A Era dos Impérios 1875-1914

Eric J. Hobsbawm · Capítulo 38 de 51

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A Era dos Impérios 1875-1914

Capítulo 10 | Certezas solapadas: as ciências

CAPÍTULO 10

 

CERTEZAS SOLAPADAS: AS CIÊNCIAS

 

De que é composto o universo material? Éter, matéria e energia.

S. Laing, 1885

 

É geralmente aceito que nosso conhecimento das leis fundamentais da hereditariedade avançou muito nos últimos quinze anos. Na verdade, é justo dizer a esse respeito que conquistou-se mais neste período que em toda a história anterior desse ramo de conhecimento.

Ray m ond Peal, 1913

 

O espaço e o tempo deixaram de ser, para a física relativista, elementos constitutivos do mundo, admitindo-se agora que são construções.

Bertrand Russell, 1914

 

Há épocas em que o m odo de aprender e estruturar o universo é transform ado inteiram ente num breve lapso de tem po, com o nas décadas que antecederam a Prim eira Guerra Mundial. Todavia, na época, essa transform ação foi entendida, ou m esm o notada, por um núm ero relativam ente reduzido de hom ens e m ulheres em alguns países e, às vezes, apenas por m inorias, m esm o dentro dos cam pos de atividade intelectual e criativa que estavam sendo transform ados. E nem todas essas áreas passaram por um a transform ação, nem foram transform adas da m esm a m aneira. Um estudo m ais com pleto deveria estabelecer a distinção entre os cam pos em que as pessoas estavam conscientes de um progresso linear, m ais do que de um a transform ação (com o nas ciências m édicas) e os que foram revolucionados (com o a física); entre as antigas ciências j á revolucionadas e as que, elas próprias, constituíam inovações, pois nasceram no período que nos ocupa (com o a genética); entre teorias científicas destinadas a se tornar a base de um novo consenso ou ortodoxia e outras que perm aneceriam à m argem de suas disciplinas, com o a psicanálise. Deveria tam bém ser feita a distinção entre teorias j á aceitas, j á questionadas, m as retom adas com sucesso sob um a form a m ais ou m enos m odificada, com o o darwinism o, e outros com ponentes da herança intelectual de m eados do século XIX que desapareceram , a não ser de certos com pêndios m enos avançados, com o a física de Kelvin. E certam ente deveria ser estabelecida, tam bém , a distinção entre as ciências naturais e as ciências sociais, que, tal qual o tradicional cam po de saber das hum anidades, divergiam cada vez m ais das prim eiras — criando um crescente abism o no qual o vasto conj unto daquilo que o século XIX considerara "filosofia" parecia desaparecer. Contudo, sej a qual for o m odo com o avaliam os a situação assim apresentada, ela é verdadeira. A paisagem intelectual, na qual visivelm ente em ergiam sum idades com o Planck, Einstein e Freud, para não falar de Schönberg e Picasso, era clara e fundam entalm ente diferente daquilo que m esm o observadores inteligentes acreditavam perceber em , digam os, 1870.

A transform ação era de dois tipos. Intelectualm ente, im plicava o fim da com preensão do universo na im agem do arquiteto ou do engenheiro: um edifício ainda inacabado, m as cuj o térm ino não tardaria m uito; um edifício baseado "nos fatos", ligados entre si pelos firm es andaim es de causas determ inando efeitos e pelas "leis da natureza", e construído com as ferram entas confiáveis da razão e do m étodo científico; um a construção do intelecto, m as que tam bém expressava, quando vista de form a m ais acurada, as realidades obj etivas do cosm os. Para a m entalidade do m undo burguês triunfante, o gigantesco m ecanism o estático do universo, herdado do século XVII e, desde então, am pliado por extensão a novos cam pos, produzia não apenas perm anência e previsibilidade, m as tam bém transform ação. Produziu a evolução (que podia facilm ente ser identificada com o o "progresso" secular, ao m enos nos assuntos hum anos). Foram esse m odelo do universo e a m aneira de a m ente hum ana com preendê-lo que agora faliam .

Mas essa falência teve um aspecto psicológico crucial. A estruturação intelectual do m undo burguês excluía as antigas forças religiosas da análise de um universo no qual o sobrenatural e o m ilagroso não podiam ter nenhum papel, e reservava pouco lugar analítico às em oções, a não ser com o produtos das leis da natureza. Contudo, com exceções m arginais, o universo intelectual parecia caber em am bas as coisas, com a com preensão intuitiva do m undo m aterial (a "experiência dos sentidos") e com os conceitos intuitivos, ou ao m enos m uito antigos, da operação do raciocínio hum ano. Assim , ainda era possível pensar a física e a quím ica por m eio de m odelos

m ecânicos (o "átom o bola de bilhar")[a]. Mas a nova estruturação do universo viu-se, cada vez m ais, obrigada a descartar a intuição e o "bom senso". Em certo sentido, a "natureza" se tornou m enos "natural" e m ais incom preensível. Na verdade, em bora todos nós vivam os hoj e com um a tecnologia que repousa na nova revolução científica, em um m undo cuj a aparência visual foi por ela transform ada e no qual seus conceitos e vocabulário ecoam no discurso leigo culto, ainda hoj e não se sabe com clareza até que ponto os processos com uns de pensam ento do público leigo assim ilaram essa revolução. Pode-se dizer que ela foi m ais assim ilada existencialm ente do que intelectualm ente.

O processo de divórcio entre ciência e intuição pode talvez ser ilustrado através do exem plo extrem o da m atem ática. Em algum m om ento de m eados do século XIX, o progresso do pensam ento m atem ático com eçou a gerar não apenas resultados conflitantes com o m undo real (com o fizera anteriorm ente — ver A Era das Revoluções) tal com o apreendido pelos sentidos — o caso da geom etria não-euclidiana —, com o tam bém resultados que pareciam chocantes até aos m atem áticos, que pensaram , com o o grande Georg Cantor, que "je vois mais ne le crois

pas"[b]. Com eçou o que Bourbaki cham ou de "patologia" da m atem ática. Na geom etria, um a das duas fronteiras dinâm icas da m atem ática do século XIX, apareceram todas as form as de fenôm enos im pensáveis até então, com o as curvas sem tangentes. Mas a questão m ais dram ática e "im possível" talvez tenha sido a exploração de m agnitudes infinitas por Cantor, que criou um m undo onde os conceitos intuitivos de "m aior" e "m enor" não eram m ais aplicáveis e a aritm ética não dava m ais os resultados esperados. Era um avanço instigante, um novo "paraíso" m atem ático — para usar a expressão de Hilbert — de onde a vanguarda m atem ática se recusava a ser expulsa.

