A Era dos Impérios 1875-1914

Eric J. Hobsbawm · Capítulo 20 de 51

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A Era dos Impérios 1875-1914

Capítulo 5

Seria isso revolucionário? Quase certam ente não, no sentido insurrecional, a j ulgar pelo com portam ento da m aioria do m ais forte dos partidos socialistas revolucionários, o SPD alem ão. Mas existia na Europa um vasto cinturão sem icircular de pobreza e inquietação, no qual a revolução efetivam ente estava na agenda, e — pelo m enos num a de suas partes — realm ente irrom peu. Estendia-se a partir da Espanha, passando por grande parte da Itália, e dirigia-se ao Im pério Russo, através da península balcânica. A revolução em igrava da Europa ocidental para a oriental, em nosso período. Exam inarem os a sorte da zona revolucionária do continente e do globo, logo abaixo. Aqui notarem os apenas que, no Leste, o m arxism o reteve suas conotações explosivas originais. Após a Revolução Russa, retornou ao Ocidente e expandiu-se novam ente para o Leste, com o a quintessência da ideologia da revolução social, assim perm anecendo durante grande parte do século XX. Entretanto, a brecha na com unicação entre socialistas que usavam a m esm a linguagem teórica alargava-se quase sem que o percebessem , até que sua dim ensão foi subitam ente revelada na explosão da guerra de 1914, quando Lenin, de longa data adm irador da ortodoxia social-dem ocrata alem ã, descobriu que seu principal teórico era um traidor.

 

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Em bora na m aioria dos países os partidos socialistas, a despeito de divisões nacionais e confessionais, evidentem ente estivessem a cam inho de m obilizar a m aioria das classes trabalhadoras, era inegável que, salvo na Inglaterra, o proletariado não era — ou, com o afirm avam confiantes os socialistas, "não era ainda" — nem de longe a m aioria da população. Assim que os partidos socialistas adquiriram base de m assa, deixando de ser seitas de propaganda e agitação, ou grupos de quadros ou dispersos baluartes locais de convertidos, tornava-se evidente que não podiam confinar sua atenção exclusivam ente à classe operária. O debate intensivo sobre a "questão agrária", que se iniciou entre os m arxistas em m eados da década de 1890, reflete precisam ente essa descoberta. Em bora "o cam pesinato" estivesse, sem dúvida, destinado a desaparecer (conform e corretam ente argum entavam os m arxistas, pois isto tem finalm ente se verificado no final do século XX), o que poderia ou deveria o socialism o oferecer, enquanto isso, aos 36% da Alem anha e aos 43% da França que viviam da agricultura (1900), para não m encionar os países europeus que ainda eram predom inantem ente agrícolas? A necessidade de am pliar o apelo dos partidos socialistas, deslocando-os do que era puram ente proletário, podia ser form ulada e defendida de diversos m odos, desde os sim ples cálculos eleitorais até as considerações revolucionárias de teoria geral ("A social-dem ocracia é o partido do proletariado... m as... é sim ultaneam ente um partido de desenvolvim ento social, visando o desenvolvim ento de todo o corpo social desde a presente fase capitalista até um a form a m ais elevada".) Isso não podia ser ignorado, um a vez que o proletariado fora derrotado eleitoralm ente quase em toda parte, isolado ou m enos reprim ido pelas forças reunidas das outras classes.

A própria identificação, porém , entre partido e proletariado tornava o apelo aos outros estratos sociais m ais difícil. Dificultava o cam inho dos políticos pragm áticos, dos reform istas, dos "revisionistas" m arxistas, os quais teriam preferido am pliar o socialism o de um partido de classe para um "partido do povo", pois m esm o os políticos práticos, prontos para deixar a doutrina aos poucos cam aradas classificados com o "teóricos", reconheciam que o apelo quase existencial aos operários, com o operários, era o que proporcionava aos partidos sua verdadeira força. Mais ainda, as exigências políticas e os slogans especificam ente talhados para a m edida do proletariado — tais com o o dia de oito horas e a socialização — deixavam indiferentes os dem ais estratos e até corriam o risco de atrair-lhes o antagonism o, por envolverem um a am eaça de expropriação. Os partidos socialistas operários raram ente tiveram sucesso ao tentar rom per o am plo m as separado universo da classe operária, dentro do qual seus m ilitantes, e não raro as m assas, chegavam até a sentir-se m uito à vontade.

