A Era dos Impérios 1875-1914
Capítulo 2
Não é preciso que com partilhem os desse otim ism o que, m anifestam ente, estava m al situado. Não obstante, durante os anos que precederam 1914, tornou-se evidente que m esm o os partidos m ais m iraculosam ente bem -sucedidos ainda possuíam grandes reservas de apoio em potencial para m obilizar, o que na verdade estavam fazendo. É natural, aliás, que o extraordinário crescim ento dos partidos socialistas e operários desde a década de 1880 haj a infundido em seus m em bros e seguidores, bem com o em seus líderes, um sentim ento de exaltação, de esperança m aravilhosa, da inevitabilidade histórica de seu triunfo. Jam ais houvera época tão repleta de esperanças para aqueles que labutam com suas m ãos, num a fábrica, num a oficina ou nas m inas. Nas palavras de um a canção socialista russa: "Do passado som brio resplandece a luz brilhante do futuro".
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Esse notável im pulso ascendente dos partidos da classe operária era, à prim eira vista, um tanto surpreendente. Sua força residia essencialm ente na elem entar sim plicidade de seu apelo apolítico. Eram esses os partidos de todos os operários m anuais, que trabalhavam por um salário. Representavam essa classe, em suas lutas contra os capitalistas e seus Estados; seu obj etivo era criar um a nova sociedade, que teria início com a em ancipação dos trabalhadores por sua própria iniciativa, e que em anciparia toda a raça rum ana, à exceção de um a m inoria cada vez m ais insignificante de exploradores. A doutrina do m arxism o, form ulada com o tal entre a m orte de Marx e o fim do século, crescentem ente dom inava a m aioria dos novos partidos; a clareza com que enunciava suas proposições a dotava de um enorm e poder de penetração política. Era suficiente saber que todos os trabalhadores deviam se unir ou apoiar esses partidos, pois a própria história lhes garantiria a vitória futura.
Isso pressupunha que existisse um a classe operária suficientem ente num erosa e hom ogênea para reconhecer a si própria na im agem m arxista do "proletariado"; e suficientem ente convencida da validade da análise socialista de sua situação e de suas tarefas, das quais a prim eira era form ar um partido proletário e, independentem ente de qualquer outra coisa, engaj ar-se na ação política. (Nem todos os revolucionários concordavam com tal prim azia da política, m as no m om ento pode-se deixar de lado esta m inoria antipolítica, principalm ente inspirada em idéias então associadas ao anarquism o.)
Praticam ente, porém , todos os observadores concordavam em que o "proletariado" estava longe de ser um a m assa hom ogênea, m esm o dentro de um a só nação. Na verdade, antes do surgim ento dos novos partidos, havia-se falado, habitualm ente, em "classes trabalhadoras" no plural e j am ais no singular.
As divisões no interior das m assas classificadas pelos socialistas sob o título de "proletariado" eram , na verdade, tão im portantes que se poderiam constituir num em pecilho a qualquer asserção prática de um a consciência de classe única e unificada.
O clássico proletariado da m oderna fábrica ou estabelecim ento industrial, freqüentem ente um a m inoria ainda pequena, em bora em rápido aum ento, estava longe de ser idêntico ao grosso dos trabalhadores m anuais que trabalhavam em pequenas oficinas, na produção dom iciliar da zona rural e dos fundos de casas da cidade ou até ao ar livre; e tam bém da labiríntica selva de assalariados que abarrotavam as cidades e — m esm o deixando de lado os da lavoura — o cam po. As ocupações industriais, os ofícios e as dem ais atividades, com freqüência extrem am ente localizadas e com horizontes geográficos altam ente restritos, não consideravam ser seus problem as e sua situação os m esm os. Quanto haveria de com um , digam os, entre os caldeireiros, exclusivam ente do sexo m asculino, e as tecelãs de algodão, da Inglaterra, na m aioria m ulheres; ou, dentro das m esm as cidades portuárias, entre os operários especializados dos estaleiros e os estivadores; ou entre operários da confecção e os da construção civil? Essas divisões não eram apenas verticais, m as horizontais: entre trabalhadores de ofício e operários, entre pessoas e ocupações "respeitáveis" (que se respeitavam e eram respeitados) e o resto — entre a aristocracia do trabalho, o lumpenproletariat e os que se situavam entre am bos, ou m esm o entre diferentes estratos de ofícios especializados — em que o com positor-tipógrafo olhava de cim a para o pedreiro e o pedreiro fazia o m esm o para o pintor de casas. Havia, além disso, não apenas divisões m as rivalidades entre grupos equivalentes, cada qual em busca do m onopólio de um tipo especial de trabalho; e tais rivalidades eram exasperadas pelos desenvolvim entos tecnológicos, que transform avam antigos processos, criavam novos, tornavam irrelevantes as antigas especialidades e invalidavam as definições claras e tradicionais daquilo que "por direito" pertencia às funções, digam os, do serralheiro ou do ferrador. Onde os em pregadores eram fortes e os operários eram fracos, a gerência, por m eio das m áquinas e do m ando, im punha sua própria divisão de trabalho; m as em outras partes os operários qualificados talvez travassem aquelas am argas "disputas de dem arcação" que agitaram os estaleiros ingleses, notadam ente na década de 1890, não raro lançando operários não envolvidos nas greves interocupacionais num a ociosidade incontrolável e im erecida.
