A Era dos Impérios 1875-1914
Capítulo 5
Os clubes de golfe desem penhariam um papel igualm ente im portante no m undo (anglo-saxão) m asculino de profissionais da classe m édia e hom ens de negócios. Já nos deparam os com um recente acordo de negócio concluído num cam po de golfe. O potencial social deste j ogo — cuj as partidas são disputadas em extensas propriedades, dispendiosam ente construídas e conservadas por m em bros de clubes destinados a excluir, social e financeiram ente, estranhos inaceitáveis — im pressionou as novas classes m édias com o um a súbita revelação. Antes de 1889, havia apenas dois cam pos de golfe em toda Yorkshire (West Riding); entre 1890 e 1895, foram abertos 29 deles. De fato, a extraordinária rapidez com que todas as form as de esporte organizado conquistaram a sociedade burguesa, entre 1870 e os prim eiros anos de 1900, sugere que o esporte preenchia um a necessidade social consideravelm ente m aior que a de exercícios ao ar livre. Paradoxalm ente, pelo m enos na Inglaterra, um proletariado industrial e um a nova burguesia, ou classe m édia, em ergiram ao m esm o tem po com o grupos autoconscientes, que se definiam um contra o outro por m eio de m aneiras e estilos de vida e ação coletiva. O esporte, criação da classe m édia transform ada em duas alas com óbvia identificação de classe, constituía um dos m odos m ais im portantes de realizar aquela definição.
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Por conseguinte, três im portantes tendências m arcaram socialm ente as classes m édias das décadas que precederam 1914. Na extrem idade inferior, aum entou o núm ero daqueles que, de algum m odo, reivindicavam a qualidade de m em bros do grupo interm ediário. Eram os em pregados não-m anuais, que, à m argem , distinguiam -se dos operários — que podiam ganhar tanto quanto eles — apenas pela pretensa form alidade da roupa de trabalho (os proletários de "paletó preto" ou, com o diziam os alem ães, "de colarinho duro") e por um pretenso estilo de vida de classe m édia. Na extrem idade superior, tornava-se im precisa a linha divisória entre em pregadores, profissionais superiores, gerentes altam ente colocados, executivos assalariados e funcionários graduados. Todos eles foram colocados num só grupo (de m odo realístico), o da "classe", na ocasião em que o recenseam ento inglês tentou pela prim eira vez registrar a população por classes. Ao m esm o tem po, aum entava consideravelm ente a classe burguesa ociosa de hom ens e m ulheres que viviam de lucros de segunda m ão — e ressoa o eco da tradição puritana, através da classificação do British Inland Revenue de "rendim entos indébitos". Relativam ente poucos burgueses ocupavam -se agora em realm ente "ganhar dinheiro"; m uito m aior era o acúm ulo de lucros à sua disposição, a ser distribuídos entre seus parentes. Acim a de tudo, estava o grupo dos super-ricos, os plutocratas. Afinal, havia j á m ais de 4 m il m ilionários (em dólares) nos EUA, no início da década de 1890.
Para a m aioria deles, as décadas precedentes à guerra foram boas; para os m ais favorecidos, foram extraordinariam ente generosas. A nova classe m édia baixa recebeu bem pouco em term os m ateriais, pois seus rendim entos não puderam exceder os do artesão qualificado, em bora m edidos por ano e não por sem ana ou por dia; e os operários não precisavam gastar grande coisa para "m anter as aparências". Entretanto, seu status situava-os incontestavelm ente acim a das m assas trabalhadoras. Na Inglaterra, os hom ens desta classe podiam até j ulgar-se gentlemen, um term o originalm ente reservado aos grandes proprietários de terra; na era da burguesia, todavia, foi drenado do seu conteúdo social específico e aberto para quem quer que, efetivam ente, não realizasse trabalho m anual. (Nunca foi usado para os trabalhadores.) A m aioria achava que conseguira m ais que seus pais e esperava m elhores perspectivas para seus filhos. Isto, provavelm ente, pouco contribuía para dim inuir o senso de ressentim ento im potente contra os que lhes ficavam acim a ou abaixo — o que, aparentem ente, era característico desta classe.
