A Era dos Impérios 1875-1914

Eric J. Hobsbawm · Capítulo 16 de 51

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A Era dos Impérios 1875-1914

Capítulo 5 | Trabalhadores do mundo

CAPÍTULO 5

 

TRABALHADORES DO MUNDO

 

Conheci um sapateiro chamado Schröder... Depois ele foi para a América... Deu-me alguns jornais para ler e eu li um pouco, porque estava entediado, mas depois fui-me interessando cada vez mais... Os jornais descreviam a miséria dos trabalhadores e sua dependência dos capitalistas e dos senhorios e o faziam de um modo tão vivo e tão fiel ao natural que realmente me espantei. Era como se antes meus olhos houvessem estado fechados. Que diabo, o que eles escreviam nesses jornais era verdade. Toda a minha vida, até aquele dia, era prova disso.

Um operário alem ão, c. 1911

 

Eles (os operários europeus) sentem que devem surgir sem demora grandes mudanças sociais; que foi baixada a cortina diante da comédia humana do governo pelas classes, das classes e para as classes; que o dia da democracia está próximo e as lutas dos que labutam pelo que é seu terão precedência sobre as guerras entre as nações, que significam batalhas sem causa entre trabalhadores.

Sam uel Gom pers, 1909

 

Vida proletária, morte proletária e incineração, no espírito do progresso cultural.

Lem a da Associação Funerária dos Operários Austríacos,

"A Flam a"

 

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Dada a inevitável extensão do eleitorado, a m aioria dos eleitores era fatalm ente ou pobre, ou insegura, ou descontente, ou tudo isso. Não podiam deixar de estar dom inados por sua situação econôm ica e social e pelos problem as dela decorrentes; em outras palavras, pela situação de sua classe. E a classe cuj os núm eros cresciam de m odo m ais visível, à m edida que a onda de industrialização engolfava o Ocidente, cuj a presença se tornava sem pre m ais ineludível e cuj a consciência de classe aparentem ente am eaçava de m odo m ais direto o sistem a social, econôm ico e político das sociedades m odernas, era o proletariado. Nessa gente é que pensava o j ovem Winston Churchill (então m inistro do gabinete liberal), ao advertir o Parlam ento de que, se o sistem a conservador-liberal de dois partidos entrasse em colapso, seria substituído pelo da política de classes.

O núm ero de pessoas que ganhavam a vida por m eio de trabalho m anual, em troca de um salário, aum entava sensivelm ente em todos os países inundados ou apenas banhados pela m aré m ontante do capitalism o ocidental — e isso desde as fazendas da Patagônia até as m inas de nitrato do Chile e as geladas m inas de ouro do nordeste da Sibéria, cenário de um a greve espetacular e de um m assacre, às vésperas da Grande Guerra. Aquelas pessoas eram encontradas onde quer que as cidades m odernas necessitassem de trabalhos de construção ou onde houvesse serviços m unicipais de utilidade pública — j á indispensáveis no século XIX, com o os de gás, água e esgotos — e onde quer que se estendesse a rede portuária ou a de estradas de ferro e telégrafos, que interligavam , econom icam ente, o globo. Minas eram encontradas m esm o em lugares rem otos e em todos os cinco continentes. Em 1914, m esm o os cam pos petrolíferos eram explorados em escala significativa, na Am érica do Norte, na Am érica Central, na Europa Oriental e no Sudeste da Ásia, bem com o no Oriente Médio. Mais expressivo é o fato de, m esm o em países predom inantem ente agrícolas, os m ercados urbanos serem providos de alim entos m anufaturados, bebidas, estim ulantes e têxteis elem entares, por m ão-de-obra barata, trabalhando num a espécie de estabelecim ento industrial, em alguns dos quais — a Índia é um exem plo — desenvolviam -se indústrias razoavelm ente significativas, de têxteis e até de ferro e aço. Todavia, o núm ero dos assalariados m ultiplicava-se de m odo espetacular, form ando neste caráter classes reconhecidas, especialm ente nos países em que a industrialização havia sido estabelecida desde longa data; e no crescente núm ero de países que, conform e j á vim os, entravam em seu período de revolução industrial entre 1870 e 1914, ou sej a, sobretudo na Europa, na Am érica do Norte, no Japão e em algum as áreas de m aciça colonização branca, no além -m ar.

