A Era dos Impérios 1875-1914

Eric J. Hobsbawm · Capítulo 12 de 51

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A Era dos Impérios 1875-1914

Capítulo 4 | A política da democracia

CAPÍTULO 4

 

A POLÍTICA DA DEMOCRACIA

 

Todos os que, pela fortuna, pela educação, pela inteligência ou pela astúcia, são aptos para liderar uma comunidade humana e têm a oportunidade de o fazer — em outras palavras, todas as facções das classes dominantes — devem curvar-se perante o sufrágio universal, desde que instituído, e igualmente, se a ocasião o exigir, lisonjeá-lo e ludibriá-lo.

Gaetano Mosca, 1895

 

A democracia ainda está em experiência, mas até o momento não se desacreditou; verdade é que sua força plena não entrou ainda em operação, e isto por duas causas, uma mais ou menos permanente, com respeito a seus efeitos, e outra de natureza transitória. Em primeiro lugar, seja qual for a representação numérica da riqueza, seu poder será sempre desproporcionado; em segundo lugar, a organização deficiente das classes que acabaram de receber o direito ao voto impediu qualquer alteração de vulto no preexistente equilíbrio do poder.

John May nard Key nes, 1904

 

É significativo que nenhum dos modernos Estados seculares tenha deixado de oferecer feriados nacionais dando ocasião a assembléias.

Am erican Journal of Sociology , 1896

 

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O período histórico de que trata este volum e inicia-se com o surto internacional de histeria entre os governantes europeus e suas aterrorizadas classes m édias, provocado em 1871 pela breve existência da Com una de Paris, a cuj a supressão seguiu-se um m assacre de parisienses em escala norm alm ente inconcebível nos Estados civilizados do século XIX. Mesm o pelos nossos m ais bárbaros padrões, a escala é ainda im pressionante (cf. A Era do Capital, cap. 9). Este breve e brutal desencadeam ento de terror cego por um a sociedade respeitável — pouco característico para o tem po — refletia um problem a político fundam ental da sociedade burguesa: sua dem ocratização.

A dem ocracia, conform e observou o sagaz Aristóteles, é o governo das m assas populares, que em geral são pobres. Evidentem ente, os interesses dos pobres e os dos ricos, dos privilegiados e dos desprivilegiados não são os m esm os; m esm o se presum íssem os que são ou podem ser, é im provável que as m assas considerem os negócios públicos sob a m esm a luz ou nos m esm os term os que aqueles que os escritores vitorianos ingleses cham avam "as classes", satisfeitos de ainda identificar ação política de classe apenas com a aristocracia e a burguesia. Era este o dilem a básico do liberalism o do século XIX (cf. A Era do Capital, cap. 6:1), tão dedicado às constituições e assem bléias eleitas e soberanas das quais esforçava-se por se desviar, sendo antidem ocrático; ou, m ais exatam ente, excluindo a m aioria dos cidadãos do sexo m asculino dos Estados, para não m encionar a totalidade das m ulheres que neles habitavam , excluídas do direito ao voto e de serem eleitas. Até época de que trata este volum e, seu inabalável fundam ento era a distinção entre aquilo que os lógicos franceses da era de Luís Filipe cham avam de "o país legal" e "o país real" (le pays légal, le pays réel). A ordem social entrou em perigo, desde o m om ento em que o "país real" iniciou sua penetração no fechado recinto do "país legal" ou "político", o qual era defendido pelas fortificações da propriedade, pelas qualificações educacionais para o voto e, na m aioria dos países, pelos privilégios aristocráticos institucionalizados, tais com o as câm aras de pares hereditários.

De fato, o que aconteceria na política quando as m assas populares, ignorantes e brutalizadas, incapazes de entender a elegante e salutar lógica do m ercado livre de Adam Sm ith, controlassem o destino político dos Estados? O m ais provável é que seguissem o cam inho que conduziria àquela revolução social cuj o breve ressurgim ento, em 1871, tanto apavorara a gente respeitável. A revolução, em sua antiga form a insurrecional, talvez não parecesse m ais im inente; m as não se ocultaria ela atrás de algum a concessão m ais am pla do sufrágio, que se estendesse para além dos estratos dos proprietários e das pessoas instruídas? Não levaria isso, inevitavelm ente, ao com unism o, conform e tem ia o futuro Lord Salisbury , em 1866?

