A Era dos Impérios 1875-1914
Capítulo 3
Um a herança um tanto m enos óbvia da Era dos Im périos é o fato de todos esses Estados serem descritos, e m uitas vezes se autodescreverem , com o "nações". Isso não se deve apenas, com o tentei m ostrar, ao fato de a ideologia da "nação" e do "nacionalism o", produto europeu do século XIX, poder ser usada com o ideologia de libertação colonial e com o tal ser im portada pelos m em bros das elites ocidentalizadas dos povos coloniais, m as tam bém porque, com o dem onstrado no capítulo 6, o conceito da "nação-Estado" passou, nesse período, a estar ao alcance de grupos de qualquer tam anho que escolhessem descrever a si m esm os assim , ao contrário do que ocorria em m eados do século XIX, quando os pioneiros do "princípio da nacionalidade" partiam do princípio de que o conceito se aplicava apenas a povos m édios ou grandes. A m aioria dos Estados que surgiram no m undo desde o final do século XIX (e que receberam , a partir do presidente Wilson, o status de "nações") tinha população e/ou dim ensões
m odestas e, m uitas vezes, a partir do início da descolonização, dim inutas[c]. Na m edida em que o nacionalism o se dissem inou fora do Velho Mundo "desenvolvido", ou na m edida em que a política não-européia foi assim ilada ao nacionalism o, a herança da Era dos Im périos ainda está presente.
Ela está igualm ente presente na transform ação das relações fam iliares ocidentais tradicionais e, especialm ente, na em ancipação da m ulher. Essas transform ações têm , sem dúvida, se desenrolado num a escala m uitíssim o m ais gigantesca que nunca desde m eados do século, m as, na verdade, foi durante a Era dos Im périos que a "nova m ulher" se revelou pela prim eira vez com o um fenôm eno significativo e que os m ovim entos políticos e sociais de m assa dedicados, entre outros tem as, à em ancipação da m ulher se tornaram forças políticas: notadam ente os m ovim entos trabalhistas e socialistas. Os m ovim entos de m ulheres no Ocidente podem ter inaugurado um a fase nova e m ais dinâm ica nos anos 1960, talvez em boa m edida com o resultado do grande aum ento da entrada de m ulheres, especialm ente casadas, no m ercado de trabalho rem unerado fora de casa, m as trata-se só de um a fase de um acontecim ento histórico im portante, cuj a traj etória se inicia no período que nos ocupa e, para fins práticos, não antes.
Adem ais, com o este livro tentou deixar claro, a Era dos Im périos assistiu ao nascim ento da m aioria dos fatores que ainda caracterizam a sociedade urbana m oderna de cultura de m assas, das form as internacionais de esporte para espectadores à im prensa e cinem a. Mesm o tecnicam ente os m eios de com unicação de m assa m odernos não constituem inovações fundam entais, apenas aperfeiçoam entos que tornaram as duas invenções básicas criadas na Era dos Im périos m ais universalm ente acessíveis: a reprodução m ecânica do som e a fotografia em m ovim ento. A continuidade entre a era de Jacques Offenbach e o presente não é com parável à do j ovem Fox, de Zukor, Goldwy n e "A voz do dono".
3
Não é difícil descobrir outros aspectos de nossas vidas que ainda são configurados pelo século XIX em geral e pela Era dos Im périos em particular, ou que constituem sua continuação. Nenhum leitor duvidaria da extensão da lista. Mas será esta a principal reflexão sugerida por um olhar retrospectivo sobre a história do século XIX? Ainda é difícil, senão im possível, voltar olhos inexpressivos para aquele século que criou a história m undial, porque ele criou a econom ia m undial capitalista m oderna. Para os europeus, ele está particularm ente carregado de em oção, porque, m ais que qualquer outro, ele foi a era européia; na história m undial e, para os britânicos, foi um a época única, porque a Grã-Bretanha foi seu cerne, não só do ponto de vista econôm ico. Para os norte-am ericanos, foi o século em que os EUA deixaram de fazer parte da periferia européia. Para os povos do resto do m undo, foi a era em que toda a história passada, por m ais longa e notável que fosse, foi necessariam ente interrom pida. O que lhes aconteceu, ou o que fizeram a partir de 1914, está im plícito no que lhes aconteceu entre a prim eira revolução industrial e 1914.