No entanto, a atração exercida por esses partidos ia m uito além das classes operárias; e m esm o os partidos de m assa que m ais intransigentem ente se identificavam com um a classe, m anifestam ente m obilizavam apoio de outros estratos sociais. Havia, por exem plo, países nos quais o socialism o, não obstante sua falta de conexão ideológica com o m undo rural, conquistava grandes áreas no cam po — e não apenas o apoio daqueles que poderiam ser classificados com o "proletários rurais"; isso ocorreu em partes do sul da França, da Itália central e dos EUA, onde a m ais sólida fortaleza do Partido Socialista situava-se — coisa surpreendente — entre os fazendeiros brancos, pobres e fanáticos pela Bíblia, em Oklahom a, onde a votação do seu candidato presidencial subiu a m ais de 25%, em 1912, nas vinte e três com arcas m ais rurais do Estado. Igualm ente notável é o fato de os pequenos artesãos e loj istas estarem super-representados, na filiação do Partido Socialista Italiano, se com parados aos seus núm eros na população total.

Havia, sem dúvida, razões históricas para isso. Onde a tradição política da esquerda (secular) — a dos republicanos, dem ocratas, j acobinos e outros — era antiga e forte, o socialism o poderia parecer um a extensão lógica de tudo isso, ou, por assim dizer, um a versão atualizada daquela declaração de fé nas eternas grandes causas da esquerda. Na França, onde o socialism o era claram ente um a força de grande porte, aqueles populares intelectuais do cam po e paladinos dos valores republicanos, os professores das escolas prim árias, sentiam fortem ente a atração do socialism o; e os m ais im portantes agrupam entos políticos da Terceira República pagavam seu tributo de respeito aos ideais do eleitorado adotando os nom es de Republicano Radical ou de Partido Radical Socialista em 1901. (Em bora, evidentem ente, não fossem radicais nem socialistas.) Os partidos socialistas, contudo, extraíam sua força, bem com o sua am bigüidade política, daquelas tradições, porque, com o vim os, eles partilhavam delas m esm o quando j á lhes pareciam insuficientes. Assim , nos Estados em que o direito ao voto era ainda restrito, seus m ilitantes e seu com bate efetivo pelos direitos dem ocráticos ao voto m ereceu para eles o apoio de outros dem ocratas. Com o partidos dos m enos privilegiados, era natural que fossem agora vistos com o os defensores típicos da luta contra a desigualdade e o "privilégio", os quais haviam sido centrais ao radicalism o político desde a Revolução Am ericana e a Francesa; ainda m ais que tantos de seus antigos porta-bandeiras, a exem plo da classe m édia liberal, haviam -se j untado às próprias forças do privilégio.

Os partidos socialistas beneficiavam -se, de m odo m ais claro, de seu status de intransigentes adversários dos ricos. Representavam um a classe que era, sem exceções, pobre, ainda que não necessariam ente m uito pobre segundo os padrões contem porâneos. Denunciavam a exploração, a riqueza e sua constante concentração com um a paixão incessante. Outros, tam bém pobres e que se sentiam explorados, em bora não proletários, bem poderiam achar sim pático tal partido.

Em terceiro lugar, os partidos socialistas eram , quase por definição, partidos dedicados àquele conceito chave do século XIX, o "progresso". Defendiam , especialm ente os m arxistas, o inevitável avanço da m archa da história rum o a um futuro m elhor, cuj o conteúdo exato poderia não estar bem claro m as que certam ente presenciaria o contínuo e acelerado triunfo da razão, da educação e da tecnologia. Quando os anarquistas espanhóis refletiam sobre sua utopia, era em term os de eletricidade e m áquinas autom áticas para a rem oção de refugos. O progresso, ainda que apenas sinônim o de esperança, era a aspiração dos que pouco ou nada possuíam e os recentes ecos de dúvida sobre a sua realidade ou sobre se era desej ável, vindos do m undo da cultura burguesa e patrícia (cf. abaixo), aum entavam as associações plebéias e politicam ente radicais, pelo m enos na Europa. Não pode haver dúvida de que os socialistas beneficiavam -se com o prestígio do progresso entre os que nele acreditavam , especialm ente entre pessoas instruídas e im buídas da tradição do liberalism o e do Ilum inism o.