Um a solução — a seguir adotada pela m aioria dos m atem áticos — era em ancipar a m atem ática de qualquer correspondência com o m undo real e transform á-la na elaboração de postulados, quaisquer postulados, que deviam apenas ser definidos de m odo preciso e obrigados a ser não contraditórios entre si. A m atem ática se baseou, daí em diante, num a rigorosa suspensão da crença em tudo que não fossem as regras do j ogo. Nas palavras de Bertrand Russell — um dos que m ais contribuiu para repensar os fundam entos da m atem ática, que agora se deslocava para o centro do palco, talvez pela prim eira vez em história — a m atem ática era o assunto sobre o qual ninguém sabia do que se estava falando ou se o que estava sendo dito era verdade. Seus fundam entos foram reform ulados com a exclusão rigorosa da intuição.

Isso acarretou dificuldades psicológicas enorm es, bem com o algum as de natureza intelectual. A relação das m atem áticas com o m undo real era inegável m esm o sendo, do ponto de vista do form alism o m atem ático, irrelevante. No século XX, a m ais pura m atem ática encontrou um a vez m ais algum a correspondência no m undo real, e serviu de fato para explicar esse m undo ou para dom iná-lo por m eio de tecnologia. Até G. H. Hardy, m atem ático puro especializado em teoria dos núm eros — e, incidentalm ente, autor de um a brilhante introspecção autobiográfica —, que se orgulhava de que nada do que fizera tivesse tido aplicação prática, contribuiu com um teorem a que é a base da genética populacional m oderna (a assim cham ada lei de Hardy -Weinberg). Qual era a natureza da relação entre o j ogo m atem ático e a estrutura do m undo real correspondente? Isso talvez não im portasse aos m atem áticos em sua qualidade de m atem áticos, m as na verdade até m esm o m uitos dos form alistas, com o o grande Hilbert (1862-1943), parecem ter acreditado em um a verdade m atem ática obj etiva, isto é, em que não era irrelevante o que os m atem áticos pensavam sobre a "natureza" das entidades m atem áticas que m anipulavam ou sobre a "verdade" de seus teorem as. Toda um a escola de "intuitivos", antecipada por Henri Poincaré (1854-1912) e liderada, a partir de 1907, pelo holandês L. E. J. Brouwer (1882-1966), rej eitou am argam ente o form alism o, se necessário, inclusive, às custas de abandonar os próprios triunfos do raciocínio m atem ático cuj os resultados literalm ente inacreditáveis haviam acarretado a reavaliação das bases da m atem ática; notadam ente o próprio trabalho de Cantor sobre a teoria dos conj untos, proposta, contra oposição ferrenha de alguns, nos anos 1870. As paixões suscitadas por essa batalha na estratosfera do pensam ento puro indicam a profundidade da crise intelectual e psicológica gerada pela falência das antigas vinculações entre a m atem ática e a percepção do m undo.

Adem ais, o próprio repensar dos fundam entos da m atem ática era bastante problem ático, pois a tentativa m esm a de baseá-la em definições rigorosas e na não-contradição (que tam bém incentivou o desenvolvim ento da lógica m atem ática) conheceu dificuldades que fariam do período entre 1900 e 1930 a época da "grande crise dos fundam entos" (Bourbaki). A própria exclusão im placável da intuição só era possível estreitando-se os horizontes dos m atem áticos. Além desses horizontes, encontravam -se os paradoxos que m atem áticos e lógicos m atem áticos agora descobriam — Bertrand Russell form ulou m uitos deles nos prim eiros anos do século — e

que acarretaram as m ais profundas dificuldades[c]. Oportunam ente (em 1931) o m atem ático austríaco Kurt Gödel provou que, para certos obj etivos fundam entais, não há com o elim inar a contradição: não podem os provar que os axiom as da aritm ética são consistentes por m eio de um núm ero finito de passos que não levem a contradições. Contudo, nessa época os m atem áticos j á haviam se acostum ado a viver com as incertezas de seu obj eto. As gerações das décadas de 1890 e 1900 ainda estavam longe de se conform ar com elas.

Salvo para um pequeno grupo de pessoas, a crise na m atem ática podia ficar em segundo plano. Um conj unto m uito m aior de cientistas bem com o, circunstancialm ente, a m aioria dos seres hum anos cultos estavam envolvidos com a crise do universo galileano ou newtoniano da física — cuj o início pode ser determ inado com bastante exatidão em 1895 — e que seria substituído pelo universo einsteiniano da relatividade. A resistência que encontrou no m undo dos físicos foi m enor que a relativa à revolução m atem ática, provavelm ente porque ainda não ficara patente o desafio que este representava para as crenças tradicionais na certeza e nas leis da natureza. Isso ocorreria só na década de 20. Em com pensação, a resistência dos leigos foi enorm e. De fato, m esm o em 1913, um autor alem ão de um estudo e de um a história da ciência em quatro volum es, bem -inform ado e nada tolo (que deixou de m encionar, conscientem ente, Planck — salvo com o epistem ólogo —, Einstein, J. J. Thom pson e inúm eros outros que hoj e em dia dificilm ente seriam om itidos), negou que qualquer acontecim ento excepcionalm ente revolucionário estivesse em curso nas ciências. "É tendencioso apresentar a ciência com o se seus fundam entos tivessem agora se tornado instáveis e nossa era devesse em preender sua reconstrução." Com o sabem os, a física m oderna continua tão distante para a m aioria dos leigos com o os aspectos m ais elevados da teologia escolástica para a m aioria dos que acreditavam na cristandade na Europa do século XIV, até m esm o para os que se dispõem a acom panhar as freqüentem ente brilhantes tentativas de divulgá-la, m ultiplicadas desde a Prim eira Guerra Mundial. Os ideólogos de esquerda rej eitaram a relatividade por considerá-la incom patível com sua própria idéia de ciência e os de direita a condenaram com o j udia. Em sum a, daqui em diante a ciência tornou-se não apenas algo que poucas pessoas podiam entender, m as tam bém algo de que m uitos discordavam , em bora crescentem ente reconhecessem sua dependência em relação a ela.

O im pacto na experiência, no bom senso e nas concepções aceitas do universo pode, talvez, ser m elhor ilustrado pelo problem a do "éter lum inífero", agora quase tão esquecido com o o logístico, invocado para explicar a com bustão no século XVIII, antes da revolução quím ica. Não havia evidência da existência do éter — algo elástico, rígido, incom pressível e livre de atrito que, acreditava-se, enchia o universo — m as ele tinha que existir, no contexto de um a im agem de m undo essencialm ente m ecânico e que excluía qualquer coisa com o a assim cham ada "ação a distância", sobretudo porque a física do século XIX estava cheia de ondas, com eçando com as da luz (cuj a velocidade real foi determ inada pela prim eira vez) e m ultiplicada via progresso das pesquisas em eletrom agnetism o que, a partir de Maxwell, incluiu as ondas lum inosas. Mas, num universo físico m ecanicam ente concebido, as ondas tinham que ser ondas em algo, assim com o as ondas do m ar são ondas na água. Na m edida em que o m ovim ento das ondas se tornou cada vez m ais central na im agem do m undo físico, "o éter foi descoberto neste século, no sentido de que todas as evidências conhecidas de sua existência foram levantadas nesta época" (para citar um contem porâneo m uito pouco ingênuo). Em sum a, o éter foi inventado porque, com o afirm aram todas as "autoridades em física" [com raras vozes discordantes, com o Heinrich Hertz (1857-1894), o descobridor das ondas de rádio, e Ernst Mach (1836-1916), m ais conhecido com o filósofo da ciência], "não devíam os saber nada sobre luz, calor irradiante, eletricidade ou m agnetism o; sem isso provavelm ente não haveria a gravitação", pois um a im agem m ecanicista do m undo exigia tam bém que sua força fosse exercida através de algum m eio m aterial.