Foi um século que transform ou o m undo — não m ais que o nosso próprio século, m as de m odo m ais notável na m edida em que, então, tais transform ações revolucionárias e contínuas eram novas. Voltando os olhos para trás, podem os ver esse século da burguesia e da revolução surgir no horizonte com o a esquadra de Nelson se preparando para a ação, até no que não vem os: a tripulação raptada que a conduzia, pouco num erosa, pobre, açoitada e bêbada, vivendo de xá e bolachas bichadas. Olhando retrospectivam ente podem os reconhecer que aqueles que o fizeram e, cada vez m ais, as crescentes m assas que dele participaram no Ocidente "desenvolvido" sabiam que ele estava destinado a realizações extraordinárias e pensavam que sua m issão era resolver todos os principais problem as da hum anidade, rem over todos os obstáculos que se interpunham à sua solução.
Nunca antes ou depois os hom ens e m ulheres práticos nutriram expectativas tão elevadas, tão utópicas em relação à vida no planeta: paz universal, cultura universal por m eio de um único idiom a m undial, ciência que não só tentasse responder, m as que de fato respondesse às perguntas m ais fundam entais sobre o universo, a em ancipação da m ulher de toda sua história passada, a em ancipação de toda a hum anidade através da em ancipação dos trabalhadores, a liberação sexual, um a sociedade de abundância, um m undo onde cada um colaborasse segundo suas capacidades e recebesse conform e sua necessidade. Não se tratava apenas de sonhos de revolucionários. A utopia através do progresso estava, sob aspectos fundam entais, em butida no século. Oscar Wilde não estava brincando quando disse que não valia a pena ter um m apa do m undo onde não figurasse a Utopia. Estava falando em nom e de Cobden, o do livre com ércio, bem com o em nom e de Fourier, o socialista, no do presidente Grant com o no de Marx (que não rej eitou os obj etivos utópicos, m as apenas suas estratégias), no de Saint-Sim on, cuj a utopia do "industrialism o" não pode ser reportada nem ao capitalism o nem ao socialism o, porque afirm ava pertencer a am bos. Mas o que as utopias m ais características do século XIX tinham de novo era que para elas a história não seria interrom pida.
Os burgueses esperavam um a era de m elhoria infindável — m aterial, intelectual e m oral — através do progresso liberal; os proletários, ou os que diziam falar em nom e deles, a esperavam através da revolução. Mas am bos esperavam o m esm o. E o esperavam não através de um autom atism o histórico, m as de esforço e luta. Os artistas que exprim iram com m ais profundidade as aspirações culturais do século burguês e se tornaram , por assim dizer, as vozes articuladoras de seus ideais foram aqueles com o Beethoven, que era visto com o o gênio que lutou até a vitória, cuj a m úsica superou as forças obscuras do destino, cuj a sinfonia coral culm inou no triunfo do espírito hum ano liberto.
Na Era dos Im périos houve, com o vim os, vozes — tão profundas com o influentes nas classes burguesas — que previram resultados diferentes. Mas, de m aneira geral, aos olhos da m aioria dos ocidentais, a era parecia m ais próxim a das prom essas do século que qualquer outra anterior. De sua prom essa liberal, através da m elhoria m aterial, da educação e da cultura; de sua prom essa revolucionária, por m eio do surgim ento, da força de m assas e das perspectivas de um triunfo futuro inevitável dos novos m ovim entos trabalhistas e socialistas. Para alguns, com o este livro tentou m ostrar, a Era dos Im périos foi de inquietude e tem or crescentes. Para a m aioria dos hom ens e m ulheres do m undo transform ado pela burguesia foi, quase certam ente, um a era de esperança.