Finalm ente e paradoxalm ente, o fato de serem gente de fora e em perm anente oposição (pelo m enos até a revolução) ele oferecia-lhes um a vantagem . Sua prim eira habilidade foi claram ente a de atrair m uito m ais que o apoio estatisticam ente esperado de m inorias cuj a posição na sociedade era, em certo grau anôm ala, tais com o os j udeus em m uitos países da Europa, m esm o quando se tratava de j udeus confortavelm ente burgueses; e na França, da m inoria protestante. Em segundo lugar, não m aculados pela contam inação das classes dom inantes, poderiam atrair nações oprim idas nos im périos m ultinacionais, e estas talvez viessem a se m anifestar sob a bandeira verm elha, à qual em prestariam um m atiz distintam ente nacional. Isso ocorreu desse m odo — o que é notável — no im pério czarista (conform e verem os no cap. 5), sendo o caso m ais dram ático o dos finlandeses. Eis a razão pela qual o Partido Socialista Finlandês, havendo recolhido 37% dos votos assim que a lei o perm itiu, cresceu para 47% em 1916 e veio a ser, de fato, o partido nacional de seu país.

O apoio aos partidos cham ados proletários poderia, portanto, estender-se m uito além do proletariado. Quando o caso era este, poderia, em circunstâncias convenientes, fazer deles partidos do governo; e, após 1918, isso realm ente aconteceu. Todavia, j untar-se ao sistem a do governo "burguês" significava abandonar o status de revolucionário, ou m esm o de opositor radical. Antes de 1914, isso não chegava a ser absolutam ente im pensável, m as certam ente não era adm issível em público. O prim eiro socialista que aderiu a um governo "burguês", em bora com a desculpa da unidade na defesa da república contra a im inente am eaça da reação, Alexandre Millerand (1889) — subseqüentem ente ele se tornou presidente da França —, foi solene e ignom iniosam ente expulso do m ovim ento nacional e internacional. Antes de 1914, nenhum político socialista sério teria sido tolo ao ponto de perpetrar tal erro. (De fato, na França, o Partido Socialista só participou de um governo em 1936.) Pelo m enos, em sua fachada, os partidos perm aneceram puros e intransigentes até a guerra.

Contudo, um a últim a pergunta deve ser feita. É possível escrever a história das classes trabalhadoras de nossa época sim plesm ente em term os de suas organizações de classe (não necessariam ente apenas as socialistas) ou daquela consciência genérica de classe, expressa nos estilos de vida e nos padrões de com portam ento do gueto que era o m undo do proletariado? Apenas na m edida em que sentiam e se com portavam com o m em bros de tal classe. Esta consciência poderia estender-se a um a grande distância, a paragens absolutam ente inesperadas, tais com o as dos ultra devotos tecelões hassidim de xales rituais j udaicos, num canto perdido da Galícia (Kolom ea), que entraram em greve contra seus em pregadores, com o auxílio dos socialistas j udeus da localidade. Todavia, grande parte dos pobres, especialm ente dos m uito pobres, não se considerava "proletária" nem com o tal se com portava e tam pouco j ulgava as organizações e m odos de agir do m ovim ento aplicáveis ou relevantes para si. Eles se consideravam com o pertencentes à eterna categoria dos pobres, dos prescritos, dos desafortunados ou dos m arginais. Se em igravam do cam po ou de algum a região estrangeira para um a cidade grande, m orariam talvez num gueto, im bricado num suj o e pobre bairro operário; o m ais provável, porém , é que os dom inassem a rua, o m ercado e os inum eráveis expedientes pequeninos, legais e ilegais, pelos quais as fam ílias pobres m antêm j untos a alm a e o corpo, sendo apenas alguns, em qualquer sentido, real trabalho assalariado. Para eles, o que contava não eram o sindicato nem o partido de classe, m as os vizinhos, a fam ília, os patronos que lhes poderiam fazer favores ou arranj ar em pregos; de outro m odo, eles m ais evitavam que pressionavam as autoridades públicas, os padres ou a gente que provinha do m esm o lugar da terra distante; qualquer pessoa ou qualquer coisa que lhes tornasse a vida suportável, num am biente novo e desconhecido. Se pertenciam à antiga plebe urbana de um a cidade, a adm iração dos anarquistas pelos seus subm undos não os tornava m ais proletários ou m ais políticos. O m undo de A Child of the Jago (1896), de Arthur Morrison, ou de Aristide Bruant, em sua canção Belleville-Ménilmontant, não é o m undo da consciência de classe senão na m edida em que o ressentim ento contra os ricos é com partilhado por am bos. O irônico m undo do dar-de-