O núm ero de tais assalariados crescia, em grande parte, por eles se haverem transferido de dois grandes reservatórios de trabalho pré-industrial, as oficinas artesanais e a agricultura, que ainda m antinham a m aioria dos seres hum anos. Pelo final do século, a urbanização provavelm ente avançara m ais e com m aior rapidez do que j am ais o fizera antes, e im portantes correntes m igratórias — por exem plo, da Inglaterra e das com unidades j udaicas do Leste europeu — provinham das cidades, ainda que às vezes das pequenas cidades. Esses em igrantes podiam transferir-se, com o de fato aconteceu, de um tipo de trabalho não-agrícola para outro. Com respeito aos hom ens e m ulheres que fugiam à terra (para usar o term o Landflucht, corrente nesse tem po), relativam ente poucos teriam a oportunidade de se dedicar à agricultura, m esm o que o quisessem .

Por um lado, a lavoura m odernizada, e em processo de m odernização, do Ocidente exigia relativam ente m enos braços do que antes, em bora em pregasse extensivam ente trabalhadores m igrantes sazonais, com freqüência vindos de longe, e pelos quais os fazendeiros não tinham que ter responsabilidade, ao term inar o período sazonal de trabalho; eram os Sachsengänger, vindos

da Polônia para a Alem anha; as "andorinhas" italianas, na Argentina[a], o trabalhador itinerante, o viaj ante clandestino, e, j á nesse tem po, os m exicanos nos EUA. Sej a com o for, o progresso agrícola significava m enos gente a trabalhar na lavoura. Em 1910, a Nova Zelândia, que não possuía indústria digna de m enção, dependia inteiram ente de sua agricultura extrem am ente eficiente, especializada em gado e laticínios; 54% de sua população m oravam nas cidades, e 40% (ou duas vezes a proporção da Europa, excluída a Rússia) em pregavam -se em ocupações terciárias.

Enquanto isso, a agricultura não-m odernizada das regiões atrasadas j á não podia oferecer terra suficiente a futuros cam poneses, que se m ultiplicavam nas aldeias. O que a m aioria deles alm ej ava, ao em igrar, decerto não era term inar a vida com o trabalhadores. Eles queriam "fazer a Am érica" (ou o país para onde fossem ) na esperança de ganhar o suficiente, após alguns anos, para com prar um a propriedade ou um a casa e, com o pessoa de posses, adquirir o respeito dos vizinhos, em algum a aldeia siciliana, polonesa ou grega. Um a m inoria retornou, m as a m aioria perm aneceu, perfazendo turm as de construção, das m inas, das siderúrgicas e realizando outras atividades do m undo urbano e industrial, que necessitava de trabalho duro e de pouco m ais. Suas filhas e noivas ingressavam nos serviços dom ésticos.

Ao m esm o tem po, a m áquina e a fábrica tiravam a base de m assas consideráveis que, até fins do século XIX, produziam os m ais fam iliares bens de consum o urbanos — roupas, calçados, m óveis e assem elhados — por m étodos artesanais, abrangendo desde os do altivo m estre-artesão até os das suadas oficinas e os das costureiras de sótãos. Se o núm ero deles, segundo as aparências, não dim inuiu de m odo notável, sua participação na força de trabalho tornou-se m enor, a despeito do espetacular aum ento da produção. Assim , na Alem anha, o núm ero de pessoas que se ocupavam de sapataria baixou ligeiram ente entre 1882 e 1907, de 400 m il a 370 m il — claram ente a m aior parte da produção adicional era fabricada em aproxim adam ente 1.500 fábricas im portantes (cuj os núm eros haviam triplicado desde 1882 e que agora em pregavam quase seis vezes m ais operários que naquele ano); e não em pequenas oficinas sem operários, ou com m enos de dez deles, e cuj os núm eros haviam baixado em 20%; elas em pregavam agora apenas 63% das pessoas que se ocupavam de sapataria, contra 93% em 1882. Em países que se industrializavam rapidam ente, o setor de m anufaturas pré-industriais oferecia, portanto, um a pequena, m as não desprezível, reserva para o recrutam ento de novos operários.

Por outro lado, o núm ero dos proletários crescia tam bém em ritm o im pressionante nas econom ias que se industrializavam , im pulsionado pelo apetite aparentem ente ilim itado por força de trabalho nesse período de expansão econôm ica e, não m enos, pela espécie de força de trabalho pré-industrial que ora se preparava para inundar seus setores em expansão. Na m edida em que a indústria crescia ainda por um a espécie de casam ento entre a destreza m anual e a tecnologia a vapor, ou — com o no caso da construção — não m udara realm ente seus m étodos, a dem anda visava as antigas especialidades de ofício, ou especialidades adaptadas das antigas artesanias, com o os dos ferreiros e serralheiros, para novas indústrias de m aquinaria. Isto era expressivo, dado que os treinados trabalhadores diaristas de ofício — um grupo estabelecido de assalariados pré-industriais — form avam freqüentem ente o elem ento m ais ativo, instruído e autoconfiante do proletariado em desenvolvim ento das econom ias principais: o líder do Partido Social-Dem ocrata era um torneiro (August Bebel) e o do Partido Socialista Espanhol, um tipógrafo (Iglesias).

