A Era dos Impérios 1875-1914

Eric J. Hobsbawm · Capítulo 21 de 51

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A Era dos Impérios 1875-1914

Capítulo 6 | Bandeiras desfraldadas: nações e nacionalismo

CAPÍTULO 6

 

BANDEIRAS DESFRALDADAS: NAÇÕES E NACIONALISMO

 

"Scappa, che arriva la patria." (Foge, que a pátria vem aí.)

De um a cam ponesa italiana, ao filho.

 

A linguagem deles tornou-se complexa, porque agora lêem. Lêem livros — de qualquer modo, aprendem a ler pelos livros... A palavra e o idioma da linguagem literária e a pronúncia sugerida pela ortografia tendem a prevalecer sobre o uso local.

H. G. Wells, 1901

 

O nacionalismo... ataca a democracia, demole o anticlericalismo, luta contra o socialismo e solapa o pacifismo, o humanitarismo e o internacionalismo... Declara terminado o programa do liberalismo.

Alfredo Rocco, 1914

 

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Se a ascensão dos partidos da classe trabalhadora foi um im portante subproduto da dem ocratização, a ascensão do nacionalism o na política foi outro. Em si, evidentem ente não era novo (cf. A Era das Revoluções, A Era do Capital). Todavia, no período de 1880 a 1914, o nacionalism o avançou dram aticam ente e seu conteúdo ideológico e político transform ou-se. Seu próprio vocabulário indica a significação desses anos. A própria palavra "nacionalism o" apareceu pela prim eira vez em fins do século XIX, para descrever grupos de ideólogos de direita na França e na Itália, que brandiam entusiasticam ente a bandeira nacional contra os estrangeiros, os liberais e os socialistas, e a favor daquela expansão agressiva de seus próprios Estados, que viria a ser tão característica de tais m ovim entos. Foi esta, igualm ente, a época em que a canção "Deutschland Über Alles" (A Alem anha acim a de todos os outros) substituiu com posições rivais, tornando-se o hino nacional da Alem anha. A palavra "nacionalism o", em bora originalm ente descrevesse apenas um a versão de direita do fenôm eno, provou ser m ais conveniente do que o desaj eitado "princípio de nacionalidade" que fora parte do vocabulário da política européia desde 1830; e assim veio a ser utilizada igualm ente para todos os m ovim entos que consideravam a "causa nacional" com o de prim ordial im portância política: m ais exatam ente, para todos os que exigiam o direito à autodeterm inação, ou sej a, em últim a análise, o direito de form ar um Estado independente, destinado a algum grupo nacionalm ente definido. O núm ero de tais m ovim entos ou, pelo m enos, dos líderes que afirm avam falar por eles, e sua significação política aum entariam de m odo im pressionante nessa época. A base dos "nacionalism os" de todos os tipos era igual: era a presteza com que as pessoas se identificavam em ocionalm ente com "sua" nação e podiam ser m obilizadas, com o tchecos, alem ães, italianos ou quaisquer outras, presteza que podia ser explorada politicam ente. A dem ocratização da política e especialm ente a das eleições oferecia am plas oportunidades para m obilizar as pessoas. Quando os Estados faziam isso, cham avam -no de "patriotism o". Originalm ente, a essência do nacionalism o de direita, que em ergia em Estados-nação j á estabelecidos, era a reivindicação do m onopólio do patriotism o para a extrem a direita política, e por m eio dela a estigm atização de todos os dem ais com o traidores. O fenôm eno era novo; durante a m aior parte do século XIX, o nacionalism o fora identificado com m ovim entos liberais e radicais, bem com o com a tradição da Revolução Francesa. Em outras partes, porém , o nacionalism o não se identificava necessariam ente com nenhum a das cores do espectro político.

Entre os m ovim entos nacionais que ainda careciam de Estados próprios encontram os alguns que se identificavam com a direita, outros com a esquerda, e outros, ainda, indiferentes a am bas. Realm ente, conform e sugerim os, havia m ovim entos, não pouco poderosos, que m obilizavam hom ens e m ulheres em base nacional, m as, por assim dizer, por acidente, um a vez que apelavam em prim eiro lugar para a libertação social. Entretanto, se nessa época a identificação nacional evidentem ente era, ou tornou-se depois, um fator im portante na política dos Estados, seria um erro considerar o apelo ao nacionalism o incom patível com outro qualquer. Os políticos nacionalistas e seus adversários, naturalm ente, preferiam insinuar que um tipo de apelo excluía o outro, com o o uso de um chapéu exclui o de outro ao m esm o tem po. Mas, com o questão de história e observação, isso não confere. Em nossa época, era perfeitam ente possível ser revolucionário m arxista e patriota irlandês, com o Jam es Connolly, executado em 1916, por liderar a Insurreição da Páscoa em Dublin.