Contudo, se o éter existia, deveria ter propriedades m ecânicas, fossem elas elaboradas ou não por m eio dos novos conceitos eletrom agnéticos. Estes colocaram dificuldades consideráveis, pois a física (desde Faraday e Maxwell) operava com dois esquem as conceituais que não se com binavam com facilidade e que; na verdade, tendiam a se afastar: a física das partículas discretas (da "m atéria") e a dos m eios contínuos ou "cam pos". Pareceu m ais fácil supor — a teoria foi elaborada por H. A. Lorentz (1853-1928), um dos em inentes cientistas holandeses que transform aram o período num a idade de ouro para a ciência holandesa com parável ao século XVII — que o éter era estacionário em relação à m atéria em m ovim ento. Mas isso agora podia ser testado, e dois am ericanos, A. A. Michelson (1852-1931) e E. W. Morle (1838-1923), tentaram fazê-lo num a celebrada e im aginativa experiência em 1887, com um resultado que pareceu totalm ente inexplicável. Tão inexplicável e tão incom patível com crenças profundam ente enraizadas que foi periodicam ente repetido, com todas as precauções possíveis, até a década de 20: sem pre com o m esm o resultado.

Qual era a velocidade do m ovim ento da Terra através do éter estacionário? Um feixe de luz era dividido em duas partes, que percorriam , ida e volta, duas traj etórias iguais em ângulo reto entre si, sendo outra vez reunidos. Se a Terra viaj asse pelo éter na direção de um dos feixes, o m ovim ento do aparelho, durante o trânsito da luz, devia fazer com que as traj etórias dos feixes se tornasse desigual. Isso poderia ser detectado. Mas não pôde. Parecia que o éter, fosse o que fosse, se m ovim entava com a Terra, ou presum ivelm ente com qualquer outro elem ento m edido. O éter parecia não ter característica física algum a ou estar além de qualquer form a de captação m aterial. A alternativa era abandonar a im agem científica estabelecida do universo.

Os leitores fam iliarizados com a história da ciência não se surpreenderão por Lorentz ter preferido a teoria ao fato e ter, portanto, tentado descartar a experiência Michelson-Morley, salvando assim o éter, considerado "o fulcro da física m oderna", por m eio de um exem plar extraordinário de acrobacia teórica que o transform aria no "João Batista da relatividade". Suponha que o tem po e o espaço possam ser ligeiram ente separados, de form a que um corpo possa ficar m ais curto quando de frente para a direção de seu m ovim ento do que estaria se estivesse em repouso ou colocado transversalm ente. Nesse caso, a contração do aparelho de m edição de Michelson-Morley poderia ter ocultado a im obilidade do éter. Tal suposição, argum enta-se, era na verdade m uito próxim a da teoria da relatividade especial de Einstein (1905), m as o problem a de Lorentz e seus contem porâneos foi que eles quebraram o ovo da física tradicional nessa tentativa desesperada de m antê-lo intacto, enquanto Einstein, criança ainda quando Michelson e Morle chegaram à sua surpreendente conclusão, estava pronto para sim plesm ente abandonar as antigas convicções. Não havia m ovim ento absoluto. Não havia éter, ou, se havia, não apresentava qualquer interesse para os físicos. De um a form a ou de outra, a antiga ordem da física estava condenada.

Duas conclusões podem ser tiradas desse instrutivo episódio. A prim eira, com patível com o ideal racionalista que a ciência e seus historiadores herdaram do século XIX, é que os fatos são m ais fortes que as teorias. Dado o desenvolvim ento do eletrom agnetism o, a descoberta de novos tipos de radiação ondas de rádio (Hertz, 1883), raios X (Röntgen, 1895), radioatividade (Becquerel, 1896); dada a crescente necessidade de adaptar a teoria ortodoxa a form as curiosas; dada a experiência Michelson-Morley, cedo ou tarde a teoria teria que ser fundam entalm ente alterada para se adequar aos fatos. Não é surpreendente que isso não tenha se dado im ediatam ente, m as aconteceu cedo o bastante: a transform ação pode ser datada, com algum a precisão, da década de 1895-1905.

A outra conclusão é sim etricam ente oposta. A visão do universo físico que ruiu em 1895-1905 se baseara não nos "fatos", m as em pressupostos a priori sobre o universo, em parte baseados no m odelo m ecânico do século XVII e em parte em intuições ainda m ais antigas da experiência sensorial e da lógica. Nunca houvera m aiores dificuldades intrínsecas para a aplicação da relatividade à eletrodinâm ica ou a qualquer outra área, sobretudo à m ecânica clássica, o que era um pressuposto desde Galileu. A única coisa que a física pode dizer sobre dois sistem as, dentro dos quais as leis de Newton se m antêm (por exem plo, dois trens), é que eles se m ovem um em relação ao outro, m as não que um está "em repouso" em sentido absoluto. O éter foi inventado porque o m odelo m ecânico aceito de universo precisava de algo assim e porque parecia intuitivam ente inconcebível que de algum m odo não houvesse distinção entre m ovim ento absoluto e repouso absoluto em algum lugar. Tendo sido inventado, ele barrou o prolongam ento da relatividade à eletrodinâm ica ou às leis da física em geral. Em sum a, o que tornou a revolução na física tão revolucionária não foi a descoberta de novos fatos, em bora isso tenha, por certo, ocorrido, m as a relutância dos físicos em reconsiderar seus paradigm as. Com o sem pre, não foram as inteligências sofisticadas as preparadas para reconhecer que o rei estava nu: elas passaram o tem po inventando teorias para explicar por que suas roupas eram tão esplêndidas com o invisíveis.