Após 1870, contudo, tornou-se cada vez m ais claro que a dem ocratização da política dos Estados era inteiram ente inevitável. As m assas m archariam para o palco da política, quer isto agradasse ou não aos governantes. Foi o que realm ente aconteceu. Sistem as eleitorais baseados em am plo direito ao voto e às vezes, teoricam ente, até no sufrágio universal m asculino, existiam j á na França e na Alem anha, em 1870 (pelo m enos para o parlam ento nacional alem ão), bem com o na Suíça e na Dinam arca. Na Inglaterra, as leis da Reform a de 1867 e 1883 quase quadruplicaram o eleitorado, que se elevou de 8 a 29% para os hom ens de m ais de vinte anos. A Bélgica dem ocratizou estes direitos em 1894, após um a greve geral realizada por essa reform a (o aum ento foi de 3,9 para 37,3%, para a população adulta); a Noruega dobrou essas cifras em 1898 (de 16,6 para 34,8%). Na Finlândia, um a dem ocracia extensiva única (76% de adultos) surgiu com a revolução de 1905. Na Suécia, o eleitorado dobrou em 1908, alcançando o nível do da Noruega. A m etade austríaca do im pério dos Habsburgo recebeu o sufrágio universal em 1907, e a Itália em 1913. Fora da Europa, os EUA, a Austrália e a Nova Zelândia j á eram , é claro, dem ocráticos, e a Argentina seguiu-lhes o exem plo em 1912. Segundo padrões m ais recentes, essa dem ocratização ainda era incom pleta — o eleitorado com um , sob sufrágio universal, era de 30 a 40% da população adulta — m as deve-se notar que até o voto fem inino j á era m ais que um utópico slogan. Havia sido introduzido nas m argens dos territórios dos colonizadores brancos, na década de 1880 — no Wy om ing (EUA), na Nova Zelândia e na Austrália do Sul — e nas dem ocráticas Finlândia e Noruega, entre 1905 e 1915.

Esses acontecim entos eram vistos sem entusiasm o pelos governos que os introduziram , m esm o quando com prom etidos, por convicção ideológica, com a representação popular. Os leitores j á devem ter observado de passagem que, m esm o países hoj e considerados profunda e historicam ente dem ocráticos, com o os escandinavos, apenas tardiam ente decidiram am pliar o direito ao voto; para não m encionar os Países Baixos, que, ao contrário da Bélgica, resistiram sistem aticam ente à dem ocratização antes de 1918 (em bora seu eleitorado, na realidade, houvesse crescido em ritm o com parável). Os políticos talvez se resignassem a profilaticam ente estender o direito ao voto, enquanto ainda eram capazes de controlá-lo, e não algum a extrem a esquerda. Provavelm ente foi isso que sucedeu na França e na Inglaterra. Entre os conservadores, havia cínicos, com o Bism arck, que depositava sua fé na lealdade tradicional — ou, conform e poderiam argüir os liberais, na ignorância e na estupidez — de um eleitorado de m assas, calculando que o sufrágio universal fortaleceria a direita e não a esquerda. Mesm o Bism arck, porém , preferia não correr riscos na Prússia (que dom inava o im pério Alem ão), onde m antinha o votei de três classes acentuadam ente inclinado a favor da direita. Essa precaução dem onstrou ser sábia, visto o eleitorado de m assas se haver revelado incontrolável a partir do alto. Em outras partes, os políticos cediam às agitações e à pressão popular ou aos cálculos baseados nos conflitos políticos dom ésticos. Em am bos os casos, tem iam as conseqüências daquilo que Disraeli cham ara "salto no escuro", e que poderiam ser im previsíveis. Com certeza, as agitações socialistas da década de 1890 e as repercussões diretas ou indiretas da prim eira Revolução Russa aceleraram a dem ocratização. Contudo, qualquer que fosse o m odo pelo qual esta avançava, entre 1880 e 1914 a m aioria dos Estados ocidentais havia se resignado ao inevitável: a política dem ocrática não podia m ais ser protelada. Daí em diante, o problem a foi m anipulá-la.