om bros e da aceitação, totalm ente apolítico, da canção de music-hall inglesa[h], que atingiu nesses anos sua época de ouro, está m ais próxim o ao da classe operária consciente, m as os seus tem as — sogras, esposas, falta de dinheiro para o aluguel — pertenciam a qualquer com unidade de pobres-diabos urbanos do século XIX.

Não devem os esquecer esses m undos. E, de fato, não os esquecem os, pois eles, paradoxalm ente, atraíram os artistas da época m ais que o respeitável m undo m onocrom ático e especialm ente provinciano do proletariado clássico. Não devem os, porém , contrapô-lo ao m undo proletário. A cultura dos plebeus pobres, m esm o no m undo dos tradicionais excluídos, era som breada pela consciência de classe, onde quer que esses dois m undos coexistissem . Eles se reconheciam m utuam ente, e onde a consciência de classe e seus m ovim entos fossem fortes com o, digam os, em Berlim ou no grande porto de m ar que era Ham burgo, o m undo da m iscelânea e da pobreza pré-industrial aj ustava-se a eles, e até alcoviteiros, ladrões e receptadores lhes apresentavam seus respeitos. Nada tinham de independente com que contribuir, em bora os anarquistas não pensassem assim . Careciam , é certo, de m ilitância perm anente, para não m encionar o com prom isso, do ativista — m as deles carecia igualm ente, com o bem sabia todo ativista, a grande m aioria da classe operária, em qualquer parte. Não têm fim as queixas dos m ilitantes, ao referirem -se a esse peso m orto de passividade e ceticism o. À m edida que em ergia um a classe operária consciente, que se expressava no m ovim ento e no partido, nesta época, as plebes pré-industriais eram atraídas para sua esfera de influência. E, na m edida em que não o foram , serão ignoradas pela história, por não terem sido seus construtores, m as apenas as suas vítim as.

 

[a] Dizem que se recusavam ao trabalho da colheita na Alem anha, visto a viagem da Itália para

a Am érica do Sul ser m ais fácil e m ais barata, sendo os salários m ais altos.

[b] Conform e indicam os versos dos m ineiros alem ães, grosseiram ente traduzíveis do seguinte

m odo:

Os padeiros assam pão sozinhos

Os m arceneiros trabalham em sua casa;

m as os m ineiros, onde estiverem ,

contam com bravos e confiáveis com panheiros.

[c] Greves gerais breves, a favor da dem ocratização do direito ao voto, eram outro assunto.

[d] Exceto na Itália, onde a Federação dos Trabalhadores da Terra era, de longe, o m aior

sindicato, aquele que lançou as bases para a posterior influência com unista, na Itália central e em

partes do sul do país. Na Espanha o anarquism o teve, possivelm ente, influência interm itente

com parável entre os trabalhadores rurais sem terra.

[e] O papel da taverna, com o ponto de reunião de sindicatos e dos ram os do partido socialista e

dos taverneiros, com o socialistas m ilitantes, é bastante conhecido em diversos países.

[f] Conform e se sabe, em 1917, o calendário russo (j uliano) estava ainda treze dias atrasado em

relação ao nosso (o gregoriano), daí procedendo o conhecido enigm a da Revolução de Outubro,

que ocorreu em 7 de novem bro.

[g] Em bora a cooperação entre operários estivesse intim am ente ligada aos m ovim entos

trabalhistas, e form asse, de fato, um a ponte entre os ideais "utópicos" do socialism o pré-1848 e o

novo socialism o, não era este o caso da parte m ais florescente da cooperação, a dos cam poneses

e fazendeiros, exceto em algum as partes da Itália.

[h] Com o cantava Gus Elen: Com um a escada / E uns óculos / Você veria os pântanos de

Hackney / Se não fossem as casas de perm eio.