Am bas as conclusões são corretas, m as a segunda é m uito m ais útil ao historiador, j á que a prim eira não explica realm ente de form a adequada com o a revolução da física aconteceu. Velhos paradigm as não costum am inibir o progresso da pesquisa, com o não o fizeram à época, nem a form ação de teorias que sej am tanto consistentes com os fatos com o intelectualm ente fecundas. Produziram apenas o que, retrospectivam ente, pode ser visto (com o no caso do éter) com o teorias desnecessárias e indevidam ente com plicadas. Reciprocam ente, os revolucionários em física — pertencendo sobretudo àquela "física teórica", que ainda era pouco reconhecida com o um cam po, e que se auto-situava em algum lugar entre a m atem ática e os aparelhos de laboratório — não estavam fundam entalm ente m otivados por qualquer desej o de esclarecer inconsistências entre observação e teoria. Trabalharam a seu próprio m odo, às vezes m ovidos por preocupações puram ente filosóficas ou m esm o m etafísicas, com o a procura de Max Planck "do Absoluto", que os levou à física contra o conselho dos professores, que estavam convencidos de que faltavam apenas detalhes a serem aj ustados nessa ciência, e a partes da física que outros consideravam desinteressantes. Nada é m ais surpreendente na breve peça autobiográfica escrita na velhice por Max Planck — cuj a teoria quântica (anunciada em 1900) m arcou a irrupção pública da nova física — que o sentim ento de isolam ento, de não ser com preendido, quase de fracasso, que obviam ente nunca o abandonou. Afinal, poucos físicos foram m ais hom enageados em vida, em seu próprio país e internacionalm ente. Muito desse sentim ento foi, evidentem ente, resultado dos 25 anos, a partir de sua tese de doutoram ento em 1875, em que o j ovem Planck tentou em vão fazer seus adm irados m estres — inclusive hom ens que ele finalm ente convenceria — entenderem , reagirem ou m esm o lerem o trabalho que lhes apresentava: trabalho em sua opinião indubitavelm ente conclusivo. Olham os para trás e vem os cientistas identificando problem as cruciais não resolvidos em suas áreas e em preendendo sua solução, alguns pelo cam inho correto, a m aioria pelo errado. Mas, na verdade, com o os historiadores da ciência nos lem braram , pelo m enos desde Thom as Kuhn (1962), não é dessa m aneira que as revoluções científicas ocorrem .

O que explica, então, a transform ação da m atem ática e da física nesse período? Essa é a questão crucial para o historiador. Adem ais, para o historiador que não se concentra exclusivam ente nos debates especializados entre teóricos, a questão não se refere apenas à m udança da im agem científica do universo, m as tam bém à relação entre essa m udança e tudo m ais que estava acontecendo no período. Os processos do intelecto não são autônom os. Sej am quais forem a natureza das relações entre a ciência e a sociedade onde está em butida e a conj untura histórica particular onde ocorre, essa relação existe. Os problem as que os cientistas identificam , os m étodos que usam , os tipos de teorias que consideram satisfatórias em geral ou adequadas em particular, as idéias e m odelos que usam para resolvê-los são os de hom ens e m ulheres cuj as vidas, m esm o no presente, não se restringem ao laboratório ou ao estudo.

Algum as dessas relações são de um a sim plicidade crua. Um a parte substancial do ím peto do desenvolvim ento da bacteriologia e da im unologia foi um a função do im perialism o, pois os im périos ofereciam um forte incentivo ao controle das doenças tropicais, com o a m alária e a febre am arela, que prej udicavam as atividades dos hom ens brancos nas regiões coloniais. Há, portanto, um a vinculação direta entre Joseph Cham berlain e (Sir) Ronald Ross, prêm io Nobel de m edicina em 1902. O papel desem penhado pelo nacionalism o está longe de ser secundário. Wasserm ann, cuj o teste de sífilis proporcionou o incentivo para o desenvolvim ento da serologia, foi instado a pesquisá-lo em 1906 pelas autoridades alem ãs, ansiosas para atingir o nível do que eles consideravam o avanço indevido da pesquisa francesa em sífilis. Se, por um lado, não seria aconselhável deixar de lado essas vinculações diretas entre ciência e sociedade, sej am elas sob a form a de patrocínio ou pressão governam ental ou da iniciativa privada, ou sob a form a m enos trivial de trabalho científico estim ulado por ou proveniente do progresso industrial prático ou de suas exigências técnicas, por outro lado essas relações não podem ser satisfatoriam ente analisadas nestes term os, ainda m enos no período 1873-1914. Adem ais, as relações entre ciência e suas aplicações práticas eram tudo, m enos próxim as, salvo na quím ica e na m edicina. Assim , na Alem anha dos anos 1880 e 1890 — poucos países levaram tão a sério as im plicações práticas da ciência — as academ ias técnicas (Technische Hochschulen) se queixavam de que seus m atem áticos não se lim itavam apenas ao ensino da m atem ática necessária aos engenheiros, e os professores de engenharia enfrentaram os de m atem ática num a batalha frontal em 1897. De fato, a m assa dos engenheiros alem ães, em bora inspiradas pelo progresso am ericano a instalar laboratórios de tecnologia na década de 1890, não m antinha contato estreito com a atualidade científica. A indústria, reciprocam ente, se queixava de que as universidades não estavam interessadas em seus problem as e faziam suas próprias pesquisas — em bora lentam ente. Krupp (que só autorizou seu filho a freqüentar um a faculdade técnica em 1882) só se interessou pela física, com o algo diferenciado da quím ica, em m eados da década de 1890. Em sum a, universidades, academ ias técnicas, indústria e governo estavam longe de coordenar seus interesses e esforços. Instituições de pesquisa financiadas pelo governo com eçavam , de fato, a surgir, m as não se pode dizer que estivessem avançadas: a Kaiser Wilhelm Gesellschaft (hoj e Max Planck Gesellschaft), que financiava e coordenava a pesquisa fundam ental, só foi criada em 1911, em bora tenha tido predecessores privados. Adem ais, m esm o se os governos estivessem , sem dúvida, com eçando a garantir e até a agilizar pesquisas que consideravam significativas, ainda é problem ático falar do governo com o um a força de peso que garantisse a pesquisa fundam ental; não m ais que a indústria, com a possível exceção dos laboratórios Bell. Adem ais, a única ciência, além da m edicina, na qual a pesquisa pura e as aplicações práticas estavam , à época, adequadam ente integradas era a quím ica, que por certo não estava passando então por nenhum a transform ação fundam ental ou revolucionária.

Essas transform ações científicas não teriam sido possíveis sem o desenvolvim ento técnico da econom ia industrial, com , por exem plo, o advento da livre disponibilidade da eletricidade, a fabricação de bom bas de vácuo adequadas e instrum entos precisos de m edida. Mas um elem ento necessário a qualquer explicação não é, em si, explicação suficiente. Tem os que olhar m ais além . É possível com preender a crise da ciência tradicional analisando as preocupações sociais e políticas dos cientistas?

Estas eram , obviam ente, dom inantes nas ciências sociais; e, m esm o nas ciências naturais m ais relevantes para a sociedade e suas preocupações, o elem ento social e político era m uitas vezes crucial. No período que nos interessa, este era plenam ente o caso de todas as áreas da biologia que atingiam diretam ente o hom em social, e de todas as que podiam ser vinculadas ao conceito de "evolução" e ao nom e cada vez m ais carregado de conotações políticas de Charles Darwin. Am bos tinham um conteúdo ideológico forte. Sob a form a de racism o, cuj o papel central no século XIX nunca será dem ais ressaltar, a biologia era essencial para um a ideologia burguesa teoricam ente igualitária, pois deslocava a culpa das evidentes desigualdades hum anas da sociedade para a "natureza" (A Era do Capital, cap. 14:2). Os pobres eram pobres por terem nascido inferiores. Assim , a biologia não era só potencialm ente a ciência da direita política com o tam bém a ciência dos que desconfiavam da ciência, da razão e do progresso. Poucos pensadores foram m ais céticos em relação às verdades dos m eados do século XIX, inclusive à ciência, do que Nietzsche. Contudo, seus próprios escritos, e notadam ente seu trabalho m ais im portante, A Vontade de Poder, podem ser lidos com o um a variante do darwinism o social, um discurso desenvolvido com a linguagem da "seleção natural", neste caso um a seleção destinada a produzir a nova raça dos "super-hom ens", que iria dom inarm os hum anos inferiores com o o hom em , na natureza, dom ina e explora a criação bruta. E as vinculações entre biologia e ideologia são, de fato, particularm ente evidentes no intercâm bio entre a "eugenia" e a nova ciência da "genética", que praticam ente veio à luz em torno de 1900, sendo batizada pouco depois por William Bateson (1905).