Porém , na m edida em que, nos países de política de m assas, os partidos com petiam pelo apoio de um m esm o grupo de seguidores, estes seriam obrigados a realizar escolhas m utuam ente excludentes.

Os m ovim entos da classe operária, ao apelar para seus eleitores em potencial, na base da identificação de classe, não tardaram a com preender isso, na extensão em que precisaram com petir, com o de hábito em regiões m ultinacionais, contra partidos que pediam a proletários e a socialistas em potencial que os apoiassem com o tchecos, com o poloneses ou com o eslovenos. Daí a sua preocupação, tão logo tornaram -se m ovim entos de m assas, com a "questão nacional". O fato de quase todo teórico m arxista de im portância, desde Kautsky até Rosa Luxem burgo, passando pelos austro-m arxistas e chegando a Lenin e ao j ovem Stalin, haver tom ado parte em veem entes debates a respeito desse assunto no período, dem onstra a urgência e a centralidade do problem a.

Onde a identificação nacional tornava-se força política, form ava um a espécie de substrato geral da política. Isto torna extrem am ente difíceis de definir as suas m ultiform es expressões, m esm o em casos em que afirm ara ser especificam ente nacionalistas ou patrióticas. Conform e verem os, a identificação nacional, quase com certeza, veio a difundir-se m ais em nosso período, e o significado de apelo nacional, na política, aum entou. Todavia, e quase certam ente, o m ais im portante era aquela série de m utações, dentro do nacionalism o político, que viria a ter profundas conseqüências no século XX.

Devem ser m encionados quatro aspectos dessas m utações. O prim eiro, conform e j á vim os, é o surgim ento do nacionalism o e do patriotism o, com o ideologia encam pada pela direita política. Isto encontraria sua expressão extrem a entre as duas guerras, no fascism o, cuj os ancestrais ideológicos aí são encontrados. O segundo é a pressuposição, absolutam ente alheia à fase liberal dos m ovim entos nacionais, de que a autodeterm inação nacional, até e inclusive a form ação de Estados soberanos independentes, aplicava-se não apenas a algum as nações que pudessem dem onstrar sua viabilidade econôm ica, política e cultural, m as a todo e qualquer grupo que reivindicasse o título de "nação". A diferença entre a antiga pressuposição e a nova é ilustrada pela diferença entre as doze entidades bastante grandes consideradas com o as que constituíam a "Europa das nações" por Giuseppe Mazzini, o grande profeta do nacionalism o do século XIX, em 1857 (cf. A Era do Capital, cap. 5:1), e os 26 Estados — 27 se incluirm os a Irlanda — que em ergiram do princípio da autodeterm inação nacional, do presidente Wilson, no fim da Prim eira Guerra Mundial. O terceiro era a tendência progressiva para adm itir que a "autodeterm inação nacional" não podia ser satisfeita por qualquer form a de autonom ia inferior à plena independência do Estado. Durante a m aior parte do século XIX a m aioria das reivindicações de autonom ia não havia previsto isso. Finalm ente, havia a nova tendência para definir um a nação em term os étnicos e especialm ente em term os de linguagem .

Antes de m eados da década de 1870 houve Estados, principalm ente os da m etade ocidental da Europa, que se consideravam com o representantes de "nações" (por exem plo, a França, a Inglaterra, a nova Alem anha e a Itália), e Estados que, em bora baseados em algum outro princípio político, eram considerados com o representantes do conj unto principal de seus habitantes, com fundam entos que poderiam ser j ulgados sem elhantes aos nacionais (isso aplica-se aos czares, que certam ente eram obj eto da lealdade do povo da Grande Rússia, por serem governantes russos e ortodoxos). Além dos lim ites do Im pério Habsburgo e talvez do Im pério Otom ano, as num erosas nacionalidades do interior dos Estados estabelecidos não constituíam problem a político m uito grave, especialm ente após haverem sido estabelecidos um Estado alem ão e um italiano. Havia, naturalm ente, os poloneses, divididos entre a Rússia, a Alem anha e a Áustria, e que j am ais perdiam de vista a restauração de um a Polônia independente. Havia, dentro do Reino Unido, os irlandeses. Havia vários blocos de nacionalidades que por um a ou outra razão encontravam -se além das fronteiras da nação-Estado relevante, à qual teriam preferido pertencer, em bora só algum as delas criassem problem as políticos, com o por exem plo os habitantes da Alsácia-Lorena, anexada pela Alem anha em 1871. (Nice e Sabóia, entregues, pelo que m ais tarde seria a Itália, à França, em 1870, não dem onstraram sinais de descontentam ento.)

