A Era dos Impérios 1875-1914

Eric J. Hobsbawm · Capítulo 8 de 51

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A Era dos Impérios 1875-1914

Capítulo 2

Contudo, é claro que a transform ação da estrutura das grandes em presas, da oficina ao escritório e à contabilidade, progrediu substancialm ente entre 1880 e 1914. A "m ão visível" das m odernas organização e adm inistração em presariais agora substituía a "m ão invisível'' do m ercado anônim o de Adam Sm ith. Assim sendo, os executivos, engenheiros e contadores com eçaram a assum ir as funções dos adm inistradores-proprietários. A sociedade anônim a ou Konzern substituiu o indivíduo. Agora era m uito m ais provável que o hom em de negócios típico, ao m enos nas grandes em presas, não fosse m ais um m em bro da fam ília do fundador, m as um executivo contratado, e que o encarregado de supervisionar seu desem penho fosse um banqueiro ou acionista, em vez de um capitalista adm inistrador.

Havia um a terceira saída possível para os problem as em presariais: o im perialism o. Muitas vezes foi observada a coincidência cronológica entre a Depressão e a fase dinâm ica da repartição colonial do planeta. Os historiadores discutem m uito até que ponto as duas estão ligadas. De qualquer form a, com o m ostrará o capítulo seguinte, a relação era bastante m ais com plexa que a sim ples ligação de causa e efeito. Entretanto, não há com o negar que a pressão do capital à procura de investim entos m ais lucrativos, bem com o a da produção à procura de m ercados, contribuíram para as políticas expansionistas — inclusive a conquista colonial. A "expansão territorial", disse um funcionário do Departam ento de Estado dos EUA em 1900, "não é senão o subproduto da expansão do com ércio". Ele não era, de form a algum a, a única pessoa envolvida com a política e a econom ia internacionais a ter essa opinião.

Um resultado final, ou subproduto, da Grande Depressão deve ser m encionado. Esta foi tam bém um a era de grande agitação social. Não apenas entre os agricultores, que, com o vim os, foram abalados pelos trem ores sísm icos do colapso dos preços dos produtos agrícolas, m as tam bém entre as classes operárias. Não é óbvio o m otivo pelo qual a Grande Depressão levou à m obilização m aciça das classes operárias em num erosos países e, a partir do final dos anos 1880, à em ergência dos m ovim entos de m assa socialistas e trabalhistas em m uitos deles. Pois, paradoxalm ente, a m esm a queda de preços que radicalizou autom aticam ente os agricultores abaixou de form a m uito acentuada o custo de vida para os assalariados, acarretando um a indubitável m elhoria no padrão de vida m aterial dos operários na m aioria dos países industrializados. Mas aqui só precisam os observar que os m ovim entos trabalhistas m odernos tam bém são filhos do período da Depressão. Estes m ovim entos serão abordados no capítulo 5.

 

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De m eados dos anos 1890 à Grande Guerra, a orquestra econôm ica m undial tocou no tom m aior da prosperidade, ao invés de, com o até então, no tom m enor da depressão. A afluência, baseada no boom econôm ico, constituía o pano de fundo do que ainda é conhecido no continente europeu com o "a bela época" (belle époque). A passagem da preocupação à euforia foi tão súbita e dram ática que os econom istas com uns procuraram algum tipo especial de força externa para explicá-la, um deus ex-machina, que encontraram na descoberta de enorm es reservas de ouro na África do Sul, na últim a das grandes corridas do ouro ocidentais, no Klondike (Canadá, 1898) e em outros lugares. Os historiadores da econom ia, em seu conj unto, se deixaram im pressionar m enos por essa tese basicam ente m onetarista do do que alguns governos do final do século XX. Mesm o assim , a velocidade da virada foi notável e quase im ediatam ente diagnosticada por um revolucionário particularm ente arguto, A. L. Helphand (1869-1924), escrevendo sob o pseudônim o de Parvus. Com o indicadora do início de um novo e longo período de im petuoso avanço capitalista. Na verdade, o contraste entre a Grande Depressão e o boom secular posterior m otivou as prim eiras especulações sobre aquelas "ondas longas" no desenvolvim ento do capitalism o m undial, m ais tarde associadas ao nom e do econom ista russo Kondratiev. Nesse ínterim , de qualquer m aneira tornou-se evidente que aqueles que haviam feito previsões som brias acerca do futuro do capitalism o, ou m esm o acerca de seu colapso im inente, haviam errado. Entre os m arxistas ocorreram discussões acaloradas sobre o que isso im plicava para o futuro de seus m ovim entos e se a doutrina de Marx teria de ser "revista".

Os historiadores da econom ia têm tendido a centrar sua atenção em dois aspectos da era: a redistribuição do poder e da iniciativa econôm icos, quer dizer, o relativo declínio britânico e o relativo — e absoluto — avanço dos EUA e sobretudo da Alem anha; e o problem a das flutuações, longas e curtas, quer dizer, basicam ente sobre a "onda longa" de Kondratiev, cuj o m ovim ento descendente e ascendente cortou o período ao m eio. Por m ais interessantes que sej am estes problem as, são secundários do ponto de vista da econom ia m undial.

