedade criara.

O século burguês desestabilizou sua periferia de dois m odos principais: solapando as antigas estruturas de suas econom ias e sociedades e tornando inviáveis seus regim es e instituições políticas estabelecidas. Os efeitos do prim eiro foram m ais profundos e explosivos. Foi o responsável pela diferença entre o im pacto histórico das revoluções russa e chinesa, persa e turca. Mas o segundo era m ais prontam ente visível, pois, com exceção do México, a zona atingida pelo terrem oto político global de 1900-1914 foi sobretudo o grande cinturão geográfico de antigos im périos, alguns deles datando das brum as da antigüidade, que se estendiam da China, a leste, ao Habsburgo e talvez Marrocos, a oeste.

Pelos padrões dos im périos e nações-Estado ocidentais, essas estruturas políticas arcaicas eram frágeis, obsoletas e, com o diriam m uitos partidários contem porâneos do darwinism o social, fadadas a desaparecer. Foi seu colapso e desintegração que propiciou as condições para as revoluções de 1910-1914 e, na Europa, o cenário im ediato tanto para a guerra m undial que se aproxim ava com o para a Revolução Russa. Os im périos que caíram naqueles anos estavam entre as m ais antigas forças políticas da história. A China, em bora às vezes dilacerada e ocasionalm ente conquistada, fora um grande im pério e o centro da civilização pelo m enos durante dois m ilênios. Os grandes concursos para o serviço civil im perial, que selecionava a elite intelectual que a dirigia, fora realizado anualm ente — com interrupções esporádicas — por m ais de dois m il anos. Quando foram abandonados, em 1905, o fim do im pério só podia estar próxim o. (Estava de fato a seis anos de distância.) A Pérsia fora um grande im pério e centro de cultura por um período sim ilar, em bora sua sorte tenha conhecido flutuações m ais dram áticas. Sobreviveu a seus m aiores antagonistas, os Im périos Rom ano e Bizantino, ressurgiu após ter sido conquistada por Alexandre, o Grande, pelo Islã, pelos m ongóis e pelos turcos. O Im pério Otom ano, em bora m uitíssim o m ais j ovem , foi o últim o daquela sucessão de conquistadores nôm ades que saíram da Ásia central, desde a época de Átila, o Huno, para derrubar e tom ar posse de reinos orientais e ocidentais: ávaros, m ongóis, várias m esclas de turcos. Com sua capital em Constantinopla, a antiga Bizâncio, a cidade dos Césares (Tzarigrado), ele era herdeiro em linha direta do Im pério Rom ano, cuj a m etade ocidental ruíra no século V d.C., m as cuj a m etade oriental sobrevivera — até ser conquistada pelos turcos — por m ais m il anos. Em bora o Im pério Otom ano tenha retrocedido a partir do final do século XVII, continuava sendo um respeitável território tricontinental. Adem ais, o sultão, seu m andatário absoluto, era considerado pela m aioria dos m uçulm anos do m undo com o seu califa, o chefe de sua religião, e, assim sendo, sucessor do profeta Maom é e seus discípulos triunfantes do século VII. Os seis anos que assistiram à transform ação desses três im périos em m onarquias constitucionais ou repúblicas, segundo o m odelo ocidental burguês, m arcam indiscutivelm ente o fim de um a fase im portante da história m undial.