A eugenia, que era um program a para a aplicação, às pessoas, do cruzam ento seletivo com um na agricultura e pecuária, foi m uito anterior à genética. O nom e data de 1883. Era, essencialm ente, um m ovim ento político, em sua esm agadora m aioria com posto de m em bros da classe m édia e burguesia, que pressionavam os governos para que im plantassem program as de ações positivas ou negativas visando a m elhorar a condição genética da espécie hum ana. Os eugenistas extrem istas acreditavam que as condições do hom em e da sociedade poderiam ser m e lhora da s apenas através da m elhoria genética da espécie hum ana — por m eio da concentração e do incentivo às estirpes hum anas de valor (em geral identificadas à burguesia ou a raças adequadam ente coloridas, com o a "nórdica"), e da elim inação das indesej áveis (em geral identificadas aos pobres, colonizados ou estrangeiros im populares). Os eugenistas m enos extrem istas deixavam algum a m argem às reform as sociais, à educação e às m udanças am bientais em geral. Se a eugenia, por um lado, podia se tornar a pseudociência fascista e racista tornada genocídio deliberado com Hitler, por outro lado não se identificava exclusivam ente com qualquer setor político de classe m édia antes de 1914, não m ais que as teorias sobre a raça, m uito populares, entre as quais figurava. Tem as ligados à eugenia surgiram na m úsica ideológica dos liberais, dos reform adores sociais, dos socialistas fabianos e alguns outros setores de esquerda,

nos países em que o m ovim ento ficou na m oda[d], em bora na batalha entre hereditariedade e

m eio am biente ou, na expressão de Karl Pearson, "natureza" e "criação"[e], fosse praticam ente im possível que a esquerda optasse exclusivamente pela hereditariedade. Daí, aliás, a acentuada falta de entusiasm o pela genética por parte dos profissionais da área m édica nesse período. Pois os grandes triunfos da m edicina da época se davam a nível am biental, tanto por m eio dos novos tratam entos das doenças m icrobianas (que, a partir de Pasteur e Koch, haviam propiciado o surgim ento da nova ciência da bacteriologia) com o do saneam ento básico. Os m édicos eram tão relutantes com o os reform adores sociais em acreditar, com Pearson, que "1.500.000 libras esterlinas gastas no incentivo da reprodução sadia seriam m ais proveitosas para a erradicação da tuberculose que a criação de um sanatório em cada aglom eração urbana". Eles tinham razão.

O que tornou a eugenia "científica" foi j ustam ente o surgim ento da genética após 1900, que parecia sugerir a exclusão total das influências am bientais na hereditariedade e a determ inação, por um único gene, da m aioria ou de todas as características; isto é, que o cruzam ento seletivo dos seres hum anos segundo o processo m endeliano era possível. Seria pouco adm issível argum entar que a genética cresceu devido às preocupações da eugenia, em bora haj a casos de cientistas que foram atraídos para a pesquisa sobre hereditariedade "com o conseqüência de um com prom isso anterior com a cultura-da-raça", notadam ente Sir Francis Galton e Karl Pearson. Contudo, é possível dem onstrar que as vinculações entre genética e eugenia eram estreitas no período 1900-1914 e que, tanto na Grã-Bretanha com o nos EUA, as figuras de proa da ciência estavam associadas ao m ovim ento, em bora antes de 1914, pelo m enos na Alem anha e nos EUA, a dem arcação entre ciência e pseudociência racista não fosse nada clara. Isso levou geneticistas sérios a sair das organizações de eugenistas com prom etidos no período entre as duas guerras m undiais. O elem ento "político" da genética fica evidenciado em todos os acontecim entos. O futuro prêm io Nobel H. J. Muller declararia em 1918: "Nunca m e interessei pela genética com o pura abstração, m as sem pre devido a sua relação fundam ental com o ser hum ano — suas características e m eios de auto-aperfeiçoam ento".

Se o desenvolvim ento da genética deve ser situado no contexto da prem ente preocupação com problem as sociais aos quais a eugenia dizia oferecer soluções biológicas (por vezes alternativas às socialistas), o desenvolvim ento da teoria evolucionista, na qual estava im bricada, tam bém tinha um a dim ensão política. O desenvolvim ento da "sociobiologia" em anos recentes cham ou m ais um a vez a atenção sobre esse ponto. Essa dim ensão ficara evidente desde o início da teoria da "seleção natural", cuj o m odelo chave, a "luta pela sobrevivência", fora basicam ente derivado das ciências sociais (Malthus). Observadores da virada do século registraram um a "crise no darwinism o" que produziu várias especulações alternativas — o assim cham ado "vitalism o", o "neolam arckism o" (com o era cham ado em 1901) e outras. Isso se devia não apenas às dúvidas científicas sobre as form ulações do darwinism o, que se tornara um a espécie de ortodoxia biológica na década de 1880, m as tam bém a dúvidas quanto a suas im plicações m ais am plas. O acentuado entusiasm o dos social-dem ocratas pelo darwinism o bastou para garantir que ele não seria discutido em term os exclusivam ente científicos. Por outro lado, enquanto a tendência político-darwinista na Europa o via com o um reforço para a perspectiva m arxista, segundo a qual os processos evolucionistas na natureza e na sociedade ocorriam independente da vontade e da consciência dos hom ens — e todos os socialistas sabiam aonde esses processos inevitavelm ente levariam — nos EUA o "darwinism o social" destacava a livre concorrência com o lei fundam ental da natureza, e o triunfo do m ais apto (isto é, do hom em de negócios bem -sucedido) sobre os m enos aptos (isto é, os pobres). A sobrevivência do m ais apto tam bém podia ser indicada, e de fato assegurada, pela conquista das raças e povos inferiores ou pelas guerras contra Estados rivais (com o sugeriu o general alem ão Bernhardi em 1913 em seu livro Germany and the Next War).