Não há dúvida de que o núm ero dos m ovim entos nacionalistas aum entou consideravelm ente na Europa da década de 1870 em diante, em bora, de fato, m enos Estados nacionais novos houvessem sido estabelecidos na Europa, durante os quarenta anos precedentes à Prim eira Guerra Mundial do que durante os quarenta anos que precederam a form ação do Im pério Alem ão, e aqueles que foram estabelecidos não eram m uito expressivos: Bulgária (1878),

Noruega (1907), Albânia (1913).[a] Havia agora "m ovim entos nacionais" não apenas entre povos até então considerados não-históricos (ou m elhor, que j am ais antes haviam possuído um Estado independente, um a classe dom inante ou um a elite cultural), tais com o os finlandeses e eslovacos, m as entre povos sobre os quais quase ninguém , a não ser entusiastas de folclore, havia sequer pensado, com o os estonianos e m acedônios. E dentro dos Estados-nação longam ente estabelecidos, as populações regionais com eçavam agora a m obilizar-se politicam ente, com o nações; isto aconteceu em Gales, onde houve um m ovim ento de j ovens galeses, organizado em 1890, sob a liderança de um advogado local, de quem m uito se ouviria falar no futuro — David Lloy d e George; e na Espanha, onde foi form ado um Partido Nacional Basco, em 1894. Por volta dessa m esm a época Theodor Herzl lançou o sionism o entre os j udeus, para os quais a espécie de nacionalism o que isto representava fora até então desconhecida e sem significado.

Muitos desses m ovim entos não contavam ainda com grande apoio entre o povo pelo qual pretendiam falar, em bora a em igração em m assa oferecesse agora aos num erosos m em bros das com unidades atrasadas o poderoso incentivo da nostalgia, para que se identificassem com o que haviam deixado e para que abrissem a m ente a novas idéias políticas. Não obstante, a identificação em m assa com a "nação" certam ente cresceu, e o problem a político do nacionalism o tornou-se provavelm ente m ais difícil de controlar, tanto para os Estados quanto para os com petidores não-nacionalistas. Provavelm ente, a m aior parte dos observadores da cena européia durante os prim eiros anos da década de 1870 acreditou que, após o período da unificação da Itália e da Alem anha e do com prom isso austro-húngaro, o "princípio da nacionalidade" se tornaria talvez m enos explosivo do que havia sido. Mesm o as autoridades austríacas, quando lhes foi solicitada a inclusão de um a pergunta sobre a língua, em seu recenseam ento (m edida recom endada pelo Congresso Internacional de Estatística de 1873), não se negaram a fazê-lo, em bora dem onstrassem pouco entusiasm o. Julgaram , no entanto, que seria preciso dar tem po para que se esfriassem as ardentes paixões nacionalistas dos últim os dez anos. Seria seguro presum ir, im aginaram eles, que isso j á teria acontecido por ocasião do recenseam ento de 1880. Não poderiam estar m ais redondam ente enganados.

Contudo, o que se revelou significativo, a longo prazo, não foi tanto o grau do apoio para a causa nacional, obtido nessa época entre este ou aquele povo, e sim a transform ação da definição e do program a do nacionalism o. Estam os, hoj e em dia, tão habituados à definição étnico-lingüística das nações que olvidam os que essencialm ente ela foi inventada em fins do século XIX. Sem exam inar longam ente o assunto, é suficiente recordar que os ideólogos do m ovim ento irlandês só com eçaram a ligar a causa da nação irlandesa à defesa da língua gaélica algum tem po após a fundação da Liga Gaélica, em 1893; que os bascos não fundam entaram suas reivindicações nacionais em sua língua (de m odo distinto de seus fueros históricos, isto é, privilégios constitucionais), até essa m esm a época; que os acalorados debates sobre se a língua m acedônia é m ais sem elhante à búlgara que à servo-croata estavam entre os últim os argum entos utilizados para decidir a qual desses dois povos os m acedônios deveriam se unir. Com respeito aos j udeus sionistas, eles superaram os dem ais, identificando a nação j udaica com o hebraico, língua que j udeu nenhum j am ais utilizara para fins com uns desde o cativeiro da Babilônia — se é que então o fizeram . Havia acabado de ser inventada (1880) com o língua de uso cotidiano diferente de um a língua sagrada e ritual ou de um a erudita língua franca — por um hom em que iniciara o processo de provê-la com um vocabulário apropriado, inventando um term o hebraico para "nacionalism o"; o idiom a era aprendido m ais com o um distintivo do com prom isso com o sionism o do que com o um m eio de com unicação.