Em princípio, não é, de fato, surpreendente que a Alem anha, com sua população aum entando de 45 a 65 m ilhões, e os EUA, passando de 50 a 92 m ilhões, tivessem alcançado a Grã-Bretanha, territorialm ente m enor e m enos populosa. No entanto, isso não torna o triunfo da exportação industrial alem ã m enos im pressionante. No transcurso dos trinta anos anteriores a 1913, eles passaram de m enos da m etade da cifra da Grã-Bretanha a um a cifra superior a essa. À exceção dos países que podem ser cham ados de "sem i-industrializados" — isto é, para fins práticos, os "dom ínios" britânicos virtuais ou efetivos, incluindo suas dependências econôm icas latino-am ericanas —, as exportações de produtos m anufaturados da Alem anha para todos os países ultrapassaram as britânicas. Elas eram um terço m ais elevadas no m undo industrial e m esm o dez por cento m aiores no m undo não-desenvolvido. Outra vez, não é surpreendente que a Grã-Bretanha não conseguisse conservar a extraordinária posição de "oficina do m undo" que detinha por volta de 1860. Nem os EUA, no auge de sua suprem acia m undial no início dos anos 1950 — e representando um a parcela da população m undial três vezes superior à britânica dos anos 1860 —, conseguiram em m om ento algum atingir os seus 53% da produção m undial de ferro e aço e 49% da têxtil. Um a vez m ais, isso não explica por que exatam ente — nem sequer se — houve um a desaceleração do crescim ento e um declínio da econom ia britânica, questões que se tornaram tem a de um a vasta literatura acadêm ica. A questão im portante não é quem , no contexto da econom ia m undial em expansão, cresceu m ais e m ais rápido, m as o conj unto do crescim ento desta.

Quanto ao ritm o de Kondratiev — cham á-lo de "ciclo", no sentido estrito da palavra, seria um a petição de princípio —, ele certam ente coloca questões analíticas fundam entais acerca da natureza do crescim ento econôm ico no período capitalista ou, com o podem argum entar alguns estudantes, acerca do crescim ento de qualquer econom ia m undial. Lam entavelm ente, não há nenhum a teoria que m ereça aceitação am pla sobre essa curiosa alternância de fases de confiança e apreensão, que j untas form am um a "onda" de cerca de m eio século. A teoria m ais conhecida e elegante a esse respeito, a de Josef Alois Schum peter (1883-1950), associa cada etapa "descendente" ao esgotam ento do lucro potencial de um a série de "inovações" econôm icas e o novo m ovim ento ascendente a um novo conj unto de inovações, percebidas basicam ente — m as não só — com o tecnológicas, cuj o potencial será, por sua vez, exaurido. Assim , as novas indústrias, agindo com o "setores líderes" do crescim ento econôm ico — por exem plo o algodão na prim eira revolução industrial, as ferrovias durante e após os anos 1840 —, se tornam , por assim dizer, os m otores que arrancam a econom ia m undial do m arasm o em que estava tem porariam ente im ersa. Essa teoria é bastante plausível, pois cada um dos períodos seculares de m ovim ento ascendente desde os anos 1780 esteve, de fato, associado ao surgim ento de setores tecnologicam ente revolucionários: sem esquecer do m ais excepcional de todos esses booms econôm icos, o das duas décadas e m eia anteriores aos anos 1970. O problem a, no caso do desenvolvim ento rápido do fim dos anos 1890, é que as indústrias inovadoras daquele período — em sentido am plo, as quím icas e elétricas, ou as associadas às novas fontes de energia prestes a com petir seriam ente com o vapor — por enquanto ainda não pareciam ter porte suficiente para dom inar os m ovim entos da econom ia m undial. Em sum a, com o não podem os explicar adequadam ente as periodicidades de Kondratiev, elas não nos podem ser de m uita valia. Apenas nos perm item observar que o período abordado neste livro abrange a queda e a ascensão de um a "onda de Kondratiev"; m as isto, em si, não é surpreendente, pois a totalidade da história m oderna da econom ia m undial se encaixa facilm ente nesse padrão.

Há, contudo, um aspecto da análise de Kondratiev que deve ser relevante para um período de "globalização" acelerada da econom ia m undial. Trata-se da relação entre o setor industrial m undial, que expandiu por m eio de um a contínua revolução da produção, e a produção agrícola m undial, que cresceu principalm ente devido à abertura, em ritm o descontínuo, de novas zonas geográficas de produção, ou zonas recentem ente especializadas em cultivos de exportação. O trigo disponível para consum o no m undo ocidental foi, em 1910-1913, quase o dobro (em m édia) dos anos 1870. Mas o grosso desse aum ento viera de um pequeno núm ero de países novos: EUA, Canadá, Argentina e Austrália e, na Europa, Rússia, Rom ênia e Hungria. O crescim ento da produção agrícola na Europa ocidental (França, Alem anha, Reino Unido, Bélgica, Holanda, Escandinávia) só representou 10-15% do increm ento. Assim sendo, a desaceleração da taxa de crescim ento da produção agrícola m undial após o salto inicial não é surpreendente, m esm o sem considerar catástrofes agrárias com o os oito anos de seca (1895-1902), que m ataram a m etade do rebanho ovino da Austrália, e as novas pragas com o o gorgulho do algodão, que atacou os algodoais dos EUA a partir de 1892. Assim , os "term os de troca" tenderiam a ficar m ais favoráveis à agricultura e m enos à indústria, isto é, os agricultores pagariam relativa ou absolutam ente m enos pelo que com prassem à indústria, e esta, relativa ou absolutam ente m ais pelo que com prasse à agricultura.