Tais tem as sociais se inseriram nos debates dos próprios cientistas. Assim , os prim eiros anos da genética foram atorm entados por um a briga am arga e persistente entre m endelianos (m ais influentes nos EUA e entre os experim entalistas) e os assim cham ados biom étricos (relativam ente m ais fortes na Grã-Bretanha e entre os estatísticos m atem aticam ente avançados). Em 1900, as pesquisas de Mendel sobre as leis da hereditariedade, tanto tem po negligenciadas, foram sim ultânea e separadam ente redescobertas em três países e propiciariam — contra a oposição biom étrica — as bases da genética m oderna, em bora tenha sido sugerido que os biólogos de 1900 leram nos velhos relatórios sobre o cultivo de ervilhas um a teoria de determ inantes genéticos que não passava pela cabeça de Mendel em seu j ardim de m osteiro, em 1865. Os historiadores da ciência aduziram várias razões para esse debate, algum as delas com clara dim ensão política.

A inovação m ais im portante que, j unto com a genética m endeliana, restaurou um "darwinism o" m arcadam ente m odificado em sua posição de teoria cientificam ente ortodoxa da evolução biológica, foi a incorporação à teoria de Darwin de im previsíveis e descontínuos "saltos", bizarros e originais, em sua m aioria inviáveis, m as tendo, ocasionalm ente, vantagens evolutivas potenciais sobre as quais operaria a seleção natural. Foram cham ados de "m utações" por Hugo De Vries, um dos m uitos redescobridores contem porâneos das esquecidas pesquisas de Mendel. O próprio De Vries tinha sido influenciado pelo m ais im portante m endeliano britânico e inventor da palavra "genética", William Bateson, cuj os estudos sobre a variação (1894) foram conduzidos "com especial atenção à descontinuidade na origem das espécies". Contudo, continuidade e descontinuidade não eram apenas um a questão de cruzam ento de plantas. O líder dos biom étricos, Karl Pearson, rej eitou a descontinuidade até m esm o antes de se interessar pela biologia, pois "nenhum a grande reconstrução social, que beneficiasse de m odo perm anente qualquer classe da com unidade, j am ais foi feita através de um a revolução... o progresso hum ano, com o o da natureza, nunca dá saltos".

Bateson, seu grande antagonista, estava longe de ser um revolucionário. Entretanto, se há algo claro sobre as idéias desse curioso personagem , é seu desgosto pela sociedade existente (fora a Universidade de Cam bridge, que ele queria preservar contra qualquer reform a, salvo a adm issão de m ulheres), seu ódio pelo capitalism o industrial e pelo "sórdido lucro de loj ista" e sua nostalgia de um passado feudal orgânico. Em sum a, tanto para Pearson com o para Bateson, a variabilidade das espécies era um a questão de ideologia tanto quanto de ciência. É inútil, e de fato costum a ser im possível, tentar um paralelo entre teorias científicas específicas e posições políticas específicas, ainda m enos em áreas que, com o a "evolução", se prestam a um a gam a de diferentes m etáforas ideológicas. É quase tão inútil quanto analisá-las em term os da classe social dos cientistas, pois praticam ente todos eles eram , nesse período, quase por definição, profissionais liberais de classe m édia. Contudo, a política, a ideologia e a ciência são aspectos inseparáveis em áreas com o a biologia, pois suas vinculações são por dem ais óbvias.

Apesar de os físicos teóricos e m esm o os m atem áticos serem tam bém seres hum anos, essas ligações em seu caso não são óbvias. Influências políticas conscientes ou inconscientes podem ser lidas em seus debates, m as não com m uito proveito. O im perialism o e o surgim ento dos m ovim entos de m assa trabalhistas podem aj udar a elucidar questões de biologia, m as dificilm ente terão a m esm a utilidade em lógica sim bólica ou teoria quântica. Os acontecim entos do m undo exterior aos seus estudos não eram , entre 1875 e 1914, catastróficos a ponto de intervir diretam ente em seus trabalhos — com o seria o caso após 1914 e com o pode ter sido no fim do século XVIII, início do XIX. As revoluções no m undo do intelecto nesse período dificilm ente poderiam ser derivadas por analogia das revoluções externas à ciência. No entanto, todos os historiadores ficam surpresos com o fato de a transform ação revolucionária na visão de m undo científica naqueles anos estar inserida em um abandono m ais geral e dram ático dos valores, verdades e m aneiras estabelecidos e longam ente aceitos de encarar o m undo e estruturá-lo conceitualm ente. Pode ser puro acaso, ou escolha arbitrária, que a teoria quântica de Planck, a redescoberta de Mendel, as Logische Untersuchungen de Husserl, a Interpretação dos Sonhos de Freud e a Natureza Morta com Cebolas de Cézanne possam todos ser datados de 1900 — com o teria sido possível inaugurar o novo século com a Química Inorgânica de Ostwald, a Tosca de Puccini, a prim eira novela Claudine de Colette e L'Aiglon de Rostand — m as a coincidência de inovações dram áticas em diversas áreas não deixa de ser im pressionante.

Um a pista da transform ação j á foi sugerida. Era m ais negativa que positiva, na m edida em que substituía o que fora considerado, com ou sem razão, com o um a visão científica de m undo coerente e potencialm ente abrangente, onde razão e intuição não se contrapunham , por um a alternativa que não lhe era equivalente. Com o vim os, os próprios teóricos estavam confusos e desorientados. Nem Planck nem Einstein estavam preparados para desistir do universo racional, causal e determ inista para cuj a destruição seus trabalhos tanto colaboraram . Planck era tão hostil ao neopositivism o de Ernst Mach com o Lenin. Mach, por sua vez, em bora sendo um dos raros prim eiros céticos em relação ao universo físico dos cientistas do final do século XIX, seria igualm ente cético quanto à teoria da relatividade. O pequeno m undo da m atem ática, com o vim os, estava dividido por batalhas sobre se a verdade m atem ática podia ser m ais do que form al. Ao m enos os núm eros naturais e o tem po eram "reais", pensava Brouwer. A verdade é que os próprios teóricos se viram confrontados com contradições que não podiam resolver, pois nem os "paradoxos" (um eufem ism o para contradições), que os lógicos sim bólicos tanto se em penharam em superar, não foram satisfatoriam ente elim inados — nem sequer pelo m onum ental trabalho de Russell e Whitehead, os Principia Mathematica (1910-1913), com o o prim eiro adm itiria. A solução m enos perturbadora era refugiar-se naquele neopositivism o que se tornaria o que há de m ais próxim o a um a filosofia da ciência aceita no século XX. A corrente neopositivista que surgiu no final do século XIX, com autores com o Duhem , Mach, Pearson e o quím ico Ostwald, não deve ser confundida com o positivism o que dom inou as ciências naturais e sociais antes da nova revolução científica. Aquele positivism o acreditava que podia fundam entar a visão coerente de m undo, que estava prestes a ser questionada, em verdadeiras teorias baseadas na experiência testada e sistem atizada das ciências (idealm ente experim entais), isto é, nos "fatos" da natureza tal com o descobertos pelo m étodo científico. Por seu lado, as ciências "positivas", ao contrário da especulação indisciplinada da teologia e da m etafísica, propiciariam um a base sólida ao direito, à política, à m oralidade e à religião — em sum a, às m aneiras de o ser hum ano viver em sociedade e articular suas esperanças para o futuro.