Isso não significa que a linguagem haj a sido anteriorm ente irrelevante com o questão nacional. Era um critério de nacionalidade entre outros; e em geral, quanto m enos conspícuo, m ais forte a identificação das m assas do povo com sua coletividade. A língua não era um cam po de batalha ideológica para aqueles que sim plesm ente a falavam , m esm o porque o exercício de um controle sobre a língua que as m ães falavam com os filhos, os m aridos com as m ulheres e os vizinhos uns com os outros era quase im possível. A linguagem realm ente falada pela m aioria dos j udeus, o ídiche, não tinha praticam ente dim ensão ideológica até que a esquerda não-sionista a adotasse; nem a m aioria dos j udeus que a falavam se im portava com o fato de que m uitas autoridades (inclusive as do Im pério Habsburgo) recusavam -se a aceitá-la m esm o com o língua separada. Milhões de pessoas preferiram tornar-se m em bros da nação am ericana, a qual obviam ente não possuía base étnica única e aprenderam o inglês por necessidade ou por conveniência, sem atribuir aos seus esforços para falar a nova língua nenhum elem ento de alm a nacional ou de continuidade nacional. O nacionalism o lingüístico foi criação de pessoas que escreviam e liam , não de gente que falava. E as "línguas nacionais", nas quais descobriam o caráter essencial das nações, eram com grande freqüência artefatos, um a vez que deviam ser com piladas, padronizadas, hom ogeneizadas e m odernizadas para uso contem porâneo e literário, extraídas que eram do quebra-cabeça dos dialetos locais e regionais que constituíam as línguas não-literárias realm ente faladas. As principais línguas nacionais escritas dos antigos Estados-nação, ou das culturas letradas, haviam passado por essa fase de com pilação e "correção" há m uito tem po: o alem ão e o russo no século XVIII, o francês e o inglês no século XVII, o italiano e o castelhano m ais cedo ainda. Para a m aioria das línguas dos grupos lingüísticos m enores, o século XIX foi a época das grandes "autoridades" que estabeleceram o vocabulário e "corrigiram " o uso de seu idiom a. Para algum as delas — o catalão, o basco e as línguas bálticas — isso aconteceu durante a passagem do século XIX para o século XX.

As linguagens escritas ligam -se íntim a, m as não necessariam ente, aos territórios e instituições. O nacionalism o que estabeleceu a si próprio com o versão padronizada da ideologia e do program a nacional era essencialm ente territorial, um a vez que seu m odelo básico era o Estado territorial da Revolução Francesa, ou, de qualquer m odo, aquele que m ais se aproxim asse de efetivar o controle político sobre um território claram ente definido e seus habitantes, e que estivesse, na prática, disponível. Mais um a vez, o sionism o oferece o exem plo extrem o, precisam ente por ser tão claram ente um program a em prestado, sem precedentes e sem conexão orgânica com a verdadeira tradição que oferecera perm anência, coesão e um a indestrutível identidade ao povo j udeu durante m ilhares de anos. Pedia a eles que adquirissem território (habitado por outro povo) — para Herzl não era sequer necessário que esse território tivesse quaisquer conexões históricas com os j udeus — bem com o um a linguagem que não falavam há m ilhares de anos.