A todas essas diferenças acrescentavam -se outras, ainda m ais óbvias, de origem social e geográfica, de nacionalidade, de língua, de cultura e de religião, às quais não podiam deixar de em ergir à proporção que a indústria recrutava seus efetivos, que tão rapidam ente aum entavam , em todos os cantos do próprio país e m esm o, nessa era de m aciça m igração internacional e transoceânica, no estrangeiro. Aquilo, portanto, que de um ponto de vista poderia parecer um a concentração de hom ens e m ulheres num a única "classe operária" seria talvez considerado, de outro, com o gigantesca dispersão de fragm entos da sociedade, um a diáspora de velhas e novas com unidades. Na m edida em que tais divisões separavam os operários, evidentem ente elas eram úteis para os em pregadores e m esm o estim uladas por eles — em especial nos EUA, onde o proletariado, em sua m aior parte, consistia num a grande variedade de im igrantes. Mesm o um a entidade intensam ente m ilitante com o a Western Federation of Miners (Federação dos Mineiros do Oeste), das Montanhas Rochosas, corria perigo de fragm entar-se, devido aos conflitos entre os trabalhadores m etodistas e qualificados da Cornualha, especializados em pedras duras, encontrados em qualquer parte da terra em que houvesse m ineração com ercial de m etal, e os irlandeses católicos, m enos qualificados, encontrados onde quer que houvesse necessidade de força e trabalho duro nas fronteiras do m undo de língua inglesa.
Houvesse ou não outras diferenças no interior da classe operária, não cabia dúvida de que as diferenças de nacionalidade, religião e língua a dividiam . O caso clássico da Irlanda é tragicam ente fam iliar. Mesm o na Alem anha, os operários católicos resistiam ao apelo da social-dem ocracia m uito m ais que os protestantes; e na Boêm ia, os operários tchecos resistiram à integração proposta em um m ovim ento pan-austríaco dom inado por operários de língua alem ã. O entusiástico internacionalism o dos socialistas — os operários, havia-lhes dito Marx, não tinham pátria, apenas classe — atraía os m ovim entos operários, não apenas pelo seu ideal, m as por ser com freqüência a condição prévia essencial para a ação. De outro m odo, com o poderiam os operários ser m obilizados com o tais num a cidade igual a Viena, onde um terço deles era de em igrados tchecos; ou em Budapeste, onde os operários qualificados eram alem ães e os dem ais, eslovacos ou m agiares? O grande centro industrial de Belfast dem onstrava — e dem onstra ainda — o que pode acontecer quando os operários se identificam principalm ente com o católicos ou protestantes ou m esm o com o irlandeses e não com o operários.
Afortunadam ente, o apelo ao internacionalism o ou, o que era quase a m esm a coisa nos países grandes, ao inter-regionalism o, não ficou totalm ente sem efeito. As diferenças de língua, de nacionalidade ou de religião, por si m esm as, não im possibilitavam a form ação de um a consciência de classe unificada, especialm ente onde grupos nacionais de operários não com petissem , tendo cada qual seu nicho no m ercado de trabalho. Criavam im portantes dificuldades apenas onde expressassem ou onde sim bolizassem conflitos graves entre grupos que iam além dos lim ites de classe; ou diferenças do interior da classe operária que eram , aparentem ente, incom patíveis com a unidade dos operários. Os operários tchecos suspeitavam dos alem ães, não com o operários e sim com o m em bros de um a nação que tratava os tchecos com o inferiores. Os operários irlandeses católicos no Ulster não se deixavam im pressionar por apelos pela unidade da classe, ao verem os católicos crescentem ente excluídos, entre 1890 e 1914, dos em pregos qualificados na indústria, os quais, por esse m otivo, haviam -se tornado virtual m onopólio dos operários protestantes, com a aprovação de seus sindicatos. Mesm o assim , tal era a força da experiência de classe que a identificação alternativa do operário com algum outro grupo, em classes operárias plurais — com o polonês, com o católico, ou outra coisa —, apenas estreitava a identificação de classe, sem a substituir. Um a pessoa sentia-se operário, m as especificam ente operário tcheco, polonês ou católico. A Igrej a Católica, a despeito da profunda hostilidade que nutria para com a divisão e o conflito entre classes, foi obrigada a form ar, ou pelo m enos a tolerar, sindicatos e até sindicatos católicos — nessa época não m uito grandes — em bora preferisse organizações conj untas de em pregadores e em pregados. O que as identificações alternativas realm ente excluíram não foi a consciência de classe com o tal, m as a consciência política de classe. Assim , houve um m ovim ento sindicalista, e as habituais tendências de form ar um partido trabalhista, m esm o no sectário cam po de batalha que era o Ulster. Mas a unidade dos operários só era possível na m edida em que as duas questões dom inantes da existência e do debate político fossem excluídas da discussão: a religião e a autonom ia para a Irlanda, sobre as quais os operários católicos e os protestantes, os green e os orange (os verdes e os cor-de-laranj a), não conseguiam entrar em acordo. Algum tipo de m ovim ento sindical e de luta industrial seria possível, sob tais circunstâncias, m as nunca — exceto dentro de cada com unidade e portanto débil e interm itentem ente — um partido baseado na identificação de classe.