Críticos não científicos, com o Husserl, ressaltaram que "a exclusividade com que a totalidade da visão de m undo do hom em m oderno se deixou, na segunda m etade do século XIX, ser determ inada pelas ciências positivas e ofuscada pela 'prosperidade' que estas produziram significou um afastam ento descuidado das questões que eram decisivas para um a verdadeira hum anidade". Os neopositivistas se concentraram nas deficiências conceituais das próprias ciências positivas. Confrontados com teorias científicas que, sendo agora consideradas inadequadas, poderiam tam bém ser vistas com o um "constrangim ento da linguagem e deform ação das definições"; e com m odelos representativos (com o o "átom o bola de bilhar") insatisfatórios, eles escolheram duas vias interligadas por onde escapar à dificuldade. Por um lado propuseram um a reconstrução da ciência a partir de um a base estritam ente em pirista e até fenom enalista, e, por outro lado, um a rigorosa form alização e axiom atização das bases da ciência. Isso elim inava especulações sobre as relações entre o "m undo real" e nossa interpretação dele, isto é, sobre a "verdade" com o distinta da consistência interna e utilidade das proposições, sem interferir na prática real da ciência. As teorias científicas, com o disse perem ptoriam ente Henri Poincaré, "nunca eram verdadeiras nem falsas", m as apenas úteis.

Foi sugerido que a em ergência do neopositivism o no final do século viabilizou a revolução científica, ao propiciar um a transform ação das idéias físicas sem qualquer preocupação com as concepções anteriores de universo, causalidade e leis naturais. Isso significa, apesar da adm iração de Einstein por Mach, tanto dar crédito excessivo aos filósofos da ciência — inclusive àqueles que dizem aos cientistas que não se incom odem com a filosofia — com o subestim ar a crise, bastante generalizada no período, das idéias aceitas no século XIX, da qual o agnosticism o neopositivista e o repensar da m atem ática e da física eram apenas aspectos. Para considerar essa transform ação em seu contexto histórico global, é preciso encará-la com o parte da crise generalizada. E se quiserm os encontrar um denom inador com um aos m últiplos aspectos dessa crise, que atingiu praticam ente todos os setores de atividade intelectual, em graus diversos, este deve ser o fato de todos se defrontarem , depois dos anos 1870, com inesperados, im previstos e m uitas vezes incom preensíveis resultados do progresso. Ou, para ser m ais preciso, com as contradições que este havia gerado.

Para usar um a m etáfora adequada à Era do Capital, esperava-se que os trilhos de estradas de ferro construídos pela hum anidade levassem a destinos que os viaj antes podiam não conhecer, pois lá ainda não haviam chegado, m as sobre cuj a existência e natureza geral não tinham dúvida. Do m esm o m odo os viaj antes à Lua, de Júlio Verne, não duvidavam da existência desse satélite ou de que, um a vez lá chegando, realm ente saberiam o que restaria a ser descoberto por m eio de um a inspeção m ais detalhada do solo. O século XX podia ser predito, por extrapolação, com o

um a versão m elhorada e m ais esplêndida dos m eados do século XIX[f]. E, ainda assim , a paisagem im prevista, enigm ática e perturbadora que os viaj antes viam pela j anela do trem da hum anidade, enquanto ele rum ava sem hesitações para o futuro, seria realm ente a do cam inho que levava ao destino indicado em suas passagens? Não teriam tom ado o trem errado? Pior: teriam tom ado o trem certo que, de algum m odo, os estava levando num a direção que eles não queriam nem da qual gostavam ? Se fosse o caso, com o tinha com eçado essa situação de pesadelo?

A história intelectual das décadas após 1875 é repleta do sentim ento de expectativas não apenas logradas — "com o era bela a República quando ainda tínham os um im perador", com o brincou o desiludido francês — m as que de certa form a estavam se transform ando em seu oposto. Vim os esse sentim ento de inversão perturbando tanto os ideólogos com o os profissionais da política à época (ver cap. 4). Já o observam os no terreno da cultura, onde foi produzido um pequeno, m as pródigo gênero de cultura burguesa sobre o declínio e a queda da civilização m oderna a partir dos anos 1880. Degeneration, do futuro sionista Max Nordau (1893), é um bom exem plo, adequadam ente histérico. Nietzsche, o eloqüente e am eaçador profeta de um a catástrofe im inente, cuj a natureza exata ele não definiu m uito bem , expressa m elhor que ninguém essa crise das expectativas. Seu próprio m odo de exposição literária, um a sucessão de aforism os poéticos e proféticos contendo intuições visionárias e verdades não discutidas, parecia contraditório com o discurso filosófico racionalista próprio para a construção de sistem as, com o qual ele dizia operar. Seus adm iradores entusiásticos se m ultiplicaram entre os j ovens (do sexo m asculino) de classe m édia a partir de 1890.

Para Nietzsche, a decadência da vanguarda, o pessim ism o e o niilism o dos anos 1880 eram m ais que um a m oda. Eram o "resultado final lógico de nossos grandes valores e ideais". As ciências naturais, dizia ele, produziram sua própria desintegração interna, seus próprios inim igos, um a anticiência. As conseqüências das m odalidades de pensam ento aceitas pela política e pela econom ia do século XIX eram niilistas. A cultura da época estava am eaçada por seus próprios produtos culturais. A dem ocracia produziu o socialism o, a subm ersão fatal do gênio pela m ediocridade, da força pela fraqueza — um a tecla em que tam bém os eugenistas bateram , contudo de m odo m ais prosaico e positivista. Assim sendo, não seria essencial rever todos esses valores e ideais, e o sistem a de idéias de que eles faziam parte, j á que de qualquer m odo estava ocorrendo um a "reavaliação de todos os valores"? Tais reflexões foram se m ultiplicando à m edida que o velho século ia chegando ao fim . A única ideologia de peso que continuou firm em ente ligada à idéia de ciência, razão e progresso do século XIX foi o m arxism o, não afetado pela desilusão em relação ao presente porque esperava ansiosam ente o futuro triunfo j ustam ente daquelas "m assas" cuj a irrupção causou tanto desconforto aos pensadores de classe m édia.

As próprias questões científicas desenvolvidas, que quebraram os m oldes das explicações estabelecidas, faziam parte desse processo geral de expectativas transform adas e invertidas que é encontrado, à época, em todos os lugares onde hom ens e m ulheres, em sua vida pública ou privada, enfrentaram o presente e o com pararam às suas próprias expectativas ou às de seus pais. Será lícito supor que em tal am biente os pensadores pudessem estar m ais dispostos que em outras épocas a questionar os cam inhos estabelecidos do intelecto, a pensar, ou ao m enos a ponderar, o que até então era im pensável? Ao contrário do início do século XIX, as revoluções cuj os ecos podiam em certo sentido ser encontrados nos produtos da m ente não estavam ocorrendo de fato, m as antes deveriam ser esperadas. Estavam im plícitas na crise de um m undo burguês que sim plesm ente não podia m ais ser com preendido em seus velhos e m esm os term os. Olhar o m undo de outro m odo, m udar o próprio ponto de vista não era apenas m ais fácil. Foi o que, de um a form a ou de outra, a m aioria das pessoas de fato teve que fazer em suas vidas.