A identificação das nações com um território exclusivo criou tais problem as em am plas áreas do m undo de m igração em m assa, bem com o no m undo não-m igratório, que foi preciso desenvolver um a definição alternativa da nacionalidade, notadam ente no Im pério Habsburgo e entre os j udeus da diáspora. A nacionalidade era aqui considerada inerente, não a um trecho especial do m apa ao qual estaria ligado um conj unto de habitantes, m as aos m em bros desses conj untos, aos hom ens e m ulheres que se considerassem pertencentes a um a nacionalidade, onde quer que por acaso estivessem . Com o tais, esses m em bros de um a nacionalidade gozariam de "autonom ia cultural". Os partidários das teorias hum ana e geográfica da "nação" travavam am argas discussões, especialm ente no m ovim ento socialista internacional e entre sionistas e

m em bros do Bund, entre os j udeus[b]. Nenhum a dessas teorias era particularm ente satisfatória, em bora a hum ana fosse m ais inofensiva. Em todo caso, não levava seus partidários a criar prim eiro um território para depois com prim ir dentro dele os habitantes, dando-lhes a form a nacional certa; ou, nas palavras de Pilsudski, líder da recém -independente Polônia, após 1918: "O Estado é que faz a nação e não a nação, o Estado".

Do ponto de vista sociológico, os não-territorialistas quase certam ente estavam com a razão. Não pelo fato de que hom ens e m ulheres — tirando-se ou acrescentando-se alguns povos nôm ades ou de diáspora — não estivessem profundam ente apegados a algum pedaço de terra ao qual davam o nom e de "lar", especialm ente considerando que durante a m aior parte do decorrer da história a m aioria deles pertenceu àquela m uito enraizada parte da hum anidade, os que vivem da agricultura. Mas este "território natal" se parecia tanto ao território da nação m oderna quanto a palavra father (pai), no m oderno term o fatherland (pátria) refere-se a um pai real. A "terra natal" era o local de um a com unidade real de seres hum anos, que m antinham entre si relações sociais reais e não um a com unidade im aginária que criaria um a espécie de liam e entre os m em bros de um a população de dezenas — hoj e até de centenas — de m ilhões de pessoas. O próprio vocabulário o prova. Em espanhol, patria não se tornou coincidente com Espanha até fins do século XIX. No século XVIII ainda significava sim plesm ente o local ou a cidade em que a pessoa nascera. Paese, em italiano, e pueblo, em espanhol, podem significar e significam ainda

tanto um a aldeia com o o território nacional e seus habitantes[c]. O nacionalism o e o Estado encam param as associações de parentesco de vizinhança e da terra natal, para territórios e populações de dim ensão e escala tais, que as transform aram em m etáforas.

Mas, é claro, com o declínio das verdadeiras com unidades às quais as pessoas se haviam habituado — aldeia e fam ília, paróquia e barrio, guilda, confrarias e outras coisas —, declínio ocorrido por elas não m ais abrangerem , com o haviam feito um dia, a m aioria das contingências da vida das pessoas, seus m em bros sentiram necessidade de algo que lhes tom asse o lugar. A com unidade im aginária da "nação" poderia preencher esse vácuo.

A nação, porém , estava ligada — e inevitavelm ente àquele fenôm eno característico do século XIX, o "Estado-nação". Pois, com respeito à política, Pilsudsky estava certo. O Estado não só fazia a nação m as precisava fazer a nação. Os governos, agora, iam diretam ente alcançar o cidadão no território de sua vida cotidiana, por m eio de agentes m odestos m as onipresentes, desde carteiros e policiais até professores e, em m uitos países, em pregados das estradas de ferro. Poderiam requerer o com prom isso pessoal ativo deles, e circunstancialm ente m esm o o delas, com o Estado: de fato, o "patriotism o" de todos. As autoridades — num a época sem pre m ais dem ocrática, não podendo confiar m ais na subm issão espontânea das ordens sociais aos que lhes eram socialm ente superiores, à m aneira tradicional, ou na religião tradicional, com o garantia eficaz de obediência social — necessitavam de um m odo de ligar os súditos do Estado contra a subversão e a dissidência. "A nação" era a nova religião cívica dos Estados. Oferecia um elem ento de agregação que ligava todos os cidadãos ao Estado, um m odo de trazer o Estado-nação diretam ente a cada um dos cidadãos e um contrapeso aos que apelavam para outras lealdades acim a da lealdade ao Estado — para a religião, para a nacionalidade ou etnia não identificadas com o Estado, e talvez, acim a de tudo, para a classe. Nos Estados constitucionais, quanto m ais as m assas eram trazidas para a política através das eleições, tanto m aior era o cam po em que tais apelos se faziam ouvir.