Na proporção em que o trabalho industrial não era m ecanizado, não requerendo qualificações especiais, estava não apenas ao alcance de boa parte de recrutas toscos, m as, por em pregar m uita m ão-de-obra, m ultiplicava o seu núm ero na proporção em que a produção aum entava. Para apresentar dois exem plos óbvios: a construção, que elaborava a infraestrutura da produção, dos transportes e das gigantescas cidades em rápida expansão; a m ineração de carvão, que produzia a form a básica da energia da época — o vapor —, geravam am bas grandes efetivos de trabalhadores. A indústria da construção, na Alem anha, cresceu a partir de cerca de m eio m ilhão em 1875 a quase 1,7 m ilhão em 1907, ou de 10% a quase 16% da força de trabalho. Em 1913, não m enos de um m ilhão e um quarto de hom ens, na Inglaterra (800 m il na Alem anha em 1907), m anej avam picaretas e enxadas, carregavam e erguiam o carvão que m antinha em m ovim ento a econom ia m undial. (Em 1985, os núm eros equivalentes eram 197.000 e 137.000.) Por outro lado, a m ecanização, ao buscar substituir a habilidade m anual e a experiência por seqüências de m áquinas ou processos especializados feitos por m ão-de-obra m ais ou m enos sem especialização, recebeu m uito bem o baixo preço e a im aturidade de operários inexperientes — e, em parte nenhum a tanto com o nos EUA, onde as habilidades pré-industriais eram , em todo caso, escassas e não requisitadas a nível de fábrica ("A vontade de especializar-se não é geral", disse Henry Ford).

Ao aproxim ar-se o térm ino do século XIX, não havia país industrializado, em fase de industrialização ou de urbanização que pudesse deixar de tom ar consciência dessas m assas de trabalhadores, historicam ente sem precedentes e aparentem ente anônim as e desenraizadas, que tom avam um a proporção crescente de seus povos e, ao que parecia, em aum ento inevitável; dentro em pouco, provavelm ente, seriam um a m aioria. A diversificação das econom ias industriais, notadam ente pelo aum ento das ocupações terciárias — escritórios, loj as, serviços —, estava apenas em seu início, exceto nos EUA, onde os trabalhadores terciários j á superavam em núm ero os de colarinho azul. Em outras partes parecia predom inar um desenvolvim ento contrário. Cidades que em tem pos pré-industriais haviam sido habitadas principalm ente por pessoas do setor terciário — pois até os seus artífices eram tam bém , geralm ente, loj istas — tornaram -se centros m anufatureiros. Em fins do século XIX, cerca de dois terços da população ocupada das grandes cidades (ou sej a, das cidades de m ais de 100 m il habitantes) trabalhavam na indústria.

Quem lançasse um olhar retrospectivo, no fim do século, se im pressionaria principalm ente com o avanço dos exércitos industriais e, dentro de cada cidade ou região, provavelm ente com o avanço da especialização industrial. A cidade industrial típica, o m ais das vezes habitada por 50.000 a 300.000 pessoas — e é evidente que, no início do século, qualquer cidade de m ais de 100.000 habitantes seria considerada m uito grande —, tendia a evocar um a im agem m onocrom ática ou, na m elhor das hipóteses, de dois ou três m atizes associados; têxteis, em Roubaix ou Lodz, Dundee ou Lowell; carvão, ferro e aço, isolados ou com binados, em Essen ou Middlesbrough; arm am entos e construção naval em Jarrow e Barrow; produtos quím icos em Ludwigshafen ou Widnes. A esse respeito ela diferia, em dim ensão e variedade, da nova m egalópolis de m uitos m ilhões, fosse ou não a capital. Em bora algum as das grandes capitais fossem igualm ente im portantes centros industriais (Berlim , São Petersburgo, Budapeste), habitualm ente não ocupavam posição central no padrão industrial de um país.