Entretanto, essa sensação de crise intelectual era um fenôm eno estritam ente m inoritário. Entre os que tinham form ação científica, im agina-se que essa sensação ficou restrita a poucas pessoas diretam ente envolvidas com a falência da m aneira de encarar o m undo do século XIX, e dentre elas nem todas o sentiram agudam ente. Os dados envolvidos eram exíguos, pois m esm o onde a form ação científica se expandira dram aticam ente — com o na Alem anha, onde o núm ero de estudantes de ciências se m ultiplicou por oito entre 1880 e 1910 — eles ainda eram da ordem dos m ilhares e não de dezenas de m ilhares. E a m aioria deles se dirigia à indústria ou a atividades docentes bastante rotineiras, onde era pouco provável que se preocupassem m uito com a falência da im agem estabelecida do universo. (Um terço dos diplom ados em ciência na Grã-Bretanha em 1907-1910 se dedicavam basicam ente ao ensino de prim eiro e segundo graus.) A posição dos quím icos, de longe o m aior corpo de cientistas profissionais da época, ainda era m arginal à nova revolução científica. Os que sentiram diretam ente o terrem oto intelectual foram os m atem áticos e os físicos, cuj o núm ero sequer ainda aum entava m uito depressa. Em 1910, as Sociedades de Física da Alem anha e da Grã-Bretanha, j untas, tinham apenas cerca de 700 m em bros, contra m ais de dez vezes esse núm ero nas sociedades associadas de quím ica de am bos os países.

Adem ais, a ciência m oderna, até em sua acepção m ais am pla, continuou restrita a um a com unidade geograficam ente concentrada. A distribuição dos novos prêm ios Nobel m ostra que suas m aiores realizações ainda ficavam agrupadas na região tradicional do avanço científico, o centro e o nordeste da Europa. Dos prim eiros 76 ganhadores do prêm io Nobel, só dez não eram da Alem anha, Grã-Bretanha, França, Escandinávia, Países Baixos, Austria-Hungria ou Suíça. Apenas três eram m editerrâneos, dois da Rússia e três da com unidade científica dos EUA, em crescim ento acelerado porém ainda secundário. Os dem ais cientistas e m atem áticos não europeus se destacavam — por vezes com brilho, com o o físico neozelandês Ernest Rutherford — sobretudo através de seu trabalho na Grã-Bretanha. Na verdade, a com unidade científica estava ainda m ais concentrada do que esses próprios dados indicam . Mais de 60% de todos os laureados com prêm ios Nobel vinham de centros científicos da Alem anha, Grã-Bretanha e França.

Um a vez m ais, os intelectuais ocidentais que tentaram elaborar alternativas ao liberalism o do século XIX, a j uventude burguesa culta que acolheu Nietzsche e o irracionalism o, constituíam ínfim as m inorias. Seus porta-vozes contavam -se a poucas dúzias, seu público era com posto essencialm ente das novas gerações dos educados nas universidades, que eram , fora dos EUA, um a elite m inúscula. Em 1913, havia 14 m il estudantes universitários na Bélgica e na Holanda, para um a população total de 13-14 m ilhões de habitantes; 11.400 na Escandinávia (fora a Finlândia) para quase 11 m ilhões; e até na estudiosa Alem anha, apenas 77 m il para 65 m ilhões. Quando os j ornalistas falavam da "geração de 1914", norm alm ente queriam se referir a um a m esa de café cheia de rapazes falando para o círculo de am izades que haviam feito quando entraram para a École Normale Supérieure de Paris ou a alguns líderes autoproclam ados das m odas intelectuais das universidades de Cam bridge ou Heidelberg.

Tais dados não devem nos levar a subestim ar o im pacto das novas idéias, pois os núm eros não são indicadores de influência intelectual. O núm ero total de hom ens escolhidos para a pequena sociedade de discussão de Cam bridge, norm alm ente conhecida com o os "Apóstolos", entre 1890 e a guerra foi de apenas 37; m as entre eles estavam os filósofos Bertrand Russell, G. E. Moore e Ludwig Wittgenstein, o futuro econom ista J. M. Key nes, o m atem ático G. H. Hardy e algum as personalidades razoavelm ente fam osas da literatura inglesa. Nos círculos intelectuais russos, o im pacto da revolução na física e na filosofia j á era tão im portante em 1908 que Lenin sentiu a necessidade de escrever um longo livro contra Ernst Mach, cuj a influência política entre os bolcheviques ele considerava tão séria quanto perniciosa: Materialismo e Empirocriticismo. Sej a qual for a nossa visão das opiniões de Lenin sobre ciência, sua avaliação da realidade política era extrem am ente realista. Adem ais, num m undo j á form ado pela m ídia m oderna (no dizer de Karl Kraus, satírico e inim igo da im prensa), as noções vulgarizadas das principais m udanças intelectuais não dem orariam a ser absorvidas por um público m ais am plo. Em 1914, o nom e de Einstein não era conhecido fora das fam ílias dos próprios grandes físicos, m as, no final da guerra m undial, a "relatividade" j á era tem a de piadas apreensivas nos cabarés da Europa central. No curto lapso da Prim eira Guerra Mundial, Einstein se tornara, apesar da total im penetrabilidade de sua teoria para a m aioria dos leigos, talvez o único cientista depois de Darwin cuj o nom e e im agem eram reconhecidos, de m aneira geral, pelo público leigo instruído do m undo inteiro.

 

[a] Enquanto isso, o átom o, que em breve seria quebrado em partículas ainda m enores, foi

retom ado nesse período com o elem ento básico das ciências físicas, após um a época em que fora

relativam ente deixado de lado.

[b] Em francês no original: "Vej o m as não creio". (N. da T.)

[c] Um exem plo sim ples (Berry e Russell) é a afirm ação de que "a classe de núm eros inteiros

cuj a definição pode ser expressa em m enos de dezesseis palavras é finita". É im possível definir,

sem contradição, um núm ero inteiro com o "o m enor inteiro não definível em m enos de dezesseis

palavras", j á que a segunda definição contém apenas dez palavras. O m ais fundam ental desses

paradoxos é o "Paradoxo de Russell", que pergunta se o conj unto de todos os conj untos, que não

são elem entos de si m esm os, é um elem ento dele m esm o. Isto é análogo ao antigo paradoxo do

filósofo grego Zenon, sobre se podem os acreditar num cretense que diz que "todos os cretenses

são m entirosos".

[d] O m ovim ento pelo controle da natalidade guardava relações estreitas com os argum entos

eugenistas.

[e] Nature e nurture, no original. (N. da T.)

[f] Salvo na m edida em que a segunda lei da term odinâm ica predisse a m orte do universo por

congelam ento, proporcionando assim um a base vitoriana adequada ao pessim ism o.