Acrescente-se a esses fatores, que dificultavam a tom ada de consciência e a organização da classe operária, a estrutura heterogênea da própria econom ia industrial em seu desenvolvim ento. Nesse particular a Inglaterra era absolutam ente excepcional, visto lá existir um forte sentim ento apolítico de classe e um a organização sindical. A sim ples antigüidade — e arcaísm o da industrialização pioneira desse país perm itira um sindicalism o um tanto prim itivo e bastante descentralizado, em grande parte com posto de sindicatos de ofícios, que aprofundara suas raízes nas indústrias básicas do país, as quais — por diversas razões — se desenvolveram m enos pela substituição da m aquinaria por trabalho hum ano que por um casam ento de operações m anuais com energia a vapor. Em todas as grandes indústrias da antiga "oficina do m undo" — a do algodão, a da m ineração, a da m etalurgia, a da construção de m aquinaria e de navios (últim a indústria que a Inglaterra dom inou) — existia um núcleo de organização sindical baseado principalm ente nas ocupações e nos ofícios, sobretudo com a capacidade de se transform ar em sindicalism o de m assas. Entre 1867 e 1875, os sindicatos adquiriram realm ente status legal e privilégios de tal alcance que nem os m ais m ilitantes dos em pregadores nem os governos conservadores nem os j uízes conseguiram reduzi-los ou aboli-los até a década de 1980. A organização sindical não estava sim plesm ente presente e aceita; era poderosa, especialm ente no local de trabalho. Esse excepcional e m esm o único poder operário criaria, no futuro, problem as crescentes para a econom ia industrial britânica; e na verdade, m esm o durante nosso período, criou grandes dificuldades para os industriais que desej avam m ecanizá-lo ou adm inistrá-lo. Antes de 1914, os industriais m alograram nos casos m ais decisivos, m as para nossos propósitos é suficiente anotar a anom alia da Inglaterra a esse respeito. A pressão política pode aj udar a reforçar o poder de fábrica, sem que efetivam ente tenha que substituí-lo.
Em outros lugares a situação era bastante diversa. De m odo geral, os sindicatos funcionavam apenas à m argem da indústria m oderna, especialm ente a de grande escala: em oficinas, nos canteiros de obras e em pequenas e m édias em presas. A organização, em teoria, podia ser nacional, m as na prática era extrem am ente localizada e descentralizada. Em países com o a França e a Itália, seus agrupam entos efetivos eram as alianças entre pequenos sindicatos locais, agrupados em volta de salões operários locais. A federação sindical nacional francesa (CGT) requeria apenas um m ínim o de três sindicatos locais para constituir um sindicato nacional. Nas grandes fábricas da m oderna indústria os sindicatos eram desim portantes. Na Alem anha, a força da social-dem ocracia; com seus "sindicatos livres", não se fazia sentir nas indústrias pesadas da região do Reno e do Ruhr. Nos EUA, o sindicalism o nas grandes indústrias foi virtualm ente elim inado na década de 1890 — e não retornaria antes da década de 1930 —, m as sobreviveu nas indústrias de pequeno porte e nos sindicatos de ofício da construção civil, protegido pelo localism o do m ercado das grandes cidades, onde a rápida urbanização, para não m encionar a política do suborno e dos contratos da m unicipalidade, proporcionava m aior cam po de ação. A única alternativa real ao sindicato local de pequenos grupos de trabalho organizado e ao sindicato de ofício (de operários em sua m aioria qualificados) era a m obilização, ocasional e raram ente perm anente, de m assas de trabalhadores em greves interm itentes; m as isso era tam bém quase sem pre localizado.
