A Era dos Impérios 1875-1914

Eric J. Hobsbawm · Capítulo 24 de 51

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A Era dos Impérios 1875-1914

Capítulo 7 | Quem é quem ou as incertezas da burguesia

CAPÍTULO 7

 

QUEM É QUEM OU AS INCERTEZAS DA BURGUESIA

 

No sentido mais amplo possível... o Eu de um homem é a soma, o total do que ele pode chamar seu, não apenas seu corpo e suas forças psíquicas, mas suas roupas e sua casa, sua mulher e seus filhos, seus ancestrais e seus amigos, sua reputação, suas obras, suas terras e seus cavalos, seu iate e sua conta de banco.

William Jam es

 

Com imenso prazer... começam a fazer compras... e mergulham nisso como quem imerge numa carreira; como classe, falam, pensam e sonham com a posse.

H. G. Wells, 1909

 

O Colégio foi fundado pela recomendação e conselho da querida esposa do fundador... para oferecer a melhor educação às mulheres da Classe Alta e da Classe Média Alta.

Da Escritura da Fundação do Colégio Holloway , 1883

 

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Voltem o-nos agora para aqueles a quem aparentem ente a dem ocratização am eaçava. Nesse século da burguesia triunfante, os m em bros das bem -sucedidas classes m édias estavam certos da própria civilização; de m odo geral, eram seguros e não costum avam lutar com dificuldades financeiras; todavia, apenas ao findar o século sentiram fisicam ente o conforto. Haviam vivido, até então, bastante bem , rodeados de um a profusão de obj etos sólidos e enfeitados, envolvidos em grande quantidade de tecidos, podendo perm itir-se tudo que consideravam apropriado a pessoas de sua posição social e inapropriado aos seus inferiores, consum indo alim entos e bebidas em quantidades substanciais, provavelm ente excessivas. Com ida e bebida, pelo m enos em alguns países, eram excelentes: cuisine bourgeoise, na França, era term o gastronom icam ente elogioso.

Em outras partes, com ida e bebida eram , pelo m enos, abundantes. Um am plo suprim ento de em pregados com pensava o desconforto e im praticabilidade da casa burguesa. Não os podia, no entanto, ocultar. Só tardiam ente, ao findar do século, é que a sociedade burguesa desenvolveu um estilo de vida e o equipam ento m aterial apropriado e realm ente destinado a aj ustar-se às necessidades da classe, que supostam ente lhe form ava a espinha dorsal: hom ens de negócios, as profissões liberais ou os m ais altos escalões do serviço público, com suas fam ílias. Estas não aspiravam nem necessariam ente esperavam adquirir o status da aristocracia, ou as recom pensas m ateriais dos m uito ricos, m as se situavam bem acim a da faixa em que a com pra de um a coisa significava a renúncia a outra.

O paradoxo do m ais burguês dos séculos consistia em que seus estilos de vida só se tornaram burgueses m ais tarde; que esta transform ação foi iniciada antes na sua periferia do que no seu centro; e que, com o m odo de vida especificam ente burguês, seu triunfo foi apenas m om entâneo. Talvez por isso os sobreviventes olhassem com tanta freqüência e nostalgia para a era que precedeu a 1914, cham ando-a de belle époque. Com eçarem os o exam e daquilo que aconteceu às classes m édias do período a partir da consideração desse paradoxo.

Esse novo estilo de vida era o da casa e j ardim suburbanos, que de longa data deixara de ser especificam ente estilo burguês, exceto com o índice de aspiração. Com o tantas outras coisas, na sociedade burguesa, ele procedeu do clássico país do capitalism o, a Inglaterra. É possível identificá-lo, em prim eiro lugar, nos subúrbios aj ardinados, construídos por arquitetos com o Norm an Shaw, na década de 1870, para fam ílias endinheiradas da classe m édia, m as não especialm ente ricas (Bedford Park). Colônias desse tipo, geralm ente destinadas a estratos bem m ais ricos que seus equivalentes ingleses, desenvolveram -se nas cercanias das cidades da Europa central — o Cottage Viertel , em Viena, Dahlem e o Grunewald Viertel, em Berlim — e finalm ente decaíram socialm ente, tornando-se subúrbios da classe m édia baixa ou um labirinto de "pavilhões" sem planej am ento nos arredores das cidades grandes. Eventualm ente, por m eio da especulação dos construtores e dos planej adores urbanos com ideais sociais, transform aram -se em ruas e colônias de casas gem inadas, destinadas a recapturar o espírito da aldeia e da cidade pequena (Siedlungen, ou "povoam entos", seria o significativo term o alem ão para elas) — com o as habitações m unicipais para operários m ais endinheirados, j á no século XX. A casa ideal, para a classe m édia, j á não fazia parte de um a rua da cidade, um a "casa de cidade", nem seu substituto, o apartam ento em um grande edifício de frente para um a rua da cidade e pretendendo ser um palácio; era um a casa de cam po urbanizada, ou, antes, suburbanizada (um a villa ou m esm o um cottage) num parque ou j ardim em m iniatura, rodeado de verde. Iria se revelar com o um ideal de vida im ensam ente poderoso, em bora ainda não aplicável na m aior parte das cidades não anglo-saxônicas.