Essa m anipulação, em seu sentido m ais grosseiro, ainda era fácil. Era possível, por exem plo, lim itar estritam ente o papel político das assem bléias eleitas por sufrágio universal. Era esse o m odelo de Bism arck, no qual os direitos constitucionais do parlam ento alem ão (Reichstag) eram reduzidos a um m ínim o. Em outros países, câm aras secundárias, às vezes com postas de m em bros hereditários, com o na Inglaterra, votavam (e influenciavam ) por m eio de colégios eleitorais especiais e por outras instituições análogas, pondo freios às assem bléias representativas dem ocratizadas. Os elem entos do sufrágio universal baseado na propriedade foram retidos e reforçados pelas qualificações educacionais (por exem plo, votos adicionais para cidadãos com educação superior, na Bélgica, na Itália e nos Países Baixos e cadeiras parlam entares para as universidades, na Inglaterra). O Japão introduziu o parlam entarism o com essas m esm as lim itações, em 1890. Esses sufrágios im aginários (fancy franchises) com o os cham avam os ingleses, eram reforçados pelo útil expediente daquilo que os austríacos cham avam de "geom etria eleitoral", ou m anipulação dos distritos eleitorais, com o obj etivo de m inim izar ou m axim izar o apoio a certos partidos. Os eleitores tím idos ou sim plesm ente cautelosos podiam ser subm etidos a pressões m ediante o voto nom inal, especialm ente quando inspecionado por senhores poderosos e outros patrões: a Dinam arca m anteve o voto nom inal até 1918, a Hungria até a década de 1930. O clientelism o, com o bem o sabiam os chefões das cidades am ericanas, conseguia gerar eleitores em blocos: na Europa, o liberal italiano Giovanni Giolitti revelou-se m estre na política clientelista. A idade m ínim a do eleitor era elástica: ia dos vinte anos, na dem ocrática Suíça, aos trinta, na Dinam arca, e era m uitas vezes aum entada quando o direito ao voto era am pliado. E havia ainda a possibilidade da sim ples sabotagem , pela criação de com plicações relativas à inscrição nos registros eleitorais. Assim , na Inglaterra, calcula-se que em 1914 cerca de m etade da classe operária foi de facto im pedida de votar graças a tais estratagem as.

Esses estratagem as, no entanto, se realm ente freavam e lim itavam os m ovim entos do veículo político rum o à dem ocracia, não conseguiam deter seu avanço. O m undo ocidental, inclusive a Rússia czarista após 1905, m archava obviam ente para um sistem a político baseado num eleitorado sem pre m ais am plo, dom inado pelo povo com um .

A conseqüência lógica de tais sistem as era a m obilização política das m assas para as eleições e através destas, ou sej a, no sentido de pressionar os governos nacionais. Isso envolvia a organização de m ovim entos e partidos de m assas, a política de propaganda de m assas e o desenvolvim ento da m ídia de m assas — nesta fase, principalm ente a recém -desenvolvida im prensa popular ou "im prensa m arrom " — e ainda outros acontecim entos que suscitavam novos e im portantes problem as para o governo e para as classes dom inantes. Infelizm ente para o historiador, esses problem as desapareceram da cena européia nas discussões políticas abertas, na m edida em que a crescente dem ocratização tornou im possível debatê-los publicam ente com algum grau de franqueza. Que candidato desej aria dizer aos seus eleitores que os considerava dem asiado estúpidos e ignorantes para saberem o que era m elhor em política, e que suas exigências eram tão absurdas quanto perigosas para o futuro do país? Que estadista, rodeado de repórteres que transm itiriam suas palavras para as m ais rem otas tavernas de esquina, diria exatam ente o que pensava? Os políticos eram obrigados, cada vez m ais, a apelar para um eleitorado de m assas; e m esm o ao falar diretam ente às m assas, ou indiretam ente, pelo m egafone da im prensa popular (inclusive pelos j ornais dos adversários), Bism arck, por exem plo, provavelm ente j am ais se dirigiu senão a um a audiência de elite. Foi Gladstone quem introduziu a cam panha eleitoral de m assas na Inglaterra (e talvez na Europa), durante a cam panha de 1879. Não seriam m ais discutidas — com a franqueza e o realism o que caracterizam os debates referentes à Lei da Reform a Britânica, de 1867 — as im plicações e expectativas da dem ocracia, a não ser por leigos em política. Mas enquanto os governantes envolviam -se em retórica, as discussões políticas sérias retiravam -se para o m undo dos intelectuais e para o m inoritário público culto que os liam . A era da dem ocratização foi igualm ente a era dourada de um a nova sociologia política: Durkheim e Sorel, Ostrogorski e os Webbs, Mosca, Pareto, Robert Michels e Max Weber.