Houve algum as extraordinárias exceções, entre as quais distinguiram -se os m ineiros, por sua verdadeira diferença em relação aos carpinteiros e charuteiros, os ferreiros-m ecânicos, os tipógrafos e os dem ais artesãos assalariados que form avam os quadros norm ais da classe operária dos novos m ovim entos proletários. De um m odo ou de outro, essas m assas de hom ens robustos que trabalhavam nas trevas, quase sem pre m orando com suas fam ílias em com unidades isoladas e tão im peditivas e áridas quanto suas m inas, ligados entre si pela solidariedade do trabalho e da com unidade e pela dura e perigosa atividade, m ostravam um a m arcante propensão para engaj ar-se em lutas coletivas; m esm o na França e nos EUA, os m ineiros de carvão
form aram , pelo m enos interm itentem ente, poderosos sindicatos[b]. Dada a dim ensão do proletariado das m inas e suas notáveis concentrações regionais, seu papel potencial nos m ovim entos operários — e na Inglaterra, real — poderia ser enorm e.
Dois outros setores parcialm ente im bricados do sindicalism o não artesanal m erecem atenção: o dos transportes e o dos funcionários públicos. Os servidores do Estado eram ainda excluídos das organizações operárias — até na França que, m ais tarde, seria o baluarte dos sindicatos de servidores públicos — o que retardou de m odo m arcante a sindicalização das estradas de ferro, freqüentem ente de propriedade do Estado. Contudo, m esm o as estradas de ferro particulares revelaram -se difíceis de serem organizadas, fora dos am plos e pouco populosos espaços, onde o fato de serem indispensáveis oferecia um a considerável vantagem estratégica àqueles que nelas se em pregavam , especialm ente aos m aquinistas e aos tripulantes dos trens. As com panhias de estradas de ferro eram , de longe, as m aiores em presas da econom ia capitalista e quase im possíveis de sindicalizar, exceto no conj unto daquilo que poderia ser um a rede de extensão quase igual à do país: em 1890, a London and Nort Western Railway Company (Com panhia de Estradas de Ferro de Londres e do Noroeste), por exem plo, controlava 65 m il operários, num sistem a de 7 m il quilôm etros de linha e 800 estações.
Em contraste, o outro setor chave dos transportes, o m arítim o, era extrem am ente localizado nos portos de m ar e em torno deles, onde, por sua vez, toda a econom ia tendia a circular. Aqui, portanto, qualquer greve nas docas propendia a tornar-se um a greve geral dos transportes que, a seu turno, poderia vir a ser um a greve geral. As greves gerais econôm icas, que se m ultiplicaram
nos prim eiros anos do novo século[c] — e conduziram a exaltados debates dentro do m ovim ento socialista —, eram , portanto, principalm ente as que tiveram lugar nas cidades portuárias: em Trieste, Gênova, Marselha, Barcelona, Am sterdã. Foram batalhas gigantescas m as im prováveis, com o tal, de conduzir a um a organização sindical perm anente de m assas, dada a heterogeneidade de um a força de trabalho freqüentem ente não-especializada. Todavia, os transportes por estrada de ferro e por m ar, em bora m uito diferentes, tinham em com um sua crucial im portância estratégica para as econom ias das nações, que se poderiam paralisar, caso eles cessassem . À m edida que cresciam os m ovim entos operários, os governos tom avam consciência crescente desse potencial estrangulam ento e elaboravam as possíveis contram edidas: destas, a decisão do governo francês de derrotar um a greve geral de estradas de ferro, em 1910, por m eio do alistam ento de 150 m il ferroviários ou, m ais precisam ente, de os colocar sob disciplina m ilitar, é o m ais drástico exem plo.
Entretanto, tam bém os em pregadores particulares reconheciam o papel estratégico do setor de transportes. A contra-ofensiva à onda de sindicalização, na Inglaterra, em 1889-1890 (a qual, por sua vez, fora lançada por greves de m arinheiros e doqueiros), teve início com um a batalha contra os ferroviários escoceses e um a série de batalhas contra a m aciça m as instável sindicalização dos grandes portos de m ar. Inversam ente, a ofensiva operária desencadeada às vésperas da guerra m undial planej ou sua própria força estratégica de choque, a Tríplice Aliança dos m ineiros de carvão, dos ferroviários e da federação dos trabalhadores nos transportes (ou sej a, dos em pregados nos portos). O transporte era agora claram ente considerado elem ento crucial na luta de classes.