É sobre essa esperança que agora podem os refletir retrospectivam ente. Ainda podem os partilhá-la, m as j á não sem ceticism o e incerteza. Fom os testem unha da realização de m uitas prom essas de utopia que não deram os resultados esperados. Não estam os vivendo um a época em que, nos países m ais avançados, as com unicações m odernas, os m eios de transporte e as fontes de energia elim inaram a distinção entre cidade e cam po, coisa que um dia foi considerada possível apenas num a sociedade que tivesse resolvido praticam ente todos os seus problem as? O que decididam ente a nossa não fez. O século XX conheceu m uitos m om entos de libertação e êxtase social que tiveram excesso de confiança em sua própria perm anência. Há lugar para a esperança, pois os seres hum anos são anim ais que esperam . Há lugar, inclusive, para grandes esperanças, pois, apesar das aparências e dos preconceitos em contrário, as verdadeiras realizações do século XX em term os de progresso m aterial e intelectual — o progresso m oral e cultural é antes questionável — é extraordinariam ente im pressionante e bastante inegável.
Há ainda lugar para a m aior de todas as esperanças, a da criação de um m undo no qual hom ens e m ulheres livres, em ancipados do m edo e da necessidade m aterial, viverão j untos um a vida boa num a boa sociedade? Por que não? O século XIX nos ensinou que o desej o da sociedade perfeita não é satisfeito por algum proj eto predeterm inado para o m odo de vida, sej a ele
m órm on, owenista[d] ou outro; e podem os desconfiar que m esm o se um proj eto novo desse tipo viesse a ser o perfil do futuro, nós não saberíam os, ou não estaríam os em condições de determ inar, hoj e, qual seria. A função da busca da sociedade perfeita não é pôr um ponto final na história, m as abrir suas possibilidades desconhecidas e incognoscíveis a todos os hom ens e m ulheres. Nestes sentido, a estrada que leva à utopia não está interrom pida, felizm ente, para a espécie hum ana.
Mas, com o sabem os, ela pode ser bloqueada: pela destruição universal, por um a volta à barbárie, pela dissolução das esperanças e valores a que o século XIX aspirou. O século XX nos ensinou que isso é possível. A história, divindade que preside a am bos os séculos, j á não dá aos hom ens e m ulheres acostum ados a pensar a garantia inabalável de que a hum anidade tom ará o rum o da terra prom etida, qualquer que sej a a m aneira com o esta foi concebida; m enos ainda o m odo de alcançá-la. Pode aparecer de diferentes m aneiras. Sabem os que é possível, porque vivem os no m undo criado pelo século XIX, e sabem os que, por m ais titânicas que tenham sido suas realizações, elas não foram o esperado ou sonhado à época.
Contudo, em bora não possam os m ais acreditar que a história nos assegura o resultado certo, tam bém sabem os que não nos garante o errado. Ela nos oferece a opção, sem nenhum a estim ativa clara da probabilidade de nossa escolha. Os indícios de que o m undo será m elhor no século XXI não são negligenciáveis. Se o m undo conseguir não se autodestruir, a probabilidade será bastante grande. Mas não chegará à certeza. A única certeza que podem os ter em relação ao futuro é que ele surpreenderá até m esm o aqueles que puderam ver m ais longe.
[a] Em 1939, os únicos, dentre os 27 Estados europeus, que podiam ser descritos com o
dem ocracias parlam entares eram : Reino Unido, Estado Livre da Irlanda, França, Bélgica, Suíça,
Holanda e os quatro escandinavos (a Finlândia por pouco). Todos eles, salvo o Reino Unido, o
Estado Livre da Irlanda, a Suécia e a Suíça, logo desapareceriam tem porariam ente em virtude
de ocupação ou de aliança com a Alem anha nazista.
[b] A atitude foi, naturalm ente, m uito diferente em relação à Segunda Guerra Mundial, travada
contra a Alem anha nazista.
[c] Doze Estados africanos do início da década de 1980 tinham populações de m enos de 600.000
habitantes, e dois, de m enos de 100.000.
[d] Referente a Robert Owen (1771-1858), utópico inglês. (N. da T.)