A villa distinguia-se de seu m odelo original — a casa de cam po dos nobres ou dos grandes proprietários — por um aspecto im portante, independentem ente de sua dim ensão e custo m ais m odestos e passíveis de redução. Era antes planej ada para as conveniências da vida privada e não para a luta pelo status social e para a representação. Na realidade, o fato de tais colônias serem , em larga m edida, com unidades destinadas a um a única classe, topograficam ente isoladas do resto da sociedade, tornava m ais fácil a concentração nos confortos de vida. Esse isolam ento surgia m esm o quando não era intencional: as "cidades-j ardim " e os "subúrbios-j ardim ", planej ados por proj etistas anglo-saxões socialm ente idealistas, seguiram o m esm o cam inho dos subúrbios construídos especificam ente para rem over as classes m édias da proxim idade de seus inferiores. Esse êxodo, por si, indicava certa abdicação da burguesia de seu papel de classe dirigente. "Boston", diziam os ricos da cidade aos seus filhos, por volta de 1900, "nada lhes oferecerá exceto pesados im postos e desordem política. Quando vocês se casarem , procurem construir casa num subúrbio, entrem para o clube de cam po e façam com que sua vida se concentre em seu clube, na sua casa e nos seus filhos".

Esse era, porém , o oposto da função da casa de cam po ou castelo tradicionais ou m esm o da função de sua rival e im itadora burguesa, a m ansão do grande capitalista — da Villa Hügel, dos Krupp, ou de Bankfield House e Belle Vue, dos Ackroy ds e Crossley s, que dom inavam a vida da enfum açada cidade da lã, Halifax. Essas residências eram o revestim ento da m áquina do poder. Eram destinadas a dem onstrar os recursos e o prestígio de um m em bro da elite dirigente aos outros m em bros e às classes inferiores, bem com o a organizar o j ogo de influências e dom ínio. Se gabinetes eram estruturados na casa de cam po do duque de Om nium , tam bém John Crossley, dos tapetes Crossley, pelo m enos convidava quarenta e nove colegas seus do Conselho da Municipalidade de Halifax para passar três dias em sua casa no Lake District, por ocasião de seu qüinquagésim o aniversário; e recebia o príncipe de Gales para a inauguração da m unicipalidade de Halifax. Nessas residências, a vida privada era inseparável da pública, e tinha funções reconhecidas, por assim dizer, diplom áticas, políticas e públicas, cuj as exigências tinham precedência sobre os confortos dom ésticos. É inim aginável que os Akroy ds m andassem construir um a grandiosa escadaria pintada com cenas clássicas da m itologia, um a sala de banquetes com pinturas, um a sala de j antar, um a biblioteca e um conj unto de nove salas de recepção, ou m esm o um a ala de em pregados para vinte e cinco pessoas, som ente para uso fam iliar. O fidalgo, em sua casa de cam po, não podia esquivar-se ao exercício do poder e da influência, no seu condado, m ais que o m agnata de negócios local, em Bury ou em Zwickau. Na verdade, enquanto m orasse na cidade, por definição e im agem da hierarquia social urbana, m esm o um m em bro m ediano da burguesia dificilm ente poderia deixar de indicar — ou m elhor, de sublinhar — o lugar que nela ocupava pela escolha de seu endereço ou, pelo m enos, pela dim ensão de seu apartam ento, pelo andar que ocupava no edifício, pelo grau de servidão de que poderia dispor e pelas form alidades de seu trato e intercâm bio social. A fam ília de um corretor de bolsa eduardiano, recordada m ais tarde por um filho dissidente, era inferior aos Forsy te porque sua casa não tinha vista tão am pla para Kensington Gardens, em bora não estivesse tão distante deste a ponto de perder status. A estação londrina estava, m as a m ãe "estava em casa" form alm ente, todas as tardes, e organizava recepções à noite com um a "orquestra húngara" alugada nas Loj as Universais Whiteley ; além disso, oferecia ou com parecia a j antares quase diariam ente, à hora estabelecida, durante os m eses de m aio e j unho. A vida privada e a apresentação pública do status e das exigências sociais não se podiam separar.

As classes m édias do período pré-industrial, que ascendiam m odestam ente, eram em sua m aior parte excluídas de tais ostentações pelo seu status social inferior, se bem que respeitável, ou por suas convicções puritanas ou pietistas, para não m encionar os im perativos da acum ulação de capital. Foram a prosperidade e o crescim ento econôm ico de m eados do século que as colocaram ao alcance do êxito, ao m esm o tem po que lhes im punham um estilo de vida m odelado segundo o das antigas elites. Todavia, nesse m om ento de triunfo, quatro fatores estim ularam a form ação de um estilo de vida m enos form al e m ais genuinam ente privado e privatizado.