Os governantes, quando realm ente queriam dizer o que pensavam , deviam fazê-lo na obscuridade dos corredores do poder, nos clubes, nas reuniões sociais particulares, durante as caçadas e fins de sem ana no cam po, em ocasiões em que m em bros da elite se encontravam num a atm osfera bem diversa daquela das gladiatórias com édias dos debates parlam entares ou dos com ícios. A era da dem ocratização, portanto, veio a ser a era da hipocrisia pública, ou antes, da duplicidade e, conseqüentem ente, da sátira política: foi a era de Mr. Dooley, das côm icas, am argas e im ensam ente talentosas revistas de charges políticas com o a alem ã Simplicissimus, a francesa Assiette au Beurre, ou a Fackel, de Karl Kraus, em Viena. Que observador inteligente não perceberia o abism o escancarado entre o discurso público e a realidade política, revelado no epigram a de Hilaire Belloc, sobre o grande triunfo eleitoral dos liberais, em 1906:

 

The accursed power that rests on privilege

And goes with women, and champagne, and bridge, Broke: and Democracy resumed her reign

That goes with bridge, and women, and champagne.[a]

 

Mas quem eram as m assas que agora se m obilizavam para a ação política? Em prim eiro lugar, havia classes de estratos sociais até então abaixo e fora do sistem a político, várias das quais podiam form ar alianças ainda m ais heterogêneas, coalizões e "frentes populares". Destas a m ais form idável era a classe operária, agora m obilizada em partidos e m ovim entos de explícita base de classe. Serão exam inadas no próxim o capítulo.

Havia igualm ente um a am pla e m al definida coalizão de estratos interm ediários descontentes e incertos quanto ao que m ais tem iam , se os ricos ou o proletariado. Era a antiga pequena burguesia de m estres artesãos e pequenos loj istas, m inada em suas bases pelo progresso da econom ia capitalista, pelo rápido crescim ento de um a nova classe m édia baixa com posta de trabalhadores não-m anuais e de colarinho branco: estes constituíam a Handwerkerfrage e a Mittelstandsfrage da política alem ã, durante e após a Grande Depressão. Seu m undo era definido pelo tam anho, o m undo da "gente pequena" contra o dos "grandes interesses", no qual a própria palavra "pequeno", tal com o em "hom em pequeno", "le petit commerçant", "der kleine Mann", tornou-se, além de um slogan, um toque de reunir. Quantos j ornais radical-socialistas da França ostentavam com orgulho o título: Le Petit Niçois, Le Petit Provençal, La Petite Charente, Le Petit Troyen? Pequeno, sim , m as não dem asiado pequeno, um a vez que a pequena propriedade necessitava tanto de defesa contra o coletivism o quanto a grande propriedade; e era preciso defender a superioridade do em pregado de escritório contra qualquer confusão com o operário m anual qualificado, que poderia ter renda sem elhante, especialm ente por estarem as classes m édias estabelecidas pouco propensas a aceitar as classes m édias baixas com o suas iguais.

Era essa tam bém , e por boas razões, a esfera política da retórica e da dem agogia par excellence. Em países onde era vigorosa a tradição do j acobinism o radical e dem ocrático, sua retórica, veem ente ou floreada, m antinha a "gente pequena" à esquerda, em bora na França isto incorporasse boa dose de chauvinism o nacional e um significativo potencial de xenofobia. Na Europa central, era irrestrito seu caráter nacionalista e, em especial, seu caráter anti-sem ita. Os j udeus não eram sim plesm ente identificados com o capitalism o, e sobretudo com a parte deste que se chocava com os pequenos artesãos e loj istas — banqueiros, negociantes fundadores de novas redes de distribuição e loj as de departam entos —, m as tam bém e com freqüência com socialistas ateus e, de m odo m ais geral, com intelectuais que solapavam antigas e am eaçadoras verdades da m oralidade e da fam ília patriarcal. A partir da década de 1880, o anti-sem itism o tornou-se um dos m ais im portantes com ponentes dos m ovim entos políticos organizados de "hom ens pequenos", desde as fronteiras ocidentais da Alem anha até o Leste, atingindo o Im pério Habsburgo, à Rússia e à Rom ênia. Seu significado tam bém não deve ser subestim ado em outras partes. Quem im aginaria, ao observar as convulsões anti-sem itas que abalaram a França na

década de 1890 — década dos escândalos do Panam á e do caso Drey fus[b] —, que existiam , durante esse período, nesse país de 40 m ilhões de habitantes, apenas 60 m il j udeus?