Além disso, m esm o os Estados não-constitucionais haviam agora aprendido a avaliar a força política que era a capacidade de apelar para seus súditos na base da nacionalidade (um a espécie de apelo dem ocrático, sem os perigos da dem ocracia), bem com o na base do dever de prestarem obediência às autoridades sancionadas por Deus. Na década de 1880, até o czar da Rússia, defrontado com agitações revolucionárias, com eçou a aplicar a política que fora inutilm ente sugerida em 1830 ao seu avô, a saber, a de basear seu governo não apenas nos princípios da autocracia e da ortodoxia, m as igualm ente nos da nacionalidade: ou sej a, apelar aos russos com o russos. É claro que em certo sentido praticam ente todos os m onarcas do século XIX tiveram de envergar o traj e à fantasia nacional, dado que quase nenhum deles havia nascido no país que governava. A grande m aioria dos príncipes e princesas alem ães, que se tornaram os governantes ou consortes dos governantes da Inglaterra, Grécia, Rom ênia, Rússia, Bulgária ou qualquer país que desej asse cabeças coroadas, prestava sua hom enagem ao princípio da nacionalidade, tornando-se inglês, com o a rainha Vitória, ou grego, com o Otto da Baviera, ou aprendendo algum a língua que falava com sotaque, em bora tivessem todos m uito m ais em com um com os dem ais m em bros do sindicato internacional dos príncipes — ou antes, com a fam ília, desde que eram todos aparentados — do que com seus próprios súditos.

O que tornava m ais indispensável ainda o nacionalism o estatal era, ao m esm o tem po, a econom ia de um a era tecnológica e a natureza de sua adm inistração pública e privada, que exigiam educação elem entar em m assa ou pelo m enos alfabetização. O século XIX foi a época em que se rom peu a com unicação oral, à m edida que crescia a distância entre as autoridades e os súditos e a m igração em m assa interpunha dias ou m esm o sem anas de viagem até entre m ães e filhos, noivos e noivas. Do ponto de vista do Estado, a escola tinha ainda outra vantagem essencial: poderia ensinar todas as crianças a serem bons súditos e cidadãos. Até o triunfo da televisão, não houve m eio de propaganda secular que se com parasse à sala de aula.

Em term os educacionais, portanto, a era de 1870 a 1914 foi, na m aioria dos países europeus, acim a de tudo a era da escola prim ária. Mesm o em países reconhecidam ente escolarizados, o núm ero de professores de escola prim ária m ultiplicou-se. Triplicou na Suécia e cresceu quase de igual m odo na Noruega. Países relativam ente atrasados quiseram alcançá-los. Dobrou o núm ero de crianças de escola prim ária nos Países Baixos; no Reino Unido (que não possuíra sistem a educacional público até 1870) esse núm ero triplicou; na Finlândia aum entou treze vezes. Mesm o nos Bálcãs, terra de analfabetos, quadruplicou o núm ero de crianças em escolas prim árias, e o núm ero de professores quase triplicou. Mas um sistem a escolar nacional, ou sej a, um sistem a predom inantem ente organizado e supervisionado pelo Estado necessitava de um a língua nacional para a instrução. A educação reuniu-se aos tribunais e à burocracia (cf. A Era do Capital, cap. 5) com o a força que tornaria a língua a condição principal da nacionalidade.

Os Estados, portanto, criaram "nações", ou sej a, o patriotism o nacional e, pelo m enos para certos fins, cidadãos lingüística e adm inistrativam ente hom ogeneizados, com especial urgência e zelo. A República Francesa transform ou cam poneses em franceses. O reino italiano, inspirando-se no slogan de D'Azeglio (cf. A Era do Capital, cap. 5:2), fez o m elhor que pôde, com duvidoso êxito, para "fazer italianos" por m eio da escola e do serviço m ilitar, após ter "feito a Itália". Os EUA tornaram o conhecim ento da língua inglesa condição da cidadania am ericana e, de fins da década de 1880 em diante, com eçaram a introduzir um culto real na sua nova religião cívica a única perm itida em sua constituição agnóstica — sob a form a de um ritual diário de hom enagem à bandeira, em toda escola am ericana. O Estado húngaro fez o possível para transform ar em m agiares os m ultinacionais habitantes de suas terras; o Estado russo pressionou pela russificação de suas nacionalidades m enores, ou antes, tentou dar à língua russa o m onopólio da educação. E onde a m ultinacionalidade era suficientem ente reconhecida para perm itir a instrução prim ária ou m esm o a secundária, em qualquer outro vernáculo (com o no Im pério Habsburgo), a língua estatal inevitavelm ente gozava de vantagens decisivas nos m ais altos escalões do sistem a. Daí a significação, para as nacionalidades não-estatais, da luta pela universidade própria, com o aconteceu na Boêm ia, em Gales e em Flandres.