O prim eiro deles, conform e verificam os, foi a dem ocratização política, que solapou a influência pública e política de todos os burgueses, exceto os m ais ricos. Em alguns casos, a burguesia (em sua m aior parte liberal) foi, de fato, forçada a retirar-se com pletam ente da política, dom inada por m ovim entos de m assas ou por m assas de eleitores que se recusavam a lhe reconhecer a "influência", quando esta não era dirigida diretam ente contra ela. A cultura da Viena fin de siècle, conform e j á se argum entou, era, em am pla m edida, a cultura de um a classe e de um povo — os j udeus da classe m édia — aos quais j á não era perm itido ser aquilo que queriam ser — alem ães liberais — e que não encontrariam m uitos seguidores, m esm o com o burguesia liberal não-j udia. A cultura dos Buddenbrook e a de Thom as Mann, seu autor — filho de um patrício de antiga e altiva cidade de com erciantes hanseáticos —, é a de um a burguesia que se retirou da política. Os Cabot e Lowell, de Boston, em bora longe de serem expulsos da política nacional, perderam para os irlandeses o controle político de sua cidade. Desde 1890, desm antelava-se a paternalista "cultura de fábrica" do norte da Inglaterra; era um a cultura na qual os operários podiam ser sindicalistas, m as que celebravam o aniversário dos em pregadores, cuj as cores políticas eram as suas. Um a das razões pelas quais em ergiu o Partido Trabalhista, após 1900, é terem -se recusado os hom ens influentes dos distritos eleitorais da classe operária, isto é, a burguesia local, a abrir m ão do direito de nom ear os "notáveis" do local (ou sej a, gente igual a eles próprios) para o Parlam ento e o conselho, na década de 1890. Se a burguesia reteve seu poder político, daí em diante, foi por m obilizar influência e não seguidores.

O segundo fator foi um certo afrouxam ento dos liam es entre a burguesia triunfante e os valores puritanos que haviam sido anteriorm ente tão úteis para a acum ulação do capital, e por m eio dos quais a classe havia freqüentem ente se identificado e estabelecido a distância que a separava da ociosa e dissoluta aristocracia e dos bêbados e preguiçosos operários. Entre a burguesia estabelecida o dinheiro j á havia sido ganho. Poderia provir não diretam ente de sua fonte, m as de pagam entos regulares recebidos m ediante pedaços de papel que representavam "investim entos", cuj a natureza poderia ser obscura, m esm o quando não se originassem de algum a rem ota região do globo, distantes dos condados ao redor de Londres. Freqüentem ente era herdado ou distribuído aos filhos ociosos e às m ulheres da fam ília. Grande parte da burguesia do final do século XIX consistia na "classe ociosa", nom e inventado a esta altura por um sociólogo am ericano apartidário, de grande originalidade, Thorstein Veblen, que sobre ela escreveu um a "Teoria". E m esm o aqueles que ganhavam dinheiro não precisavam dedicar a isso m uito tem po, pelo m enos no caso de o fazerem nos bancos (europeus), nas finanças e nas especulações. Na Inglaterra, em todos os casos, essas atividades deixavam bastante tem po para se cultivar outros interesses. Em sum a, gastar tornou-se pelo m enos tão im portante quanto ganhar. Não era necessário gastar prodigam ente com o os ultra-ricos, dos quais efetivam ente havia m uitos, na belle époque. Mesm o os relativam ente m enos opulentos aprendiam a gastar para o próprio conforto e prazer.

O terceiro fator foi o afrouxam ento das estruturas da fam ília burguesa, refletida em um a definida em ancipação fem inina (que exam inarem os no próxim o capítulo) e o surgim ento de grupos de idade situados entre a adolescência e o casam ento com o categoria separada e m ais independente de "j uventude" que, por sua vez, teve poderoso im pacto nas artes e na literatura (cf. cap. 9). As palavras "j uventude" e "m odernidade" tornaram -se às vezes quase intercam biáveis; e se "m odernidade" significava algo, era um a m udança do gosto, da decoração e do estilo. Estes dois acontecim entos se tornaram visíveis durante a segunda m etade do século entre as classes m édias estabelecidas, e óbvios durante as duas últim as décadas. Não afetaram apenas aquela form a de lazer que assum ira a form a de viagens e turism o — conform e o dem onstra corretam ente Morte em Veneza , de Visconti, onde o grande hotel de praia ou de m ontanha, que entrava então em sua fase gloriosa, era dom inado pela im agem das m ulheres que hospedava —, m as acentuaram grandem ente o papel do lar burguês com o cenário para a m ulher.