Mais ainda, em bora essas m assas fossem heterogêneas e m uito pouco uniform es, a tendência de trabalharem com o com ponentes de firm as grandes e com plexas, em fábricas de centenas e até de m ilhares de operários parecia ser universal, especialm ente nos novos centros de indústria pesada. Krupp em Essen, Vickers em Barrow, Arm strong em Newcastle avaliaram a dim ensão de sua força de trabalho, em cada um a de suas fábricas, em dezenas de m ilhares. Aqueles que trabalhavam nesses gigantescos pátios e fábricas eram m inoria. Mesm o na Alem anha, o núm ero m édio de pessoas em pregadas em unidades de m ais de dez trabalhadores, em 1913, era apenas de 23-24, m as essa m inoria era cada vez m ais visível e potencialm ente am eaçadora. E, qualquer que sej a o estabelecido pelo historiador, o fato é que para os contem porâneos a m assa dos operários era enorm e, e indiscutivelm ente crescia, lançando um a escura som bra sobre a ordem estabelecida na sociedade e na política. Que aconteceria, na verdade, se os operários se organizassem politicam ente com o classe?

Foi precisam ente o que aconteceu, em escala européia e com extraordinária velocidade. Onde quer que a política dem ocrática e eleitoral o perm itisse, apareciam em cena, crescendo com rapidez assustadora, os partidos de m assas baseados na classe operária, em sua m aior parte inspirados na ideologia do socialism o revolucionário (pois todo socialism o era, por definição, considerado revolucionário) e liderados por hom ens e às vezes por m ulheres — que acreditavam nessa ideologia. Em 1890, m al chegavam a existir, com a im portante exceção do Partido Social-Dem ocrata alem ão, recentem ente (1875) unificado e j á um a respeitável força eleitoral. Em 1906, j á eram de tal m odo levados em conta que um estudioso alem ão publicou um livro sobre o tem a "Por que não existe socialism o nos EUA?". A existência de partidos operários e socialistas de m assas era j á a regra: a ausência deles é que surpreendia.

De fato, por volta de 1914, havia partidos socialistas de m assas m esm o nos EUA, onde o candidato do partido, em 1912, recebeu quase um m ilhão de votos; havia-os igualm ente na Argentina, onde o partido teve 10% dos votos em 1914, enquanto na Austrália um Partido Trabalhista adm itidam ente não-socialista j á form ava o governo federal desde 1912. No que diz respeito à Europa, os partidos socialistas e trabalhistas eram forças eleitorais respeitáveis em quase toda parte em que as condições o perm itiam . Eram , na realidade, m inorias, m as em alguns Estados, notadam ente na Alem anha e na Escandinávia, j á eram os m aiores partidos nacionais, detendo até 35-40% do voto nacional — e cada um a das extensões do direito ao voto revelava que as m assas industriais estavam prontas para escolher o socialism o. E essas m assas não só votavam com o organizavam -se em gigantescos exércitos: o Partido Trabalhista belga, em seu pequeno país, contava com 276 m il m em bros em 1911; o grande SPD alem ão, com m ais de um m ilhão; e as organizações de operários m enos diretam ente políticas, ligadas a tais partidos e não raro por eles fundadas, eram ainda m ais m aciças — sindicatos e sociedades cooperativas.

Nem todos os exércitos do trabalho eram tão grandes, com pactos e disciplinados com o os do norte e do centro da Europa. Mesm o, porém , onde os partidos operários consistiam em grupos de ativistas irregulares, ou em m ilitantes locais prontos para liderar as m anifestações que ocorressem , os novos partidos operários e socialistas deviam ser levados a sério. Eram fator expressivo na política nacional. Assim , o partido francês, cuj os 76 m il m em bros, em 1914, não eram tantos nem unidos, elegeu, não obstante, 103 deputados, em virtude de seus 1,4 m ilhão de votos. O partido italiano, com um a filiação ainda m ais m odesta — 50 m il m em bros em 1914 — teve um a votação de quase um m ilhão. Em sum a, os partidos socialistas e trabalhistas cresciam em quase toda parte, num ritm o que, dependendo do ponto de vista do observador, seria extrem am ente alarm ante ou m aravilhoso. Os líderes se anim avam fazendo triunfantes extrapolações da curva de crescim ento anterior. O proletariado estava destinado — era só considerar a Inglaterra industrial e os registros do recenseam ento nacional de alguns anos — a tornar-se a grande m aioria do povo. O proletariado ligava-se a seus partidos. Era só questão de tem po, segundo os sistem áticos socialistas alem ães, dados à estatística — e esses partidos passariam para além do m ágico núm ero dos 51% dos votos, o qual, nos Estados dem ocráticos, seria certam ente um m arco decisivo. Ou, com o dizia o novo hino do socialism o m undial: "A Internacional será a raça hum ana".