A Era dos Impérios 1875-1914

Eric J. Hobsbawm · Capítulo 41 de 51

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A Era dos Impérios 1875-1914

Capítulo 2

Os dois grandes e instáveis im périos m ultinacionais europeus que tam bém estavam às vésperas do colapso, a Rússia e o Habsburgo, não eram m uito com paráveis entre si, salvo na m edida em que am bos representavam um tipo de estrutura política — países governados, por assim dizer, com o propriedades fam iliares — que cada vez m ais pareciam sobreviventes pré-históricos no século XIX. Mais ainda, am bos reclam avam o título de César (czar, Kaiser), o prim eiro através de ancestrais bárbaros m edievais com os olhos voltados para o Im pério Rom ano do Oriente, o segundo devido a ancestrais equivalentes que reviviam a lem brança do Im pério Rom ano do Ocidente. Na verdade, enquanto im périos e potências européias, am bos eram relativam ente recentes. Adem ais, em contraste com os im périos antigos, ficavam na Europa, na fronteira entre as zonas de econom ias desenvolvida e atrasada, e portanto, desde o início, parcialm ente integrados ao m undo econom icam ente "avançado"; e, enquanto "grandes nações", totalm ente integrados ao sistem a político da Europa, um continente cuj a definição m esm a

sem pre foi política[a]. Daí, a propósito, as enorm es repercussões da revolução russa e, de m aneira diferente, da ruína do Im pério Habsburgo no panoram a europeu e político global, com paradas às repercussões relativam ente m odestas ou puram ente regionais das revoluções, digam os, chinesa, m exicana ou iraniana.

O problem a dos im périos obsoletos da Europa era que eles estavam sim ultaneam ente em dois cam pos: avançado e atrasado, forte e fraco, lobo e cordeiro. Os im périos antigos estavam apenas no das vítim as. Pareciam destinados à ruína, conquista ou dependência, salvo se pudessem aprender com os im perialistas ocidentais o que os tornava tão poderosos. No final do século XIX isto era perfeitam ente claro, e a m aioria dos Estados m aiores e dos dirigentes do antigo m undo dos im périos tentou, em graus diversos, assim ilar o que eles consideravam com o as lições do Ocidente; m as apenas o Japão foi bem -sucedido nessa tarefa difícil, e em 1900 tornou-se um lobo entre os lobos.

 

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Sem a pressão da expansão im perialista, não é provável que tivesse ocorrido um a revolução no antigo Im pério Persa, bastante decrépito, no século XIX, com o tam pouco no m ais ocidental dos reinos islâm icos, o Marrocos, onde o governo do sultão (o Maghzen) tentou, com pouquíssim o sucesso, am pliar a área sob sua adm inistração e estabelecer um a espécie de controle efetivo sobre o m undo anárquico e terrível das tribos guerreiras bérberes. (De fato, não se pode dizer com certeza que os acontecim entos de 1907-1908 no Marrocos m ereçam sequer com o cortesia o título de revolução.) A Pérsia era pressionada ao m esm o tem po pela Rússia e pela Grã-Bretanha, das quais havia desesperadam ente tentado escapar ao lançar m ão de consultores e aj uda de outros Estados ocidentais — a Bélgica (cuj a constituição serviria de m odelo à persa), os EUA e, após 1914, a Alem anha — que não tinham reais condições de contrabalançar a pressão britânica. A política iraniana j á encerrava as três forças cuj a conj unção acarretaria um a revolução ainda m aior em 1979: os intelectuais em ancipados e ocidentalizados, com aguda consciência da fraqueza do país e da inj ustiça social nele reinante; os com erciantes do m ercado (bazaar) com aguda consciência da concorrência econôm ica estrangeira; e a coletividade do clero m uçulm ano, representantes do ram o Shia do Islã, que funcionava com o um a espécie de religião nacional persa, capaz de m obilizar as m assas tradicionais. Estes, por sua vez, tinham aguda consciência da incom patibilidade entre a influência ocidental e o Corão. A aliança entre radicais, bazaris e o clero j á dera um a dem onstração de força em 1890-1892, quando a concessão im perial do m onopólio do tabaco a um hom em de negócios britânico teve que ser cancelada em decorrência de tum ultos, sublevações e um notavelm ente bem -sucedido boicote nacional da venda e uso do tabaco, do qual até as esposas do xá participaram . A guerra russo-j aponesa de 1904-1905 e a prim eira Revolução Russa elim inaram tem porariam ente um dos atorm entadores da Pérsia e deram aos revolucionários persas tanto um incentivo com o um program a, pois a potência que derrotara um im perador europeu não era apenas asiática, m as tam bém um a m onarquia constitucional. Um a constituição podia, assim , ser encarada (pelos radicais em ancipados) não só com o a reivindicação óbvia de um a revolução ocidental, m as igualm ente (por setores m ais am plos da opinião pública) com o um a espécie de "segredo da força". De fato, um a viagem m aciça de aiatolás à cidade santa de Qom e de m ercadores do bazaar à legação britânica — que incidentalm ente paralisou os negócios de Teerã — garantiu a eleição de um a assem bléia legislativa e um a constituição em 1906. Na prática, o acordo de 1907 entre a Grã-Bretanha e a Rússia, dividindo a Pérsia entre am bos, deixava poucas opções à política persa. Na realidade, o prim eiro período revolucionário term inou em 1911, em bora a Pérsia tenha perm anecido, nom inalm ente, sob a autoridade de algo com o a constituição de 1906-1907 até a revolução de 1979. Por outro lado, o fato de nenhum outro poder im perialista ter reais condições de desafiar a Grã-Bretanha e a Rússia provavelm ente salvou a existência da Pérsia com o Estado e a de sua m onarquia, que detinha pouco poder próprio: um a brigada de cossacos, cuj o com andante se autoproclam ou, no fim da Prim eira Guerra Mundial, o fundador da últim a dinastia im perial, os Pahlevi (1921-1979).

Desse ponto de vista, o Marrocos teve m enos sorte. Situado num ponto particularm ente estratégico do m apa-m úndi, o canto noroeste da África, foi considerado um a presa adequada pela França, Grã-Bretanha, Alem anha e Espanha, bem com o por todos os outros que se situavam a um a distância naval. A debilidade interna da m onarquia tornou-o particularm ente vulnerável a am bições estrangeiras, e a crise internacional gerada pela briga entre os diversos predadores — notadam ente em 1906 e 1911 — teve um papel de destaque na gênese da Prim eira Guerra Mundial. A França e a Espanha dividiram o país entre si, sendo que os interesses internacionais (isto é, britânicos) eram preservados por m eio de um porto livre em Tânger. Por outro lado, a perda da independência do Marrocos, com a subseqüente ausência de controle do sultão sobre os clãs guerreiros bérberes, tornaria difícil e lenta a conquista m ilitar real do território pelos franceses, e m ais ainda pelos espanhóis.