Havia tam bém , é claro, o cam pesinato, que form ava ainda a m aioria em m uitos países e, em outros, o m aior grupo econôm ico. Em bora, desde a década de 1880 — época de depressão —, cam poneses e agricultores se m obilizassem cada vez m ais, com o grupos de pressão econôm ica, aderindo até m esm o às novas organizações cooperativas de com pra, de m ercado, de processam ento de produtos e de crédito — e isso em m assas im pressionantes e em países diferentes, com o os EUA e a Dinam arca, a Nova Zelândia e a França, a Bélgica e a Irlanda o cam pesinato raram ente organizava-se política ou eleitoralm ente com o classe, presum indo-se que um conj unto tão variado possa ser considerado classe. Naturalm ente, em países agrícolas, governo nenhum poderia dar-se o luxo de desprezar os interesses econôm icos de um conj unto de eleitores tão substancial quanto o dos lavradores. Todavia, na m edida em que o cam pesinato se m obilizava eleitoralm ente, fazia-o sob bandeiras não-agrícolas, m esm o onde era claro que a força de um específico partido ou m ovim ento político, tal com o a dos populistas dos EUA, na década de 1890, ou a dos social-revolucionários, na Rússia (após 1902), dependia do apoio dos fazendeiros e cam poneses.

Se grupos sociais m obilizavam -se com o tais, tam bém o faziam grupos de cidadãos unidos por lealdades setoriais, com o as da religião e as da nacionalidade. Setoriais porque as m obilizações políticas de m assas, em base confessional, m esm o em países de um a só religião, seriam sem pre blocos contrapostos a outros blocos, confessionais ou leigos. E as m obilizações nacionalistas (às vezes, com o no caso dos poloneses e irlandeses, coincidindo com as religiosas), eram quase sem pre m ovim entos autonom istas no interior de Estados m ultinacionais. Pouco havia neles em com um com o patriotism o inculcado pelos Estados — e que às vezes escapava ao seu controle — ou com m ovim entos políticos, norm alm ente de direita, que pretendiam representar "a nação" contra m inorias subversivas (cf. cap. 6.)

Entretanto, a ascensão de m ovim entos de m assa político-confessionais, com o fenôm eno geral, foi substancialm ente dificultada pelo ultraconservadorism o e um a entidade que possuía, de longe, a m ais form idável capacidade de m obilizar e organizar seus fiéis, ou, m ais exatam ente, a Igrej a Católica Rom ana. A política, os partidos, as eleições fazem parte daquele deplorável século XIX que Rom a tentara proscrever, desde o Syllabus, de 1864 e o Concilio do Vaticano de 1870 (cf. A Era do Capital, cap. 14:3). A Igrej a perm aneceu absolutam ente irreconciliada com o século XIX, conform e testem unha a prescrição de pensadores católicos que, nas décadas de 1890 e de 1900, cautelosam ente insinuaram que se devia entrar num acordo com as idéias contem porâneas (o "m odernism o" foi condenado pelo papa Pio X em 1907). Que lugar haveria para a política católica nesse m undo infernal de política leiga, salvo o da total oposição e o da defesa específica da prática religiosa, da educação católica e de outras instituições da Igrej a, vulneráveis em relação ao Estado em perm anente conflito com ela?

Assim , em bora o potencial político dos partidos cristãos fosse enorm e, com o o dem onstraria