Os pertencentes ao inconteste m undo da burguesia tinham , na verdade, m uito pouco de que se queixar, pois oferecia-se a quem quer que dispusesse de algum as centenas de libras esterlinas por ano — o que estava m uito abaixo do lim iar dos ricos — um a vida excepcionalm ente agradável, agora conduzida num estilo de vida excepcionalm ente aprazível. O grande econom ista Marshall achava (em Principles of Economics) que um professor poderia viver convenientem ente com 500 libras por ano, opinião confirm ada por seu colega, o pai de John May nard Key nes, que conseguia poupar 400 libras por ano, tiradas de um rendim ento (salário m ais capital herdado) de 1.000 libras, que lhe perm itia ter casa forrada com papel de parede Morris, com três em pregados perm anentes e um a governanta, tirando férias duas vezes por ano — um m ês na Suíça custava ao casal 68 libras em 1891 — e entregar-se às suas paixões, que eram colecionar selos, caçar borboletas, estudar lógica e, naturalm ente, j ogar golfe. Não havia dificuldade em achar m odos de gastar cem vezes m ais por ano e os ultra-ricos da belle époque — m ultim ilionários norte-am ericanos, grão-duques russos, m agnatas do ouro sul-africanos e um sortim ento de financistas internacionais — apressavam -se a com petir, gastando tão prodigam ente quanto podiam . Mas não era preciso ser m agnata para gozar algum as saborosas doçuras desta vida; em 1896, por exem plo, um serviço de j antar com 101 peças, decorado com o próprio m onogram a do com prador, podia ser adquirido no varej o, em Londres, por m enos de 5 libras. O grande hotel internacional, nascido das estradas de ferro em m eados do século, atingiu seu apogeu durante os vinte anos que precederam 1914. Muitos deles trazem ainda o nom e do m ais fam oso dos cozinheiros-chefes contem porâneos: César Ritz. Esses palácios podem ter sido freqüentados pelos super-ricos, m as não foram construídos principalm ente para eles, pois os super-ricos ainda construíam , ou alugavam , suas próprias residências palacianas. Estes hotéis visavam aos m edianam ente ricos e com odam ente endinheirados. Lord Rosebery j antava no novo Hotel Cecil, m as não o j antar-padrão de 6 shillings por cabeça. Atividades cuj o obj etivo eram os realm ente opulentos tinham seu preço m arcado segundo outra escala. Em 1909, um j ogo de tacos de golfe, com o saco, custaria um a libra esterlina e m eia, em Londres, ao passo que o preço básico de um novo carro Mercedes era 900 libras. (Lady Wim borne e o filho possuíam dois deles e m ais dois Daim ler, três Darracqs e dois Napiers.)
Não adm ira, portanto, que os anos pré-1914 viviam do folclore da burguesia com o a era dos dias dourados. Ou que o tipo de classe ociosa que m ais atraía a atenção tenha sido a que se entregava (para citar novam ente Veblen) ao "consum o conspícuo" a fim de confirm ar o próprio status e fortuna, não tanto em face das ordens inferiores, dem asiado distantes, nas profundezas, para ser notadas, m as sim na com petição com os outros m agnatas. A resposta de J. P. Morgan ao ser perguntado quanto custava m anter um iate ("Se você tem de perguntar, é porque não tem recursos para isso"), e a observação de John D. Rockefeller, igualm ente apócrifa, ao lhe contarem que J. P. Morgan deixara 80 m ilhões de dólares ao m orrer ("E todos nós pensávam os que ele era rico"), indicam a natureza do fenôm eno. Havia m uito disso naquelas décadas lam inadas a ouro, quando os marchands de arte, com o Joseph Duveen, convenciam os bilionários que apenas um a coleção de antigos m estres poderia selar-lhes o status, quando nenhum m erceeiro bem -sucedido estaria com pleto sem um im enso iate e nenhum especulador de m inas, sem um haras de cavalos de corrida, um palácio no cam po (preferivelm ente inglês) e um a charneca com aves de caça ou quando a sim ples quantidade e variedade de alim entos desperdiçados — e, m esm o, as quantidades consum idas — durante um fim de sem ana, da era eduardiana, ultrapassa a im aginação.