Argüiu-se que essa m udança nos term os de troca pode explicar a passagem de um a queda de preços notável em 1873-1896 a um a im pressionante alta dessa época até 1914 — e depois. Talvez. Mas o certo é que essa m udança nos term os de troca pressionou os custos de produção industriais e, portanto, sua lucratividade. Felizm ente para a "beleza" da belle époque, a econom ia estava estruturada de m aneira a transferir essa pressão dos lucros para os operários. O aum ento rápido do salário real, tão característico da Grande Depressão, desacelerou-se visivelm ente. Na França e na Grã-Bretanha, houve um a queda efetiva do salário real entre 1899 e 1913. Isso foi um a das causas da tensão e das explosões sociais ressentidas dos últim os anos anteriores a 1914.

O que, então, tornou a econom ia m undial tão dinâm ica? Sej a qual for a explicação detalhada, a chave do problem a está claram ente na faixa central de países industrializados e em vias de industrialização, que se estendia cada vez m ais na região tem perada do hem isfério norte, pois eles agiam com o o m otor do crescim ento global, a um tem po com o produtores e com o m ercados.

Esses países agora form avam um a m assa produtiva enorm e, crescendo e se estendendo rapidam ente no núcleo da econom ia m undial. Agora incluíam não apenas os m aiores ou m enores centros industrializados em m eados do século XIX, em sua m aioria se expandindo a taxas que iam de im pressionantes a quase inim agináveis — Grã-Bretanha, Alem anha, EUA, França, Bélgica, Suíça, os territórios tchecos — com o tam bém m ais um a série de regiões que estavam se industrializando: Escandinávia, Holanda, o norte da Itália, Hungria, Rússia e m esm o o Japão. Eles constituíam tam bém um corpo cada vez m ais possante de com pradores dos bens e serviços do m undo: um conj unto que cada vez m ais vivia de com prar, isto é, cada vez m enos dependente das econom ias rurais tradicionais. A definição habitual de um "citadino" no século XIX era alguém que vivia num lugar de m ais de dois m il habitantes. Contudo, m esm o se adotarm os um critério ligeiram ente m enos m odesto (5 m il), a porcentagem de europeus da região "desenvolvida" e de norte-am ericanos que viviam em cidades ascendera, por volta de 1910, a 41% (de 19 e 14 respectivam ente em 1850) e talvez 80% dos citadinos (contra dois terços em 1850) viviam em cidades de m ais de 20 m il habitantes; destes, por sua vez, bem m ais da m etade m orava em cidades de m ais de 100 m il habitantes, o que quer dizer em vastos estoques de fregueses.

Adem ais, graças às quedas de preços da Depressão, esses fregueses tinham bastante m ais dinheiro para gastar do que antes, m esm o considerando a redução do salário real após 1900. O significado coletivo dessa acum ulação de fregueses, m esm o pobres, agora era reconhecido pelos hom ens de negócios. Os filósofos políticos tem iam a em ergência das m assas, ao passo que os vendedores a saudavam . A indústria publicitária, que se desenvolve agora com o força im portante pela prim eira vez, dirige-se a elas. As vendas a prazo, em grande m edida um a inovação desse período, visavam a perm itir que as pessoas com pequenas rendas fizessem grandes com pras. E a arte e a indústria revolucionárias do cinem a (ver cap. 9) com eçaram do nada em 1895 para exibir um a riqueza além dos sonhos m ais am biciosos em 1915, com produtos tão caros que faziam óperas e príncipes parecerem m endigos, tudo isso baseado na força de um público que pagava em centavos.

Há um a cifra que, sozinha, pode ilustrar a im portância da região "desenvolvida" do m undo na época. Apesar do crescim ento notável das novas regiões e econom ias ultram arinas, apesar da sangria causada por um a vasta em igração em m assa, a parcela de europeus na população m undial cresceu no decorrer do século XIX, e sua taxa de crescim ento passou de 7% ao ano na prim eira m etade e 8% na segunda a quase 13% em 1900-1913. Se a este continente urbanizado de consum idores potenciais acrescentarm os os EUA e algum as econom ias ultram arinas em processo de desenvolvim ento rápido, porém m uito m enores, terem os um m undo "desenvolvido" de algo em torno de 15% da superfície do planeta, com ao redor de 40% de seus habitantes.