a história européia a partir de 1945,[c] e à m edida que, evidentem ente, esse potencial crescia a cada um a das extensões do voto, a Igrej a resistia à form ação de partidos políticos form alm ente por ela apoiados, conquanto haj a reconhecido, desde o início da década de 1890, que seria desej ável arrebatar as classes trabalhadoras à revolução socialista e atéia e, é claro, necessário cuidar de seu m aior eleitorado, os cam poneses. Todavia, a despeito da bênção papal à nova preocupação católica com a política social (encíclica Rerum Novarum, 1891), os ancestrais e fundadores daqueles que viriam a ser os partidos dem ocrata-cristãos da era que sucederia a Segunda Guerra Mundial eram considerados com suspeita e tratados com periódica hostilidade pela Igrej a — não apenas porque tam bém eles, com o o "m odernism o", pareciam se com prom eter com tendências indesej áveis no m undo laico, m as igualm ente porque a Igrej a não se sentia à vontade j unto aos quadros dos novos estratos católicos da classe m édia e da classe m édia baixa, urbana e rural, provenientes das econom ias em expansão, que nelas encontravam seu cam po de ação. Quando o grande dem agogo Karl Lueger (1844-1910) conseguiu, na década de 1890, fundar o prim eiro im portante partido m oderno de m assas social-cristão — um vigoroso m ovim ento anti-sem ita de classe m édia baixa que conquistou a cidade de Viena — ele o fez a despeito da resistência da hierarquia austríaca. (O partido sobrevive ainda, com o Partido do Povo, havendo governado a Áustria independente durante a m aior parte de sua história, desde 1918).

A Igrej a, portanto, costum ava apoiar partidos conservadores ou reacionários, de vários tipos, ou, em nações católicas subordinadas no interior de Estados m ultinacionais, m antinha-se em boas relações com m ovim entos nacionalistas, não contam inados pelo vírus secular. Contra o socialism o e a revolução, a Igrej a apoiava qualquer coisa. Partidos e m ovim entos de m assas genuinam ente católicos encontravam -se apenas na Alem anha (onde surgiram para resistir às cam panhas anticlericais de Bism arck na década de 1870), nos Países Baixos (onde a política sem pre tom ava a form a de agrupam entos confessionais, inclusive de protestantes e não-religiosos, organizados em blocos verticais) e na Bélgica (onde os católicos e liberais anticlericais haviam form ado um sistem a de dois partidos bem antes da dem ocratização).

Mais raros ainda eram os partidos religiosos protestantes, e onde eles existiam as exigências confessionais costum avam fundir-se com outros slogans: nacionalism o e liberalism o (preponderantes no não-conform ista País de Gales), antinacionalism o (entre os protestantes da Ulster, que optavam pela união com a Grã-Bretanha contra a autonom ia política da Irlanda), e liberalism o (com o no Partido Liberal inglês, onde o não-conform ism o aum entava seu poder à proporção que os velhos aristocratas whigs e os im portantes interesses dos grandes negócios

passavam para os conservadores, na década de 1880)[d]. Na Europa oriental, é claro, a religião na política era im possível de se distinguir — inclusive na Rússia — do nacionalism o de Estado. O czar não era apenas o chefe da Igrej a Ortodoxa, m as m obilizava a ortodoxia contra a revolução. As outras grandes religiões do m undo (o islam ism o, o hinduísm o, o budism o e o confucionism o), para não m encionar cultos restritos a com unidades ou grupos específicos, ainda operavam num universo ideológico e político no qual era desconhecida e irrelevante a política ocidental dem ocrática.

Se a religião encerrava um grande potencial político, a identificação nacional era um fator de m obilização igualm ente form idável e, na prática, m ais eficaz. Quando a Irlanda após a dem ocratização do direito ao voto na Inglaterra em 1884 — votou em seus representantes, o partido nacionalista irlandês capturou todos os assentos parlam entares católicos da ilha. Oitenta e cinco parlam entares, entre 103, form aram um a disciplinada falange, em apoio ao líder (protestante) do nacionalism o irlandês, Charles Stewart Parnell (1846-1891). Onde quer que a consciência nacional optasse pela expressão política, evidenciava-se que poloneses votariam com o poloneses (na Alem anha e na Áustria) e tchecos com o tchecos. A política da m etade austríaca do Im pério Habsburgo paralisara-se por essas divisões nacionais. De fato, após os tum ultos e conseqüentes represálias de alem ães e tchecos em m eados da década de 1890, o parlam entarism o entrou em colapso com pleto, visto ser im possível, daí em diante, qualquer m aioria parlam entar para qualquer governo. A concessão do sufrágio universal, em 1907, não foi feita apenas em resposta a pressões: foi um a desesperada tentativa no sentido de m obilizar as m assas eleitorais que votariam , talvez, em partidos não-nacionais (católicos ou m esm o socialistas) contra os irreconciliáveis e rixentos blocos nacionais.

Em sua form a extrem a — nos disciplinados partidos de m assas com binados com m ovim entos — a m obilização política de m assas perm aneceu incom um . Mesm o entre os novos m ovim entos operários e socialistas, o padrão m onolítico e abrangente da social-dem ocracia alem ã não era, de m odo algum , universal (cf. próxim o capítulo). Não obstante, os elem entos constitutivos desse novo fenôm eno eram agora discerníveis quase em toda parte. Eram eles, prim eiro, as organizações eleitorais, que form avam a sua base. O partido-de-m assas-com -m ovim entos, ideal-típico, consistia em um com plexo de organizações locais ou seções, unido a um com plexo de organizações, cada um a tam bém ligada a seções locais destinadas a fins especiais, m as integradas a um partido com obj etivos políticos m ais am plos. Assim , em 1914, o m ovim ento nacional irlandês consistia na Liga Irlandesa Unida, que form ava sua base nacional eleitoralm ente organizada — isto é, em cada um dos distritos parlam entares. A Liga organizava os congressos eleitorais, dirigidos pelo seu presidente e com a presença não só de seus próprios delegados, m as igualm ente dos delegados dos conselhos sindicais (consórcios das seções sindicais das cidades), dos próprios sindicatos, da Associação Terra e Trabalho, que representava os interesses dos lavradores, pelos delegados da Associação Atlética Gaélica, pelas associações de auxílio m útuo, tais com o a Antiga Ordem dos Hibérnicos — que, aliás, ligava a ilha à em igração am ericana — além de outras entidades. Eis os quadros m obilizados que form avam o elo essencial entre a liderança nacionalista dentro e de fora do Parlam ento e o eleitorado de m assas, que definia os lim ites exteriores daqueles que apoiavam a causa da autonom ia irlandesa. Os ativistas assim organizados poderiam form ar, em si, um a m assa realm ente substancial: em 1913 a Liga contava com 130 m il m em bros entre um a população total de irlandeses católicos de 3 m ilhões.

Em segundo lugar, os novos m ovim entos de m assas eram ideológicos. Eram m ais que sim ples grupos de pressão e ação a favor de obj etivos específicos, tais com o a defesa da viticultura. Tais grupos organizados de interesse específico naturalm ente proliferavam , visto que a lógica da política dem ocratizada exigia que os interesses exercessem pressões j unto aos governos e às assem bléias nacionais, em teoria sensíveis a elas. Mas entidades com o a alem ã

Bund der Landwirte[e] (fundada em 1893 e quase imediatamente, em 1894, apoiada por 200 mil agricultores) não se ligavam a um partido, a despeito das sim patias obviam ente conservadoras do Bund e do quase total dom ínio que os grandes latifundiários exerciam sobre ele. Em 1898, contava o Bund com o apoio de 118 (entre 397) deputados do Reichstag, que pertenciam a cinco partidos diferentes. Diversam ente de tais grupos de interesses específicos, por poderosos que fossem , o novo partido, com binado com m ovim entos, representava um a visão total do m undo. Era isto, m ais que o program a político concreto, específico e talvez m utável que, para seus m em bros e seguidores, form ava algo sem elhante àquela "religião cívica" a qual, para Jean-Jacques Rousseau, Durkheim e outros teóricos do novo cam po da sociologia, deveria ligar entre si as sociedades m odernas; apenas neste caso, form ava um cim ento seccional. A religião, o nacionalism o, a dem ocracia, o socialism o, as ideologias precursoras do fascism o de entreguerras: tudo isso m antinha unidas as m assas recém -m obilizadas, quaisquer que fossem os interesses m ateriais tam bém representados por seus m ovim entos.

Paradoxalm ente, os países de vigorosa tradição revolucionária, com o a França e os EUA e, m ais rem otam ente, a Inglaterra, a ideologia de suas próprias revoluções anteriores perm itia às velhas e novas elites dom esticar, pelo m enos em parte, a nova m obilização de m assas, por m eio de estratégias há m uito fam iliares aos oradores do dia 4 de j ulho, na dem ocrática Am érica do Norte. O liberalism o britânico, herdeiro da Revolução Gloriosa de 1688 e que não desprezava um ocasional apelo aos regicidas de 1649, em benefício dos descendentes das velhas seitas

puritanas[f], conseguiu em bargar o desenvolvim ento de um Partido Trabalhista de m assas até depois de 1914. Além disso, o Partido Trabalhista (fundado em 1900), tal com o era, velej ava na esteira dos liberais. O radicalism o republicano, na França, tentou absorver e assim ilar as m obilizações populares de m assas, agitando a bandeira da República e da Revolução contra seus inim igos. E não o fazia sem êxito. Os slogans "Não há inim igos à esquerda" e "Unidade de todos os bons republicanos" foram im portantes no sentido de ligar a nova esquerda popular aos hom ens do centro, que m andavam na Terceira República.

Em terceiro lugar, segue-se que as m obilizações de m assas eram , a seu m odo, globais. Ou elas estraçalhavam o antigo quadro de referências localizado ou regional da política, ou o m arginalizavam , ou ainda integravam -no em m ovim entos m ais am plos e abrangentes. Em qualquer caso, a política nacional, nos países dem ocratizados, deixava m enos cam po aos partidos puram ente regionais, m esm o em Estados com m arcantes diferenças entre suas regiões, com o Alem anha e a Itália. Assim , na Alem anha, o caráter regional de Hanover (anexado à Prússia tão recentem ente com o é 1866), onde ainda eram m arcantes o sentim ento antiprussiano e a lealdade à antiga dinastia dos Guelfos, assinalava sua presença apenas pela m enor percentagem de votos (85%, contra 94-100% em outras partes) dados aos vários partidos de am plitude nacional. O fato de as m inorias étnicas ou confessionais, ou m esm o os grupos sociais e econôm icos, serem às vezes lim itados a áreas geográficas especiais não nos deve desorientar. Em contraste com a política eleitoral da antiga sociedade burguesa, a nova política de m assas m ostrava-se progressivam ente incom patível com a velha política localizada, baseada nos hom ens com poder e influência local, conhecidos (no vocabulário político francês) com o notables (notáveis). Havia ainda m uitas partes da Europa e das Am éricas — especialm ente em áreas tais com o a península ibérica e a balcânica, o sul da Itália e a Am érica Latina — locais onde caciques ou patrões, pessoas poderosas e influentes localm ente, poderiam "fornecer" blocos de votos de sua clientela a quem m elhor pagasse ou a patrões ainda m ais im portantes. Na política dem ocrática, o "patrão" não chegava a desaparecer, m as neste caso era crescentem ente o partido que fazia o notável ou que, pelo m enos, o salvava do isolam ento e da im potência política — e não o contrário. Elites m ais antigas, que se transform avam a fim de adaptar-se à dem ocracia, desenvolviam várias com binações entre a política da influência e do clientelism o local e aquela da dem ocracia. Na realidade, as últim as décadas do velho século e as prim eiras do novo foram repletas de com plicados conflitos entre as "notabilidades" ao velho estilo e os novos operadores da política, os patrões locais e outros elem entos chaves que controlavam os partidos locais.

A dem ocracia que assim substituía a política dos notáveis — na m edida em que era bem -sucedida — não substituía o clientelism o e a influência pelo "povo", m as pela organização: ou, m ais exatam ente, os com itês, os notáveis de partido, as m inorias ativistas. Esse paradoxo foi prontam ente registrado por observadores realistas da política, que assinalaram o papel decisivo desses com itês (ou caucuses, segundo o term o anglo-am ericano), ou m esm o a "lei de ferro da oligarquia" que Robert Michels acreditava poder deduzir de seu estudo do Partido Social-Dem ocrata alem ão. Michels notou igualm ente a tendência dos novos m ovim entos de m assas para venerar figuras de líderes, em bora tenha exagerado seu significado. Com respeito à adm iração que, sem dúvida, costum ava circundar certos líderes de m ovim entos nacionais de m assas, a qual se m anifestava em tantas paredes de casas m odestas durante a época que exam inam os, por m eio dos retratos de Gladstone, o Grande Velho do Liberalism o, ou de Bebel, o líder da social-dem ocracia alem ã, ela era um reflexo principalm ente da causa que unia os fiéis, e não do próprio líder. Além disso, não faltavam m ovim entos de m assas sem líderes carism áticos. Quando Charles Stewart Parnell caiu vítim a das com plicações de sua vida particular e da hostilidade conj unta da Igrej a católica e da m oralidade não-conform ista, em 1891, ele foi abandonado sem hesitação pelos irlandeses — e todavia nenhum líder suscitara tanto entusiasm o e lealdade. O m ito de Parnell sobreviveu durante longo tem po ao hom em .